Capítulo Nove

Mauro pinheiros:

A sala onde estávamos era diferente de qualquer coisa que eu já tinha visto. As paredes eram revestidas de pedra escura, e o teto parecia um mosaico de estrelas em constante movimento. O cristal, que repousava sobre um pedestal no centro da sala, emitia uma luminosidade etérea que preenchia o ambiente.

Anton, com seu olhar penetrante, estava concentrado no cristal. Seus dedos habilidosos se aproximaram da superfície do objeto, como se estivesse prestes a desvendar segredos profundos e antigos. Minha respiração ficou mais lenta, e meu coração batia acelerado enquanto aguardava ansiosamente o que estava por vir.

- Este cristal revelará a verdade, mesmo que seja algo que você desconhece. - Anton explicou, apontando para mim com um gesto solene. - Vamos descobrir o que você é, afinal?

Um silêncio tenso se instalou na sala, quebrado apenas pelo suave murmúrio do cristal. Eu estava prestes a mergulhar em um mundo de mistério e descobertas, um mundo que mudaria para sempre o curso da minha vida.

- Isso não irá me machucar? - perguntei, mantendo-me imóvel por mais alguns segundos, meu coração batendo com uma mistura de ansiedade e curiosidade.

Anton me olhou com olhos penetrantes, como se pudesse ver profundamente em minha alma. Ele finalmente sorriu, um sorriso tranquilizador que não alcançou seus olhos.

- Para ser honesto, isso não deveria te machucar. Na verdade, vai me ajudar a ampliar meus dons e a mergulhar ainda mais fundo naquilo que está escondido em sua mente. A maneira como você lutou, meu amigo, estava muito além do que alguém completamente mundano seria capaz de fazer em toda uma vida de treinamento - ele disse calmamente, enquanto seus dedos habilidosos começaram a preparar o instrumento que seriam usados nesse processo delicado.

Lentamente, minhas mãos se aproximaram do cristal e, com um gesto igualmente lento, Anton colocou a dele sobre a minha. Uma sensação estranha, como um formigamento elétrico, percorreu minha pele. O mundo ao meu redor começou a desvanecer, as cores se misturando em uma paleta de tons indefinidos. A escuridão se fechou ao meu redor, como se eu estivesse mergulhando em um oceano profundo e infinito.

Meus sentidos pareciam embotados, e o som ambiente diminuiu até se tornar um murmúrio distante. A única constante era a presença de Anton, sua mão sobre a minha, mantendo-me ancorado nesse estranho vórtice de sensações.

Por um momento, tive a sensação de que estava caindo, caindo em um abismo de pensamentos e memórias. Perguntas sem resposta pareciam surgir do nada, e imagens borradas dançavam diante dos meus olhos fechados.

Finalmente, quando pensei que não conseguiria suportar mais, a escuridão começou a clarear, e a realidade voltou lentamente.

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Na minha mente, algo clareou como uma luz distante, e vi imagens que piscavam por apenas alguns segundos, desbotando-se rapidamente como se fossem feitas de algo incrivelmente frágil. Era como tentar agarrar fumaça com as mãos, uma tarefa quase impossível.

As visões eram fugazes, como fragmentos de sonhos que se recusavam a se encaixar. Vi lugares que nunca estive, rostos que nunca tinha visto antes e símbolos misteriosos que dançavam diante dos meus olhos. A cada imagem que se formava, eu sentia um lampejo de compreensão, como se estivesse prestes a desvendar um grande segredo, mas então a imagem se desvanecia, deixando-me com uma sensação de frustração.

Instintivamente, estendi os dedos na tentativa de segurar essas visões fugazes, como se pudesse prendê-las em minha mente. Mas elas escorregaram pelos meus dedos como areia fina, deixando apenas um eco efêmero de conhecimento que escapava rapidamente.

Nessa visão efêmera, eu estava imerso em um cenário pitoresco. Um terraço com vista para um jardim coberto de neve se estendia à minha frente. Uma mulher de cabelos pretos brilhantes e olhos roxos encantadores estava sentada à mesa, delicadamente saboreando seu chá. Parecia que ela havia desfrutado de uma refeição satisfatória algum tempo antes, pois agora estava aquecida por um casaco de pele, aproveitando o inverno enquanto misturava seu chá preto ao gosto perfeito.

A mulher estava na fronteira entre a juventude e a maturidade, irradiando graça com cada movimento. Suas damas de honra, que a serviam com xícaras de chá, pareciam encantadas com sua elegância, segurando o chá na boca por um momento, admirando a cena.

No entanto, a tranquilidade foi interrompida por um som repentino, que quebrou o silêncio. Todos nós franzimos a testa enquanto o som de algo quebrando e sendo esmagado preenchia o ar.

Meus olhos se voltaram para baixo, e lá estava o irmão mais novo da mulher, brincando com os cavaleiros, provocando risos dela. Uma aura de alegria preenchia o terraço, contrastando com a serenidade anterior.

Mas então, como um alarme urgente, outro som penetrou minha mente. Fechei os olhos momentaneamente, tonto, enquanto alguém me chamava à distância. A visão se fragmentou como areia escorrendo entre os dedos, e me vi flutuando na escuridão de minha própria mente, sendo puxado inexoravelmente para baixo, como se algo estivesse me arrastando para um destino desconhecido.

À medida que eu era arrastado para baixo na escuridão de minha própria mente, uma sensação de vertigem tomou conta de mim. Era como se estivesse caindo em um abismo sem fim, com nada para me segurar. A visão do terraço e da mulher elegante desapareceu completamente, substituída por uma sensação de desorientação.

A voz que me chamava ao longe se tornou mais distinta à medida que eu descia mais fundo nesse vórtice mental. Era como se alguém estivesse tentando me acordar de um sonho profundo, sacudindo-me suavemente de volta à realidade.

Gradualmente, comecei a recuperar minha consciência, embora ainda estivesse envolto em uma névoa mental. Consegui discernir palavras, como sussurros distantes, ecoando em minha mente. Alguém estava me chamando, preocupado comigo.

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Com esforço, abri os olhos e me vi de volta ao mundo real, mas minha visão estava embaçada e minha cabeça latejava. Anton estava ao meu lado, com uma expressão de alívio.

- Você está bem? - ele perguntou, sua voz soando preocupada.

Aos poucos, comecei a recuperar minha capacidade de resposta e balbuciei:

- Apenas uma visão... algo estranho...

A experiência havia sido intensa e perturbadora, e eu sabia que havia muito mais a descobrir sobre o que havia visto. Mas, por enquanto, eu estava de volta à realidade, com um profundo senso de curiosidade e inquietação em relação ao que aquela visão significava.

Olhei para Anton, que retirou sua mão da minha com um suspiro de alívio, afastando o cristal com cuidado para longe de nós.

- O que você conseguiu ver? - perguntei, ansioso por entender o que havia acontecido naquela experiência profunda.

Anton franziu o cenho, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas para descrever a experiência.

- Não muito, na verdade - começou ele, com um olhar pensativo. - Mas dentro da sua mente, nas camadas mais profundas, encontrei um caos de imagens. Toda vez que tentei me aproximar delas para descobrir o que estavam guardando, alguma energia misteriosa me empurrava para longe. Era como se um animal selvagem incrivelmente poderoso estivesse se lançando contra mim a cada tentativa - ele explicou, apontando para minha mente como se pudesse visualizar o turbilhão de imagens e energias que ele havia encontrado lá dentro.

Minha mente absorveu as palavras de Anton, e eu me senti ainda mais intrigado e perturbado pelo mistério que envolvia minhas próprias lembranças e experiências. Aquela energia misteriosa que o empurrava para longe, como um guardião feroz de segredos, era um enigma que eu estava determinado a desvendar.

- Um animal selvagem? - perguntei, buscando uma compreensão mais profunda. - O que você quer dizer com isso?

Anton assentiu, seus olhos ainda fixos em minha mente.

- Sim, é a melhor maneira de descrever. Parecia uma força primitiva, instintiva e incontrolável. Como se fosse uma parte de você, mas ao mesmo tempo, algo completamente separado. É como se houvesse uma barreira protetora em sua mente, impedindo que eu explorasse mais fundo.

Eu me senti inquieto com a ideia de que minha própria mente estava escondendo algo de mim, algo tão poderoso que até mesmo Anton, um habilidoso guardião cósmico, não conseguia desvendar.

- O que você acha que essas imagens representam? - indaguei, curioso e apreensivo ao mesmo tempo.

Anton hesitou por um momento antes de responder:

- Não posso ter certeza, mas parece que há algo muito importante, talvez até perigoso, escondido nas profundezas de sua mente. Algo que sua mente está determinada a proteger a todo custo.

Aquelas palavras ecoaram em minha mente, deixando-me com mais perguntas do que respostas. Eu sabia que precisava descobrir a verdade por trás dessas imagens e da energia misteriosa que as guardava, mesmo que isso significasse enfrentar o animal selvagem que espreitava nas profundezas do meu ser.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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