2."There is a Chance."

    John podia jurar que iria desmaiar, seus batimentos estavam a mil, assim como seus pensamentos. Estava com saudades da mãe, mas não esperava vê-la neste momento.

    – Você está bem senhor Watson? – Disse o diretor, inclinado sua cadeira giratória para observar melhor o garoto, que agora adiquiria uma cor empalidecida.

   – Bom dia Senhor Thomas. – O loiro respondeu, adentrando mais na sala e fechando cuidadosamente a porta atrás de si. – Sim, estou bem.

 – Filho, você está um pouco pálido. – Interveio a mãe de John, percebendo as enormes olheiras do filho e na bengala ao seu lado. – Esta bengala não era de seu pai? O que está fazendo com ela? – Levantou-se e caminhou em direção ao filho pra lhe dar um breve beijo na testa.

    John permaneceu alguns segundos encarando os enormes olhos castanhos de sua mãe, antes que pudesse falar sem gaguejar.

   – Não consegui dormir muito bem essa noite,  mas estou bem. – Olhou rapidamente para a mão que segurava a bengala. – Eu pisei de mal jeito quando levantei da cama. – Por um momento pensou em inventar alguma história sobre sua torção e afirmar que estava tudo bem, para não preocupar a mãe, mas seu sapato começava a apertar e podia sentir o inchaço aumentar, assim como a dor. – Acho que torci o pé.

    – Está com problemas para dormir Watson? – O diretor se levantara e agora caminhava na direção de John.

    – Deve ser pela euforia da volta às aulas. Afinal, é meu último ano aqui.

    Thomas e a mãe de John se entreolharam apreensivos, o loiro engoliu em seco, havia algo de muito errado nessa reunião.

    – John.– A mãe do loiro colocou a mão no ombro do garoto. – Precisamos falar sobre seus estudos aqui no colégio.

    – Fiz algo de errado? – O loiro falou, sendo guiado pela mãe para se sentar em umas das cadeiras.

    – Pelo contrário. – Começou o diretor. – Quero parabeniza-lo pelo grande aluno que é, suas notas são excelentes e não há nenhuma reclamação.

    – O assunto é um pouco delicado filho. – As palavras de sua mãe vinehram como um tiro em seus pensamentos.

    – Sobre o que se trata? – Disse ele, tentando soar da forma mais eduacada possível, suas pernas tremiam, um suor ameaçava escorrer de suas têmporas.

  – Você sabe que minha renda não é o suficiente para pagar esta escola. – Começou sua mãe, sua voz soava com um certo tom de tristeza. – E graças a Deus você tem mostrado ser um aluno de muito merecimento e alcançado notas que te mantiveram estudando aqui pela metade do valor estipulado. – John sentia seus batimentos descontrolados. – Mas as coisas não estão boas na floricultura e eu tive que gastar dinheiro para a clínica de repouso no tempo que fiquei lá, fora os gastos que tive com seu irmão.

    – Isso quer dizer que não vou mais estudar aqui? – O loiro não conseguira acabar de ouvir a explicação, era mais do que óbvio.

    – Infelizmente não. – Sua mãe abaixou a cabeça e bufou. – Me desculpe, eu sei o quanto...

   – E a herança do papai? – John a interrompeu. – Por que não pode usar ela? Sei que deixou muito dinheiro e você pode pagar meus estudos com ele, inclusive mudar de vida ou investir em sua floricultura. 

     A mãe de John sabia e tinha noção do quanto seu filho era esperto e sabia de tudo a sua volta. Sabia da enorme quantia, quase bilionária, que seu pai havia deixado, mas sua mãe fazia questão de mantê-la bem guardada e viver de maneira humilde com a renda da pequena floricultura que formara na frente de sua casa. 

    – Já falei que não vamos mexer no dinheiro de seu pai. – Essa afirmação vinha de uma promessa, que fizera após a morte de seu marido, mexer no dinheiro era como se estivesse matando a alma de seu marido ou sacrificando-o de alguma forma. – Ele lutou para conseguir e não vamos acabar com a única alegria dele.

     – Mas ele deixou justamente para a gente, para que a gente não passasse necessidade. – A voz de John se alterou, logo a dor de seu pé se tornou cada vez mais presente, devido aos movimentos que fazia com a perna.

     – John Hamish Watson, pare com este assunto! – A voz da mãe saiu quase como um grito de socorro.

      – Por favor, parem! – O diretor interrompeu. – Ou serei obrigado a pedir  para se retirarem. – Todos ficaram em silêncio, lágrimas escorriam pelos olhos da mãe, lamentando ainda mais a culpa do filho, que sabia o quanto era difícil para ela falar de seu pai.

     – Me desculpe... Você tem todo o direito de preservar a riqueza do papai. – John falou abaixando a cabeça e logo voltando o olhar para a mulher, que permanecia olhando fixa para um dos enfeites da mesa de madeira, com os olhos cheios d'água. – E aonde irei estudar? – Pode ver o maxilar de sua mãe sendo pressionado após aquela pergunta.

   – Eu ainda não sei, ainda não achei uma escola que esteja dentro do orçamento. – Olhou para o diretor, seus olhos clamavam por ajuda.

    – Então não irei terminar meus estudos. – John falou, já se levantando. – Posso te ajudar na floricultura ou eu mesmo posso ver algum outro trabalho. – Foi em direção a sua mãe e acariciou seus cabelos. – Não se preocupe comigo, tudo que tinha que aprender já abrendi. Vou subir e arrumar minhas malas.

     Lógico que John não queria ir, sentia um enorme bloco de chumbo dilacerar seu corpo, queria chorar, sair dali e pegar o dinheiro de seu pai ou fazer qualquer outra coisa. Mas o semblante de sua mãe ainda era deplorável, olheiras enormes, uma magreza visível e alguns fios de cabelos brancos se misturavam com o loiro avermelhado. Tudo que ele menos queria era ver sua mãe se estressar, pois sabia que qualquer agitação mental ou física iria destrui-la em menos de segundos.

     – Existe uma chance. – O diretor se pronunciou.

     – O que? – John perguntou.

     – Nem tudo está perdido.– Continuou ele. – Não falo sobre esse assunto com muita gente, mas este é um momento delicado.

    – Em que está pensando Senhor Thomas? – A mãe do garoto se ageitara na cadeira, de modo que ficasse mais próxima da mesa do diretor. – Que eu saiba essa escola não dá bolsa de cem por cento.

    – Ela não, mas a Harrow School sim. – Disse ele com entusiasmo.

     – Harrow School? – John já ouvira falar neste colégio. Era um internato de meninos, um dos mais prestigiados de Londres. – O senhor está se referindo ao colégio que está localizado em Londres?

   – Sim. – Thomas fez uma pausa e sorriu para a mãe de John.  – Tenho alguns contatos de lá, todo ano eles liberam bolsas, que cobrem o valor total do internato. Mas nem todos ficam sabendo, geralmente essas vagas são restritas.

   – Mas como isso funciona? – Perguntou  sua mãe.

    – Vou ligar para a diretoria de lá, explicarei a situação de vocês e apresentar as notas de John, que com toda certeza já lhe garante parte da vaga. – Encarou o loiro, que permanecia de pé atrás da mãe. – Mas para isso você terá que fazer uma prova e uma entrevista, caso passe, sua vaga já estará garantida. – John sentiu um arrepio percorrer todo seu corpo.

    – Se caso ele passar, ele terá que se mudar para Londres? – Sua mãe começara a ficar apreensiva. Sabia que teria que abrir mão de parte da herança para que o filho pudesse viajar, quebrando sua promessa.

  – É o mais lógico. – Respondeu seriamente o diretor.

    – Quando que devo vir fazer a prova? –  John perguntou, andando com dificuldade até a cadeira para se sentar.

    – Como as aulas em Londres começam daqui uma semana, ainda há tempo para fazer a prova e você se organizar para viajar. – Thomas passou a mexer em alguns papéis espalhados pela mesa. – Já irei estrar em contato com a direção, se tudo der certo, hoje mesmo você já pode realizar a prova e a entrevista.

    – Hoje? – Sua mãe exitou. – E quando sai o resultado? – Suas perguntas estavam mais voltadas para os gastos que essa mudança iria fazer.

     – Daqui dois dias, ainda dentro do prazo para a viajem.

    – Isso é ótimo. – John sorriu para a mãe, mas logo percebeu seu olhar de desespero e confusão, mas permaneceu calado.

    – Está tudo bem. – Sua mãe tentou sorrir.

    – Vocês podem permanecer aqui no colégio até tudo ocorrer e hoje mesmo John faz a prova e a entrevista. – O diretor sorriu, se sentia como um Deus na vida dos dois. – Watson, aconselho ir para a enfermaria.  Não quero que dê uma má impressão para a Harrow School.

     Após alguns minutos de conversa sobre o funcionamento da bolsa e dos estudos de John em Londres. O loiro seguiu para a enfermaria, fora colocada uma pequena tala em seu pé e em dois dias a torção estaria curada.

     Por volta das duas da tarde, enquanto os alunos começavam a chegar e ocuparem seus devidos quartos, John recebera a notícia de que poderia começar a realizar a prova naquela tarde e a entrevista seria logo em seguida, via online com os diretores do colégio.

     Ficou em uma das salas de espera da diretoria, a prova continha conteúdos já estudados por ele, coisas relacionadas a história da Inglaterra entre outros assuntos históricos e matemáticos. Em seguida realizou a entrevista com os membros da Harrow School, que perguntavam sobre sua vida curricular, desejos profissionais futuros e como ele poderia se encaixar na escola.

    Apesar do diretor afirmar que ele poderia continuar na escola até o resultado sair, a vontade de acompanhar sua mãe e voltar para a pequena casa era maior. Se caso passasse por tudo aquilo, teria que se  mudar e queria aproveitar esses últimos dias. Assim o fez, ao acabar a prova, subiu em seu dormitório, antes que seus companheiros de quarto chegassem, pegou suas malas e na mesma tarde pegou o ônibus rumo a Lacock junto com sua mãe.

   

  

   

    

    

 

   

   

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