Capítulo 11

"Às vezes o coração, regado pela dor, vira retalho. Recomenda-se nestes casos, costurá-lo, com uma linha chamada recomeço."

Cora Carolina

Matt

Saio da sala do meu amigo o mais rápido que posso, caso contrário eu voltaria lá e terminaria o que comecei, quebraria toda sua cara até ele aprender a se portar de acordo com a educação que recebeu, e agir como um homem de verdade. Passo como certa agilidade por sua secretária, sem dizer nenhuma palavra indo em direção ao elevador, apertando o botão em seguida.

Já fora do prédio, eu respiro fundo, tentando me acalmar um pouco e me ponho a pensar em que parte do caminho meu amigo virou essa pessoa que só pensa em si mesmo e em crescer cada vez mais. Não é pelo dinheiro, eu sei, isso ele e sua família têm de sobra.

Josh sempre foi um cara muito focado e centrado em tudo o que fazia, na faculdade não era diferente, sempre muito admirado e elogiado pelos professores, ele buscava se superar em cada novo projeto e assim foi o primeiro da turma ao final de cada período e na conclusão do curso, se tornando o nosso orador.

Sempre saíamos juntos e aprontávamos bastante... Bebidas, mulheres e baladas eram a nossa diversão, sem nunca se apegar a nenhuma delas, mas ele nunca foi um mal caráter. Nos últimos tempos, nossas farras não me estimulavam mais e a ele também não, que visava um futuro dentro da companha do pai.

Eu o conhecia bem, tão bem a ponto de conseguir prever todas as suas atitudes. Quanta pretensão, eu via agora. Nunca imaginei que o seu desejo por sucesso e reconhecimento o levaria a ignorar valores que nos foram ensinados desde o berço.

Eu espero que depois da minha visita ele faça a coisa certa.

Caminho pela calçada até chegar ao ponto de taxi. Entro no primeiro da fila.

— Boa tarde! Aeroporto, por favor.

— Sim senhor.

Volto aos meus pensamentos e lembro o que me fez tomar a decisão de vir aqui hoje.

Faltando quinze dias para o nosso casamento, tanto Nick quanto eu, estávamos numa correria só. Minha maluquinha estava a ponto de me enlouquecer também.

Cheguei ao salão do cerimonial na esperança de que Nick não tivesse chegado, tentei falar com ela a manhã inteira, para avisar do meu atraso e não consegui. Tínhamos combinado de nos encontrarmos lá para acertar alguns detalhes que deviriam ser vistos apenas com os noivos.

Para minha sorte, ela ainda não estava lá, mas assim que chegou, passou por mim rápida como um raio, eu ainda tentei falar com ela em vão.

Quando me aproximei dela e da cerimonialista, fique estarrecido com o que ouvi de seus lábios.

— Sim, eu quero adiar.

— O que? — perguntei chocado. Ela me olhou com os olhos tristes e vermelhos como quem tinha chorado.

— É isso que você ouviu, Matt.

— Pode nos dar um minuto? — pedi à moça que estava ao seu lado. Ela pediu licença e se retirou sem dizer mais nada.

— Nicole, o que esta acontecendo aqui? Pretende adiar sem falar comigo antes? O que houve? — eu estava ficando nervoso.

— Aquele seu amigo é um idiota e vem agindo como um cachorro safado com a Kate, e nós... Eu... Não posso simplesmente me casar e ser feliz vendo minha amiga sofrendo em silêncio da forma que está. Então eu acho melhor a gente dar um tempo nos preparativos.

Dar um tempo? Ah, isso de jeito nenhum. Eu não iria admitir esse negócio de tempo, não mesmo.

— Foi por isso que esteve chorando? Que não me atendeu!

— Sim, e...

— Nick, me fala uma coisa, sua amiga falou algo ou pediu para que adiássemos?

— Claro que não! Kate pensa que por ser estabanada como eu sou, eu não enxergo nada a minha volta, mas eu tenho percebido tudo e o safado do seu amigo sumiu sem deixar rastro. E eu... — a interrompi.

— Nós não vamos adiar nada — falei incisivo. — Você acha que sua amiga se sentirá melhor sabendo que você abriu mão de nós, do nosso casamento por causa disso?

— Matt...

— Eu vou fazer aquele idiota dar um sinal de vida e se acertar ou não com ela, mais que isso, não poderei fazer. E a Srta. Irá se casar comigo no dia marcado, nem um dia a mais, entendeu? — pela primeira vez naquele dia eu vi seus olhos brilharem.

— Eu amo você — ela me abraçou.

— Eu amo mais... E amor... — a afastei e a olhei nos olhos. — Ele será meu padrinho, sabe disso não é? — Ela enrugou a testa visivelmente contrariada.

— Claro que sei. Será interessante reencontrá-lo.

Saio dos meus devaneios quando ouço a voz do taxista.

— Chegamos, senhor.

Pago a corrida e logo em seguida entro no aeroporto. É vai ser interessante.

Kate

Medo!

Essa é uma emoção universal, que acomete pessoas no mundo inteiro, e desde que ouvi da boca do médico que estou grávida, um misto de emoções tomou conta de mim, mas o maior deles foi o medo. Não... Não estou com medo, eu estou apavorada. Não sei o que será da minha vida daqui para frente.

Num momento de coragem ou de loucura, pego o celular no bolso e tento fazer uma chamada para o Josh, que nem ao menos chega a ser completada. Desligo e fecho os olhos pensando na minha mãe.

Ver a dor e a decepção estampadas nos olhos dela acabou comigo. E por certo meu pai também ficará desapontado. Causar essa decepção a eles me doe demais.

Por duas vezes eu tentei falar com mamãe, o que me foi reprimido imediatamente. Minha mãe não quis me ouvir e eu a entendo perfeitamente.

Assim que cheguei ao meu quarto, fui tomada pelo desespero e num ato impensado, mas necessário, eu fui até meu closet, peguei uma mala,  a colocando em cima da cama e sem qualquer cuidado comecei a jogar minhas roupas e objetos pessoais dentro. Eu não fazia a menor ideia de para onde iria e nem o que faria da minha vida a seguir.

Vi minha bolsa sobre a cama, e sem demora fui até ela, buscando em seu interior pelo exame, na esperança de que, se eu o visse mais uma vez, iria constatar que tudo não passou de um engano.

Agoniada, joguei todo conteúdo em cima da colcha, pegando em seguida o papel do exame, corri meu olhos pela folha totalmente desacreditada.

Vendo que não havia engano algum, uma nova onda de choro me tomou e com as pernas trêmulas, acabei sucumbindo ao desespero e sem forças me deixei cair de joelhos, extremamente nervosa, abracei meu corpo tremulo que chocalhava sem parar e o balancei para frente e para trás na tentativa de aliviar a dor.

— Kate, o que está fazendo? — disse, entrando em meu quarto.

A voz da minha mãe penetrou em meus ouvidos, me tirando do estado de lamentação e me deixando alerta. Chegou o momento que eu mais temia.

Apenas ouço sua voz sem me dar ao trabalho de olhar em sua direção e ver mais uma vez toda sua decepção estampada em seu rosto.

— Eu... V... ou... Vou embora — digo com a voz entrecortada. — Apenas... Deixe-me ficar hoje, para que eu possa... Organizar-me. Eu sei que errei. Que eu devo sair imediatamente... Mas... Eu...

— Kate, olhe para mim — ela se ajoelha em minha frente, me fazendo parar de balançar. Tenta segurar meu rosto, mas minha reação é mover a cabeça de um lado para o outro. — Você não vai a lugar algum, está me ouvindo? Não vai a lugar algum — repete.

Em meu desespero não me dou conta do que ela falou e continuo.

— Eu só preciso... Pensar...

— Filha, por favor, pare... Ouça-me, Kate...

— Perdoe-me mamãe — sussurro olhando para o chão. — Eu não queria decepcionar a senhora dessa forma, me desculpe... Perdoe-me, por favor, por favor... — digo sussurrando, evito olhar em seus olhos, pelo seu tom de voz sei que também está chorando.

— Kate, eu jamais abandonaria você, não sairá de casa, não desta forma. Você é a minha menina, meu bebê — ela me abraça e eu choro em seu ombro. — Mas também é uma mulher adulta e agora será mãe — ela respira fundo.

— Eu estou com muito medo. Eu não vou conseguir cuidar de um bebê sozinha, eu mal sei cuidar de mim — não consigo parar de chorar.

— Se acalme...

— Eu tinha tantos planos, ia começar a faculdade e agora vejo tudo se desmoronando.

— Eu sei que o que esta sentindo é desesperador, é normal e até esperado — ela enxuga meu rosto com as mãos e depois o seu próprio. Puxa-me e acabamos por nos sentar no chão — Kate entenda, um filho não destrói nada e você não está sozinha. A vida de uma mulher não acaba por causa de um bebê, e eu sou a prova viva disso.

— É diferente...

— Sim, é diferente. Quando eu engravidei, não pude seguir com a faculdade por que precisei trabalhar e a sua tia Mel, foi a única a me dar uma força. Precisei lutar por nós duas, sozinha, até conhecer o Mick.

A menção ao nome do meu pai me trás uma nova onda de lágrimas. Mamãe continua.

— Você tem a mim, tem a seu pai e seus irmãos. E nós não vamos permitir que nenhum dos seus sonhos morra.

— Eu não mereço... — sussurro baixinho.

— Me ouça... Eu não vou dizer que estou feliz com tudo isso, eu queria algo diferente para você. Mas eu nunca vou te deixar e o que está feito, está feito e não será chorando que vamos conseguir resolver alguma coisa, se acalme, por favor... Isso não faz bem ao meu neto.

Eu a olho, mal acreditando no que acabei de ouvir.

— Eu não sei se vou ser uma boa mãe — sinto os olhos marejarem de novo.

— Claro que vai — é a voz do meu pai, olho para a porta do quarto e ele está lá. — Você será uma ótima mãe — ele caminha até onde estamos e nos ajuda a levantar, passando a mão em meu cabelo, ele fala. — Cuidar e educar uma criança, não é fácil, mas como sua mãe falou, você jamais estará sozinha — beija meu rosto.

Eu abraço os dois e me entrego ao choro novamente.

— Nada de choro, chega. Trate de descansar um pouco, vou pedir que Sara traga seu almoço no quarto — minha mãe fala, pegando as coisas espalhadas em cima da cama, colocando tudo dentro da mala que estava em cima da cama, a seguir ela a puxa, a entregando ao meu pai, e vai logo fazendo eu me deitar. Meu pai vai até o closet com a mala e quando volta diz:

— Descanse um pouco minha princesa. Escute sua mãe.

— Eu amo vocês — falo baixinho.

— Sabemos disso meu amor, nós também te amamos — eles me beijam e se encaminham para a porta do quarto, abraçados.

A agonia de minutos antes deu lugar a uma intensa emoção que em muito tempo não sentia. Fecho os olhos e penso na sorte tão grande que eu tenho por ter pais tão amorosos, que sempre me amaram incondicionalmente, e hoje mais uma vez eu tive a prova desse amor. Fico envergonhada por ter cogitado a possibilidade de eles rejeitarem a mim e ao meu bebê, eu deveria saber que eles jamais agiriam assim.

Esgotada física e mentalmente, acabo mergulhando num sono profundo.

Um tempo depois, acordei desorientada com minha mãe me chamando para que eu me alimentasse. Depois de comer tudo que estava na bandeja, eu me dei por satisfeita e fiquei feliz por ter conseguido segurar o alimento em meu estomago, o que estava sendo raro nos últimos dias.

Acabei passando o restante do dia em meu quarto, eu estava muito cansada e preferi ficar na cama, o que foi aprovado por minha mãe. Apesar de afirmar que gravidez não é doença, ela achou melhor devido as ultimas emoções vividas. Informou-me de que já havia marcado uma consulta para dali a dois dias para darmos inicio ao pré-natal.

À noite, quando eu já estava quase pegando no sono, senti minha cama afundar e um corpo se aconchegar a mim, reconheci seu cheiro.

— Clhoe? — digo sonolenta.

— Posso ficar aqui com você? — pergunta baixinho.

— Claro que pode. O que houve? — a puxo, aconchegando-a ainda mais junto a mim.

— Eu só queria ficar com você.

— Tudo bem. Durma.

— Kate?

— Hum...

— Você não vai embora, não é? — pergunta num fio de voz.

— Não meu amor, eu não vou.

— Eu amo você e o seu bebê — ela fala e eu já quero chorar.

— Nós também amamos você, agora durma que está tarde — cheiro seus cabelos. Sei que ela estava com medo, eu também estava e muito.

Meu dia começou bastante estressante e terminou muito diferente do que imaginei. Tenho vontade de chorar, mas estou com muito sono, entre um e outro, opto por dormir... Antes de apagar completamente, meus pensamentos são direcionados para Nick, ela vai surtar quando souber. Por fim penso em Josh, será que devo contar a ele?

Dia do casamento de Nick

Distraída, aliso meu ventre ainda plano em frente ao espelho do quarto de mamãe, resolvemos nos arrumarmos todas aqui. Ouço quando Clhoe diz.

— Não dá para ver nada aí, sabe disso não é?

— Sim, eu sei. A médica falou que só lá pelos quatro meses que começa aparecer.

— Andem, vocês duas já terminaram? — mamãe pergunta saindo do closet.

Jeff entra no quarto neste momento.

— Nosso pai vai abrir um buraco no chão de tanto andar de lado para outro. Ele disse para se apressarem.

— Vem aqui, deixa eu ajeitar isso — digo olhando a sua gravata torta.

— Você fica lindo de terno, sabia? Parece o papai — Clhoe fala, sorrio ajeitando a peça e olho em sua direção.

— Eu fico lindo de qualquer jeito, praguinha — Jeff fala todo convencido e implicante.

— Ah, claro. Bem modesto seu chato. Lembra-se dos passos? — pergunta.

Eles ficam o tempo todo de implicância um com o outro, mas não se desgrudam.

— Claro que sim, aquela maluca da amiga da Kate só faltou me enlouquecer nos ensaios — ele olha para mim, sorrio do seu jeito de falar. Eu mesma quase enlouqueci também.

— Então vamos, já estão nos esperando. Temos que ser os primeiros a chegar — mamãe fala, todos nos encaminhamos para sair do quarto.

Viro-me de volta para pegar minha bolsa, quase me esqueci dela, Jeff me chama...

— Kate, você também está linda.

— Obrigada meu amor, agora vamos para não nos atrasarmos.

Assim que chegamos ao local da cerimonia, vi o Matt todo nervoso, sorri para ele e fui para o local onde minha amiga estava se arrumando.

— Kate! Que bom que chegou, sua amiga está em ponto de matar um, só fala em você — tia Mel fala.

— Vou ficar com ela agora.

— Terceira porta a direita, tente acalmar um pouco aquela criatura, vou atrás de Ottavio que já simulou uns três ataques. Acredita que ele perguntou se o Matt não queria desistir?

Sorrio, Nicole é igualzinha à tia Melanie. Caminho com passos largos em direção a porta indicada e quando chego em frente, bato esperando que autorizem a minha entrada. Uma moça coloca o rosto na fresta e quando me vê diz.

— Kate? — eu afirmo com a cabeça. — Graças a Deus, venha — Ela escancara a porta e eu entro.

— Kate! Sua amiga malvada, eu sabia que você devia se arrumar aqui comigo, olha como eu estou, horrorosa de preocupação, pensei em tantas coisas para você não vir, pensei que fosse desistir. Que na última hora não teria coragem...

— Eu estou aqui, nãos estou? Agora vamos agilizar isso aqui — digo pegando o vestido e indo até ela. — Por que o Matt está super nervoso lá fora e daqui a pouco você estará muito atrasada.

Ela vira-se permitindo que eu ajude a colocar o vestido, faço um gesto para a moça que nos observava em um canto e ela vem me ajudar.

— Como está o Matt? — nossos olhos se encontram através do espelho.

— Lindo e ansioso por sua noiva — ela vira-se para mim, segura minhas mãos e pergunta.

— Amiga, acha que vai dar certo? — seus olhos verde jade estão com um brilho intenso e sua voz tem um tom baixo.

— Veja isso... — eu a viro novamente para o espelho. — O que você vê? Hum? — a viro para mim novamente a encarando. — Eu vejo no brilho dos seus olhos uma emoção genuína, motivada por um amor verdadeiro — respiro fundo para conter a emoção e não borrar a maquiagem, ela faz o mesmo. — Amor por aquele homem que está lá fora e é igualmente louco por você. Não tenha medo, você vai ser feliz, e se precisar, sempre pode acertar uma escova na cabeça dele — rimos juntas com minha ultima frase.

Ela ameaçou procurar Josh e lhe dar uma surra de escovas na cabeça quando contei sobre o bebê.

— Você o viu?

— Não! Acho que ele ainda não tinha chegado.

— Vai mesmo contar a ele?

— Mamãe acha que não devo, já papai diz que sim, mas ambos disseram que a decisão é minha. Vou contar sim, é o certo a se fazer.

— Amiga, eu espero do fundo do meu coração que vocês se resolvam, aquele idiota não merece você. E se não for com ele, eu espero que você encontre alguém que a ame da forma que merece e que sejam muito felizes juntos, assim como você deseja para mim — emocionada com suas palavras, meus olhos se enchem de lágrimas novamente... E quando... — ela para de falar quando ouvimos uma batida na porta, logo em seguida tio Ottavio coloca o rosto para dentro.

— Nick meu amos, está na hora, vamos? — Ele vem em nossa direção. — Kate, querida, está linda — beija minha testa.

— O senhor também está um gato, tio.

— Gato morto muito em breve... fiz de tudo para essa daí desistir e aquele outro lá e não teve jeito.

— Ah, papai...

— Tudo bem... Tudo bem. Eu já desisti. Próximo evento será meu funeral — diz fungando.

Saio de lá rindo e vou em direção ao salão. Mal pisei no local e o pessoal do cerimonial já começou a dar várias coordenadas, nos posicionando de acordo com a ordem de cada um para adentrar o local da cerimonia.

Quando olhei para o lado eu o vi, imponente em sua estatura alta, o cabelo perfeitamente arrumado, com uma barba espessa dando a impressão de ter mais idade do que realmente tinha. Ele estava lindo.

"Ah, meu pai..." — pensei quase entrando em choque bem ali.

Algo se revirou dentro de mim... Um calor, uma emoção.

"— Não! Isso não..."

Respirei fundo para acalmar meus batimentos, ele não estava sozinho. Cassandra estava ao seu lado. Eu sabia que ela viria, só não imaginei que viessem juntos. O choque da realidade me bateu tão forte que quase me derrubou.

Desviei o olhar e tratei de colocar no rosto a máscara da indiferença, a qual vinha treinando todos esses dias, desde que soube do eminente reencontro ao que seríamos submetidos.

Cassandra passou por mim adentrando o ambiente e ele parou muito próximo a mim. Tomando seu lugar de padrinho e eu agradeci que ele não tenha pronunciado nenhuma palavra.

A meu pedido, Nick colocou os padrinhos para entrarem enfileirados, mulheres de um lado e homens do outro e não como um casal. Já seria martírio suficiente dividir o altar com ele, entrar juntos seria demais pra mim.

O tamanho dele e sua proximidade eram esmagadores e tinha um efeito muito perturbador sobre mim.

Tratei de colocar em mente tudo que ele me fez, era imperativo que eu me controlasse. Contaria a ele sobre o bebê e a decisão do que fazer a respeito dessa informação era inteiramente sua. Volto à realidade ao ouvir a moça responsável pela organização indicar o inicio da cerimônia.

Foi um casamento lindo. Nick e Matt estavam muito emocionados, choravam o tempo todo e eu chorei junto com eles. A minha amiga estava muito linda e a sua alegria contagiava a todos. Eu estava muito feliz por ela.

Depois de passar por todo ritual de fotos com os noivos, eu estava exausta. Devido à proximidade do Josh, meus pais pareciam uma águia sem desviar os olhos de mim. Pedi licença e fui em direção ao banheiro, o ambiente estava um pouco abafado e eu já estava me sentindo um pouco mal. Antes que eu chegasse ao meu destino, sinto uma mão segurando meu braço.

— Kate! Como está? — disse ele.

Meus Deus, quase arquejei, nunca imaginei que ele agiria de forma tão natural depois de tudo.

— Muito bem, como pode ver... — tento colocar uma inflexão firme em minha fala.

— Eu sinto muito... Eu... — sua voz falha, ele passa a mão pelo cabelo, chega tão perto de mim olhando nos meus olhos. — Sinto pela forma como tudo terminou.

— Não se preocupe com isso agora, o momento já passou. Mas tenho algo que eu preciso lhe falar — digo me afastando.

— Do que se trata? — parece ansioso, mas rapidamente sua feição muda.

— Não hoje, aqui não é o lugar para falar sobre isso.

— Ahhh, aí está você, eu o estava procurando — Cassandra fala se aproximando. — Como vai Kate, há quanto tempo.

— Muito bem, obrigada — me limito a responder apenas isso. Josh pigarreia e diz.

— Estou voltando para Nova Iorque amanha cedo, por volto das sete horas passarei no flat para pegar algumas coisas e entregar as chaves — Podemos conversar lá, se estiver bom para você.

— Está bem — concedi.

— Quer que eu lhe pegue?

— Não será necessário, sete horas estarei lá — olho para Cassandra que faz cara de paisagem.

— Ok! — ele coloca a mão no braço de Cassandra se encaminhando para longe dali. Respiro fundo, todas as emoções a flor da pele. Corro para o banheiro sentindo um enorme embrulho em meu estomago.

Mick

Vejo aquele rapaz seguir quase no mesmo instante o caminho que Kate foi. Sabendo de sua decisão de contar sobre o bebê, eu seguro o braço de Belle quando ela faz menção de se levantar e ir até lá.

— Amor! Não vamos interferir. Ela já tomou a decisão dela, temos que respeitar.

— Eu não me conformo com isso Mick, ele vai acabar machucando ainda mais a minha menina. E isso eu não vou permitir — ela se levanta e eu faço o mesmo.

— Você está muito nervosa, deixe que eu vá até lá — faço com que se sente novamente. — Procure aqueles dois pestinhas para irmos quando eu voltar.

— Está bem. Acho melhor que seja você mesmo. Eu seria capaz de enchê-lo de bolachas — dou um sorriso discreto. Eu não tenho nenhuma dúvida disso.

Quando estou na metade do caminho, eu o vejo indo na direção contraria com uma moça. Acelero meus passos na intenção de alcança-lo e dizer-lhes umas verdades, quando estou bem próximo eu o chamo.

— Joshua Ferrell — falo alto para que escute. Ele volta-se em minha direção com o cenho franzido, que rapidamente se desfaz em surpresa ao me ver.

— Sr. Welsh — diz simplesmente. Volta-se para a moça dizendo alguma coisa. Ela sai e ficamos nos dois. — Pois não?

— Eu o avisei de que nos daríamos bem se você tratasse a minha filha como se deve, no entanto, você...

— Sr. Welsh...

— Não! — eu o lanço um olhar mortal. — Aqui sou eu quem fala e você escuta — respiro fundo para conter o ímpeto de segurá-lo pelo colarinho o arrastando para lhe dar uma lição bem merecida.

— Você agiu como um covarde, sem nenhum de caráter e eu não tenho um pingo de pena do que se tornará sua vida se continuar a agir assim, voltada apenas para o trabalho, completamente vazia.

Seus olhos ficam inflamados e sei que toquei em algo que o afeta. Sua única reação é fechar as mãos em punho e inflar as narinas numa clara demonstração de controle, ainda o encarando eu continuo.

— A Kate parece uma garota simples, mas não se engane é com a aparência frágil dela, sim ela é delicada e extremamente sensível, mas também é forte, muito mais do que pensa. Ela é volátil, imprevisível e determinada. Ela é uma força da natureza e que Deus o ajude quando você cair em si e perceber o erro que cometeu.

Sem mais a dizer, eu dou meia volta e o deixo ali para do digerindo minhas palavras.

Dia seguinte...

Kate

Depois que saí do banheiro, eu me despedi da minha amiga que já ia jogar o buquê e logo em seguida sair em viagem com o marido. Não mais avistei Josh no local e muito menos Cassandra.

No caminho de volta para casa, meus pais quiseram saber se eu tinha conversado com Josh, contei que faria isso no dia seguinte o que minha mãe foi contra, mas eu estava decidida.

Como estava exausta, apaguei assim que cheguei em casa, foi só o tempo de tomar um banho e eu mergulhei em um sono profundo.

O clima hoje não estava dos melhores, com as nuvens carregadas, ameaçando desabar uma chuva daquelas a qualquer momento. Parecia se solidarizar com o meu estado de espirito que estava bem agitado com o que estava por vir.

Meu estomago dava cambalhotas e mais cambalhotas, o que me fez desistir de tomar o café da manhã antes de sair, comeria alguma coisa na rua ou quando voltasse, antes de fazer o que tinha que ser feito, não tinha condições.

Pego um taxi e depois de passar o endereço ao motorista, eu me perco em pensamentos imaginando as mais variadas reações do Josh com o que tenho a contar. Será que ficará feliz? Ou vai me culpar e sair fora? Será que irá rejeitar meu bebê? São tantas as possibilidades e nenhuma delas me acalma. O carro para e eu vejo que estamos em frente ao Loft.

Voltar aqui, neste lugar depois de tanto tempo, mexeu com minhas emoções de uma forma que eu não sei explicar. Lembranças de quando Josh me trouxe e tudo que se seguiu invade a minha mente sem que eu tenha nenhum controle. Mas diferente da primeira vez, hoje eu vim sozinha e sem nenhuma ilusão em meu coração.

Falo com o porteiro e minha entrada já estava autorizada. Sigo o caminho que está gravado em minha memória com o coração aos pulos.

Josh

Eu mal consegui dormir essa noite, de tão agitado que estava. 

Eu sabia de todas as implicações ao vir ao casamento do Matt e ser seu padrinho, mas isso não tornava a tarefa mais fácil.

Assim que cheguei, encontrei Cassandra na entrada e ela grudou em mim a noite inteira. Quase não consegui falar com Kate. Não que eu esperasse receptividade, ao contrário,  ela me tratou com animosidade.

Por mais que eu tenha me preparado para vê-la novamente, nada se compara ao impacto que foi tê-la tão próximo, sentir o cheiro do qual me lembrava tão bem e, o qual era responsável por tantas memórias.

Como se só isso não já fosse motivo suficiente, aquela conversa com o pai de Kate, mexeu mais comigo do que eu gostaria de admitir.

Eu não devia ter combinado esse encontro. Arrependido, senti vontade de pegar minhas coisas e deixar as chaves na portaria e sumir, mas, mais uma vez eu seria um covarde e não me agrada agir assim.

O que Matt me falou ontem, também me deixou intrigado.

"Eu desejo que você caia em si, meu amigo. E faça o que é certo. Existe muito mais em jogo do que pode imaginar. E quando se der conta do que perdeu, pode não ter mais volta."

E aquela louca que agora ele tem como esposa por pouco não me deixou aleijado. Ela me acertou no pé com a porra de sapato com um salto tão fino que poderia ser considerado uma arma.

Depois de colocar tudo dentro do carro, vou ate a portaria informando ao Sr. Trevis, o porteiro do dia, que estava à espera de duas pessoas, a mulher da corretora e Kate, que poderia deixá-las subir.

Olho em meu relógio constatando que ela não deve demorar a chegar, já eram quase sete horas.

Um tempo depois ouço a campanha tocar, assim que abro a porta levo um susto.

— Você? O que você esta fazendo aqui? — Cassandra passa por mim, não deve ter ido para casa, pois está com a mesma roupa de ontem. Fecho a porta e vou até o meio da sala.

— Você costumava ser mais divertido, Josh. Ouvi que vai voltar para Nova Iorque, vim fazer minha festinha de despedida — caminha em minha direção e eu a afasto.

— Não teremos despedida nenhuma, agora se me der licença eu tenho coisas para resolver. Por favor, saia — como ela não se move, eu pergunto. — Anda garota, não ouviu.

— Eu ouvi, não sou surda — responde. Vai ate a porta abrindo — Ah, olha quem está aqui, chegou atrasada para a festinha querida.

Olho para a porta e vejo Kate com os olhos arregalados. Sei exatamente o que ela está pensando. Eu pensaria igual.

— Kate. Pensei que não viesse mais — digo. Olhando seu rosto emoldurado agora, pelos cabelos soltos. Ontem eles estavam assim e eu senti um desejo enorme de passar a mão e sentir a macies deles. Saio do meu devaneio ao ouvir sua voz.

— Eu acho que foi um erro... Eu... Eu não devia ter vindo — sua voz falha.

— Não devia mesmo — Cassandra fala. Aproveitando o ensejo, eu tomo a palavra e sei que sou um idiota sem coração, mas preciso acabar de vez com qualquer esperança que ela possa vir a ter.

— Kate... — eu começo. — Não sei o que você tem a falar comigo, mas se você ainda tem alguma esperança de que podemos manter uma relação — ela está completamente paralisada com minhas palavras, eu continuo. — Isso não vai acontecer. Eu fui muito claro na mensagem que lhe enviei, não existe e nunca vai existir um nós. Espero que você viva a sua vida assim como eu irei viver a minha.

Ela me fita tão intensamente e nesse olhar eu consigo ver as emoções passando, choque, raiva e dor. Uma dor tão intensa que eu quase podia sentir em mim. Mas fui em frente.

— Agora se você não tem nada a dizer, e eu espero que não tenha mesmo, e se tiver não me interessa, eu preciso ir, já estou atrasado — peguei na mão de Cassandra, a arrastando dali, antes de chegar na saída, eu digo — Bata a porta quando sair.

Eu não estava orgulhoso do que fiz, quase desfiz o mal entendido devido o olhar ferido dela. Mas não podia! Tinha que ser assim, logo ela me esqueceria e faria sua vida na Califórnia. Saio e não olho para trás.

Kate

Dor!!!

É tudo que eu sinto. Esse sentimento de dor me provoca um grande abalo emocional. E eu tenho medo de machucar meu bebê de alguma forma, tento me controlar.

Ele não só, não escutou o que eu tinha a dizer, como jogou na minha cara o seu caso com Cassandra, por certo passaram a noite juntos e como se não bastasse, me humilhou me rejeitando em sua frente.

Saio o mais rápido que posso, passando pela portaria como um foguete, nem me dou conta da chuva que cai tornando o dia escuro e sombrio como eu me sentia. Retiro as sandálias e resolvo caminhar sob a chuva, andando sem rumo, pensando em tudo e em nada ao mesmo tempo.

Isso não vai fazer bem a mim e muito menos ao meu bebê, pensando nisso eu tomo uma decisão, hoje eu enterrei qualquer sentimento que eu possa ter tido por Joshua Ferrell, para mim, a partir de hoje ele está morto. E a única coisa que sentirei será desprezo.

Levando o rosto sentindo a água dá chuva o molhando por inteiro, sentindo como se ali a minha alma fosse lavada. Eu tinha tomado a minha decisão. Viveria dali por diante, por mim e pelo meu bebê somente.

Sigo meu caminho, ciente da decisão que acabei de tomar.

Continua...

Que capítulo foi esse? Me digam o que acharam...

Confesso que até eu estou surpresa com a mãe de Kate. E vocês?

Só sei de uma coisa, Josh vai ter muito trabalho para reconquistar Kate, depois de tudo o que fez.

Obrigada a todos que me acompanharam até aqui. Quinta eu volto com uma nova fase, darei uma passagem de alguns anos no tempo. Espero vocês, até lá.

Bjs!!!

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