Uma Melodia Especial

La isla bonita! — Sebastián cantou com a voz afeminada, imitando a antiga  canção de sucesso da Madonna como referência para San Pedro.

Ríamos de suas palhaçadas no pequeno bar ao ar livre na orla de areia, depois de passear nas alturas sobre o Blue Hole. O suco natural de manga me refrescava, como também as memórias que o atendente trouxe consigo. O senhor rechonchudo com sotaque do Sul da América, era amigo antigo de meu pai, no qual nos recebeu com alegria em sua barraca, trazendo recordações minhas e de Jávi quando crianças. Lembranças de nossa infância, de quando ainda meu pai estava vivo. As boas risadas contagiavam o ambiente, assim também como as grandes emoções daquele tempo que não voltava mais.

"É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há..."

Em cima do balcão feito de madeira e ao lado das garrafas cheias de bebidas, tinha um pequeno rádio daqueles bem antigos, quadrado com botões redondos e giratórios, no qual a música de um idioma estranho emitia uma sensação de arrebatamento. Eu não conhecia aquela música totalmente, mas o som fazia meu coração se alegrar, pois tinha certeza que meu pai a escutava com muita frequência.

Decidi espairecer, então fui caminhar sobre o banco de areia ao longo da costa marítima. A passarela de areia ficava entre a água que abraçava a margem, da mesma forma que o vento acariciava minha pele e trazia sentimentos mais aflorados, mais sensíveis. A calmaria do mar, o canto dos pássaros e os peixes na costa, traziam lembranças da minha infância, como das vezes que vinha pescar com meu pai. Lembranças das quais sentia muita saudade.

O som emitido do pisotear sobre a areia me tirou dos devaneios, levando meu olhar para a pessoa que se aproximava em minha retaguarda. Era o Carlos.

— Desculpe, eu não queria atrapalhar. — ele se pôs ao meu lado e eu não disse uma palavra. Na verdade eu não esperava sua presença, não aqui completamente sozinha. Por isso, preferi continuar admirando aquele mar imenso e cheio de histórias. — Essa vista é incrível. — fez uma pausa e respirou fundo. — Aqui é tudo tão simples, mas ao mesmo tempo tão requintado. A natureza é rica, as pessoas, a cultura... Eu fico imaginando em como seria se eu tivesse crescido aqui e ter tido uma família completa.

Carlos conseguiu minha atenção, me extraindo aos poucos um pequeno riso encarecido.

— Eu sinto muito que não teve a infância que gostaria.

— Não foi tão ruim assim. — mostrou os dentes bem alinhados num sorriso afável. — A minha mãe foi incrível, é a pessoa mais batalhadora que conheci. — levou seu olhar para admirar o oceano, sentindo o fraco vento morno balançar suas mechas lentamente. Meus olhos não desgrudaram do seu perfil, dos traços que sempre definiu seu rosto perfeito, daquela boca que um dia beijei... — A sua infância deve ter sido incrível.

Pisquei um par de vezes quando percebi aqueles olhos cor de âmbar pregados nos meus. Desviei por instantes por sentir o rubor arder em minhas bochechas, pois não só o passado de minha infância como também aquele que passei com Carlos, estava retornando em minha mente impetuosamente.

— Bem... s-sim. Foi muito bom. — ajeitei o cabelo e minhas têmporas pigmentaram ainda mais. — Meu pai era divertido e um ótimo pescador... Deixou uma imensa saudade. — fiz uma pausa ao engolir a saliva. Falar dele não era fácil, pois sua morte ainda era recente. Doía amargamente em meu peito, fazendo uma lágrima se formar no canto dos olhos.

— Eu sinto muito.

— Você já sabia. — abri um sorriso fraco e sequei o canto dos olhos com as pontas dos dedos.

— Sim, mas sei que as recordações vieram com mais intensidade por estar aqui novamente. — ele deu um passo receoso, como se quisesse se aproximar. Por causa disso, eu recuei e puxei um pouco mais de ar, antes de continuar falando:

— Já a minha mãe, sempre foi inquieta, sempre trabalhando, limpando... Ela é ligada nos 220w. — esfreguei o indicador na lágrima restante, ao mesmo tempo que larguei uma pequena risada, contagiando Carlos a fazer o mesmo. — Vai conhecer ela, e ver que estou falando a verdade.

Seus olhos cintilaram marejados, como efeito da satisfação advindo da realização do que desejava. Eu sentia sua vibração aprazível por finalmente conhecer aquilo que sempre sonhou, aquecendo meu coração e o deixando com os batimentos mais elevados, pois seus olhos não davam uma trégua em admirar os meus.

As indagações sobre sua história pousaram em minha mente, conforme meus olhos não resistiam em corresponder o seu olhar. Não tive a oportunidade de me envolver mais a fundo na sua vida, pois brigamos assim que descobrimos o nosso parentesco. Naquele momento, eu senti vontade de perguntar de sua mãe, do seu pai e de toda a sua infância, porém, era como atear fogo na gasolina por dar corda para mais envolvimento. Aquilo tudo tornava a situação como um engate para o deslize.

— Carlos, eu não queria... — balancei a cabeça negativamente e olhei em volta. — A gente não devia estar assim...

— Conversando? — interrompeu.

— Ééé... — alarguei o riso, assim como ele.

Dois dias atrás estava eu resmungando pelos cantos por causa da sua presença no meu cruzeiro. Agora estava eu, sentindo as pernas travadas, obrigando o meu consciente a continuar com aquela cena divergente.

— Como alguém que tem medo de tirolesa, não tem medo de avião? — trocou o assunto me fazendo rir.

— Como um homem desse tamanho tem medo de altura? — revidei.

— Não é um simples medo de altura!

— Ah, não?! — apoiei a mão na boca e comecei a rir.

— Claro que não! — arqueou as sobrancelhas num sorriso largo. — Pra quem tem medo de tirolesa, também teria medo de altura, não acha?

— É relativo. — cruzei os braços. — Ali a gente fica totalmente exposto ao ar livre, nos deixando mais vulneráveis. Completamente diferente do que andar de avião.

— Não importa. — aproximou o rosto e me deu uma leve esbordoada com o ombro, deixando meus olhos vidrados nos seus totalmente sedutores. — A birrentinha também tem medo de altura.

Birrentinha. Era como ele me chamava quando disputávamos pela razão, na qual eu sempre vencia. Por merecimento, ou por ele ceder mesmo.

— Fazia tempo que não tínhamos uma conversa assim, civilizada... sem brigas. — continuou observando meu semblante alegre se desmanchar aos poucos, como se a realidade estivesse redobrando a consciência. — Teu sorriso me fazia falta.

— Isso tá errado. — recuei em dois passos e coloquei a mão no seu tórax quando tentou se aproximar.

— Rosa, por favor. Só me responde a uma pergunta. — fixou seu olhar como se me hipnotizasse, dando mais um passo e ignorando a pressão da minha mão. — Por favor, isso tá me matando. — segurou meus ombros delicadamente, extraindo um suspiro de minha garganta. — Só responde... e dependendo da resposta, eu fico longe pra sempre.

— A gente já conversou sobre nós.

— Você quis dizer discutir.

— Eu não quero conversar. — virei as costas e andei alguns passos na expectativa de sair dali.

— Não quer conversar porque tem medo. — escutei sua voz na minha retaguarda, fazendo meus pés travarem para continuar ouvindo. — Medo de acabar me mandando pros quintos dos inferno contra a tua vontade, ou de acabar se entregando de uma vez a esse amor que tenho certeza que nunca acabou.

Ergui a cabeça e olhei pro alto, largando uma gargalhada cínica.

— Tu tá se achando, não é? — girei o corpo e observei seu rosto mais uma vez.

— Então diz que não me ama.

— Me deixa em paz. — minha voz falhou. Meus olhos ardiam, expulsando lágrimas tão rapidamente quanto os sinais vitais que oscilavam.

— Diz agora e eu desapareço pra sempre.

— É isso mesmo que quer ouvir? — com dois passos, eu fiquei de frente a frente, deixando meus olhos fixos nos deles enquanto sua respiração tocava o meu rosto, entregando o seu nervosismo. — Eu. Não... — escorreguei as vistas para seus lábios e senti tão intensamente, a falta que eles faziam quando encontravam minha boca. Voltei a notar seu olhar e ali eram marejados. Foi quando percebi que meu rosto estava inundado por lágrimas. — E-eu... Não... — estremeci os lábios e não conseguia concluir.

Carlos segurou minha cintura e aproximou o rosto no meu, esfregando calmamente a ponta de nossos narizes sem que nossos lábios se tocassem. Minhas pálpebras cairam e minhas mãos deslizaram em sua pele, subindo pelos braços. A sua respiração fez companhia com a minha, como se ambos clamassem por um beijo.

— Carlos, não podemos. — balbuciei, ao mesmo tempo que apertei os olhos e senti mais lágrimas escorrerem sobre as bochechas.

— Eu te amo, Rosa. — sua voz tocou meu coração, fazendo meus olhos notarem os seus inundados como os meus.

Meu coração batia descontrolado. Eu podia jurar que o sentia na garganta. As suas mãos apertavam minha cintura com força, ao passo que meus olhos não desgrudaram daquela boca tão provocante. Foi como se tivessemos sofrido uma absorção, ignorando tudo ao nosso redor quando Carlos tocou seus lábios levemente nos meus com um beijo. Eu queria aquilo a tanto tempo, porém eu não podia. Eu lutei contra todo esse tempo, mas naquele momento o meu corpo implorava por mais. As suas mãos me apertavam contra seu corpo e a sua língua me invadia como combustível para prosseguir, para sentir mais.

Ergui as pálpebras calmamente e admirei aquele par de olhos âmbar no qual me rendi tão facilmente. Todavia, a culpa veio abruptamente como socos no estômago, balançando minha cabeça em negação e me fazendo recuar em questões de segundos.

— Rosa, não faz isso. — Carlos suspirou fundo e agarrou o cabelo sem dizer mais nada. Ele conhecia a birrenta muito bem a ponto de saber que não adiantaria uma discussão naquele momento, até por que ele também já tinha a resposta que queria.

Voltei o trajeto do banco de areia em poucos minutos, secando as lágrimas teimosas que insistiam em cair a cada passo que eu dava. Meus amigos olhavam a cena completamente compreendidos, entendendo que já era hora de ir embora dali.

— Vamos ou não? — falei antes mesmo que Jávi pronunciasse.

Senti a presença de Carlos, porém o ignorei. Todos entraram no clima pesado e recolhemos nossos pertences para prosseguir com a nossa próxima parada.

🤘🏼🖤🤘🏼

— E agora, falta muito? — Maria Elena indagou no lugar de Sebastián, já que ele em menos de quinze minutos havia perguntado umas dez vezes.

Eu me infiltrei nas risadas e ignorava a presença de Carlos Daniel conforme Jávi dirigia o carrinho de golf. Por mais que todos haviam presenciado a cena do beijo, eles se mantiveram neutros ou até tentavam falar mais besteiras para descontrair, me deixando agir como se nada tivesse acontecido.

Tínhamos alugado um carrinho de golf para transitar nas ruas de San Pedro, já que eram bastante comum como andar de bicicletas, e pela pouquíssima quantidade de carros que circulavam pela ilha. Sebastián fez companhia para Jávi nos bancos da frente e Carlos Daniel sentou sozinho no banco que ficava de costas para todos nós, mais precisamente nas minhas costas e de Maria Elena. As principais ruas eram alongadas e outras eram cheias de areia com casas e lojinhas feitas de madeira, bem coloridas e dispensando elegância, porém transmitia uma vibe mais alegre e tranquila.

— Tá, gente, e agora já chegamos? — Sebastián não aguentou e perguntou. — Eu tô com fome!

— Sim, já chegamos. — dei um salto assim que Jávi estacionou o carrinho de golf. Tombei minimamente a cabeça para olhar a casa de dois andares. A casa da minha mãe. Pintada de amarelo, a casa não era a mais chamativa da rua, porém se destacava pelas janelas pintadas de púrpura.

— A casa da tua mãe é tão... — Sebastián analisou e pensou, enquanto eu abri um sorriso fino. Eu sabia que eles não estavam acostumados com tanta diversidade de cores em uma única casa.

— Vamos lá? — Carlos chamou minha atenção quando dirigiu a palavra para Jávi. Foi a primeira vez que escutei depois do acontecido.

— Claro, irmão. — Jávi apoiou a mão no ombro dele, antes dos dois olharem para mim.

Ele estava ansioso por aquele momento. Na verdade, todos nós estávamos. Em poucos minutos nós teríamos certeza do nosso parentesco e aquilo mudaria nossas vidas para sempre, deixando meu pulmão aspirar com dificuldade quando engoli a saliva. Mantive a postura quando percebi que estava perdida em seu olhar, me colocando na frente para abrir o pequeno portão de ferro e barulhento.

— Boby! — andei empolgada ao encontro do cãozinho branco e felpudo, que saltava animado nas minhas pernas. — Que saudade dessa coisinha fofa. — abracei o cachorro que lutava arduamente para lamber meu rosto.

— Mamãe! Vovó! — a voz aguda de uma criança levou a atenção de todos para a janela. — A tia Rosa chegou!

— Ah, eu não acredito que essa pirralha tá aqui?! — Jávi simulou espanto. Subiu a escada que levava para o andar superior ao encontro da menina, dizendo com uma voz grossa: — Será que chegou o momento de levar essa donzela para o oceano? — fez uma gargalhada grossa e sinistra, chamando a atenção de Boby para correr e acudir a pequena Paulina.

— Não! — dava pra ouvir os passinhos dela correndo pelo assoalho, acompanhado dos latidos do cãozinho Boby.

Olhei para meus amigos com a expressão desentendida e resolvi cair na brincadeira, atropelando alguns degraus da escada para alcançar Jávi e instigando o restante para me seguir até o interior da casa de minha mãe. Os gritinhos de Paulina davam pra ouvir em toda a vizinhança, aumentando a cada vez que Jávi a fazia cócegas sobre o sofá.

— Largue ela, capitão Javier. — peguei o cavalinho feito de madeira do chão e estendi nas costas dele. — Ou terá que sofrer as consequências. — larguei uma gargalhada assustadora.

— A buxa Rosa não! — Paulina gritou e saiu correndo para outro cômodo, deixando nossos olhares pousarem nas duas mulheres paradas diante daquela brincadeira.

— Meus Deus, quanta infantilidade. — a mulher quase idêntica a mim, porém com alguns anos a menos e uns quilos a mais, segurava uma criança no colo. — Vocês não crescem nunca? — ela alargou o sorriso.

Ao seu lado estava a mulher que criou eu e minha irmã, e que agora ajudava na educação de seus netos. De cabelos ondulados e olhos verdes como os meus, dona Lucía, estendeu os braços e veio ao meu encontro, me aninhando em seus braços e na fragrância dos hidratantes que era acostumada usar.

— Você está cada vez mais linda, minha filha. — admirou meu rosto com lágrimas nos olhos. — E você, Jávier, não muda nunca! — andou até ele e apertou suas bochechas, depois de abraçá-lo afetuosamente.

— Mãe, esses são meus amigos. — andei na direção deles parados na soleira da porta.

— Ah, sim! Não fiquem aí parados, entrem de uma vez! — ela espalhou algumas cadeiras na sala. — A casa é pequena, mas a gente dá um jeito pra caber todo mundo.

— Essa aqui — puxei minha amiga pelo braço. —, é a Maria Elena, aquela que me atura desde os primeiros dias em Monterrey.

— Sei bem como deve ser difícil. — disse minha irmã, embalando o menino no colo que ameaçava chorar. Eu lhe respondi com uma careta fazendo todos a rirem com a provocação. Brincadeiras de irmãs, eu diria.

— O Sebastián — busquei o olhar dele, pois estava ocupado em acariciar um dos sete gatos que minha mãe tinha antes de eu sair de San Pedro. —, é o amigo brincalhão da turma.

Ele acenou e assentou em uma das cadeiras. A gata amarela não perdeu tempo e saltou em seu colo a procura de mais carícias.

— E...

— Carlos Daniel. — minha mãe me interrompeu, antes mesmo que eu pudesse apresentá-lo, como primo. — Eu reconheceria esse rosto a quilômetros. — ela se aproximou e analisou de perto enquanto sorria.

Eu e Jávi nos olhamos rapidamente, completamente incrédulos. Ela o conhecia? Ele era mesmo meu primo?

— M-mãe... Como?!

— É como se fosse o meu irmão Luiz Carlos na minha frente. — ela envolveu Carlos em seus braços, que retribuiu afetuosamente. — Ele é completamente idêntico!

Olhei para o rosto de todos naquela sala e uma pontada no meu peito se armou muito depressa. Meus olhos começarem a arder e eu já não conseguia segurar as lágrimas, ainda mais quando avistei o porta retrato de meu pai ao lado da televisão na estante.

— Está tudo bem, filha?

— E-eu... — deixei meus olhos pousarem em Carlos Daniel. Seu semblante que antes era alegre por abraçar minha mãe, sua tia, naquele momento se entristeceu pelo mesmo motivo que eu. — Eu só lembrei do meu pai, me desculpe. — saí da frente de todos e procurei pelo banheiro.

Eu sabia que isso iria acontecer. Eu devia me afastar e me poupar de tudo aquilo. Mas tudo o que consegui fazer foi beijá-lo e reforçar um sentimento ainda mais intenso. Me afoguei em minhas próprias mágoas, pensando em nada mais além, que as recordações de quando sofri pelo amor que eu não poderia ter.

🤘🏼🖤🤘🏼

Pais e filhos.

— Legião Urbana.

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