Disco Silencioso
— Eu lembro como se fosse ontem. — dona Lucía bebericou o café, enquanto falava fascinada com os acomodados na sala.
Não conseguia evitar em contribuir para o olhar de Carlos. Ambos atentos em cada palavra dada de minha mãe, porém na expectativa de decifrar as reações um do outro. Portanto, mesmo assim eu tentava evitar mostrar que estava afetada, entregando meus cuidados para o bebê inquieto. De barriguinha para baixo, o pequeno Pablo se encaixava perfeitamente no meu braço, enquanto eu estava de pé diante de todos embalando cuidadosamente o menino.
— Como todos sabem, com dois pulos estamos no México. — ela continuou, mordendo o pequeno biscoito com gotas de chocolate a cada frase dada. — Sair de Belize e ir até ali é muito simples, e Luiz Carlos aproveitava essa facilidade e quase nem retornava mais para casa, já que era o que sempre quis, sair de Belize. Ele não gostava da nossa vida simples... dizia que não tinha futuro.
Por mais que eu não o conhecesse, eu compreendi que a sua visão de enxergar além da paisagem bonita de Belize, não fazia parte de sua ambição. Ele queria melhorar sua condição de vida assim como eu lutei pela minha. Levei meu olhar para o canto dos olhos e notei minha irmã, mãe de duas crianças aos dezoito anos de idade. Rapidamente passou pela minha mente em como minha vida seria se eu não tivesse a ambição de uma faculdade. Eu não tinha dúvidas pra concordar mentalmente com meu tio Luiz Carlos.
— Por isso — dona Lucía pegou o bule que estava na mesa de centro da sala e colocou mais café para Sebastián, já que a pequena Paulina se divertia com as xícaras de plástico fazendo o pobre coitado beber o líquido invisível. —, ele decidiu arranjar um emprego em Monterrey e até então, nunca mais voltou para Belize.
— Nunca mais mesmo, porque ninguém conheceu ele. — Jávi encheu a boca com o bolo de amido adoçado.
— Foi aí que ele conheceu a Lorena. — ela continuou.
— Você conheceu a minha mãe? — Carlos ajeitou seu corpo no sofá.
— Eu era amiga dela.
Carlos Daniel não resistiu em olhar para mim mais uma vez. Nem eu. Nem a minha mãe. Pelo jeito, ela estava percebendo os olhares persistentes de nós dois. Por causa disso, eu me ocupei ainda mais no pequeno Pablo que a princípio parecia estar mais tranquilo.
— Eu e meu falecido marido, visitávamos Luiz Carlos com frequência. Ele conheceu Lorena em uma das festas que íamos. E a tua mãe, Javier — olhou para ele —, não nos acompanhava, pois estava ocupada engravidando. — riu e contagiou a todos. — Porque, ela tinha a recém se casado com teu pai.
— Só um pouco antes de você, né tia?! — Jávi retrucou e rimos. — Com todo respeito.
— Não disse nenhuma mentira. E pelo o que vimos — ela olhou para Carlos. —, meu irmão e Lorena também não perderam tempo.
— Mãe, você sabia de Carlos Daniel todo esse tempo? — quando me dei por conta, eu estava ali na sua frente mostrando todo o meu interesse naquela conversa. — Como podemos ter certeza que ele é mesmo filho do tio Luiz Carlos sem fazer um DNA?
— Eu não tenho dúvidas alguma que ele é meu sobrinho. É só olhar para ele e perceber que a semelhança é indescritível! — meu olhar caiu, enquanto sua voz soava dolorosamente em meus ouvidos, por causa disso eu recuei, e mal conseguia olhar mais uma vez para Carlos Daniel. — Eu também queria ter o conhecido antes, mas não. Como Javier insinuou, eu e seu pai decidimos construir uma família. E depois disso, perdemos o contato de Lorena e não fazíamos ideia que ela estava grávida. Quer dizer... — estreitou as sobrancelhas na expectativa de extrair lembranças. — Algumas vezes ela ficava mal do estômago, mas pensávamos que era das bebidas. Pelo jeito não era. — riu quando dirigiu o olhar para Carlos. — Com o passar do tempo, não tivemos mais contato com Luiz Carlos que parecia nem fazer questão de fazer uma ligação para nós.
— Minha mãe não disse pra ele que estava grávida, pois descobriu dias depois dele ir embora, seja lá pra onde. — Carlos Daniel largou a xícara vazia na mesa de centro. — Ele não faz ideia da minha existência.
— O que importa agora é que esse rapaz lindo e idêntico ao pai, nos achou. — dona Lucía se ergueu e andou até Carlos, segurou sua mão como convite para se erguer e poder abraça-lo. — E entrou em contato comigo e encontrou sua família paterna.
Carlos Daniel me olhou por cima do ombro de minha mãe. Meus olhos marejaram rapidamente, então pisquei inúmeras vezes para não chorar. Não podia mostrar que estava aflita. Não na frente de minha mãe.
— Graças ao destino, que colocou Jávi e a Rosa no meu caminho. — ele se separou do abraço e fixou em meus olhos. — Eu sou o cara mais sortudo por ter pessoas tão especiais na minha vida.
Uma lágrima escapou e o ar se tornou difícil para respirar. Ligeiramente olhei para minha mãe e conheci aquele olhar de quem me conhecia muito bem.
— E-eu vou trocar a fralda do Pablo. — passei o dedo na lágrima e andei depressa para o quarto da minha irmã.
Eu precisava sair dali antes que ela desvendasse tudo.
O cômodo não era mais da Marisol, pois estava enfeitado com a cor favorita da Paulina. A cor rosa estava presente em todo o lado esquerdo, acompanhando o azul celeste no lado contrário, mostrando ser o lado decorado para o pequeno Pablo.
Deitei o bebê gorducho na cama de solteiro da Paulina, ao lado de dois gatos que tiravam uma soneca. Os felinos ronronaram quando os acariciei, e Pablo resmungou e encolheu as perninhas quando não sentiu mais meus braços envolta de si.
— Ele anda tão chorão ultimamente. — minha irmã buscou minha atenção assim que adentrou no quarto. — Só quer ficar no colo. — andou até o bebê e tentou pegá-lo, porém eu ajeitei meu corpo mais perto dele e segurei suas perninhas.
— Ele está com constipação intestinal. — fiz movimentos de vai e vem nas perninhas pequenas, massageando automaticamente o abdômen dolorido por cólicas, no que resultou num bebê aliviado e de fralda cheia.
— Você podia me dar um sobrinho. — ela retirou uma fralda na gaveta da cômoda ao lado da cama. — Leva jeito com crianças.
— É por isso que estudo pediatria, Marisol — revirei os olhos e ela sorriu. —, pra cuidar dos filhos dos outros. — abri os pequenos botões da roupinha e comecei a trocar a fralda suja.
— Me conta o que você está escondendo sobre o nosso novo primo. — Marisol assentou no pé da cama e minha respiração falhou ao passar pela traqueia.
— E-escondendo?
— Eu acho que tem alguma coisa que vocês não contaram. — estreitou e fixou os olhos nos meus.
— Não tem nada demais. — desviei e me ocupei em vestir o bebê que começou a resmungar de fome.
— Claro que tem.
— O que poderia ter, Marisol?! — encarei seus olhos duvidosos e me arrisquei com a sua presunção.
— Aconteceu algo em Monterrey... — ela estreitou as sobrancelhas e meu coração acelerou nas batidas. —, e por causa disso vocês se odeiam.
Estreitei os lábios, mas fracassei ao segurar o riso.
— A gente não se odeia.
— Então se amam?!
Diminuí o timbre do riso aos poucos e desviei o olhar para o bebê.
— Não fala besteira, sua chata. — peguei o Pablo e entreguei para Marisol amamenta-lo. — Como vou amar o meu próprio primo?
— Ele é teu primo, e não teu irmão.
— Dá no mesmo.
— Quase. Quase no mesmo. — ajudou o pequeno a abocanhar o peito. — Só não sei como ele consegue, porque acho que ele gosta de você. — levou seu olhar a mim na tentativa de extrair o que eu escondia, enquanto eu tentava formular um argumento viável.
— A maternidade não tá te fazendo bem. — decidi rir daquela verdade e ela me repreendeu com o olhar. — Somos apenas amigos, e... agora Primos. Não existe a possibilidade de rolar algo. — depositei um beijo na bochecha de Pablo e virei as costas, saindo do quarto antes que ela pudesse complementar o que estava estampado na minha testa.
Estava me aproximando da sala quando todos pareciam animados, inclusive Carlos. Principalmente ele. Escorei o ombro na parede e minha preferência foi avista-los dali.
— Você palece um píncipe! — a voz aguda da minha sobrinha Paulina me fez rir quando colocou uma coroa de plástico rosa na cabeça de Carlos.
Ele por sua vez, compartilhou alegria com a menina ao mostrar interesse nas suas brincadeiras. Minha mãe sentiu minha presença e estendeu a mão como convite para que eu ficasse junto deles. Por mais que já estivesse na hora de partir, eu fui e assentei no seu colo para aproveitar mais uns minutos, no qual desfrutei desse tempo para o aconchego de minha mãe.
🤘🏼🖤🤘🏼
O entardecer calhou com cores quentes no céu, contrabalaceando com azul e o verde do mar sobre o Recife de corais. O navio estava quase partindo e pelo jeito faltavam poucos passageiros para embarcar. Andando pelo píer, eu decidi fazer companhia para a garça que parecia estar admirando o pôr-do-sol. Assentei na beira daquele píer, enquanto o sol descia preguiçosamente e a corrente da água balançava para um lado, ora para o outro. A mesma água que antes era transparente e naquele momento estava num tom dourado, era cada vez mais atrativo em vislumbrar aquele espetáculo.
— Fico feliz que agora tem certeza que seu pai é mesmo o meu tio Luiz Carlos. — eu sabia que Carlos estava por perto. Olhei para o lado e ali estava ele.
— Está mesmo? — ele assentou, no momento que aquela garça levantou voo deixando algumas penas para trás.
— É... — refleti por segundos, ficando presa naquele par de olhos que pareciam ouro sob o reflexo do dourado do pôr-do-sol. — Eu... — abri um sorriso fraco em escárnio, ao mesmo tempo que segurei as lágrimas. — É claro que fiquei feliz, por você. Acontece que isso faz com que acabe de vez a nossa relação.
— Só acaba se você quiser.
— Eu sei que tem muitos que não ligam se são primos ou não... se casam, tem filhos, seguem a vida naturalmente... mas eu não consigo. — sequei as lágrimas teimosas com as pontas dos dedos. — O preconceito já existe no meu estilo, no meu cabelo, nas tatuagens, piercings... e um relacionamento consanguíneo, é mais do que eu poderia suportar. — meus olhos se desviaram para o mar e não abrangeram mais aquela beleza, se ocupando apenas na dor que sobressaía do peito e se concentrava naquelas lágrimas. — Para o Jávi foi difícil pra ele lidar por causa da sua sexualidade. Os pais se opuseram, ignorando a felicidade do filho sem se importar se perderia o vínculo que os unia. Eu tenho medo, Carlos. Tenho medo de perder a minha família.
— Então acabou? — ele mordeu os lábios e eu podia notar sua guerrilha ao segurar as lágrimas. — Não vai nem ao menos tentar?
Eu apertei os lábios e meus sentidos se engalfinharam para não chorar. Eu queria tentar. Era tudo o que eu mais queria. Mas o medo morava em meu peito tão forte, que eu estava decidida a perder o amor da minha vida por conta disso. Eu tinha medo do que iam pensar, do que iriam falar, eu tinha medo do preconceito. Porque eu também achava aquilo errado, mas o meu coração não aceitava perdê-lo. E por isso eu sofria. A culpa era toda do medo.
— Eu sei que tu me ama, Rosa. — Carlos esfregou os olhos úmidos e meu coração se apertou ainda mais. — Tu não conseguiu dizer "não" lá em San Pedro.
— E talvez eu nunca vá dizer. — tentei me erguer, mas ele deixou sua mão acariciar minhas bochechas, fazendo com que eu me acomodasse por mais um tempo ali, no seu afeto.
— Não reprima esse amor por causa do parentesco. — se aproximou e eu segurei a mão que me acariciava, apertando seus dedos com o mesmo fervor que meus lábios sentiam a falta de seu beijo. Portanto, meu instinto de defesa recuou antes que eu me entregasse mais uma vez.
— Me desculpe por ser tão fraca. — falei trêmula e separei sua mão de minha pele. Com a minha pobre decisão, eu me ergui e deixei Carlos para trás quando andei na direção do navio.
Nem tudo mudou em Belize, assim como o que eu sentia por Carlos Daniel. A minha percepção continuava a mesma, me tornando aquela pessoa desorientada e com os pensamentos revirados numa bagunça. Talvez o silêncio era a forma mais adequada para encontrar um pouco de paz. Talvez.
🤘🏼🖤🤘🏼
— Fica com ele. Eu tô bem. — falei para Jávi, antes de entrar no Silent Disco.
Assim como Jávi, todos estavam preocupados com Carlos Daniel. Ele mal respondia as mensagens dos amigos e o interesse em seguir com a viagem parecia estar afundando. Assim como eu.
— Mas e você?
— Eu não vou ficar aqui por muito tempo mesmo. — fiquei balançando aquele fone de ouvido grande e quadrado em meus dedos. — Na verdade eu nem sei porque eu estou aqui. — quase borrei minha maquiagem quando esfreguei os dedos nos olhos. — Eu devia ter ficado na cabine e me afogar de tanto chorar por causa da minha miserável vida. — pensei alto.
— É por isso que eu vou ficar com você. — Jávi jogou seu braço em meus ombros e me guiou para entrar na balada. — Não vou permitir que tu fique trancada na cabine depois de pagar horrores por esse cruzeiro!
— M-mas e o Carlos? — freei os passos e Jávi arqueou as sobrancelhas. Sua expressão debochada intensificou o rubor em meu rosto.
Eu não queria demonstrar tanto interesse assim. Não da forma escancarada que estava fazendo.
— Relaxa, eu já tô falando com ele. — Sebastián balançou o IPhone.
— Se está tão preocupada com ele, porque não cuida dele pessoalmente? — Maria Elena recebeu uma cotovelada de Sebastián assim que abriu a boca, antes de erguer uma sobrancelha e sorrir ladino.
— Nem vou dizer nada, Maria do Bairro. Nem vou dizer nada. — andei na frente e coloquei o fone de ouvido.
— Pelo menos o senso de humor tu não perdeu, não é Dona flor das três abelhinhas. — ela me fez sorrir, nem que fosse por alguns minutos.
A boate estava silenciosa. Tirando os ruídos dos calçados, risadas e algumas conversas, tudo estava silencioso. As pessoas dançavam e usavam o mesmo fone de ouvido, onde cada áudio era representado por uma cor neon, o que deixava o ambiente bastante iluminado.
A música era enviada para os fones, onde três DJs disputavam pela audiência dos baladeiros. A maioria dos fones brilhavam nas cores azul e verde, então me perguntei se a terceira cor seria um rock n'roll, já que a maioria detestava esse ritmo. Apertei o botão próximo a orelha, quantas vezes fosse necessário para brilhar no vermelho, e tocou hip-hop.
Claro que não seria rock n'roll.
Apertei novamente o botão e a cor verde foi selecionada, onde a música eletrônica soou nos meus ouvidos rapidamente. Incomodada, apertei mais uma vez com força e o azul brilhou com uma música pop, me fazendo entortar os lábios e a transtornar os olhos brutalmente.
Por que é sempre as mesmas músicas?
Eu sabia da raridade de tocar uma do meu estilo musical, mas o que acontecia era que a minha força de vontade de continuar com o cruzeiro estava afundando desde a tarde, me deixando mais irritante do que o habitual.
Já na expectativa de sair daquele lugar no qual não devia ter ido, eu girei o corpo para a direção da saída e parei de frente para Jávi e os outros. Ele balançou o indicador em sinal negativo como se tivesse lido minha mente.
Era só o que me faltava.
Maria Elena segurou minha mão e começou a balançar o quadril largo para me incentivar na sua dança. Eu não estava afim de uma discussão, por isso eu me deixei levar aos poucos. Optei pela música eletrônica que se tornou mais convidativo no decorrer do tempo, até que tocou uma que me surpreendeu drasticamente.
"I wanted you to know I love the way you laugh
I want to hold you high and steal your pain away
I keep your photograph, and I know it serves me well
I want to hold you high and steal your pain..."
Comemorei mentalmente por ouvir a voz linda de Amy Lee. A música estava remixada, mas foi o suficiente pra me deixar um pouco contente, me fazendo erguer um pouco os braços e extraindo minha voz automaticamente para cantar consigo.
Até ver ele. Em alguns metros e entre as pessoas, Carlos Daniel estava parado com o verde neon de seus fones de ouvido, escutando a mesma música que eu. Parei meus movimentos e encarei aquele homem com uma pontada no coração, esmagando-o ainda mais quando as mesmas garotas que o perseguia sempre, apareceram no seu lado numa dança mais sedutora. Todavia, uma se destacou.
O cabelo dourado de cachos grandes balançou nas costas da mulher, no momento que ela dançou e agarrou seu pescoço para levar sua atenção no embalo dela, que funcionou, por pouco tempo. Os olhos dele teimavam em me notar, fazendo com que os olhos claros da loira percebesse a minha presença. A mulher abriu um sorriso questionável para mim e voltou para Carlos por conseguinte, conseguindo toda atenção que desejava.
Sem pensar duas vezes, a hipótese de sair dali transitou no meu cérebro rapidamente, porém o fato dele estar aproveitando a companhia daquela loira, me deixou tão irritada a ponto de ir até o balcão de bebidas e causar uma possível cirrose.
Eu devia me divertir, então era o que iria fazer.
🤘🏼🖤🤘🏼
Broken remix.
— Amy Lee.
Broken.
— Seether ft. Amy Lee.
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