Aquele cheiro impregnava tudo, impossibilitando pensar em qualquer outra coisa. Eu não pretendia segui-lo; eu queria ter ignorado e seguido em frente.
Mas ali estava eu, seguindo furtivamente aquele homem, dividida entre pular em cima dele e rasgar-lhe a garganta ou voltar para casa. Não deveria ser uma decisão difícil, mas a cada inspiração, aquele cheiro delicioso me desnorteava cada vez mais.
O que Caius dizia sobre o que fazer nessas situações? Eu não conseguia me lembrar.
Aquele homem, nunca o tinha visto na vila; ele estava na borda da floresta, provavelmente rumo à aldeia ao sul. Devia estar caçando. Aquele corte que descia pela lateral do seu rosto não parecia sério, provavelmente tinha sido apenas um acidente.
Um pequeno corte era capaz de me atrair, desnortear-me. Apenas dois metros e eu era sobrepujada pelo cheiro, atraída. Quão bom seria uma quantidade enorme...
Não, não, não! Eu não devia, não podia. Tinha que parar de calcular as chances de ser descoberta, parar de analisar se ele era um nômade, alguém que não dariam falta. Tão errado... embora parecesse tão certo.
Talvez uma pequena prova não fosse tão ruim, apenas para saber o gosto. O cheiro parecia muito diferente dos animais que eu costumava caçar na floresta, tão delicioso que deixava um sabor adocicado em minha boca. Bom, tão bom. Porque aquele idiota tinha que aparecer na floresta justamente enquanto eu caçava? Aquela pantera, que parecia ter um gosto tão bom, tornou-se insignificante quando meus sentidos se chocaram com aquela tentação.
Ele nem sequer olhava em volta, andava distraído, despreocupado. A floresta escondia perigos, animais selvagens, bestas, coisas piores... e aquele idiota, andando sozinho por ela, tão, mas tão vulnerável.
Babaca, tão convencido de sua segurança. Ou seria tão despreocupado com a morte? Nesse caso, seria mesmo tão ruim se eu apenas desse os passos restantes e me banhasse naquele sangue?
Talvez, apenas talvez, todos estivessem errados e eu pudesse parar a tempo, apenas uma prova, e então deixar o imbecil seguir seu rumo, provavelmente para ser morto por outra criatura. Eu não tinha como saber; eles me proibiram de sequer cogitar. Meu sangue demoníaco, herança de algum antepassado que fizera escolhas ruins, disseram, não que alguém tivesse se dado ao trabalho de me contar a história.
Era isso, decidi-me. Um teste, apenas para saber como seria, para provar, nem que fosse uma vez. Eu dei os primeiros passos em direção àquele cheiro doce, mas fui interrompida pelas palavras agitadas de Elisa.
— Mor? — ela parecia agitada, ansiosa.
Me virei em sua direção, preocupada que ela tivesse percebido o que estava prestes a fazer. No entanto, descartei essa preocupação assim que vi a alegria estampada em seu rosto, em vez de apreensão. E, de fato, era ansiedade e agitação que transbordavam dela.
Arqueei a sobrancelha, tentando compreender o motivo de tanta animação.
Ela me analisou e então fez uma expressão desapontada, me olhava como se esperasse algum tipo de compreensão e ao notar minha confusão, bufou antes de responder, com as mãos na cintura — Sua festa é daqui a 2 horas e esta aqui, nesta floresta fazendo sabe-se lá o que. Vamos, tenho pouco tempo para te arrumar.
Ah sim! Claro, a festa... droga, eu havia esquecido completamente!
Peguei em seu braço para seguirmos nosso caminho, mas lancei um último olhar para trás. O homem não nos ouvira; já estava longe, caminhando tranquilamente, seu cheiro quase imperceptível agora, quase.
O que tinha na cabeça quando permiti que fizessem uma festa? Aliás, aquilo estava se parecendo muito com um baile. Conseguia imaginar ser assim que o povo de Zeranth fazia suas festas, a realeza em seus vestidos pomposos naquele castelo reluzente de ouro.
Olhava de novo para o espelho. Elisa se oferecera para organizar tudo e eu, desesperadamente permitira, ansiosa para me livrar dessa tarefa. Pensando bem, talvez tivesse sido um erro.
Meus longos cabelos negros estavam delicadamente entrelaçados em uma trança elaborada, que começava de um lado da minha cabeça e seguia com precisão até o outro, revelando a suavidade do restante solto que caía em cascata na parte da frente. A dor aguda que senti ao puxar e prender cada fio parecia estar finalmente suavizando.
Ao encarar meus olhos no espelho, percebi que talvez eu estivesse começando a gostar do que via ali. Elisa habilmente delineara meus olhos com kohl, realçando sua profundidade, e também aplicara nos meus cílios, fazendo-os parecerem mais longos e sedutores. O tom violeta das minhas íris resplandecia com um brilho enigmático.
Direcionei meus olhos abaixo, admirando a transformação que ocorria em meu rosto. Minha bochecha ganhava uma tonalidade rosada, me dando um ar quase angelical. No entanto, era o vestido que me roubava completamente a atenção... Ah! Eu jamais admitiria em voz alta, mas ele era verdadeiramente deslumbrante.
O vestido, todo preto e sem mangas, possuía um decote gracioso, levemente curvado no formato de um coração. Um corpete habilmente ajustado realçava minha cintura esbelta, enquanto o tecido abaixo dele se abria de maneira esvoaçante, com elegantes fendas laterais. Contudo, era nos detalhes minuciosos que residia sua verdadeira beleza: pequenas contas violetas, como uma cascata em movimento, eram habilmente costuradas na saia, descendendo com graciosidade e aumentando em quantidade, conferindo um toque de magia e encanto.
Por fim olhei para meus pés, que estavam adornados por um horrível instrumento de tortura. Com impressionantes 15 centímetros, a parte frontal exibia uma abertura sutil, revelando a ponta dos meus dedos. A sola era ligeiramente curva, a estrutura do salto possuía linhas suaves e fluidas que se estendiam desde a ponta até o tornozelo.
Levantei meus olhos em direção a Elisa, que aguardava ansiosa por minha reação. Esforcei-me para abrir um sorriso amplo, querendo demonstrar minha gratidão — Eu estou deslumbrante, obrigada Lis! — mesmo considerando um tanto exagerado, minha amiga dedicara semanas para organizar cada detalhe.
Elisa retribuiu com um sorriso largo e radiante. — Agora, fique parada, preciso terminar.
Pelos Deuses, ela ainda não havia terminado! Observei o pote em suas mãos, enquanto a mistura reluzia em um rosa intenso. Foi difícil conter a careta ao perceber que ela pretendia aplicar aquela cor vibrante em meus lábios.
Elisa olhou para mim com compreensão e em seguida, revirou os olhos, que já estavam perfeitamente pintados com um rosa alegre, harmonizando com as íris azuis que me lembravam o céu. Seus cabelos dourados, estavam presos em um coque elegante, com alguns fios soltos, como se tivessem escapado, o que eu sabia não ser o caso, ela cuidara meticulosamente de cada detalhe. Não havia visto seu vestido, pois ainda estava vestida em um roupão.
— Qual então? — perguntou ela, dirigindo-se à penteadeira, pronta para fazer a mistura.
— Nenhuma? — respondi, e sua expressão foi como se ela tivesse testemunhado um assassinato. Isso me fez pensar em como ela reagiria se tivesse chegado alguns minutos depois naquela floresta. Então, acrescentei — Faltam apenas 30 minutos para começar e você ainda não está vestida. Precisamos nos apressar.
— Elegantemente atrasada, bobagem — rebateu ela, examinando-me dos pés à cabeça, seus olhos brilhando. — Não vou permitir que você desça lá embaixo desse jeito. Ainda não terminei minha obra de arte.
Respirei fundo, ela estava se dedicando a mim, por mim. Depois de todas as concessões que fiz, talvez não fosse tão terrível permitir apenas mais uma.
Suspirei, eu poderia estar me banhando em sangue agora... tentei afastar aqueles pensamentos intrusivos. Tentei parar de pensar se aquele homem ainda perambulava por perto, o fantasma de seu cheiro ainda impregnado em mim. — Vermelho sangue — respondi finalmente.
E talvez, eu tenha aberto um sorriso largo demais.
Voltei, desculpem o atraso, ainda muita correria por aqui rsrs
Enfim, espero que gostem, ao longo da história vou explicando os novos personagens, não se preocupem.
Votem, comentem, falem o que estão achando, isso é muito importante para mim.
Por enquanto, é só ✨️
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