Capítulo 21 - A Batalha de Düsseldorf

APÓS A BATALHA EM DONETSK, a Teia tinha perdido completamente o rastro da Ordo Ignis Veni e passamos muito tempo apenas correndo atrás de fantasmas. Todas as pistas que seguíamos davam no máximo em dissidentes da Ordem ou membros da seita que haviam abandonado o mundo da feitiçaria para sempre.

Em Bratislava, hoje a capital da Eslováquia, interrogamos um ex-membro que nos contou por intermédio de tortura que a Ordo estava reunindo os maiores magistas do mundo a fim de abrir um portal para uma dimensão que eles chamavam de limbo. Adon e os seus seguidores — pelo menos uma parte deles — haviam sobrevivido à explosão na Ucrânia e agora estavam reclusos, juntando forças para abrir uma fenda no tecido da realidade para esse tal mundo dos mortos. Segundo as pesquisas de Gavril, aquela era só a primeira de uma série de incursões que os ocultistas planejavam fazer pelos mundos que existiam paralelamente à nossa Terra e que quando eles aprendessem o caminho para o inferno, nada seria capaz de deter a horda demoníaca que invadiria o nosso planeta.

— Mas, o que esses caras ganham trazendo demônios para a Terra? — indagou Marco a Gavril num dos esconderijos da Teia em Praga.

— Poder — respondeu ele —, através da magia, a Ordo já consegue fazer contato com esse mundo maligno apesar de ainda não poder abrir um portal tão grande a ponto de trazê-los para o lado de cá. É por meio desse contato que eles conseguem emanar chamas das mãos e outros tipos de mágica. Aliados aos demônios, eles não encontrariam em nosso mundo adversários à altura e destruiriam a nossa realidade como a conhecemos.

Era com o intuito de abrir esse grande portal para o inferno que Adon buscava incessantemente a imortalidade. Ele vivia na Terra há muito mais tempo do que eu e agora que havia encontrado no sangue dos vampiros a chave para se manter jovem por um tempo indeterminado, ele estava muito perto de conseguir o seu intento. Eu precisava encontrá-lo o mais rápido possível e destruir o maldito antes que fosse tarde demais para o mundo.

Os cinco anos subsequentes foram bem movimentados para a Teia e destinei parte dos lucros obtidos pela Rassvet para financiar as incursões da organização pela Europa. Enquanto engenheiros elétricos, químicos, biólogos e até mesmo um físico se juntavam ao grupo, nós começamos a defender o mundo das forças das trevas que ameaçavam destruir a nossa realidade. Melhor equipados e favorecidos pelo avanço tecnológico mundial, as nossas missões eram cada vez mais bem-sucedidas.

Naquele período, de 1934 a 1939, a Teia foi até Belmopon, na América Central, para exterminar um grupo de criaturas rastejantes que estava aterrorizando as famílias de uma periferia; passou por Tegucigalpa para deter um vircolac irracional de dois metros de altura e ainda ajudou um espírito obsessor a fazer a passagem para o mundo dos mortos, após atormentar uma garota cega por anos seguidos em San José, na Costa Rica. De volta à Europa, continuamos a seguir os rastros da Ordo Ignis Veni e desbaratamos uma célula da seita que escravizava um vampiro adolescente em Madri, drenando o seu sangue em busca da imortalidade. Após eliminar os magistas malignos, o professor Douglas Rashford, o nosso ocultista, conseguiu libertar a mente do menino da influência mística e eu permiti que ele fosse embora sem qualquer agressão.

— Você tem certeza que quer libertar esse monstro por aí, Alexia? — indagou-me Nadine, ainda com seu rifle apontado para a cabeça do vampiro.

— Esse "monstro", como você diz, Nadine, é só um garoto. Ele não escolheu ser um vampiro e certamente já sofreu o bastante nas mãos da Ordem. Eu vou garantir a sua liberdade.

O menino-vampiro era pequeno e esquelético. Parecia muito assustado a olhar Nadine mirando em sua testa. Os seus olhos grandes e piedosos piscaram duas vezes num gesto de agradecimento em minha direção, e no instante seguinte, eu o deixei partir. Ele correu até uma mata vasta e escura batendo os pés descalços no chão de terra, e depois disso, desapareceu de vista.

Estávamos em Viena caçando dois fugitivos da Ordem do Portal de Fogo em primeiro de setembro de 1939 quando a Alemanha invadiu a Polônia. O país era uma ambição territorial de Hitler desde a Primeira Guerra Mundial, quando então a Alemanha havia perdido parte de suas terras para a Polônia. Naquele ano, o chanceler austríaco do Partido Nazista havia decidido retomar o território à força, indo contra os interesses da Inglaterra e da França que tinham um acordo de proteção com Varsóvia — a capital polonesa. As ações de Hitler haviam causado um desagrado mundial — além da invasão à Polônia, o mundo se preocupava com o crescente aumento de poder do Führer na Alemanha — e aquilo deflagrou a Segunda Guerra Mundial.

A contragosto, a maioria dos agentes da Teia tiveram que retornar aos seus países de origem e se alistar em suas respectivas forças armadas para lutar na guerra. Gavril tinha ascendência búlgara e se juntou ao exército que, nos primeiros anos, lutava pelo lado do Eixo — Alemanha, Itália e Japão —; Marco Polo voltou para Roma e integrou as forças italianas de Benito Mussolini; o professor Rashford era britânico e se uniu ao exército inglês contra o Eixo, pelo lado dos Aliados — Reino Unido, França, União Soviética e Estados Unidos — e vários outros membros da organização se espalharam pela Europa, começando a lutar numa batalha que ia totalmente contra seus ideais.

Entre 1939 e 1944, coube às mulheres da Teia continuarem o trabalho de combate às forças ocultas e seres fantásticos, o que garantiu mais algum tempo de sobrevida à nossa organização. Notícias de rituais ocultistas envolvendo nazistas fervilhavam agora nas redes de informação, e as Aranhas — como passamos a denominar o nosso grupo de garotas — partiram para a Alemanha na tentativa de desmantelar as suas ambições.

Em Düsseldorf, a quinhentos e sessenta e quatro quilômetros de Berlim, nós nos deparamos com um grupo dissidente da Ordo Ignis Veni que estava ajudando ocultistas nazistas a abrirem um portal para uma dimensão paralela a fim de trazerem para a Terra uma força poderosa que os ajudaria a vencer a guerra contra os Aliados. Quando chegamos ao estaleiro onde eles haviam montado uma estrutura gigantesca com duas hastes paralelas energizadas por um gerador elétrico ao lado do rio Reno, a abertura do portal já estava em estágio avançado. Um vento sobrenatural soprava em direção oposta à nossa posição parecendo querer nos sugar para dentro da película translúcida que se formava entre as duas hastes. Alguma coisa estava realmente se abrindo entre a nossa realidade e o outro mundo naquele momento e nós decidimos que não queríamos esperar para ver o que era.

Nadine liderou um grupo de outras cinco garotas que partiram para cima dos bruxos e dos nazistas com metralhadoras, dando o tempo necessário para que Jacqueline desse a volta por trás do estaleiro e armasse os explosivos que iam derrubar as duas hastes paralelas interrompendo a abertura do portal. Os alemães estavam fortemente armados e decidiram revidar, dando início a um combate que obrigou as Aranhas a recuarem. Eu era o elemento surpresa naquela operação e desci a campo para bater de frente com os bruxos. Felizmente, para minha sorte, os sete irmãos da Ordem haviam gasto boa parte das suas energias místicas para abrir o portal e não foi difícil superá-los. Eu não contava, no entanto, que eles também tinham um elemento surpresa esperando por mim, e naquele momento, eu fui atingida nas costas por dois tiros que me abalaram mais do que deviam. O portal ainda estava ativo ameaçando sugar tudo ao redor para dentro de si, fazendo-o se tornar ainda mais forte. Caída no chão, comecei a ser arrastada em direção a ele enquanto lutava para me manter consciente.

— Não devia ter se metido com a Ordem Negra, noctem daemonium — disse o sujeito de cabeça desnuda que saía das sombras empunhando um tipo de pistola que eu nunca havia visto a fumegar pelo cano —, diferente de Adon e a sua obsessão ridícula pela sua raça de sanguessugas, nós desprezamos vocês. Por isso, desenvolvemos várias maneiras de acabar com a sua laia.

A Ordem Negra era o grupo dissidente da Ordo Ignis Veni mais radical que havíamos encontrado e o seu modus operandi era diferente de quase tudo aquilo que Adon pregava com a sua seita. A arma que o homem careca me apontava era um aparato tecnológico desenvolvido por uma empresa alemã designada como Die Maschine, pioneira em armamentos e equipamentos de engenharia experimental. As hastes que vibravam um tipo de campo energético sobre as nossas cabeças, o gerador elétrico que as alimentava e até a máquina que comandava a abertura do portal eram todas invenções da tal empresa. Um novo tiro explodiu em meu ombro naquele momento e eu pude sentir o gosto de metal em minha língua. Eles tinham se baseado nas balas revestidas com nitrato de prata criadas pela Teia para desenvolver a sua arma e eu tinha certeza que não era a primeira vampira a sentir os efeitos devastadores daquela munição.

— A Die Maschine lhe manda os devidos cumprimentos, demônio. Gute Reise!

Usando um último resquício de força que me restava, eu impulsionei os músculos da perna e saltei sobre o alemão. Ele mirava a sua arma em minha cabeça comigo ajoelhada no chão e estava pronto a me executar quando usei a minha velocidade para contra-atacar. Senti a bala atingir o meu abdômen logo que me aproximei, mas aquele foi o último tiro que o careca conseguiu disparar. Eu destronquei o seu pescoço antes mesmo que ele pudesse dizer mais qualquer uma das suas frases arrogantes, e então, caí no chão, sentindo a prata me enfraquecer cada vez mais.

Ali perto, Jacqueline tinha terminado de armar os seus explosivos e ela surgiu para me ajudar a levantar. Mais além, os nazistas sobressalentes atiravam contra as Aranhas, protegidas atrás de contêineres de ferro nos estaleiros. Nós duas não tínhamos como alcançá-las.

— Vamos nos afastar daqui. Os explosivos vão detonar a qualquer segundo. Eu acionei o pavio.

As palavras da francesa se perderam quando uma explosão fenomenal pôs abaixo uma das hastes gigantes do aparato tecnológico, derrubando os seus destroços metálicos sobre as cabeças dos soldados alemães. Nós duas fomos arremessadas para a frente com o impacto da detonação e caímos do cais para dentro das águas frias do rio Reno.

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