Capítulo 45 - O ardil
O FUNERAL DE BRITTANY reuniu todas as famílias licantropas de Glenarm naquele início de noite. Ela estava vestida com uma túnica em pele de cervo e os longos cabelos crespos jaziam trançados, como costumeiramente ela os usava fora das missões dos Grealish. Gretta tinha feito questão de arrumar a filha antes da cerimônia de cremação. Ao lado do esposo, observava com serenidade a pilha de madeira onde se elevava a plataforma fúnebre. Seus pensamentos eram tranquilos por saber que, apesar do modo ríspido com que a garota havia partido, a sua morte tinha sido vingada pelos seus familiares.
Mason fez questão de dizer o quanto tinha orgulho da filha em seu discurso e emocionou a todos relembrando momentos de sua infância e do treinamento de luta que tivera ao lado dos irmãos Reece e Wolf. Como guerreira, Brittany era diferenciada. Mas, como pessoa, era inigualável.
— Sentiremos a sua falta, querida. Vá em paz e que Deus a acompanhe.
As demais famílias que também haviam perdido filhos, maridos, irmãs e primas na batalha em Zwei Flüsse aproveitaram o rito fúnebre para cremarem os seus mortos após Brittany. Por um longo período até o amanhecer, a floresta irlandesa se iluminou com as labaredas altas que queimavam as pilhas e pelas centelhas que se espalhavam pelo ar, algumas, indo em direção ao céu.
Akanni me acompanhou até a tenda reservada a mim na aldeia e nós ficamos a repassar tudo que havia dado errado na Alemanha, e como perdemos Thænael em seu momento de maior vulnerabilidade. Ainda estávamos cansados da viagem e ele precisava recuperar o joelho ferido em sua batalha contra o filho nefilim, assim, nos deitamos juntos na cama de palha da cabana e descansamos até que o dia voltasse a se tornar noite. Durante o luto dos Grealish, não teríamos outra opção a não ser esperar até que eles estivessem prontos para nos ajudar a caçar o nosso inimigo outra vez.
Alguns dias depois, eu consegui entrar em contato com o atual presidente da Rux-Oil, o meu amigo Saeid Al-Madini e, sem fazer muitas perguntas, ele me autorizou a usar um dos jatinhos da refinaria para que eu levasse os meus aliados de volta à Alemanha, para uma região próxima à cidade de Sttutgart. No caminho, sentada em uma das poltronas do avião, li em um jornal europeu matutino que o incidente no subúrbio alemão tinha sido abafado pela agência de informação controlada pela Célula. Segundo a matéria, um transformador de energia entrou em curto devido a tempestade elétrica que caiu sobre a cidade e isso causou as fortes explosões ouvidas pelos moradores locais naquela noite.
Depois daquelas manchetes jornalísticas e da limpeza local efetuada pelos homens de Stella, aparentemente, ninguém mais ousou questionar qualquer atividade sobrenatural na região, da mesma forma como tinha acontecido no caso de David Parker.
Após a sua derrota em Zwei Flüsse, os membros remanescentes da Ordem Negra foram aprisionados pelos agentes de campo da Célula, os mesmos que nos ajudaram com os explosivos que destruíram as duas torres de energia do gerador dimensional de Thænael. Logo em seguida, os bruxos foram removidos para um depósito de propriedade de Stella Brandt e lá permaneceram sob vigilância, até que nós decidíssemos o que fazer com eles.
— Por mim, eu enforcava os satanistas com os seus próprios intestinos — disse Bethany, em seu rompante de violência, quando Akanni e eu ainda pensávamos na melhor maneira de punir os ajudantes místicos do Concílio de Sangue. A garota britânica estava totalmente recuperada de seus ferimentos e tinha voltado a participar das missões com todo o seu vigor.
Em uma reunião a portas fechadas com o conselho deliberativo do clã Grealish, o anjo caído e eu decidimos que a melhor estratégia era mantê-los vivos e usá-los como trunfo de barganha, caso Thænael aceitasse trocá-los por algo que nos valesse a pena. Sabíamos de antemão que Kelvin Gallagher não era capaz de abrir portais de grande tecitura sozinho e que os sobreviventes da Ordem Negra eram tudo que o nefilim tinha agora, caso quisesse mesmo permitir a passagem de seus aliados das profundezas do Inferno.
— Mesmo que ele não queira propor uma troca justa pelos irmãos da seita, é possível que Thænael movimente os seus demais aliados para tentar libertá-los, o que vai nos permitir capturar os miseráveis em nosso próprio terreno — dizia Akanni, durante a reunião com Mason e os demais lobos Grealish. — Se os mantivermos seguros, poderemos ao menos usá-los como isca para pegar o seu mestre.
Stella Brandt havia treinado os seus principais agentes de campo para que eles fossem capazes de enfrentar criaturas das trevas como nós, mas também eram peritos em ações militares, visto que a maioria deles era formada por ex-soldados alemães pertencentes ao lado Ocidental do muro de Berlim. Todos eram altamente capacitados para conter os membros da Ordem Negra e impedir que eles escapassem, porém, algum tempo depois, algo bastante surpreendente acabou ocorrendo.
O galpão da Célula ficava estrategicamente localizado sob a sombra de uma velha fábrica de vidro desativada e, por ali, não havia muitos transeuntes passeando ou mesmo veículos com passageiros casuais transitando de um lado para outro. O lugar parecia uma antiga trincheira de guerra e era quase inteira cercada por cercas altas de arame farpado.
Naquela tarde, nós reunimos o conselho numa sala em anexo que ficava no final do corredor onde os bruxos da Ordem estavam presos. Um dos guardas que fazia a vigilância estava a postos com um fuzil de calibre grosso à porta da cela, enquanto a nossa permaneceu aberta, com as nossas vozes ecoando pelo corredor vazio em frente.
Em torno da mesa improvisada com uma tábua de madeira e bancos de cimento, estavam eu, Caihong Chen e Akanni de um lado, com Anton sentado entediado numa das cabeceiras. Na outra extremidade, estavam Mason, Bethany, Jack e Wolf, enquanto Gretta ocupava a outra cabeceira. Desde a morte de Brittany, a mulher corpulenta havia assumido um assento definitivo na Tertúlia da Lua e participava das missões de campo ao lado do esposo.
— Você tem certeza de que essa informação é válida? Alguém mais sabe sobre isso?
A pergunta de Mason em direção à feiticeira chinesa ao meu lado soou ríspida e havia um motivo para isso. Desde as mortes de seus dois filhos, o velho lobo britânico estava se sentindo farto de correr em círculos em busca de uma arma definitiva que destruísse Thænael. Ele não queria mais perder tempo com pistas falsas.
— Eu encontrei um manuscrito de Alanna em meio aos antigos grimórios que herdei da época do Conciliábulo Dubhghaill. Estava grafado em uma língua morta antiga, por isso demorei para traduzi-lo.
Mason e Gretta trocaram olhares. Havia impaciência nos rostos de Bethany e Anton.
— É algo sobre a quinta metade da Chave do Infinito?
A voz do garoto francês na cabeceira da mesa reverberou mais alta do que o normal. Mason o repreendeu com um meneio, mas não verbalizou nada a respeito da porta aberta atrás de nós.
— Sim, Anton — respondeu a feiticeira, se inclinando sobre a mesa. — Ao contrário do que pensávamos, Alanna não dividiu o artefato em apenas cinco partes, mas em nove.
Em tom de voz moderado, após o espanto de todos os presentes, a asiática mirrada explicou que a última parte da chave tinha sido fragmentada em cinco partes a fim de dificultar que mãos inescrupulosas tivessem acesso a ela. Segundo o manuscrito, as cinco metades restantes se encontravam em locais que já havíamos visitado antes e que só não sabíamos onde procurá-las.
— Em três dias, quero grupos pequenos espalhados pelos cinco locais em busca dos fragmentos do último bracelete — Mason havia aberto um mapa-múndi no tampo áspero da mesa e eu comecei a apontar os locais citados por Caihong Chen em sua explicação. — A Ilha de Páscoa e Rila nunca foram devidamente guarnecidas pelo conciliábulo, por isso, quero atenção redobrada das equipes que serão indicadas para esses lugares. Socotra e o Stonehenge são locais mais familiares, o que permite que tenhamos mais facilidade para procurar o que queremos achar lá.
— Eu fico com Socotra — responsabilizou-se Wolf, com confiança na voz. — Levarei alguns dos meus melhores soldados comigo e garanto que a metade do bracelete escondida lá estará em segurança.
— Então, eu vou com você — incluiu-se Anton, saindo da sua posição relaxada no banco de cimento e assumindo uma postura mais rígida. — Eu nunca viajei para aquelas paragens e sempre quis ver as árvores dragoeiros de perto!
Ele curvou os lábios num sorriso estúpido.
— Mas, e a quinta metade? — quis saber Gretta. — Onde ela foi escondida?
— Segundo as informações do pergaminho, a quinta metade é a maior delas e também a mais importante de todas. Alanna a escondeu no túmulo de seu marido, Nikulei Stratan. Além de mim e de alguns poucos amigos da época do conciliábulo, mais ninguém sabia que a minha amiga havia contraído matrimônio com um comerciante moldavo e que ele foi enterrado em Hîncesti, a cidade onde eles viveram. É por essa razão que a sua cripta jamais seria considerada como um esconderijo para a Chave do Infinito.
Fez-se silêncio por um segundo e todos em torno da mesa pareceram tentar captar sons oriundos do lado de fora. O assovio característico do guarda colocado a postos diante da cela dos magistas da Ordem Negra tinha cessado e passos apressados foram ouvidos em direção aos fundos do galpão.
Deixamos a sala um a um e, quando olhamos em direção ao final do corredor, a uns oito metros de distância, o guarda de Stella Brandt jazia desmaiado no chão com uma marca de agressão no rosto. Anton foi o primeiro a verificar as celas dos prisioneiros e constatou que um deles havia escapado. Os outros sete em nosso poder não haviam tido tanta sorte.
— O guarda está vivo — checou Mason, aferindo a pulsação do homem parrudo caído. — Deve ter sido atingido por trás e acabou se chocando contra a parede — e ele indicou uma marca de sangue nos tijolos aparentes da parede lateral.
— Será que o fugitivo conseguiu ouvir toda a nossa conversa? — foi a pergunta de Chen, observando a minha expressão tranquila.
— Eu espero que sim. Caso contrário, teremos encenado essa reunião à toa.
Havia cumplicidade nos rostos de todos. Akanni lançou um olhar além das cercas de arame farpado que circundavam o imóvel e disse, em seu tom mais confiante:
—Saberemos muito em breve se a presa mordeu a isca.
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