.Penúltimo Capitulo.

Uma semana depois.

Eu estava sentado na minha cama, olhando para a janela, e me sentindo preso em um vazio, onde pensamentos vagavam sem rumo. Perguntava-me quando minha vida havia mudado tanto. Eu mal saía de casa—era da escola para casa, de casa para a escola—uma rotina monótona que se repetia todos os dias. Já fazia um tempo desde que tinha visto Otávio, depois que seu irmão pagou sua fiança. Ouvi boatos de que ele havia voltado para o exército, tentando regularizar a pensão para seu filho. Assim como ele, Nina também havia partido, voltando para os cursos extras que fazia fora do Brasil. E eu, mais uma vez, estava sozinho.

Naquela tarde, estava sentado na mesma roda de pessoas, no ginásio do grupo de apoio.

"É um prazer que esteja de volta, sentimos sua falta," disse a coordenadora do grupo, olhando em minha direção.

Ergo uma das sobrancelhas, me sentindo deslocado. A mulher então desviou o olhar para Tina, que ainda continuava com suas terapias secretas, já que sua mãe não acreditava no que a garota falava. Ao olhar para ela, sou transportado de volta aos meus próprios dias de tortura. Uma garota tão jovem como ela não deveria passar por isso.

"Ele me acordou de madrugada... Ele sempre quer mais, e eu não. Eu não entendo porque Filipe faz isso comigo... Eu sou uma garota má!"—Tina confessou, a voz carregada de dor.

"Não, Tina, você é uma ótima garota..."—disse a coordenadora, tentando confortá-la.

"Já está na hora do lanchinho?"—perguntou Kate, uma garota ruiva com um estilo meio punk, quebrando o clima tenso.

"Ainda não, Kate."

Ela revirou os olhos e se calou, e eu mal pude conter o riso, tampando a boca para não rir da situação.

Após a reunião, fiquei do lado de fora do ginásio, esperando por Gael.

"Vou me atrasar."—dizia a mensagem que ele me enviou.

"Seu nome é Erick, né?"—disse a mesma ruiva, passando por mim.

"Sim," respondi, com um sorriso amarelo.

Ela estendeu a mão para mim. "Katherine Fernandes."

"Prazer."

Ela olhou ao redor, aparentemente à procura de algo. "Sua carona não veio te buscar?"—perguntou.

"Está meio atrasado," respondi, cruzando os braços para me esquentar do frio que começava a chegar.

"Se não for um incômodo, como foi o seu..."

"Foi um grupo."

"Uau, nossa, como você conseguiu? Eles foram presos?"

"Na época, tive medo de falar quem eram, até porque não os conhecia. Fui sequestrado!"—respondi, tentando manter a calma.

Ela se aproximou e se encostou na parede pichada de grafite.

"Comigo foi diferente," disse ela, sua voz baixa. "Fui pelo meu próprio marido. Diferente de você, eu denunciei para a polícia. Ele continua preso."

A buzina do carro de Gael interrompeu nossa conversa, e eu me assustei. Kate riu de mim.

"Você vem na semana que vem?"—perguntou ela, caminhando de costas em direção ao ginásio.

"Sim!"—respondi, entrando no carro.

Gael me olhou e sorriu. "Como foi hoje?"

"Estou me sentindo melhor. Alguma notícia?"

"Me desculpe, nada de Otávio. Acho melhor você ir conversar com o irmão dele. Vocês têm que resolver a situação entre vocês dois."

*

Olho as horas no celular, eram 4:56 da manhã, e o cansaço da noite em claro começava a pesar. Faltavam poucas horas para ir à escola, mas o sono simplesmente não vinha. Meus pensamentos eram interrompidos por um barulho vindo da varanda do meu quarto. O coração acelerou, e um frio percorreu minha espinha. Levantei-me, hesitante, e vi a sombra de um homem. Filipe estava preso, eu sabia disso, mas e se fosse outra pessoa? Com medo, me escondi no banheiro, deixando apenas uma fresta para espiar. Decidi que, se precisasse, o atacaria de surpresa.

O homem invadiu meu quarto, e num impulso, saí do banheiro e pulei nas costas dele.

"Sai daqui!"—gritei, batendo em sua cabeça.

"Ai... calma, sou eu... Otávio!"

Ahm? Quem?

Ele me jogou na cama, e eu rapidamente acendi a luz do abajur. Era Otávio. Ufa!

"O que está fazendo aqui?"—perguntei, ainda nervoso.

Ele se sentou na cama.

"Como invade meu quarto assim? Eu podia ter te machucado."

"Machucou!"—disse ele, esfregando a cabeça.

"Bom, agora já sabe. Nunca me assuste assim!"—falei, rindo.

Ele sorriu de volta e se deitou de costas na cama.

"Onde você estava? Ficamos preocupados."—perguntei.

Otávio se levantou e caminhou até o banheiro, mas antes que pudesse responder, a porta do meu quarto se abriu.

"Erick, tudo bem? Ouvi um barulho."—era Gael, sem camisa e usando apenas uma cueca preta.

"Está tudo bem, só acordei assustado!"—menti.

"Quer que fique com você?"—perguntou ele, sussurrando.

"Não."

"Não?"—ele pareceu estranhar minha resposta.

"Não! Estou bem, já disse."

"Tudo bem, volte a dormir. Até amanhã..."

Gael fechou a porta do quarto. Otávio saiu do banheiro e se encostou no batente da porta.

"Por que invadiu meu quarto?"—perguntei, curioso.

Me levantei e caminhei até onde ele estava, tentei beijá-lo, mas ele desviou.

"Vim te chamar para fugir comigo."

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Fugir? Assim, do nada?

"Está brincando comigo?"—perguntei, me sentando na cama.

Ele revirou os olhos e se sentou ao meu lado.

"Cansei, cansei de ficar aqui. De ter a vida limitada, de ver as mesmas pessoas... Eu quero fugir. Vivi dois anos numa escola do exército à toa? Tem que servir para alguma coisa. Então pensei: que tal dar uma escapada... Vou voltar depois, só quero curtir um pouco a vida. E quero curtir com você. Quer ir comigo, Erick?"

Fiquei sem palavras, completamente chocado.

"Você está ficando maluco, Otávio. Se eu fugir, Gael ficaria louco. Meus pais iriam surtar, nunca fiz algo assim. E você já pensou no seu filho? No seu irmão?"

"Nada disso me importa, a única coisa que eu quero está aqui, na minha frente. Você!"

Fiquei calado, sem saber o que responder. Ele se levantou, me deu um beijo e caminhou até a janela.

"Vou te esperar depois das aulas, aqui!"—disse ele, antes de pular da varanda.

Corri até a janela, preocupado se ele havia se machucado, mas ele já estava correndo. Subiu na moto e, em poucos segundos, desapareceu na escuridão da noite.

*

Vince me olhava do outro lado da sala. Ele era o tipo de pessoa que sempre queria provocar, com sua arrogância e jeito mimado.

"Erick, cadê seu namoradinho?"—disse ele, referindo-se a Otávio, com um tom debochado.

"Não sei, não era você que queria ele?"—respondi, encarando Vince.

"Senhores, vamos parar de conversinha fiada? Tem dever no quadro, copiem!"—interrompeu o professor, trazendo a sala de volta ao silêncio.

*

Após o final das aulas, encontrei Gael me esperando dentro do carro da polícia.

"Desculpe, vim direto do trabalho," ele disse, sua voz soando cansada.

Apenas assenti, entrei no carro, e ele começou a dirigir.

"O que houve? Você está tão calado, tão estranho, desde ontem," Gael questionou, com a preocupação evidente em seu tom.

Olhei pelo retrovisor do carro e vi meu reflexo. Ele estava certo. Eu estava estranho, e talvez, no fundo, tinha motivos para isso.

"Não foi nada, estou bem," respondi, tentando parecer convincente.

*

Depois de enfrentar o trânsito no caminho de casa, finalmente chegamos. Entrei tranquilamente, tentando me acalmar.

"Mãe, cheguei," anunciei.

"Menino Erick..." Neuza começou a falar, mas minha atenção foi imediatamente atraída por Otávio, que estava ao lado dela.

"Sr. Wruck, por onde andou?"—Gael perguntou, ainda tentando entender a situação, enquanto seu braço instintivamente se enroscava ao redor da minha cintura, num gesto protetor.

"Só quero conversar com Erick, posso?"—Otávio pediu, olhando diretamente para mim.

Gael me olhou com incerteza, mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, eu respondi:

"Eu quero."

Saí dali, indo para os fundos da casa, com Otávio logo atrás de mim.

"Pensou no que eu disse?"—ele perguntou.

"Pensei."

"Então, o que decidiu?"

"Que não!"—respondi, firme.

"Por que não?"

"Porque decidi que não posso parar de viver minha vida para viver a de outra pessoa. Otávio, eu te amo, mas não me faça escolher entre minha vida e a sua, porque sempre vou escolher a minha. Eu já vivi muito tempo por outra pessoa, e agora estou tentando seguir o meu próprio caminho."

"Então é assim que vamos acabar?"—ele perguntou, com um tom que misturava decepção e raiva.

"Não precisamos acabar!"

"Se não vai comigo, por que devemos ter um laço afetivo?"

"Porque gostamos um do outro," respondi, tentando apelar para o que sentíamos.

"As coisas não funcionam assim, não comigo."

Eu não acreditava no que estava ouvindo. O que tinha acontecido com ele?

"Qual é o seu problema?"—gritei, irritado.

"Fala baixo."

"Não me manda falar baixo! Faz um favor para mim... Sai da minha casa, agora."—ordenei, sem paciência.

"Espero que você se arrependa da sua decisão."

"Saiba de uma coisa, não me arrependo de nada!"

Ele passou por mim, sem dizer mais nada, e saiu das minhas vistas.

Por dentro, meu coração estava partido. Me arrependo de ter tomado todas as decisões relacionadas a Otávio. Por muito tempo, eu vivi pensando apenas nele, sem conseguir viver minha própria vida. Mas agora, isso mudou. Eu não ia mais deixar que alguém controlasse o rumo que eu queria seguir.

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