capitulo 17
Dias haviam se passado desde minha última conversa com Otávio. O carro dele parou em frente à minha casa, o motor ronronando suavemente. Otávio me olhou com um olhar que misturava compaixão e incerteza, como se estivesse pesando as palavras antes de falar.
"Olha, se não quiser falar, vou entender."
O vento soprou, levantando meus cabelos e trazendo consigo o cheiro familiar de terra molhada e grama recém-cortada. Dou um sorriso sacana, me perguntando se ele estava mesmo falando sério. Esse cara, com seus olhos azuis e jeito confiante, se importava mesmo comigo? Se nem minha mãe parecia se importar assim, por que ele faria isso?
"O que você quer de mim? Porque, como você percebeu, sou muitíssimo complicado."
Ele cruzou os braços e me olhou firme, mas havia uma suavidade na expressão dele que eu não esperava.
"Acha que não me importo com você?"
O ar frio mordeu meu rosto, e as folhas secas, ainda um pouco úmidas da chuva da noite passada, estalaram sob meus pés enquanto me mexia desconfortavelmente.
"Sim!"
"Por quê? O que te faz pensar nisso?"– questionou, sua voz séria, mas ainda assim gentil.
"O último garoto em quem confiei... Eu transei com ele e, depois, puf! De repente, fiquei mal falado na escola. E ele saiu como o gostosão do caralho."
A brisa trouxe o cheiro distante de alguma coisa sendo queimada, talvez uma lareira acesa em alguma casa próxima. Olhei para o chão, as memórias pesando em mim. Quando voltei a encará-lo, vi que Otávio parecia triste, como se estivesse tentando absorver minha dor.
"Quando Vince fez isso contigo?"– perguntou, a voz dele soando como se quisesse me proteger de algo.
Ele sabia. Alguém já havia contado a ele a história. Me perguntei se ele achava que podia consertar as coisas, mas não tinha certeza se isso era possível.
"Já faz um tempo," digo, a voz saindo mais baixa do que eu pretendia.
Desabotoo o cinto e saio do carro. O ar frio bateu no meu rosto, o vento brincando com os cabelos que caíam sobre a minha testa. Otávio saiu também, vindo até onde eu estava. Encosto-me no carro, sentindo a superfície fria do metal nas minhas costas. Ele cruzou os braços, respirando fundo antes de falar:
"Pensei que éramos amigos."
Sinto o cheiro de gasolina e óleo, misturado com o aroma de algo fresco, talvez as flores no jardim ao lado.
"Qual é? A gente não é amigo. Pessoas como você não saem com pessoas como eu. É assim que funciona... Os caras do futebol saem com as gostosas, e pessoas como eu não saem com ninguém. Eu não sei por que pensei que seria diferente."
O olhar de Otávio era firme, mas havia algo vulnerável ali, como se ele estivesse tentando entender.
"Não sou igual a ele. Mas se em algum momento te fiz pensar que era, me desculpe."
Levanto-me, sentindo o vento empurrar levemente contra mim enquanto caminho em direção ao portão de casa. O metal frio da maçaneta é uma estranha sensação familiar nas minhas mãos.
"Está tudo bem," digo, olhando para ele uma última vez antes de entrar.
Dentro de casa, o silêncio me recebe, cortado apenas pelo som distante do vento que continua a soprar lá fora. O peso das palavras ainda ecoa em mim, misturando-se com o cheiro reconfortante do café fresco que alguém deve ter feito mais cedo. Mas a verdade é que nada parecia realmente estar bem.
Alguns dias haviam se passado, e tudo parecia estar voltando aos conformes, pelo menos na superfície. Otávio agora saía com as garotas mais populares da escola, exatamente como eu havia temido. Ele merecia alguém melhor, alguém que pudesse estar ao seu lado sem todo o peso que eu carregava. Mas esse alguém claramente não era eu, não agora, não neste momento em que parecia estar tropeçando constantemente em pedras e me cortando em cacos de vidro invisíveis, mas afiados.
Vince finalmente conseguiu o que queria: Otávio só para ele. Como as coisas mudam rápido... A promessa de que ele era diferente parecia agora uma mentira amarga. No começo, Otávio me fez acreditar que não seria como os outros, que nosso laço era algo especial. Mas bastou ele começar a jogar e sair com o time de futebol para que tudo mudasse. Ele se adaptou tão facilmente, deixou para trás a amizade que tínhamos como se nunca tivesse importado. Eu deveria ter previsto isso, mas parte de mim realmente queria acreditar que ele era sincero.
O velho ditado dizia: "Antes só do que mal acompanhado." Talvez houvesse uma verdade crua nisso. Então, aqui estou eu, sozinho novamente, cercado por pessoas que não querem ser meus amigos, mas que parecem contentes em assistir de longe enquanto me despedaço. Dizem que eu deveria levar o fardo de ser bem-sucedido como uma advertência e ser punido por isso, talvez até me sentindo culpado pelo que aconteceu comigo. Mas não sinto mágoa deles; não vale a pena. Ainda assim, sei que tudo que vai, volta. A lei do retorno é implacável.
As coisas com Nina também não estão boas. Ela está passando por problemas maiores que os meus, e isso tem me deixado preocupado. Já faz duas semanas que ela não aparece na escola. Marquei um dia para visitá-la, mas sempre que eu ia, sua mãe me dizia que ela estava muito doente. Então, decidi fazer uma visita surpresa.
Quando toquei o interfone, Mariah, a governanta, abriu a porta com um olhar surpreso.
"Sr. Schimutz, veio sem avisar," disse ela, a surpresa evidente na voz.
Dou um sorriso simpático e já entro.
"Sim, quero saber como está minha amiga."
Ela me olha com certa hesitação.
"Me desculpe, mas a Srta. Tavares acabou de sair acompanhada pela Sra. Tavares."
Dou de ombros, tentando esconder minha decepção.
"Uhm... Volto outra hora, então."
Ela confirma com a cabeça, e Mariah me acompanha até a porta. A sensação de que Nina estava me evitando era difícil de ignorar. Resolvi esperar por ela no estacionamento do prédio onde morava, tentando entender o que estava acontecendo.
O tempo passava devagar. Duas horas e meia se arrastaram, e eu já estava agoniado por tanta espera. Liguei o motor do carro, preparado para ir embora, mas então vi Gael saindo do elevador.
Por que Gael estaria aqui? A ideia não fazia sentido, e isso só aumentava minha inquietação. Me abaixei atrás do volante, observando com atenção até ver o carro da delegacia sair do prédio. Decidi segui-lo, mantendo uma distância razoável para que ele não notasse.
Gael virou à esquerda, entrando em uma rua com prédios antigos e coloridos. Acelerou um pouco e virou à direita, estacionando o carro em uma rua sem saída. Ele saiu do carro, acendeu um cigarro e se encostou no veículo, cruzando os braços como se estivesse esperando por algo ou alguém.
Respirei fundo, sentindo um frio na espinha. Aquilo que eu estava fazendo não era do meu feitio, mas a curiosidade me dominava, um impulso quase irracional. Saí do carro, enfrentando-o de frente, mesmo que uma parte de mim estivesse questionando o que diabos eu estava pensando.
"O que estava fazendo na casa da Sra. Tavares?" perguntei, minha voz carregada de tensão.
Gael levantou o olhar para mim, um sorriso lento e cínico se formando nos lábios.
"Olá, baby," disse ele, com uma confiança que só aumentava meu desconforto.
A ousadia de confrontá-lo dessa forma era nova para mim, mas havia algo em Gael, uma presença que sempre me deixava nervoso. Talvez fosse o modo como ele me observava, ou o fato de que estava sempre envolvido em algo que eu não conseguia compreender completamente. E agora, com a incerteza sobre Otávio e as mentiras que pareciam cercar a amizade que um dia pensei que tínhamos, a ideia de que todos ao meu redor estavam escondendo algo começou a me consumir.
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