capitulo 12

Olhei para a televisãozinha no canto da sala, onde o diretor fazia um anúncio ao vivo.

"Esta semana teremos uma orquestra sinfônica militar aqui na escola. Alguns de nossos alunos vão se apresentar. Espero que todos compareçam para prestigiar seus colegas... e, por favor, não sejam um bando de molengas."

Enquanto o diretor falava, meu olhar se desviou para Nina. Ela estava sorrindo para mim, mas seu sorriso era triste, como se soubesse o quanto esse evento significava para mim. Sempre sonhei em tocar com uma orquestra militar, e a oportunidade estava agora diante de mim.

De repente, a voz do diretor cortou o ar.

"Sr. Schimutz, compareça à minha sala, por favor!"

Meu coração gelou ao ouvir meu nome. Os olhares dos colegas da sala se voltaram para mim, alguns no fundo riam, outros pareciam curiosos. Me levantei lentamente, sentindo os olhares pesados sobre mim, e caminhei em direção à porta. A ansiedade apertava meu peito, e cada passo parecia mais pesado que o anterior.

"Pode ir, Erick. Depois você pega o restante da matéria com a Srta. Tavares," disse o professor, com um tom compreensivo.

Levantei-me, peguei meus materiais e segui até a secretaria. Ao chegar, me debrucei sobre a bancada, onde a Sra. Silva, uma mulher trans que sempre se mostrava calorosa, estava.

"Como está bonita hoje," elogiei, tentando aliviar a tensão.

"Como vai, Erick? Aprontou alguma coisa?" Ela sorriu, levantando-se da cadeira e acompanhando-me até a porta da sala do diretor.

"Sabe que nunca apronto!" respondi, piscando para ela.

Ela abriu a porta, e o diretor estava em pé, de frente para a parede de vidro que oferecia uma vista panorâmica do campo de futebol. Era uma estratégia deliberada: os pais dos alunos eram atraídos pela visão do imenso campo de futebol americano, convencidos de que seus filhos teriam uma ótima experiência escolar.

"Sr. Schimutz, estava esperando por você," disse o diretor, sem desviar o olhar do campo.

"Percebi," respondi, apontando para o campo com um sorriso irônico.

"Essa grama está verdinha... Mas vamos ao que interessa. Sente-se, por favor." Ele gesticulou para a cadeira.

Sentei-me, tentando manter a compostura.

"Está tudo bem com o senhor?" perguntei, tentando descobrir o motivo da convocação.

Ele confirmou com um aceno de cabeça.

"Vamos direto ao ponto. Se eu não estou enganado, há oito meses você faltou sem justificativa. O que está querendo?"

"Eu estava fazendo acompanhamento psiquiátrico. Não estava pronto para voltar," murmurei, sentindo um peso nas palavras.

"Entendo. E sobre a inscrição para tocar com a orquestra militar?"

"Eu não ando muito bem," respondi, minha voz quase um sussurro.

O diretor me olhou com uma expressão mais suave, como se começasse a compreender a gravidade da situação.

"Olha, Erick," disse o diretor, com um tom firme, mas compreensivo. "Você nunca foi de faltar, sempre foi um bom aluno. Eu conheço seu caso e não te julgo pelo que aconteceu. No entanto, se continuar faltando, pode acabar não se formando com seus colegas."

Olhei para ele, enquanto a Sra. Silva se levantava da cadeira e vinha até mim. Seu gesto era um misto de preocupação e apoio.

"Prometa que vai se esforçar," ela disse, colocando a mão no meu ombro.

"Estou tentando," respondi, minha voz carregada de frustração. "Mas é difícil ser julgado por algo que não fiz."

O diretor ficou em silêncio, parecendo ponderar sobre minhas palavras. Levantei-me e ele me puxou para um abraço reconfortante.

"Saiba que sempre terá um amigo aqui. Conte comigo," disse ele, com um sorriso sincero.

"Pode deixar," respondi, sentindo uma leve onda de alívio.

Saí da sala e caminhei até o campo de futebol, onde estava acontecendo o teste de Otávio. Sentei-me na arquibancada, observando os jogadores em campo, sob o comando do treinador Henrique, que apitava e gritava instruções.

"Wruck, sua vez!" ouvi o treinador chamar.

Otávio se posicionou no campo, enfrentando o time adversário, que incluía Vince. Murilo, amigo de Vince, chutou a bola para o campo adversário, e todos começaram a correr. Otávio pegou a bola e avançou, driblando vários jogadores antes de derrubar Vince com um movimento habilidoso. Com uma jogada precisa, ele marcou um ponto, tirou o capacete e celebrou sua conquista. Vince, furioso, se levantou do chão e tentou confrontar Otávio, mas o treinador e outros jogadores intervieram para separar os dois.

O treinador apontou para o vestiário e ordenou que todos se dirigissem para lá.

Corri até Otávio, que estava parado no meio do campo quando me viu.

"O que foi aquilo?" perguntei, curioso e preocupado.

"Vince estava sendo um idiota," respondeu Otávio com um tom despreocupado.

Dou de ombros, entendendo que, às vezes, o esporte pode ser tão imprevisível quanto os próprios jogadores.

"Então, entrou?" perguntei, tentando manter o tom leve.

"Sim, o treinador disse que preciso evitar brigas," respondeu Otávio, com um olhar desanimado. "E você? Como foi a conversa com o diretor?"

"Foi só uma conversa. Você parece um pouco chateado. Está tudo bem?"

"Sim, só me incomoda um pouco o preconceito das pessoas," admitiu ele, sua expressão refletindo descontentamento.

Fiquei cabisbaixo, sentindo um peso na consciência.

"Eu te avisei. O Vince está agindo assim por minha causa," murmurei, sentindo culpa.

"Não se preocupe com isso," Otávio disse, tentando tranquilizar-me. "Eu não me importo com o que falam. Se você quiser, pode ligar para o seu padrasto e dizer que vai embora comigo..."

"Não, vou para a casa do meu pai," respondi.

"Ah, entendi. Então, até amanhã?" perguntou ele, com um sorriso que parecia raro.

Concordei com a cabeça, e ele entrou no vestiário.

Enquanto esperava, ouvi uma voz familiar chamar:

"Te achei!"

Virei-me e vi meu pai, um sorriso largo iluminando seu rosto. Era raro vê-lo tão feliz.

"Papai..." corri para ele e o abracei com força.

"Não sou recebido assim desde o fundamental," ele disse, colocando-me no chão e ajeitando seu paletó preto. Passou a mão pelos cabelos grisalhos com um sorriso nostálgico. "Está tudo bem, filhote?"

"Sim, tudo ótimo. Como você está, Gigante?" perguntei, dando um leve soquinho em seu braço, um apelido carinhoso que eu tinha para ele por causa de seus braços fortes.

"Vamos para casa," disse ele, com um olhar protetor e contente.

•••

Chegamos ao apartamento de luxo do meu pai, no centro de Palmas. Ele morava lá com sua esposa, Diana Ayla, uma renomada doutora esteticista na cidade.

"Cadê a Diana?" – pergunto, enquanto examino um jarro com gravuras japonesas.

"Ela foi visitar sua avó no hospital. Desde que soube do que aconteceu com você... Ela está muito abalada."

Meu pai hesita, não conseguindo completar a frase. O desconforto em torno do assunto me faz sentir um peso ainda maior.

"Abuso!" – digo com firmeza, forçando as palavras a saírem.

"Sim, ela está realmente mal."

"Eu fui a vítima e, de algum jeito, ela está pior do que eu!" – murmuro, uma risada amarga escapando dos meus lábios.

"Erick..."

Olho para ele, nossos olhares se encontram. A preocupação em seus olhos é palpável, mas eu, por algum motivo, não sinto a mesma intensidade.

"Eu não estou bem. Minha mente está cheia de flashes confusos. Está tudo muito pesado. Podemos mudar de assunto?"

Ele concorda com um aceno. Meu pai tira o paletó, ficando com o colete e uma gravata vermelho vivo sobre a blusa social branca. Enquanto aguardávamos o almoço na mesa de jantar, ele tenta desviar a conversa.

"Quem era aquele garoto com quem você estava conversando?"

"Um colega novo da escola. Ele não desiste de tentar ser meu amigo."

"Pareciam bastante próximos. Alguma paquera?" – pergunta, com uma expressão curiosa.

Ele realmente quer saber isso? Não consigo acreditar.

"Você quer saber mesmo?" – pergunto, cruzando os braços.

"Não, na verdade, não!" – ele murmura, rindo um pouco.

"Só quero te ver feliz." – diz ele, a preocupação em seu tom.

"Obrigado, mas não há nada entre mim e aquele garoto. Nunca vai rolar."

Mais tarde, Filipe apareceu na casa de meu pai. Durante um tempo, Filipe foi um amigo e professor de violoncelo. Mas, após tudo o que aconteceu, o interesse dele pelo violoncelo desapareceu, e eu, por minha vez, parei de frequentar as aulas. A paixão pelo instrumento, antes uma parte importante da nossa conexão, virou pó.

"Não sabia que estava aqui," ele comentou ao me encontrar.

"Vim almoçar. E você, o que faz aqui?" – pergunto.

"Estou ajudando a Diana com o violão," Filipe responde.

Dou de ombros.

"Bom, estamos sozinhos," digo, me jogando no sofá e voltando a assistir minha série favorita.

Filipe se aproxima de mim. Sempre soube da paixão dele por mim, mas sempre deixei claro que via nossa relação apenas como amizade. Mesmo assim, ele insiste em querer mais.

"Filipe, você pode se afastar um pouco?" – digo, tentando manter a distância.

"Estamos sozinhos. Não seria nada demais se beijarmos um pouco," ele sugere.

Levanto do sofá, indignado.

"Eu preciso de um amigo agora, não de um namorado."

"Eu não quero ser apenas seu amigo, Erick. Eu quero mais. Eu quero você," Filipe insiste, se aproximando e tocando minha cintura de forma indesejada.

"Sabe qual é a definição de insanidade? É fazer a mesma coisa repetidamente e esperar um resultado diferente. Sempre será não!" – respondo, dando uma joelhada no seu centro.

"Puta miserável!"– ele se aproximou de mim, me pondo contra, sua mão apertava meu rosto na parede. Sinto seu pau ereto dentro da calça.

Ele continua a falar:

"Você ia amar. Ia ver que tudo é muito mais que só grana e luxúrias, e que eu posso te fazer gozar sem mesmo te tocar. Te fazer gozar com nenhum outro homem já te fez, te penetrar gostoso, enfiar meu pau na sua..."

"Sai fora dessa casa, agora!"

"Se eu não sair, o que vai fazer?"– perguntou.

Estendo meu braço sobe a mesa com alguns vasos artesanais de vidro, e jogando um no chão, que se quebrou em pedaços. Ele me soltou assustado, aponto para ele um dos cacos.

"Vai embora!"

"Calma Erick. Estava só brincando!"

"Nunca mais vou deixar tocarem no meu corpo sem meu consentimento! Vai embora."

Após a discussão e a confusão na casa do meu pai, eu só queria descansar e desaparecer por um tempo. O motorista do meu pai me deixou em casa, e, de dentro do carro, avistei uma cena que me deixou perplexo: Gael e Otávio estavam em meio a uma discussão acalorada.

Assim que o carro parou, saí rapidamente e me dirigi até onde estavam. Aproximei-me no meio dos dois, interrompendo o confronto. Ambos se calaram imediatamente, com Otávio me olhando surpreso e Gael com uma expressão igualmente chocada.

"O que está acontecendo aqui?" – pergunto, tentando entender a situação.

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