Capitulo 1

6 meses antes...

"Mãe, cheguei!" – minha voz ecoa pela casa, carregada de uma familiaridade quase mecânica.

Ela aparece na porta da cozinha, como sempre, com o cabelo escovado e uma nova roupa. O enorme anel de diamante que meu padrasto lhe deu brilha à luz da tarde. Sempre me pergunto se ela é realmente feliz ou se aquele sorriso no rosto é apenas mais uma máscara que ela veste tão bem.

"Ah, meu filho, como foi a aula de violoncelo?" – sua voz é doce, mas há uma distância nela, como se estivéssemos em universos paralelos, apenas cruzando caminhos por acaso.

"Foi boa. Espero que possa ir ao meu concerto no final do mês." – minhas palavras saem sem muita esperança. Sei como as coisas funcionam aqui; o trabalho de Gael, as desculpas, as ausências.

Ela me abraça e beija meu rosto, mas sinto o gesto como uma formalidade, um ritual que repetimos dia após dia.

"Tenho que ver com Gael, talvez ele irá trabalhar de madrugada nesse dia, mas irei ver se dá para eu ir." – ela passa a mão pelos meus cabelos, como se tentasse compensar a falta de certeza em sua resposta.

Dou de ombros, já acostumado a essas incertezas.

"Neuza, estou com fome." – grito, mais por costume do que por necessidade, enquanto me encaminho para a cozinha.

"Oi menino Erick. O que quer comer?" – Neuza pergunta, tomando um gole de água. Há algo reconfortante em sua presença; ela é a constante nesse mundo de mudanças e superficialidades.

"Pode preparar aquele delicioso bolo de chocolate com menta?" – peço com um sorriso que, no fundo, é mais um pedido de carinho do que de comida.

Ela ajeita a roupa e ri.

"Não resisto a essa cara, faço e te chamo quando estiver pronto."

Eu a observo enquanto ela se move pela cozinha, pegando os ingredientes com a mesma destreza de sempre. Neuza tem um jeito de transformar qualquer tarefa em algo quase mágico, como se o simples ato de fazer um bolo pudesse curar qualquer ferida. 

Subo as escadas, cada passo parece mais pesado que o anterior, como se o peso das últimas semanas estivesse finalmente caindo sobre mim. Quando chego ao meu quarto, abro a porta e sinto um alívio imediato ao ver o espaço familiar. O quarto, com suas paredes em tons neutros e móveis minimalistas, é um santuário onde posso me esconder do resto do mundo.

Fecho a porta atrás de mim e me jogo na cama com um suspiro profundo. A sensação do colchão macio e dos lençóis contra minha pele é quase um abraço, algo que me envolve e me protege, mesmo que por pouco tempo. Fico ali, deitado de barriga para baixo, afundando no conforto daquela cama enorme que parece feita para me acolher em momentos como este.

Enterro o rosto no travesseiro, sentindo o tecido macio contra minha pele, e fecho os olhos. Tento deixar a mente se esvaziar, mas os pensamentos continuam rodando, como uma fita quebrada que não para de repetir os mesmos trechos. A presença de Gael, o olhar preocupado da minha mãe, o jeito como tudo parece fora do lugar...

Mas aqui, debaixo das cobertas, o mundo parece distante. Deixo que o colchão me abrace, afundando um pouco mais nele, e por um breve momento, me permito acreditar que estou seguro.

~*~

Sento-me à mesa, o som ritmado do bater dos ovos e do açúcar me acalma, trazendo uma paz momentânea que só encontro nesses pequenos gestos de carinho.

Enquanto Neuza mistura os ingredientes, deixo meus pensamentos vagarem. Penso em como as coisas mudaram desde que Gael entrou em nossas vidas. O olhar distante da minha mãe, sempre preocupada com ele, me faz sentir que, de alguma forma, fui deixado de lado. É como se eu fosse apenas um coadjuvante na própria história, um espectador assistindo à minha vida passar.

Mas Neuza, com seu jeito simples e afetuoso, ainda consegue me fazer sentir visto. É um conforto estranho, como um cobertor quente em uma noite fria, algo que eu sei que não dura para sempre, mas que aproveito enquanto posso.

"Que delícia, adoro seu bolo." – digo entre uma mordida e outra, sentindo o doce familiar derreter na boca. Neuza alisa meus cabelos devagar, como se tentasse me acalmar, me trazer de volta para um lugar seguro.

Conheço Neuza desde sempre, e ela é a única pessoa que sinto realmente presente. Seu toque é o único que me faz sentir algo mais que vazio.

"Olá, Neuza..."

A voz de Gael corta o ar, fria e calculada. Enquanto Gael entra na cozinha, não posso evitar compará-lo a um daqueles modelos de capas de revista que minha mãe costumava admirar. Ele é um homem de presença marcante, com músculos definidos que parecem esculpidos e uma postura confiante que transparece em cada movimento. Seu corpo é forte e bem trabalhado, como se passasse horas na academia.

O corte de cabelo curto, sempre impecável, e a barba bem aparada dão a ele um ar de cuidado, como se cada detalhe de sua aparência fosse pensado para impressionar. Mesmo a forma como ele se veste, com roupas que parecem feitas sob medida, acentua ainda mais sua figura robusta e imponente.

Mas o que realmente me incomoda é o olhar dele. Há algo nos olhos de Gael que me faz sentir pequeno, como se ele pudesse ver através de mim, ver coisas que eu preferiria esconder. Ele tem um jeito de observar que é tanto intimidante quanto desconcertante, como se estivesse sempre um passo à frente, sempre controlando a situação, o que fazia sentido com seu trabalho na polícia.

Cada vez que ele se aproxima, sinto uma tensão crescer no ar, algo que me faz querer manter distância, mesmo que por fora eu tente parecer indiferente. Gael não é apenas o padrasto que se impôs na minha vida; ele é uma presença constante e inescapável, alguém que parece dominar qualquer espaço em que entre.

Ele entra na cozinha com sua habitual postura autoritária. Delegado de uma delegacia em Palmas, ele tem esse jeito de preencher o espaço com sua presença, como se o ambiente tivesse que se moldar a ele.

"Oi Erick, como foi a aula de hoje, o professor te tratou bem?" – ele pergunta, mas é difícil dizer se há interesse genuíno ou se é apenas mais uma obrigação cumprida.

"Normal." – respondo, minha voz soando quase indiferente, enquanto mordo mais um pedaço do bolo. Tento não olhar para ele, mas sua presença é sufocante.

"Que bom! Neuza, ponha também um prato para mim, quero comer com meu filho." – o tom possessivo me incomoda. Ele nunca me forçou a chamá-lo de pai, e eu nunca o considerei como tal, mas essa insistência em dizer "meu filho" sempre me deixou desconfortável.

Minha mãe é vinte anos mais velha que Gael, e eu, com meus 16 anos, vejo nele mais um intruso do que um pai. Me levanto da mesa, e Neuza, sempre solícita, se põe ao meu lado querendo lavar meu prato.

"Não precisa, Neuza, eu faço isso sozinho." – digo, tentando manter algum controle sobre o que me resta de autonomia. Ela sorri, um sorriso genuíno, e me deixa em paz.

"Bom garoto, Erick. Vou ver se sua mãe quer alguma coisa..." – ela diz, saindo da cozinha.

Gael ainda está sentado, mastigando o último pedaço de bolo. Quando se levanta, ele se inclina sobre a bancada de mármore branco, me observando. Sinto seus olhos em mim, pesados, analisando cada movimento meu.

"Está tudo bem?" – pergunto, tentando esconder a inquietação que começa a crescer em meu peito. Algo no seu olhar me deixa desconfortável, como se ele pudesse ver além do que eu quero mostrar.

Ele confirma com a cabeça, mas o jeito como ele se aproxima me deixa em alerta.

"Erick... Pode pegar um copo de água na geladeira para mim." – sua voz tem um tom que não consigo decifrar, mas obedeço sem questionar.

Pego o copo, abro a geladeira e entrego a ele. Gael se aproxima ainda mais, e sinto sua respiração ofegante, quase como se estivesse ansioso por algo. Seu peito musculoso sobe e desce de forma ritmada, e a tensão entre nós cresce.

"Está tudo bem?" – repito, mas dessa vez minha voz treme um pouco, traindo o medo que começa a se formar dentro de mim.

"Sim! Melhor do que nunca!" – ele afirma, mas algo no tom dele me faz duvidar.

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