Capitulo 9 - ELAK pt.2

Não há ninguém atrás de nós, escapamos por pouco. Meu coração está acelerado, aconteceu tudo tão rápido.

Olho para o lado e vejo Marina chorando, e sinto uma pontada no peito, o pai dela morreu por minha causa, mentiu para me proteger. E eu vou me vingar.

- Me desculpa Marina, não queria envolver sua família. Não queria que seu pai......

- Tudo bem Elak, não é culpa sua, só aconteceu. - diz Marina. -

- Porque isso tudo está acontecendo? Ou melhor, o que está acontecendo? - ela pergunta

Me acomodo no banco do carro e levo as mãos no rosto.

- Não sei, talvez por causa das coisas que faço com o tempo e as flechas, não sei. Descobri que sou filho de um Caçador. Você já ouviu falar em histórias de caçadores? - respondo.

- Você está me dizendo que aquele papo todo sobre caçadores e bruxas e blá blá... É real? E que você é filho disso tudo? - diz Marina

- Isso, é isso aí. - respondo

Minha vida mudou de um dia para o outro.  Em um dia eu era um garoto comum, treinando para o campeonato de arco e flecha, no dia seguinte estava atirando flechas nas cabeças de pessoas que estavam me caçando.

Olho a todo momento pelo retrovisor, para garantir que ninguém nos seguiu até aqui. Acho que a Marina percebeu meu nervosismo, ela toca minha perna e se forma um leve sorriso no canto de seu rosto.

- Vamos ficar bem, calma. - diz Marina.

- Você viu o que acabou de acontecer? Estão atrás a gente. Porque está tão confiante assim? - digo

- Porque tenho você para me proteger - ela responde.

Me afundo ainda mais no banco do carro. A cena dos homens de máscara invadindo minha casa, não sai da minha cabeça. Nunca tinha visto nada parecido, os olhos negros pareciam abismos sem fundo, me arrepio e tento afastá-los da minha mente. Fecho os olhos e pego no sono.

Sou despertado com o som do rádio do carro, Marina canta bem baixinho uma de suas músicas preferidas intercalando com bocejos de sono. Ela não percebe quando acordo.

- Deixa que eu dirijo um pouco, sua cara está péssima - digo.

- Obrigada pelo elogio, mas realmente preciso fechar meus olhos um pouco. - ela responde.

O céu está totalmente tomado pelo brilho das estrelas em meio a escuridão da noite, Marina está dormindo no banco de trás.

Chego no ponto mais alto do litoral, a última fronteira do leste com as outras linhas.  Encosto o carro em cima de um penhasco, e me deito sobre a grama, cruzo os braços e apoio a cabeça sobre minhas mãos . Daqui consigo ver a imensidão do mar. A imensidão do céu estrelado. Tento pensar em meus pais, mas não penso em nada, tenho poucas memórias sobre eles, não me recordo o rosto da minha mãe, minha madrasta se livrou de todas as fotos e coisas que lembravam dela.

Me senti sozinho por muito tempo, até o dia em que conheci a Marina. Sorrio ao lembrar daquele dia.

Estava no ginásio da escola, treinando arco e flecha. Do outro lado o time de futebol treinava para o campeonato. Marina estava sentada na arquibancada estudando física. Ela estudava todos os dias no mesmo horário e no mesmo lugar. E nesse dia não foi diferente.

Ela estava lá, com o rosto enfiado nos livros, eu mal conseguia me concentrar, meu olho buscava o seu rosto a todo momento. Um bola de futebol se aproximava rapidamente em sua direção. Desviei meu arco e desacelerei o tempo, acertei bola entes que ela se pudesse se choque com a cabeça dela. A flecha passa a poucos centímetros de sua cabeça e acerta a bola em cheio causando um os touro que certamente poderia ser escutado pelo ginásio inteiro.

Todos os olhares estavam sobre mim, o  olhar dela estava sobre mim. Meu coração acelera, solto meu arco sobre chão e corro em sua direção. Seu sorriso é reconfortante, e expressa sem palavras de que ela está bem.

"Capitão, ele foram vistos Perambulando em Maltrez"

"Causaram mais problemas no deserto"

"Senhor. Os jovens que escaparam da batalha do Sul estão seguindo ao Oeste, em direção ao litoral"

Desperto de meus pensamentos com as vozes do rádio anunciando que os garotos conseguiram escapar, e estão mais perto do que imaginei. Me sento sobre a grama e respiro fundo.

- Se sairmos agora talves chegaremos ao Oeste antes do amanhecer. - diz Marina

Ela está no banco da frente e projeta metade de seu corpo para fora da janela enquanto fala. Os cachos do seu cabelo dançam com o vento em seu rosto.

Assinto com um discreto sorriso, e volto para o carro.

- Espero que eles tenham respostas para isso tudo que está acontecendo. - digo.

- Também espero, mas devemos pensar que eles podem estar mais perdidos do que nós estamos. - ela responde.

Olho para a janela, na intenção de acabar com esse assunto.

- Vou seguir pela floresta, ganharemos mais tempo.

- Depois de tudo o que aconteceu não duvido nada das lendas que contam sobre essa. floresta, é bom ficarmos atentos - diz ela.

Seguimos pela estrada até chegarmos a floresta. Entramos, está cada vez mais escuro, as copas das árvores cobrem o céu, como uma caixa se fechando, densa e levemente sombria.

Meus braços se arrepiam, sons assombrosos, barulho de passos, animais ferozes se atacando. A única iluminação é dos farois do nosso carro, vultos vem e vão através da luz, animais talvez, prefiro pensar que sim. Marina se afunda no bando abaixa a cabeça  e segura firme em meu braço.

Uma coisa me chama atenção em meio a escuridão, um par de olhos, azuis, iguais aos oceano, olhando fixamente em nossa direção. Não consigo ver a qual criatura pertence, pelo pouco que conheço, parecem ser de lobos. Reduzo a velocidade e me aproximo de vagar, os olhos somem em meio a escuridão.

- Você viu aquilo? - digo

- Aquilo...? - Marina responde

- Aqueles olhos.. Deixa pra lá, deve ser coisa da minha cabeça.

- ELAK CUIDADO!

Fecho os olhos e paro tudo ao meu redor, uma árvore está a centímetros de nós acertar, freio o carro e desvio a tempo de evitar a colisão. Estamos preso, a árvore está atravessada na estrada. Não tem como fazer desvio com toda essa escuridão, o risco de batermos em alguma outra coisa é ainda maior. 

- Fique no carro. - alerto a Marina.

- Não saia, é perigoso. - diz ela

Pego meu arco e desço do carro, a flecha está pronta para acertar a primeira coisa que se mexer por aqui. Vejo vulto atrás de mim, disparo a primeira flecha, acerto uma árvore, vários morcegos vem em minha direção. Abaixo instintivamente para me proteger, mas ele passam direto por mim. Me levanto e corro em direção ao carro.

Antes que eu abra a porta, escuto um impacto no teto. Saco uma flecha e aponto em direção a criatura. Sinto algo subindo pela minha perna, uma cobra, balanço de um lado para o outro tentando afastar e consigo afastá-la. Volto minha atenção para o teto, seguro o tempo no exato momento em que o rosto de uma criatura esta colado ao meu. Sua boca está aberta revelando longos e afiados dentes, seu rosto é peludo e seus olhos vermelhos feito sangue.

Volto o arco para sua forma de bastão e golpeio a criatura no rosto a afastando do carro. O tempo volta ao normal, a criatura avança sobre mim, me derruba sobre o capô e tenta freneticamente arrancar minha cabeça. Consigo empurrá-la com meus pés, e acerto outro golpe, agora em suas pernas, ou patas, não decidi ainda, ela cai sobre a vegetação. A criatura se vira e corre, se escondendo na floresta.

Meio segundo depois, dez pares de olhos vermelhos surgem em meio às árvores. Entro no carro e tranco as portas. Marina me olha assustada, e eu retribuo na mesma intensidade.

Novamente um barulho, acontece sobre o teto do carro, dessa vez mais pesado. Mas logo desce e se volta em minha direção, de frente para minha porta. Aqueles olhos azuis, estão me encarando novamente, um lobo, como pensei, branco como a neve e se destaca em meio a escuridão.

- Vamos, me siga - diz o lobo

- O que mais falta acontecer? Ele está mesmo falando!?

- Não faça perguntas, só segue - diz Marina.

Acelero o carro, o lobo vai na frente me guiando pela floresta, entre as árvores e troncos caídos. Os olhos vermelhos permanecem em todos os lados, como se fossem espectadores, não mais uma ameaça. Tenho a sensação de que a criatura que nos guia é a líder do bando, mas porque estaria nos ajudando.

Estamos nos aproximando do final da floresta, a frente no horizonte o sol está nascendo, as copas das árvores estão se abrindo, revelando um amanhecer que acalma toda tensão vivida durante a noite.

Paramos assim que a claridade nos atravessa. Olho para traz onde o lobo havia parado minutos atrás. Ele não está mais lá. Me intriga o fato de ver um garoto parado ao lado de uma árvore, não me lembro de ter visto ele ali antes. Ele parece ter minha idade, um ou dois anos mais novo talvez, sua pele branca destaca as várias pinturas de símbolos que não faço a menor ideia do significado, ele veste apenas um calça 3/4 preta. O garoto me observa, por alguns minutos e antes que pudesse concluir qualquer pensamento ele se transforma na criatura, se vira e vai embora. Apenas sorrio, em gratidão.

A partir desse ponto a estrada é uma imensidão de retas. Consigo ver a frente um posto de baterias, e é justo o que precisamos nesse momento. Há alguns carros parados, um deles me chama a atenção, um garoto e uma garota estão sentados sobre o capo.

Eles parecem não notar quando nos aproximamos. A garota pega um cubo de gelo do seu copo e o faz criar formas em suas mãos. Suas roupas estão com algumas manchas de sangue seco. São eles, tem que ser eles! Penso comigo mesmo com uma empolgação gritando em meu corpo. Tenho que manter a calma, não sei como serei recebido.

Desço do carro e dou o primeiro passo em direção a eles. Mas antes que eu continue uma forte luz surge diante de nós, parece um tipo de portal, e dele posso contar doze soldados de com uniformes pretos com o mesmo simbolo que estava no uniforme na foto do meu pai. São Caçadores. Eles estão montados em cavalos negros de olhos vermelho.

Recuo e puxo Marina para se esconder atrás do carro. Dois dos caçadores descem e caminham em direção a lanchonete. Outros três vão em direção aos garotos. Tudo acontece muito rápido, a garota de cabelos negros é surpreendida e agarrada pelo pescoço, ela grita pra o menino que caminha em direção a lanchonete. Minutos depois já estão todos presos. Não tiveram tempo de lutar.

- Preciso ajudá-los. - digo me levantando.

- Não Elak, eles são muitos, nossas chances são poucas. Vamos pensar em alguma coisa aí ajudamos eles, ok?

- Colocaram algo no pescoço deles, deve ser algum tipo de bloqueio, consegue ver? No pescoço.

- Sim, consigo ver, será que é por isso que não estão lutando? - Marina responde.

- Não sei, mas não posso esperar para descobrir.

Miro em uma das garotas que estavam na lanchonete, seu cabelo loiro e longo preso em um coque no topo da cabeça deixa o disposto bem a amostra. Alvo fácil para minha flecha.

Acertei. Ela deve ter sentido muita dor, o sangue escorre de imediato, causei uma bela ferida em seu pescoço, não posso esquecer de me desculpar mais tarde. o dispositivo é levado junto a flecha para longe da visão de todos. Por sorte a garota percebe o que acabou de acontecer e balança a cabeça fazendo movimentos até que seu cabelo se solte do coque se esparramando sobre seu pescoço.

Um dos caçadores com uma faixa dourada no braço esquerdo, está posicionado a frente dos demais. Aparenta ser o líder, ele é assustadoramente grande, seu belo e sua barba  prateada da cor do meu cabelo, trançada que chega até o peito, seu pescoço é marcado por uma imensa cicatriz, parece que alguém tentou o de captar. Ele segura uma espada longa cravejada de pedras azuis.

Os garotos estão todos acorrentado e são obrigados a montarem nos cavalos. O líder bate com a espada no chão, as pedras azuis brilham e se agitam em movimentos circulares, e um portal se abre. Um por um os caçadores vão passando pelo portal.

- Vamos, rápido - digo puxando Marina pelo braço para que me acompanhe.

Espero até que o último homem passe pelo portal. Corremos o mais rápido com conseguimos, o portal está quase se fechando. Desacelero tempo para tentarmos chegar. Conseguimos, por pouco, atravessamos.

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