Capitulo 21 - LUNA

Passo a noite toda sentada na janela em meu quarto, ainda não tenho certeza que ficar aqui é uma boa ideia. Gregor causou uma má impressão para todos nós, mas ele não é diferente dos outros bruxos que passam a vida dedicado a cumprir ordens e realizar missões. O instituto onde cresci, assim como a maioria das organizações formadas por bruxos e feiticeiros são mantidos e respondem a uma ordem superior, mais conhecida como a Corte Runenma, onde se concentram os anciãos, conselheiros, o líder maior, lá também é onde se fazem e cumprem a lei. É uma espécie de governo do mundo da magia.

Mas nem sempre os vimos como autoridade maior, nos últimos anos, nós do instituto de San Marye pensávamos que a corte havia nos esquecido, começamos a passar por momentos ruins, tivemos que nos manter com nossos próprios recursos, poucos, porém o suficiente para alimentar e abrigar todos que dependiam de nós.

Olho através das árvores e vejo os primeiros sinais do amanhecer, sinto um frio em meu estômago, não sei como Gregor irá reagir ao perceber que manteremos ele como prisioneiro ficaremos aqui.

Está na hora, tenho que agir primeiro. Não me visto para a missão, deixo de lado minha capa e coloco uma camisa branca que peguei em alguma loja em San Marye, em cima de uma das mesas no canto do quarto está um pequeno aparelho, um rádio comunicador, foi o que disse Carlo quando me entregou pouco antes de partir com os outros, segundo suas instruções eu conseguirei me comunicar com eles a qualquer momento apenas apertando um botão lateral, coloco o rádio em um dos meus bolsos e desço para o lado de fora da casa.

Não há ninguém aqui, melhor assim, prefiro resolver isso sozinha, mas não demora muito até que Gregor desça lentamente os poucos degraus em frente à entrada da casa. Seus olhos negros se fixam em mim, sua expressão fica intimidadora.

- Vejo o amanhecer, mas não vejo ninguém além de nós aqui, onde estão todos? - ele pergunta.

- Estão dormindo, houve uma mudança de plano, vamos permanecer aqui por mais alguns dias - digo

- Isso é ridículo, você sabe muito bem que o lugar mais seguro para todos nós é sob a proteção dos Runenma

- Sei..., mas essa decisão não cabe só a mim, hoje vivo porque fui salva por essas pessoas, confio neles e confio nos seus planos.

- Não seja tola, não se orgulhe do que se tornou. Ora, você passou uma vida de privações, sendo controlada.

- Do que está falando Gregor? O que sabe sobre mim. - pergunto

- Luna Morgryde, talvez eu saiba muito mais sobre você do que você mesmo saiba.

- Me conte, e logo descobriremos - digo

- O que Rakrom disse é verdade, a Corte Runenma foi responsável por uma terrível massacre, bruxos matando bruxos. Após alguns rebeldes se voltarem contra a corte buscando a queda da soberania Runenma, a corte reuniu os bruxo e bruxas mais poderosos de Aland, entre eles, sua mãe é claro, a bruxa mais talentosa, a preferida para um dia assumir o legado do líder supremo. Até que sua mãe se envolveu com Max, líder dos bruxos rebeldes. Assim que você nasceu, seu poder causou um desequilíbrio no mundo da magia, então a corte exigiu você como pagamento pela traição da sua mãe - ele diz.

- Mas ela não me entregou...

- Ao invés disso ela lhe entregou para Anna que te trouxe para a vilarejo esquecido de San Marye, que desperdício de talento - ele conclui.

- Se minha mãe me enviou para San Marye e me impediu de crescer na Corte ela deveria ter um bom motivo. - respondo.

Tudo acontece muito rápido, um disparo, gritos ecoam através das árvores. Gregor estende a mão em minha direção e me envolve em um escudo de gelo, soldados saem de todos os lados da floresta, em poucos segundos eles cercam a casa. Não são soldados comuns, todos têm o mesmo olhar, os olhos negros e sombrios, seus rostos são pálidos, as veias cinzas saltam por debaixo da pele branca. Um dos caçadores está aqui, ele parece maior e ainda mais forte do que nosso último encontro na fortaleza, mas há algo diferente, no lugar de seu curto cabelo castanho tem enorme cicatriz. O caçador surge por entre as árvores montado em um cavalo marrom, comum por essas regiões.

Claryce e Marina correm em minha direção, Claryce se lança para dentro do escudo de gelo, me fazendo atravessar e cair sobre a grama. Ao meu lado Marina projeta um pequeno campo de magia em torno de nós.

O Caçador desce do seu cavalo e empunha sua espada, ele caminha em direção a casa, Gregor tenta impedi-lo lançando uma barreira de gelo entre o caçador e a casa, eles se olham brevemente

- Elas estão aqui, não é mesmo? - diz o caçador.

Gregor não o responde, ele fecha seus punhos, em uma de suas mãos o fogo dança como se tivesse vontade própria, e na outra mão ele empunha uma adaga de gelo. O caçador esboça um breve sorriso pelo canto da boca e caminha em direção ao garoto.

- Saiam daqui, levem todas até a corte, confie em mim. Eu vou tentar detê-los - diz Gregor.

- Marina, Claryce, saiam daqui, sigam a trilha pela floresta e levem as bruxas até a corte, eu alcanço vocês - digo.

As garotas correm em direção a casa, os soldados tão alguns passos para tentar impedi-las, mas param em seguida. De repente tudo escurece, nuvens escuras cobrem o céu sobre nós. A escuridão toma a floresta em pleno dia. Em pouco tempo já não se vê muita coisa além da escuridão. Dezenas de pares de olhos, das mais variadas cores surgem através da escuridão. O Uivo de um lobo corta o silêncio, aos poucos eles vão se mostrando e ganhando forma, uma alcateia, de dezenas de lobos.

- Ora, quanto tempo eu não os via, cachorrinhos..., mas dessa vez não estamos aqui atrás de vocês, portanto fiquem fora disso antes que vocês virem uma espécie extinta - diz o caçador.

Um último lobo se junta a alcateia, seus olhos são azuis iguais as pedras de quartzo usadas pelos ricos comerciantes de San Marye. Ele se aproxima de nós enquanto os outros lobos se unem em torno da casa.

O caçador aponta sua espada em direção a casa, os soldados avançam empunhando espadas e rifles. Os lobos dão um passo à frente e exibem seus grandes e afiados dentes. O primeiro tiro é disparado. Estendo minha mão em direção ao lobo antes que seja atingido, a bala cai diante dele. O lobo rosna enquanto o fixa seus olhos sobre o soldado, eles avançam correndo em movimentos alternados desviando de todos os disparos, ao se aproximar do soldado o lobo salta e crava os dentes no pescoço do homem.

Os outros soltados apontam suas espadas para o lobo sujo com o sangue da sua vítima. O combate entre lobos e soldados é eminente e pelo visto ninguém está disposto a recuar.

Em meio a batalha consigo ver ao Horizonte por de trás das árvores as últimas mulheres deixando a casa. Mas percebo que não fui a única que as vi. O caçador ordena que seu cavalo avance em minha direção. Procuro umas das esferas do meu bracelete presa em meu punho. Pressiono a esfera do fogo em minha mão, no mesmo segundo ela se transforma em uma pequena chama vermelha, mas o suficiente para tentar pará-lo.

Gregor é um bruxo igual a mim portanto não pode criar elementos, apenas controlá-los, não sei qual a origem do seu fogo ou a formação do gelo, mas com certeza tem haver com seus olhos, o direito é vermelho feito sangue já o esquerdo tem o tom de um lago congelado no inverno.

O caçador montado em seu cavalo levanta sua espada e começar a gira em movimento circulares, seus movimentos criam uma ventania deixando o controle das chamas uma tarefa difícil. Gregor também entende assim como eu que o fogo é inútil nessa batalha, então Gregor estende sua mão e espinhos de gelo são lançados em direção ao caçador, rapidamente ele abaixa sua espada e ataca os espinhos de gelo os cortando ao meio.

Aproveito a distração do caçador e coloco minhas mãos sobre o chão. Aos poucos o solo começa a tremer e uma fenda se abre vagarosamente até alcançar o caçador, o cavalo relincha e se inclina para trás assustado o jogando sobre o chão. Gregor empunha uma espada feita de gelo e vai em direção ao caçador que se levanta rapidamente e saca sua espada.

O som agudo do entrave das duas espadas causa arrepios pelo meu corpo o caçador movimenta sua espada tão rápido que é quase impossível acompanhá-la, Gregor já não consegue atacar, ele apenas se defende dos inúmeros ataques diferido.

"Me deixe ajudar" uma voz ecoa em minha cabeça. O colar de pedra vermelha presa em meu pescoço começa a aquecer. Fecho os olhos e pressionou a pedra sobre a palma da minha mão. Meu coração acelera, sinto meu corpo ficar quente e em pouco tempo sinto como se uma onda de energia quisesse me afogar.

Um pequeno arbusto queima em chamas um pouco mais a frente, sou atraída pelas sombras que o fogo projetada sobre o chão, estendo minha mão em direção ao arbusto, as sombras se agitam e deslizam pelo chão em minha direção "agora você pode controlar tudo o que quiser", escuto a voz em minha cabeça.

Gregor ainda está encurralado, mas se defende bem dos ataques do caçador, caminhos alguns passos em direção a eles, as sombras me acompanham. O homem derruba Gregor com um chute em seu peito, ele ergue sua espada e em seguia o ataca novamente, o caçador para com a espada ainda cortando o ar, seus braços estão envolvidos por uma mancha negra, mas por pouco tempo, o suficiente para que Gregor se levante e venha até mim.

Estendo a mão até o arbusto em chamas, o fogo aumenta as sombras provocadas pelo fogo se agitam, uma silhueta negra se levanta das sombras, meus olhos são atraídos em direção a silhueta, faço com que o fogo me acompanha, agora a silhueta está em chamas e se arrasta silenciosamente por trás do caçador que avança até nós com a espada em suas mãos.

A silhueta em chamas o envolve como um abraço, ele cai de joelhos rugindo em dor. Tento me concentrar em mantê-lo envolvido pelo fogo o máximo de tempo possível, sinto minha energia se esgotando, não sei se conseguirei segurá-lo por muito tempo.

Um dos soldados percebe que sou eu quem controlo a sombra e aponta seu rifle em minha direção e dispara. O tiro passa longe de onde estamos, graças ao o lobo branco, ele segura o braço do soldado pela boca e o arremessa para dentro da floresta. Fico espantada ao ver o lobo se transformando em um garoto, seu corpo é marcado por símbolos e linhas perfeitamente desenhados.

- Vão embora agora, Claryce está esperando vocês na floresta, irei mandar reforços para que lhe protejam no caminho! - diz o garoto.

Restam poucos soldados ainda em pé, mas eles não atacam, apenas se agrupam e recuam, estão assustados, a alcateia é numerosa, sete ou oito vezes a quantidade de soldados que sobreviveram. Penso que essa é a oportunidade de sairmos daqui sem sermos perseguidos.

Corro junto com Gregor para dentro da floresta, o céu ainda está escuro. A nossa frente consigo enxergar um pequeno foco de luz. Me aproximo o mais rápido que consigo. Como eu pensava são elas, Luna e as bruxas estão lá nos esperando.

- Vamos, me sigam, conheço um caminho mais rápido - diz Gregor. 

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