Capitulo 18 - ELAK
Subo até um dos quartos que estou alojado. Procuro a foto do meu pai, ela está em péssima qualidade, mal consigo ver nada. Droga! Meu coração está acelerado, uma sensação estranha em meu estômago. Fechos os olhos e encosto minha testa sobre o vidro frio da janela.
Escuto o som da Marina abrindo a porta, dá um passo em minha direção, mas é hesita em continuar. Ela segura meu arco que estava encostado em uma das paredes e mira em um canto vazio apenas por distração.
- Ei, em que está pensando? - ela diz.
- Você acha que... Sei lá, aquele homem, Rakrom, ele é meio... Digamos que familiar? Te lembra alguém? - Digo
- Vocês têm os mesmos olhos, sem mencionar que são os únicos que conheço com os cabelos cor de prata.
- Vou procurá-lo - digo.
- Não é um bom momento, você precisa descansar.
O sol que atravessa a janela do meu quarto pousa direto em meu rosto, dormi pouco e não muito bem, me sinto cansado. Levanto do jeito mais cuidadoso que consigo para não acordar a Marina.
Hoje é o dia que voltaremos até a fortaleza, só de pensar no que nos aconteceu da última vez me gela o estômago. Visto meu uniforme, toco o local onde a nova costura esconde o que já foi o símbolo dos caçadores. Apanho meu arco o prendo em minhas costas e caminho até o banheiro. Fico de frente para um espelho preso a parede, por um momento esqueço a intrigante semelhança entre mim e o caçador.
Abro a torneira e deixo a água escorrer, o barulho me acalma um pouco. Passo as mãos molhadas pelo meu rosto sentindo seu toque gelado. Pela pequena janela do banheiro vejo os arredores do casarão, não tinha percebido a quantidade de crianças e mulheres que trouxemos conosco. Levo um pequeno susto ao ouvir alguém bater em minha porta.
Abro a porta, são duas crianças, o garoto segura uma bandeja com pães e sucos. Uma outra garota está atrás dele, tentando disfarçadamente se esconder. Percebo agora que todas as crianças vestem as mesmas cores, com os símbolos e detalhes em dourado sempre presente.
- Pediram para eu deixar esses pães - diz o menino
- Obrigado - digo.
Mal termino de segurar a bandeja e as crianças correm rindo pelo corredor. Fecho a porta e vou até a cama, deixo a bandeja ao lado da Marina e a observo por alguns instantes. O frio na barriga volta ao lembrar que ela está nisso por culpa minha, ela corre perigo estando comigo, mesmo sendo uma escolha dela ainda me sinto culpado. Tenho vontade de me desculpar por tudo, mas poderia parecer uma despedida, então apenas dou um beijo em seu rosto e sussurro um até logo.
Ainda é muito cedo, vou até o telhado da casa, aqui de cima não vejo Luna ou a Charlott, talvez nem tenham acordado. Me levanto e tiro o arco das costas, vou aproveitar que ainda é cedo para praticar. Me concentro no algo a alguns metros à frente, bem à frente das copas das árvores que escondem o casarão, meu foco é uma pinha a menor pinha no topo do maior pinheiro da floresta. Fecho os olhos e concentro em minha respiração, abro os olhos e o tempo está devagar.
- Se você erguer um pouco mais as mãos e as alinhar na altura dos ombros talvez você não precise calcular tanto o ângulo de disparo. - diz Rakrom.
Me mantenho focado no alvo e em minha respiração, me susto um pouco, eu não percebi quando ele se aproximou e sua presença me deixa um tanto intimidado.
- Qual é grandão? O que você entender de arco e flecha? - digo.
- Na verdade garoto esse arco é..... - Ele diz.
Charlott e Luna o interrompem gritando no quintal da casa.
- Ei seus molengas tão com medo de voltar? Vamos logo - diz Charlott.
Descemos do telhado e nos reunimos em frente à entrada da casa, estão todos aqui. Eu e Charlott vestimos o mesmo uniforme preto que Rakrom com a diferença do símbolo dos caçadores que ele carrega no peito. Não pretendemos demorar nessa missão, dois ou três dias no máximo.
- Prontos? - diz Rakrom.
Acenamos com a cabeça de forma positiva, o caçador com movimentos lentos golpeia o ar com sua espada abrindo uma pequena fenda bem em nossa frente, e entra em seguida. As crianças curiosas correm em volta de nós, empolgadas com o que está acontecendo.
Charlott me olha com um sorriso no rosto enquanto prende seu cabelo em um coque.
- Com medo garoto das flechas? - ela diz.
Passo a mão arrumando meu cabelo para trás. Enquanto a observo retribuindo o sorriso.
- Não! Mas pode ir na frente - digo
Sou o último a passar pelo portal, chego ao outro minha cabeça começa a rodar, me a joelho com a sensação de mal-estar, meu estômago parece que vai sair pela boca. Mesmo após me levantar ando com dificuldades em meio ao chão irregular com pedras e grama molhada. Charlott para ao meu lado, ainda com aquele sorriso irônico e coloca a mão em meu ombro, no mesmo momento me sinto bem.
Estamos de frente para os muros da enorme fortaleza, está exatamente como da última vez que a vi, não há sinais de luta ou uma pedra fora do lugar. O céu que recobre o castelo e coberto por nuvens escuras, como uma mistura de cinza e roxo. Os ventos são quentes e tão fortes que mal consigo abrir os olhos.
Caminhamos de vagar para não chamar a atenção até um amontoado de pedras. Não abaixamos sobre a terra na intenção de nós escondermos, Rakrom saca um pequeno punhal de seu cinto e desenha um pequeno nada na areia úmida do chão.
- Bom, eu não conheço muito bem o castelo e as chances de nós virem chegar é grande, portanto, estejam prontos para um ataque rápido e silencioso - diz Rakrom.
- E se entrarmos pelos túneis, não há guardas andando por lá. - Digo.
- Eu nunca os vi, não sei se posso nos levar para lá - Ele responde.
- Ele está bem ao nosso lado. - Respondo.
Aponto para a direita, indicando que além do pequeno rio está a entrada para os túneis. Rakrom sorri e retira sua espada da bainha e golpeia o ar, e novamente está lá, uma fenda sobre o ar. Dessa vez ela nos leva para dentro dos túneis, ela não está como antes, o lugar está todo tomado por escuridão, não há qualquer tido de iluminação e sinto apenas as poças de água que cobrem boa parte dos meus pés.
Não trocamos uma palavra, tentamos nos guiar pelos sons vindo da superfície, os mesmos sons de passos perfeitamente sincronizados e vozes gritando ao darem ordens. Rakrom está caminhando em minha frente e me esbarro nele ao perceber que está parado, o som do relinchar de um cavalo ecoa pelos túneis, como se soubesse que estamos aqui e está pedindo socorro.
-Achei você Ícaro. Garotos fiquem aqui, eu já volto! Se mantenham vivo - diz Rakrom.
Ele corre pelos corredores e em alguns segundo não o vemos mais.
- É impressão minha ou ele voltou para cá por um outro motivo. - Digo.
- Maldito! Como vamos voltar? Não faço a mínima ideia de como voltar - diz Charlott.
- Não importa, estamos aqui com um objetivo, então seguiremos o plano. - Digo
Continuamos seguindo pelos corredores, tento focar meus olhos procurando o local onde eu a Marina subimos da última vez. Lá está, a cadeira ou pelo menos o resto que sobrou dela depois de ser arremessada quase em minha cabeça, sorrio com ao relembrar.
Charlott sobe primeiro, ela se abaixa e estende a mão para que eu possa subir. Não me atento aos detalhes, mas pelo que parece ela está igual a última vez que a vi, o enorme trono permanece vazio, mas dessa vez não estamos só. Os barulhos de passos e pessoas conversando ecoam pelos corredores. Caminhamos lentamente em direção a porta e esperamos até que não haja mais sinal da presença de soldados.
Estico a mão para tocar a maçaneta, mas ela gira e a porta se abre antes que eu a toque, o soldado que entra se assusta ao me ver e pouco depois ele arregala os olhos, sua pele fica branca ressaltando as veias rochas sobre seu rosto, e então vai ao chão. Uma faça está fincada em sua cabeça, Charlotte o golpeou antes que ele pudesse ter qualquer tipo de reação o puxando para dentro e fechamos a porta.
"Johnny, abra a porta, porque está demorando, o rei precisa do livro" - diz uma voz atrás da porta.
Eu e Charlott nos entre olhamos rapidamente, meu coração acelera. As batidas na porta se intensificam, olho ao meu redor procurando um bom lugar para nós escondermos, a nossa única opção é voltarmos pelos túneis de onde vinhemos, inclino a cabeça para em direção a pequena entrada que entramos, Charlott entende rápido o meu sinal. Nos levantamos rapidamente e antes que possamos dar o primeiro passo paramos ao ver a mancha passando por debaixo da porta da grande sala.
A mancha negra avança rápido em nossa direção, tento segurá-la o máximo que posso, Charlott é a primeira a descer e eu vou logo atrás.
- Eles sabem que estamos aqui - digo
Chegamos ao final do túnel, não há saída para nenhum lado e quase não se tem iluminação.
- Malditos, estamos presos- Charlott responde.
Antes que eu pudesse responder, sinto um toque gelado em minha perna. A sensação sobe aos poucos pelo meu corpo até que eu não possa me mover mais. Olho levemente para o lado e vejo Charlott empunhando sua espada golpeando a área próximo aos seus pés tentando afastar alguma coisa, mas em vão em pouco tempo ela está imóvel assim como eu.
O local e tomado por uma escuridão total, fecho os olhos e consigo apenas ouvir a pesada respiração da Charlott, de repente começamos a ser arrastando novamente pelos túneis, permaneço sem abrir os olhos até o final do trajeto, mas os abro ao sentir um peso sobre meu peito. Ao abri-los vejo que estou de volta ao pátio da última batalha, Austin está em minha frente com um dos pés sobre meu peito. Outras centenas de soldados estão por todos os lados e a maioria apontam armas em nossa direção.
- Prazer em revê-los... Amigos. - diz Austin.
- Pena que eu não posso dizer o mesmo - digo.
- Vou perguntar apenas uma vez. Se tiver que perguntar uma segunda vez, irei arrancar a resposta da sua boca, de forma bem dolorida. - Ele diz.
- Tudo bem, só não me pergunte sobre história ou matemática irmão, você sabe que sou péssima. - diz Charlott.
- Para onde vocês levaram meus prisioneiros. - Ele pergunta.
- Odeio te decepcionar, mas realmente não sei - digo.
Austin arqueia um breve sorriso no canto do rosto, se vira para o lado até seus olhos encontrarem um dos cavaleiros, um dos que eu mesmo vi morrer a dias atrás. Ele está com os braços cruzados e os olhos fixos em mim, algo nele é diferente, ele não parece mais um homem, seus olhos são negros e sua pele branca acinzentada, se eu não o estivesse vendo de pé acharia que ainda estava morto.
O cavaleiro caminha lentamente até minha direção, ele se ajoelha e coloca uma das mãos em meu rosto e a outra não no rosto da Charlott. Sinto seu toque frio, minha cabeça começa a roda, como se eu estivesse procurando uma lembrança que ainda não vivi. Em segundos vem em minha mente o esconderijo, as crianças correndo, os grupos de treinamento e por fim Marina. Minha cabeça parece que vai explodir a qualquer momento, a dor é quase insuportável e chego a soltar grunhidos de dor por entre os dentes.
- Aonde esconderam os prisioneiros? - O cavaleiro pergunta.
- Eu.... Eu não sei - respondo.
O cavaleiro demora mais alguns segundos até tirar as mãos de nossos rostos. Ele se levanta e vai até o Austin. "Eu vi o local, mas infelizmente não sei a localização" escuto brevemente o sussurro na conversa entre os dois.
- Ora, parece que estavam falando a verdade. Com tudo, isso me mostra que são inúteis para mim. Vou matá-los. - diz Austin.
Ele saca uma espada de sua cintura e a gira em sua mão e da alguns passos até nós. Seu cabelo se bagunça com a força do vento, ele passa a mão em sua cabeça enquanto o sorriso no seu rosto se intensifica. Tento escapar dessas manchas negras que envolvem meu corpo, mas é em vão, cada vez que me mexo só gasto minha energia.
- Ei, qual é? Vai nos matar assim, enquanto estamos presos? O que acha de uma última luta? Só eu e você, como nos velhos tempo? - diz Charlott.
- Você acha mesmo que tenho tempo para perder com você garota? - diz Austin.
- Pelo que eu me lembre eu te dei uma bela surra da última vez, não vai querer se vingar? - ela diz
- Vou me vingar arrancando o seu pescoço, irmã. - Ele responde.
Eles se encaram por alguns instantes, Austin estende a mão e retira a mancha negra sobre o corpo da Charlott. Ela se levanta sorrindo. Os dois estão de frente um para o outro é então dão alguns passos para trás. Ela é a primeira a atacar, desfere uma sequência de socos, mas são todos bloqueado, no último soco o garoto segura a mãos dela a gira em um movimento anormal deixando audível o som dos ossos se partindo, e em seguida chuta seu abdômen a derrubando sobre o chão.
Charlott se recupera rápido, saca a espada de suas costas e olha fixamente para o garoto. Ele ajeita sua espada em suas mãos e retribui o olhar. Então ela avança, o som agudo do encontro das espadas é o único som que se pode ouvir no pátio. Austin tenta a golpear na região de seu peito, ela desvia e rapidamente de abaixa e golpeia a perna direita do seu irmão, ele se ajoelha abaixando sua guarda. Charlott aproveita a distração e desfere um chute no rosto dele fazendo com que caia ao chão.
Ele não se levante suas mãos sobre o solo tremem, sombras surgem sobre o solo e se agiram em torno de suas mãos. Charlott tenta atacá-lo novamente, mas então ela para uma das sombras segura seus pés, e quando as outras se juntam e projetam uma silhueta humana sobre suas costas. Ela sorri enquanto limpa um filete de sangue em sua boca, de um machucado já cicatrizado.
- Esse truque eu já conheço irmãozinho - ela diz.
Ela gira seu tronco para trás quebrando pelo menos parte de sua coluna, segura a silhueta pelo pescoço e a golpeia com uma das facas presa em sua bota, a sombra desaparece então Charlott se ajoelha sobre o solo de concreto frio.
Austin assiste a tudo com um olhar diferente do que estava até agora. Ele leva a mão ao rosto balançando brevemente a cabeça, no mesmo instante sinto meu corpo livre.
Alguns dos soldados voltam a mirar suas armas sobre nós. Já outros soldados correm até o rei que os dispensam com um grito exigindo distância. Uma luz forte começa a surgir do meio lentamente em nossa frente, até se tornar uma fenda de tamanho considerável.
Um grunhido de cavalo surge pela fenda de luz, o mesmo som que fez o Rakrom sair correndo pelos túneis. Mas é ele quem sai do portal, montando sobre um cavalo negro com os olhos vermelhos e uma enorme asa. Eles rasgam o ar e voam rapidamente em nossa direção, Elak desacelera o tempo ao ouvir os disparos das armas sobre nós. Rakrom passa por nós e estende sua mão, rapidamente a pegamento e montamos no cavalo até perdemos a fortaleza de vista.
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