8|A primeira lágrima.

Como entender, ou explicar que em guerra, as coisas não são como queremos.
Uma palavra de alguém de baixo escalão, não é atendida.
O único com voz era o superior.
O que quero dizer é que tentaram argumentar, naquela missão maldita, tentaram dizer ser exagero.
Mais não foram ouvidos, foram obrigados a cumprir.

As guerras matam pessoas, e a cada confronto, dilacera seus soldados, até mesmo os melhores.

Ao chegarem no navio, Aishitemasu estava com um curativo bem feito em seu ombro, oque foi o único ferido.
Nenhum outro machucado havia nela...claro, tirando um corte inferior no lábio pelo tapa, e um machucado na lateral da cabeça.

Ao chegarem no convés, Merlin tomou a frente pela primeira vez desde que aquela palhaçada de comandante começou.

__o que foi aquilo?__Aishitemasu se levantou de imediato, pela primeira vez a cabeça estava baixa.

__não se lembra?__Merlin bufou e fechando os olhos fortes prosseguiu.

__não. Conte aos outros, e me relembre.

__por que diz que aqui vocês incendiaram um orfanato após massacrar todos do mesmo.__Dilys lia um dos recortes.__isso não é sério, né?

__é sim. Há alguns anos, antes do comandante virar comandante. Fomos enviados em uma missão, a missão era rastrear um fugitivo, ele se passava por um dos funcionários do orfanato. O coronel Losti na época disse que não era pra ter falha. Seu plano era cercar o orfanato e invadir de todas as direções, matar todos no local. Foi isso que fizemos, nosso alvo estava escondido em um depósito e Losti o finalizou. Ao terminar a missão, a ordem era avisar que o fugitivo reagiu e tivemos que atacar, para finalizar a missão Losti ordenou um incêndio no local. Ao finalizar tudo e ter a missão cumprida voltamos pra base. Ninguém falava nada. Mais antes, o senhor.__Aishitemasu olhou Merlin.__e mais dois soldados tentaram argumentar que havia outra forma, mais Losti disse que uma ordem, não era pra ser contestada. Naquele noite, eu caminhava em direção a minha tenda, já que havia terminado meu turno de vigia. Mais encontrei o senhor, sentado perto do riacho e com uma pedra em mãos, notei que fazia linhas retas, uma embaixo da outra, com seu canivete. Logo em seguida colocou a pedra embaixo de uma árvore e se ajoelhou. Quando me notou fez um sinal com a mão, e se levantou.

__que sinal?__Guila a olhou.

Aishitemasu copiou exatamente o sinal de Mercúrio na época, desse momento ela nunca esqueceu, assim como nunca compreendeu.
Isso até agora, algo estava diferente.

__ele fez o sinal da cruz, diante da pedra riscada?__Li a olhou e a mesma concordou.__ele estava provavelmente rezando pelos mortos.

__continua!__Merlin ordenou.

__quando se aproximou de mim, seus olhos estavam vermelhos. Você disse que aquilo que fizemos jamais seria motivo de alegria, ou orgulho. Tirar vidas Inocentes por apenas um criminoso, jamais seria orgulho. O senhor sentou no chão e levou as mãos ao rosto. Você disse; Não me tornei militar para tirar vidas Inocentes.

__notei lágrimas escorrerem por seu rosto, você estava com as mãos sangrando, pois socava o chão sem cuidado. Dizia que existiam superiores sem escrúpulos. Você me olhou ao se levantar, e segurou meu rosto me abraçando em seguida. Você disse que faria o possível para se tornar comandante e assim, jamais outra chacina como aquela, ocorreria. Me disse que o que fizemos nunca será bom, e que eu jamais deveria me orgulhar. Disse que se cruzasse com um dos entes, um ou dois golpes levaria sem reagir, talvez assim seria um terço da dor que sentiam. Eu fiquei meses sem te ver, quando retornou era comandante, Losti foi deposto de seu posto e passou a seguir suas ordens.__algo ocorreu naquele momento, Aishitemasu deu um passo na direção de Merlin, os olhos vazios, naquele momento estavam marejados, isso é a primeira vez.
Merlin a olhou e não conteve a surpresa.
Aishitemasu levou o indicador em direção ao peito esquerdo, e sua voz mudou, era arrastada.

__há algumas noites, me perguntou o que sentia aqui dentro. Como eu ficava a cada ato. Aqui dentro tá estranho, dói. Assim como me disse na noite daquela missão.

__acho que ela tá tendo uma parada cardíaca, Guila!__Hoddy era realmente uma anta, e não compreendeu.

__sua mula retardada!__Randal o encarou.

__isso não é parada cardíaca. É a dor de seu ato naquela chacina.__Guila avisou triste.

__aqui dentro está batendo tão rápido, e a cada batida dói. Eu nunca entendi a dor, nunca senti. Você me disse que um dia eu sentiria.__as primeiras lágrimas escorrem.__eu nunca me orgulhei daquela noite, assim como você disse. Mais por que só agora, isso dói? Por que só agora, eu pareço entender sua expressão aquela noite?

__por que está sentindo. Você está se condenando.__Merlin avisou.__está sentindo pela primeira vez, o que senti aquela noite. Isso se chama sofrimento.

__eu não quero isso! Por que isso precisa acontecer? Só cumprimos ordens, é assim que funciona. Recebemos as ordens, e as cumprimos. Nas guerras não a nada disso, o senhor sempre foi o único que demostrou expressões, e sentia demais. Eu estou do mesmo jeito. A batida do meu coração está rápida, e incomoda do mesmo jeito quando não vi você.

As lágrimas pingaram no chão do convés, Aishitemasu olhou as gotículas no piso, e fechou os olhos pelo arder.

__estou como você naquela noite. Mais como isso é possível, se não somos iguais.

__você é como todos nós. Está sofrendo, sente dor. Apenas precisa despertar isso.__Li se aproximou de Aishitemasu e a abraçou.

__por que me deixou pra trás?__ela encarou Merlin por cima do ombro de Li.__por que não me levou com você? Quando partiu, ouvi um dos soldados falando que a arma exclusiva voltaria a sofrer. Que sem o dono, o outro faria o inferno com ela. Eu era a arma, você é o dono que não me tratava como Losti. Por que me deixou com ele. Por que quando acordei no hospital anos depois, depois de última batalha, por que não me procurou? Eu não sou mais útil pra você comandante?

__você não é mais uma arma!__Li a olhou nos olhos e enxugou as lágrimas dela.

__não preciso dos seus serviços como arma. Você é livre, assim como disse que seria. Deve aprender como agir no mundo real.__Merlin se virou e se encaminhava pra sair dali.

__não me deixe de novo!__Aishitemasu se desvencilhou de Li, e correu para Merlin.
Fez algo que Mercúrio fez uma única vez.

Mercúrio se ajoelhou diante dela, abraçando o corpo de Aishitemasu, o corpo que naquela época era vazio e sem expressões, dizendo exatamente assim; jamais te deixarei, não importa o que eu faça, sempre terá a mim.

Merlin não se virou, fechou os olhos, sentindo as mãos da mesma agarrarem seus Joelhos, o rosto colocado a dobra do mesmo.

__eu não quero deixar de te servir, eu serei a arma perfeita que quiser, não parta novamente.

__me solta!__Merlin estava se esgotando daquilo.

__por favor!__uma onda de espanto...digo, outra onda de espanto.
Já que jamais pensaram em ver a Aishitemasu dessa maneira. Não parece a mesma arma que embarcou na tripulação.

Palavra que nunca fez sentido pra ela, mais ouvia Tiek dizer algumas breves vezes, quando a chamava para fazer algo.

O mesmo disse que isso significa que é um desejo distinto a eles.
Mais que quando ele falar isso, significa que precisa muito.

Aishitemasu pela primeira vez sentia, sentia que precisava do comandante Mercúrio.

__mandei me soltar!__Merlin soltou os braços da mesma fazendo ela cair sentada.

__Mercúrio, não faça isso! Não agora.__Kuro implorava a Merlin. Implorava que ele continuasse mais um pouco na mentira.

Já que pelo que notam, palavras de qualquer um ali, não surtiram tamanho efeito, como a que ele tem, só por ela achar ser Mercúrio.

Merlin fechou os olhos se odiando por prestar aquele papel.
Se agachou, segurando o pulso direito de Aishitemasu e a puxou para si.
Envolveu os braços em torno dela, e ainda com os olhos fechados suspirou.

__não vou te deixar. Apenas pare de implorar por migalhas. Você é livre, não é uma arma. Se torne como todos aqui. É apenas isso que quero.

__eu irei. Eu irei ser como quer.__concordando com o que ela disse, Merlin se levantou ajudando a mesma.

__fique com eles, eu vou me deitar. Ponha sua dor e lágrimas pra fora, se sentirá melhor.__a mesma concordou e ele se virou saindo dali.

Merlin se odiava por prestar aquele papel, se odiava ser parecido com alguém que na visão dele é o oposto, só por serem de mundos diferentes.

Odiava que quanto mais entrava na mentira de ser o comandante Mercúrio, mais desejava ser ele, apenas por ela!
Apenas por perceber que pela primeira vez, desde que se entende por gente, alguém o venera, e segue tudo que ele faz.
Não é como seus companheiros. Aishitemasu era devota a ele, não importa o que ele fizer, ela jamais irá o reprender, se bobear, fará igual.
Bom, isso se ele fosse Mercúrio, o que ele não é.

Sabia que cedo ou tarde essa mentira viria a tona, e quando chegar, ele não terá uma segunda sombra. E mesmo que jamais admita em voz alta, ele sentirá falta.

__por que eu?!__encarou a fotografia que a mesma o entregou.

Realmente ambos são idênticos, se mudar algumas coisas, seria visto exatamente como Mercúrio.
E por um breve lapso de momento, desejou ser ele. Só para não precisar mentir, e ainda ser devotado pela Ningyō de guerra.

Mais talvez até essa mentira vir a tona, ele entraria de vez no personagem.
Ele seria o Mercúrio a ela, não ligaria de usar tal nome para isso.
Iria aproveitar o máximo a devoção de Aishitemasu, por que no fim, talvez o pior ocorra e de lados opostos, ele e ela irão se confrontar.

Como disse, o ódio é chamado por outro nome, aquele simples e pequeno "não gosto de você".
Mais o nosso imediato Merlin, já percebeu. Talvez o orgulho, ou rancor do abandono, tenha o tornado assim.
O impeça de dizer que não existe e nunca existe o "não" e sim só o "gosto de você".
Mais a nossa Ningyō de guerra não compreende isso, e sem ajuda jamais irá compreender.
Porém Merlin, sabe que jamais será quem ela quer, ele não é o comandante Mercúrio, e sim o imediato Merlin.
Não é um militar, é um pirata!

Será que estão se enganando, ou será que a verdade que muitos temem, e outros almejam, esteja perto?

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top