𝐂𝐚𝐩𝐢𝐭𝐮𝐥𝐨 33

3:50 PM

    Eu estou tentando, juro que estou tentando não pensar em tudo que aconteceu na escola hoje, mas é impossível não pensar sendo que eu acabei de passar por isso, sendo que é algo que abriu passagens para mais traumas habitar em meu ser, para também despertar com fúria outros traumas que jaziam existentes. Várias lembranças horríveis habitam em minha mente com fervor, eu tento os bloquear, mas não tenho forças suficientes para vence-las, elas são mais forte que eu e tomam por completo cada um dos meus pensamentos, me deixando horripilante assustada e com medo de que tudo que eu já passei em minha escola antiga: os bullyngs e as ameaças possam voltar, possam acontecer aqui na Coreia também.

   Eu não gosto de lembrar, eu odeio ter que vivenciar momentos que me fazem voltar ao passado, que me fazem lembrar exatamente de cada cena de humilhação tanto na escola quanto em casa, cada palavra de ódio jogada com força sobre mim sem nem menos se importarem com os meus sentimentos. Uma onda de frio se faz presente por toda a extensão do meu corpo só de lembrar desses momentos horríveis. Penso que a minha história de vida é um terror muito assustador, que se contar para alguém é capaz de morrer de medo por noites seguidas, eu tenho medo.

ㅡ Mi Cha ㅡ todo e qualquer pensamento relacionado com os acontecimentos de hoje na escola, são cortados ao ouvir a voz próxima da cozinheira a me chamar ㅡ preciso da sua ajuda, me acompanhe por favor ㅡ ela diz já se virando até a cozinha, eu faço o que ela me pede: a acompanho deixando antes a vassoura encostada na parede da sala para depois voltar e terminar de limpar esse cômodo ㅡ Preciso que você leve essa bandeja de café da tarde para o menino Jungkook ㅡ ela me informa apontando para uma bandeja cheia de comida em cima da bancada da cozinha.

ㅡ Eu? ㅡ Indago parecendo assustada, eu não esperava uma tarefa como essa mesmo sabendo que estou trabalhando. Talvez porque eu não quero ter que ver Jungkook, minha angústia já está bastante grande sem ele por perto.

ㅡ Sim, eu preciso terminar de cortar algumas carnes e legumes e não posso estar levando. Você poderia fazer esse favor para mim? ㅡ ela pede educadamente em uma voz meiga, muito sem jeito eu anuí em resposta ㅡ muito obrigada, o menino costuma ficar no quarto dele ou então em seu quarto de música ㅡ ela me informa antes de se virar de costas para mim e voltar ao seu trabalho de cozinheira.

    Com as mãos trêmulas após os pensamentos, lembranças e medo invadirem minha mente por todo esse tempo, pego a bandeja de comida de cima da bancada e saio andando até o andar de cima onde provavelmente Jungkook está. O fato de eu não querer ver ele não é algo fútil da minha parte, é só que acho correto mantermos o máximo de distância possível que pudermos um do outro, eu não quero me apaixonar por ele e acabar sofrendo por alguém que não dá a mínima para mim.

    Mas respiro fundo tentando manter a calma e a compostura antes de bater na porta do quarto intitulado por uma placa de metal e com bordas douradas "Quarto de música de Jungkook" e em baixo dessa placa, há mais duas que dizem para as pessoas fazerem o mínimo de barulho possível, e uma delas em específico avisa que só é para entrar no quarto quando ele estiver ali se a casa estiver pegando fogo, se alguém morrer, se tiver algo importante para falar ou se vier trazer algo para ele. Basicamente, ele não quer que o incomode sem necessidades.

ㅡ Sua comida ㅡ Falo abrindo a porta assim que em um fio de voz entediante, ele diz um "entra" e sua expressão não está muito diferente do seu tom de voz, ele está irritado por ser incomodado

ㅡ Aaah é você ㅡ de repente o seu tom de voz e a sua expressão muda ao perceber que sou eu, como se tivesse alguma diferença entre mim e outra empregada ㅡPode colocar ali ㅡ ele fala apontando para uma mesinha pequena logo do seu lado.

    Seguro com mais firmeza a bandeja em minhas mãos com medo que o nervosismo ao me aproximar dele faça com que eu derrube tudo. Coloco a bandeja de comida em cima da mesinha do seu lado, em seguida já me viro rapidamente na direção da porta, pronta para sair dali o mais rápido possível, sentindo a tensão do meu corpo aumentar cada vez mais.

ㅡ Mi Cha ㅡ mas antes mesmo que eu chegue mais perto da porta para sair, ele me chama. Eu me forço a olhar para ele com um sorriso singelo no rosto, só porque estou trabalhando.

ㅡ Pois não?

ㅡ Podemos conversar? ㅡ Ele pergunta olhando no fundo dos meus olhos, seu olhar e seu tom de voz agora emitem uma súplica como se ele dependesse muito dessa conversa.

   Sei que ainda no carro com ele eu disse que tentaria ser sua amiga, mas eu acho que não consigo... Eu fico nervosa perto dele e quero sair o mais rápido possível, afinal não consigo simplismente esquecer os beijos que demos e sempre que o vejo eu me lembro ainda mais, me faz ter vontade de repetir tudo de novo, de beijar seus lábios a minha frente. Mas não posso... Não porque eu não quero, e sim porque ele não quer, e para que eu não fique imaginando e nem pensando tanto nos beijos em que demos, é melhor estarmos distantes. Só que eu também não posso virar as costas e o deixar aqui sozinho, eu não consigo... Não sabendo que ele aparenta não estar bem, não vendo seus olhinhos que costumam ser tão reluzentes de alegria, tão sapeca e com um brilho enorme estando agora escuros, sem felicidade e sem brilho.

   Sei também que ele só me usou e me jogou fora assim que pode, mas eu não consigo virar as costas para um ser humano independente de quem ele seja, como seja ou o que fez. O meu instinto de ajudar é muito grande e eu me sinto no dever de ajudar quem eu puder, todos temos dores.

ㅡ Precisa de algo? ㅡ Pergunto calmamente, mostrando gentileza e afeto pela sua dor, seja lá o que ele esteja sentindo ou passando. Ele apenas assentiu de cabeça baixa, tristonho e parecendo envergonhado e sem jeito ㅡ e do que você precisa? ㅡ Me aproximo devagar, em passos lentos pronta para ajudar no que for preciso.

ㅡ De você ㅡ com uma resposta tão rápida assim e uma resposta dessas, eu claramente paro em seco com os meus passos, minha saliva desce rasgando pela minha garganta e eu tento decifrar se eu realmente ouvi certo ou se foi coisa da minha cabeça ㅡ Eu preciso de você Mi Cha... ㅡ E com a repetição de sua própria fala, ele então me tira da cruel dúvida de que se eu ouvirá era paranóia ou real.

ㅡ Eu estou aqui com você ㅡ falo gentilmente, tentando recuperar a voz em que perdi após ouvir ele dizer que precisa de mim. Sei lá, fiquei nervosa de repente.

ㅡ Eu preciso que você me desculpe, por favor... ㅡ Sua voz e seu olhar em súplica partem o meu coração ao meio, eu realmente tenho um coração muito mole ㅡ me desculpa por tudo, por favor... ㅡ Ele se levanta da cadeira em que estava sentado e se aproxima de mim, eu por outro lado permaneço no lugar em que estou tentando entender do porquê ele estar me pedindo desculpas.

    Será que é por ter me beijado, por ter me usado, por ter brincado com os meus sentimentos, ou o que?

ㅡ Fui um idiota com você desde que você chegou ㅡ ele começa a falar antes mesmo que eu tivesse a oportunidade de perguntar o motivo das suas desculpas ㅡ tenho total noção disso e não faço idéia de como reverter certas situações, a única coisa que posso fazer mesmo é pedir minhas sinceras desculpas nas quais eu não espero que você as aceite, só peço mesmo... Desculpas... ㅡ Seu tom é sincero demais, ele parece de fato arrependido por alguma coisa que me fez. Mas exatamente o que? Ele já me fez bastante coisas nas quais possa querer se desculpar.

ㅡ Desculpas pelo que exatamente? ㅡ Pergunto com uma sombrancelha arqueada.

ㅡ Por tudo... ㅡ Ele responde de cabeça baixa, parecendo muito arrependido ㅡ mas principalmente por hoje, pelo que as meninas te fizeram...

ㅡ Mas por que? ㅡ Pergunto agora completamente sem entender mesmo, ele não tem motivos para me pedir desculpas por isso, tem? Ele me ajudou ㅡ você não tem culpa, foram elas que fizeram aquilo e você só me ajudou, inclusive agradeço muito

ㅡ Mas foi por minha causa ㅡ ele responde ainda de cabeça baixa ㅡ eu não cheguei a tempo para te tirar das mãos delas antes que te humilhassem, me desculpa mesmo... Eu não queria que isso tivesse acontecido... ㅡ Seu tom de voz é desesperador, ele parece estar desesperado prestes a chorar e desabar ali mesmo. Me sinto completamente desolada e sem saber como agir mediante a uma situação dessas, mesmo que eu saiba o que tenho que fazer e falar.

ㅡ Não se desculpe! ㅡ Falo rapidamente ao perceber esse seu desespero tão iminente, ele está se sentindo culpado pelo que aconteceu e eu não posso o deixar se sentir assim. O sentimento de culpa é um dos piores sentimentos e ninguém deveria passar por ele ㅡ você não tem culpa de nada que aconteceu, não tem culpa das meninas serem doentes de amor por você ao ponto de fazer qualquer coisa para te ter. As únicas que tem culpa aqui são elas, não você! ㅡ Afirmo com toda a clareza que consigo demonstrar em minha voz, quero o ver bem sem se sentir culpado o mais rápido possível.

ㅡ Sabe... No início era legal... ㅡ Agora seu tom de voz é baixo, quase como em um susurro, parecendo uma confissão. E ele permanece de cabeça baixa, sem me olhar ㅡ mas agora não...

ㅡ É, realmente tudo no início é mil maravilhas ㅡ falo sem pensar muito, isso é um fato inegável, contudo não sei se isso vai o ajudar ou piorar sua situação.

ㅡ É culpa minha das meninas terem feito o que fizeram com você, elas acham que estamos juntos depois de sexta-feira que eu insisti para você entrar no carro comigo ㅡ ele continua a falar ㅡ por isso tenho que lhe pedir desculpas, se não fosse por mim, pela minha insistência, nada disso teria acontecido...

ㅡ Eii, está tudo bem ㅡ afirmo tentando me aproximar dele, com isso vejo uma pequena lágrima descendo pelo seu rosto. Na qual ele está tentando segurar e esconder ㅡ você não tem culpa em me oferecer uma carona, você foi educado. Eu já falei e repito, elas que são loucas e obssesivas que não se importam com sua felicidade, apenas que você esteja com elas então a culpa é totalmente delas. Não se culpe assim.

ㅡ E coloca obsessivas nisso ㅡ ele diz baixo ㅡ era legal ter todas as meninas em meus pés quando e a hora que eu quisesse. Mas esse amor delas por mim se tornou algo obsessivo, tóxico de mais no qual eu não consigo mais suportar... ㅡ Ele agora parece estar desabafando.

ㅡ É, entendo ㅡ falo sem saber o que realmente falar, mas me corrijo no segundo seguinte ㅡ quer dizer, eu não entendo, mas compreendo.

   Não tem como eu de fato entender algo que nunca passei. Para mim, na minha humilde opinião de acordo com as vivências com outros garotos babacas metidos a besta, eles costumam gostar de ter qualquer meninas aos seus pés. E o fato de Jungkook estar falando que não suporta mais isso, chega a ser estranho, mas eu o compreendo. Compreendo porque me coloco em seu lugar, eu não gostaria que garotos obsessivos ficassem em cima de mim o tempo todo, seria desconfortável.

ㅡ E me desculpa também pelo que te falei no intervalo, não era bem aquilo que eu gostaria de falar... ㅡ Ele ainda continua de cabeça baixa, parecendo muito envergonhado e triste. Eu por outro lado engulo minha saliva em seco ao ouvi-lo tocar no assunto de nossa conversa no intervalo ㅡ eu não quis dizer que o nosso beijo foi um erro, pois isso foi o maior acerto da minha vida ㅡ meu coração erra as batidas, e quando ele levanta seu olhar triste e sem cor sobre o meu rosto, eu sinto meu coração parar de bater por um segundo ㅡ é só que é melhor não voltar a acontecer, entende? Esquecer o que aconteceu, fingir que não aconteceu, é melhor... ㅡ Ele diz sem jeito.

   Sinto o nó em minha garganta ficar ainda maior, as lágrimas que estou segurando a horas para não descer parecem querer sair justamente agora. Lembrar de nossos beijos é algo que me dói porque eu quero repetir e não posso, dói mais ainda porque lembro de suas palavras "foi um erro", "não deveria acontecer"

ㅡ Realmente, bem melhor ㅡ afirmo segurando firmemente o choro, o prendendo em minha garganta e tendo dificuldades para falar por conta disso ㅡ de fato devemos esquecer tudo e fingir que nada aconteceu!

   Esquecer para mim é impossível, foi o meu primeiro beijo e muito especial, mas fingir que nada aconteceu isso eu posso fazer, e será ainda melhor.

Você aceita uma refeição como pedido de desculpas sinceras? ㅡ Ele pergunta todo sem jeito.

ㅡ Eu preciso ir ㅡ falo me afastando dele, indo na direção da porta para sair. Eu não quero sair com ele, não quero ter uma refeição com ele, não quero ir a nenhum lugar com ele! O que eu preciso dele agora é distância, já que é para esqueceremos do beijo é isso que devemos fazer.

ㅡ Não, por favor ㅡ ele implora, mas eu simplesmente ignoro. Coloco a mão na maçaneta e antes que eu pudesse a virar para abrir a porta, ele corre rapidamente em minha direção e segura em minha mão para não me deixar sair ㅡ eu preciso que você aceite pelo menos uma refeição, só assim eu me sentirei melhor depois de tudo que lhe causei, que lhe falei...

   Respiro fundo, engolindo ainda mais profundamente o choro. Olho para ele para dar sua resposta.

ㅡ Não precisa disso, eu te desculpo ㅡ falo já me soltando de sua mão ㅡ é sério, realmente não precisa de nada, eu já te desculpei e está tudo bem entre nós, agora se me dá licença, eu preciso ir.

ㅡ Só uma! ㅡ Ele implora ㅡ por favor... ㅡ Pede em súplicas ㅡ só assim para mim me sentir melhor, por favor...

   Coreia, estamos na Coreia e aqui as coisas costumam se resolver assim... Se eu quero o ver bem e sem se culpar tanto por algo que não tem culpa, eu preciso aceitar mesmo não querendo, mesmo não sentindo vontade para isso.

ㅡ Certo ㅡ falo me rendendo a ele, sem vontade alguma. Mas qualquer desânimo que pudesse existir em mim, se vai assim que vejo seu olhar agora contente e aliviado de me ver aceitar.

ㅡ Olha, eu não posso sair de casa como você já sabe, mas posso pedir para a cozinheira preparar algo para comermos ㅡ ele sugere, apenas anuí não dando muita importância. Para mim tanto faz o que ele vai fazer, só quero que tudo isso termine logo ㅡ ah, e ainda posso até tocar se você quiser.

ㅡ Quero! ㅡ Fico animada pela primeira vez desde que entrei aqui. Música é algo que eu amo e admiro muito quem consegue fazer algo relacionado a música.

ㅡ Okay, então pode ser no sábado? ㅡ Ele sugere ㅡ você trabalha todos os dias então acho que será o melhor dia ㅡ apenas anuí concordando ㅡ certo então, tudo fechado.

ㅡ Okay, agora eu preciso mesmo ir antes que Jina perceba o meu sumiço ㅡ falo voltando a colocar a mão na maçaneta.

ㅡ Antes, deixa eu te falar só mais uma coisa ㅡ ele diz ㅡ sobre o que aconteceu na escola com as meninas lá na sacada, sei que pode mexer muito com o seu psicológico e isso pode te fazer se cortar, eu não posso lhe ajudar pois estarei longe e infelizmente incomunicável, mas peço que por favor caso você sinta vontade de se cortar, procure os meninos, eu tenho certeza que eles vão te ajudar ㅡ um sorriso singelo de agradecimento se estende pelo meu rosto. Como ele pode saber que eu estava pensando exatamente em me cortar assim que chegasse em casa? ㅡ Você pode por favor me prometer que não vai se cortar? ㅡ Seu tom de voz volta para aquele de súplica, e eu mais uma vez engulo minha saliva em seco sabendo que isso é algo que eu não posso prometer pois não posso cumprir com tanta facilidade ㅡ escuta, a lâmina só vai te fazer bem na hora, mas depois vai piorar ㅡ ele diz se aproximando de mim, tentando me convencer de não me cortar ㅡ por favor, me promete que você não vai se cortar? ㅡ Ele pede novamente, quase que em desespero ㅡ você não precisa disso, você tem eu e os meninos que se preocupam com você e que querem te ajudar, por favor promete.

   As lágrimas que eu estava lutando para segurar desde que cheguei aqui na mansão, desce rolando pelo meu rosto ao ver e perceber sua enorme preocupação comigo. Mas eu não consigo, não consigo não me cortar... porém desesperada para sair dali e não chorar em sua frente que nem uma louca, eu simplismente solto um "prometo" baixo mais audível aos seus ouvidos antes de sair dali rapidamente para não correr o risco dele me impedir de novo.

    Respiro fundo engolindo agora ainda mais fundo o choro, desço as escadas correndo e volto ao meu trabalho, tentando ocupar minha mente e não pensar em mais nada mesmo que seja algo realmente impossível depois de tudo que aconteceu hoje. Mas agora, além das coisas que aconteceram na escola, o que acabou de acontecer ali no quarto de músicas de Jungkook também invade minha mente com força. Eu nunca imaginei ver Jungkook chorando por se sentir culpado por algo, mesmo que tenha sido pouco ele chorou e estava tentando não demonstrar, porém eu percebi! Nunca imaginei ver ele tão desesperado para que eu pudesse prometer que não iria me cortar caso sentisse vontade, ele estava tão diferente naquele momento, não parecia o mesmo garoto que eu conheci, o garoto babaca e grotesco que não se importa com ninguém além de si mesmo.

"Sabemos que o nosso Jungkook está ali dentro ainda"

   Essa fala de Jimin para mim nunca fez tanto sentido como agora, será que esse menino abalado e que se importa com os sentimentos dos outros que eu vi agora, é o verdadeiro Jungkook no qual Jimin e Suga comentaram? E que na verdade o Jungkook soberbo, frio e egoísta só é um jeito dele esconder os seus sentimentos?

   Eu não sei de fato, não faço idéia de quem ele é, mas se for isso eu o entendo pois já passei e passo diversas vezes por momentos como esse, e espero de coração que ele fique bem logo, pois assim como também quero me ver bem, eu também desejo que os outros fiquem bem.

   Finalmente esse dia cheio de acontecimentos parecem agora ter acabado, foi um dia bem conturbado e que eu só queria e desejava imensamente um descanso. Mas não foi isso que eu tive quando cheguei em casa, minha tia se encontrava na sala de estar conversando com uma mulher na qual Byeol a apresentou como minha psicóloga e terapeuta.

   Sinto cada parte do meu corpo tremer ao ouvir suas palavras "ela é sua psicóloga e a sua terapeuta" o suor frio escorre pelo meu rosto, minha barriga se contorce me fazendo sentir uma forte dor abdominal.

  Eu só quero gritar, quero fugir, quero sumir...

   Não, isso não pode ser verdade! O dia já estava péssimo, isso só pode ser um pesadelo não é? Eu não estou pronta para contar sobre a minha vida trágica para uma completa desconhecida, nem sei se um dia estaria pronta. Por favor me acorde se eu estiver tendo um pesadelo, por favor...

ㅡ Sente-se querida ㅡ Byeol diz apontando para o espaço vago ao seu lado, no qual fica bem de frente com a tal psicóloga/terapeuta, Seo-yeon. Uma mulher de aparência elegante e com uma voz doce e angelical, assim como o seu sorriso.

    Mesmo nervosa e cheia de tensão em meu ser, eu claramente obedeço a minha tia. Cada minuto que passava perto de Seo-yeon eu ficava ainda mais nervosa, querendo fugir, querendo sair correndo e não parava um segundo de mexer as pernas e estralar os dedos, ela com certeza deve ter percebido mas não comentou nada. Eu tive muita sorte de que hoje ela não perguntou nada sobre a minha vida, ela apenas queria me conhecer melhor e até contou um pouco sobre a sua vida para nós. Ela foi super atenciosa, gentil e descontraída, provavelmente tentando me deixar calma perante a sua presença, eu não consegui me comunicar nada bem com ela, entretanto a sua voz doce chega a acalmar até a alma.

   Seo-yeon jantou conosco hoje antes de ir embora, ela é uma pessoa muito legal e gente boa, todos parecem ter gostado dela, eu também se não precisasse nas próximas sessões ter que contar sobre a minha vida. Porém não tendo muita escolha, as nossas sessões foram marcadas para toda segunda-feira às 8 horas da noite aqui em casa mesmo.

ㅡ Ei querida, fique tranquila okay? ㅡ Minha tia diz assim que Seo-yeon sai de casa, tranquila, como se fosse fácil ficar tranquila após saber que toda segunda-feira terei que falar da minha vida para uma mulher desconhecida ㅡ você não vai precisar falar nada a ela enquanto não se sentir segura para isso, primeiro o que ela vai fazer é trabalhar com o seu cérebro, ajudar com a sua saúde mental ㅡ anuí concordando apenas querendo ir para o meu quarto logo.

    Não vou negar que eu realmente preciso de ajuda psicológica, mas eu não quero ter que falar sobre a minha vida pessoal, não me sinto bem para isso, não me sinto confortável, me dói, me machuca...

    Abafo minhas lágrimas e meus gritos profundos e dolorosos com o travesseiro. Sozinha em meu quarto é estar sozinha com os pensamentos, e isso não é nada bom, não me trás nada bom... Eu só consigo me lembrar daquelas meninas me humilhando na sacada, lembrar das vezes que também fui humilhada na escola de Los Angeles só por ser diferente, por ser asiática, por ser considerada "gorda" - é o que eles achavam por conta do uso constante de moletom - lembro deles me chamando de feia, nerd, pobretona - porque eu já trabalhava quando estava no ensino médio.

   Cada lembrança como essas dói em meu íntimo profundamente e o medo de acontecer tudo de novo se apossa por todo o meu ser. O medo também de ter que me abrir para Seo-yeon também é grande, a conversa com Jungkook também assola a minha mente, ele de certa forma brincou com os meus sentimentos ao me beijar e depois dizer que devemos esquecer o que aconteceu como se fosse fácil assim.

   Eu queria me cortar, puxar o meu cabelo, me bater por eu ser uma grande idiota por ter caído no papinho de Jungkook, por ter o beijado, por não ter nem tentado me defender daquelas meninas, é eu fui e eu sou uma completa covarde.

    Minha crise de ansiedade só aumenta com os minutos que passa, deixando minha cabeça lotada de pensamentos que me deixam mal, meu rosto lotado de lágrimas, a garganta como se tivesse algo a trancando e me impossibilitando de falar, o corpo todo tremendo... É essa é a ansiedade e eu não tenho ninguém para me ajudar ou sair dela agora nesse momento...

   Não posso chamar os meninos como Jungkook me disse para fazer, já está tarde e eu não quero os incomodar com os meus problemas, então só me resta ficar sozinha aqui chorando, tento uma horripilante e horrível crise e esperar que por conta própria eu consiga dormir mesmo que isso seja feito entre lágrimas como tantas outras vezes...

  É só mais uma crise, só mais um dia normal...

  Um capítulo cheio de emoções, não?? O que acharam? Gostaram? Comentem aqui o que vocês acham que vai acontecer daqui em diante, e não se esqueçam de votar também para assim estar me apoiando ❤️

Kwon Seo-yeon, psicóloga e terapeuta.

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