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⊹  J e o n   J u n g k o o k  ⊹
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Ultimamente, minha ansiedade estava fora de controle. Pedi para a médica do vilarejo me prescrever alguns calmantes, escondido do Jimin. A pressão pelo nascimento do bebê e pela queda definitiva da Ordem estava me consumindo de dentro para fora.

Naquela manhã, estávamos dormindo abraçados quando acordei com a claridade suave que entrava pelas cortinas.
Olhei para o relógio no pulso: pouco mais de 10h da manhã. O Jimin nunca foi de dormir tanto, mas nessa reta final da gravidez, o peso do cansaço era evidente.

Levantei devagar, tomando cuidado para não acordar ele, e fui até a Haru, que já me olhava com aquela expressão animada. Coloquei a coleira nela e saímos de carro rumo à conveniência na beira da estrada, a poucos minutos da nossa nova casa.

Assim que estacionei, deixei a Haru no carro, com o ar condicionado ligado, e entrei no pequeno mercado.

As prateleiras estavam bem abastecidas, mas nada de comidas prontas, o que me fez soltar um suspiro enquanto pensava no que preparar. A imagem de guiozas veio à mente; algo rápido, simples e, mais importante, que o Jimin adora. Peguei os ingredientes necessários e, após pagar, voltei ao carro.

Haru me esperava no banco do passageiro, olhando para mim como se perguntasse o que tínhamos comprado.

— Vamos, Haru. Seu pai já deve estar esfomeado em casa.

Ela respondeu com um pequeno miado, como se realmente entendesse tudo o que eu dizia.

— Você parece entender tudo, e só não fala pra não pagar imposto.

Mais um miado veio como resposta, e dessa vez eu não consegui segurar a risada.

Quando cheguei em casa, coloquei as sacolas na cozinha e fui até o quarto para ver como o Jimin estava. Ele continuava dormindo, com o rosto afundado no travesseiro e uma expressão serena que me fez sorrir. Era reconfortante ver ele tão tranquilo, mesmo que só por alguns momentos.

Deixei ele lá e voltei para a cozinha. Preparei as guiozas rapidamente, tentando fazer tudo silenciosamente para não acordá-lo. Enquanto elas douravam na frigideira, fiz uma limonada geladinha, exatamente do jeito que ele gosta, com um toque de hortelã. Coloquei tudo em uma bandeja e voltei para o quarto.

Assim que abri a porta, ele começou a se mexer, despertando devagar. Resmungou algo incompreensível enquanto esfregava os olhos, tentando ajustar a visão à luz.

— Bom dia. Está tudo bem? — perguntei, me aproximando da cama com a bandeja.

— Uhum... — ele respondeu entre um bocejo e outro, se espreguiçando com preguiça. — Você leu meus pensamentos, eu tô faminto.

Soltei uma risada suave, colocando a bandeja ao seu lado na cama. Ele se sentou devagar, os movimentos ainda preguiçosos pelo sono, mas os olhos brilhavam de fome enquanto começava a se servir.

— Você é um verdadeiro anjo — ele comentou, dando a primeira mordida em uma das guiozas e soltando um suspiro de satisfação.

Eu sorri e me sentei ao lado dele, encostando na cabeceira da cama enquanto o observava comer.

— O único anjo aqui é você. Ou melhor, dois anjos — corrigi, olhando para ele e para sua barriga com carinho.

Antes que ele pudesse responder, a Haru soltou um miado curto e alto, como se estivesse exigindo reconhecimento.

— Ok, três anjos — eu disse, rindo.

Após o café da manhã, o Jimin parecia mais disposto. Ele se levantou com energia renovada, e logo começamos a organizar o que precisávamos para o dia. Com aquele brilho característico no olhar, ele começou a listar várias coisas que precisava e decidiu que queria ir a Elysium. Claro, como sempre, ele me convenceu com facilidade.

Eu só aceitava porque já tinha me rendido à realidade: sou uma vítima dos poderes dele todos os dias.

Pegamos o carro e seguimos pela estrada.
Elysium não ficava muito longe, e o tempo passou rápido com ele animado ao meu lado, cantando trechos das músicas que tocavam no rádio, sem se importar em errar a letra ou a melodia. A leveza dele era contagiante.

Enquanto dirigia, aproveitei os momentos de estrada reta para estender uma mão até a sua barriga, em busca de algum movimento do bebê. Era algo que fazia quase sem pensar, mas que sempre me arrancava um sorriso.

— Ele tá quietinho hoje — comentei, mantendo a mão ali, sentindo o calor através do tecido da camiseta.

— Acho que está acumulando energia pra nascer — Jimin brincou, rindo enquanto apoiava sua mão em cima da minha.

O clima era leve, e momentos como aquele eram tudo que eu precisava para esquecer, nem que fosse por alguns minutos, o peso que o resto da nossa vida carregava.

Quando finalmente chegamos, ele olhava pela janela, admirando a vista caótica e cyberpunk de Elysium.

— Eu estava com saudades desse lugar — comentou, com um sorriso nostálgico.

Eu sorri para ele, contente em ver que estava começando a se sentir melhor, sem as lembranças do dia em que perdeu o controle de seus poderes aqui.

Nossa primeira parada foi em uma loja de roupas para bebês. O local era relativamente pequeno, mas bem equipado, com uma variedade de roupas e acessórios para recém-nascidos. Entramos e começamos a explorar as prateleiras, selecionando itens que o Yuki precisaria.

Ele parecia animado ao escolher as roupinhas e outros itens essenciais.

— Olha essa roupinha de ursinho! — ele falou, segurando um conjunto.

— É perfeita, já consigo ver ele vestido. Vamos levar.

Enquanto continuamos a fazer nossas escolhas, a sensação de normalidade e felicidade preenchia o ambiente, tornando o dia ainda mais especial para nós dois.

Passamos algum tempo na loja, discutindo sobre tamanhos e estilos, e acabamos saindo com várias sacolas cheias de roupas e itens para o neném. Jimin estava radiante, e eu também me sentia empolgado, vendo o quanto ele estava ansioso e feliz.

Depois de sair da loja, decidimos almoçar no mesmo restaurante em que saímos pela primeira vez, que o Hoseok descobriu. Escolhemos uma mesa mais reservada, aproveitando o clima agradável e a vista da cidade que havia em uma janela ao nosso lado.

— Eu amo essa cidade, e estou feliz que vamos morar perto dela — ele falou, olhando pela janela.

— Vai ser ótimo que o Yuki crescerá em um lugar calmo, e ao mesmo tempo, podemos apresentar essa loucura de Elysium para ele.

Durante o almoço, conversamos sobre os últimos detalhes para a chegada do neném e o que ainda faltava comprar. A refeição foi tranquila e saborosa, e o ambiente do restaurante contribuiu para um momento relaxante.

Assim que saímos, ele me olhou esperançoso, com as mãos na barriga.

— Podemos ir até minha floricultura? Queria matar a saudade dela.

Isso talvez fosse perigoso, já que tinha chances de alguém da Ordem estar de olho. Mas, eu sabia que não conseguiria convencer ele do contrário. E nem tentei.

— Tudo bem, vamos.

Jimin sorriu animado, aquele mesmo sorriso que sempre iluminava meus dias.
Sua floricultura foi seu refúgio durante muito tempo, e eu sabia o quanto significava para ele.

A loja estava a poucos minutos de distância de nós, e o caminho foi preenchido com conversas sobre as flores e memórias.

Chegamos à floricultura, e Jimin parecia quase radiante ao entrar. Ele caminhou pelos corredores estreitos repletos de flores, passando a mão nas pétalas com amor.

— Sinto falta desse lugar — ele comentou.

Fiquei ao seu lado, observando enquanto ele se perdia nas flores, que estavam extremamente vivas e bem cuidadas, graças ao seu amigo e à mãe dele.

Nesse momento, meu celular começou a vibrar no bolso com uma chamada do Yoongi. Deixei o Jimin curtindo suas flores e conversando com o Yuki, e fui para o lado de fora para atender.

— Alô?

— Jungkook, vocês estão em casa?

— Não, viemos para Elysium comprar algumas coisas. Por quê?

— Meu pai quer ir ver a casa e também conversar com você sobre algo que descobriu.

— Entendi. Vou falar com o Jimin e vamos voltar. Pode avisar o Arconde para ir — Nos despedimos e eu entrei de volta na floricultura, onde Jimin ainda estava maravilhado com as flores.

— Yoongi falou que o Arconde quer nos visitar e discutir algo importante. Precisamos voltar para casa.

— Ele disse o que queria?

— Não disse.

Jimin olhou ao redor, desmotivado, afinal era nítido que ele queria ficar mais.

— Agora que moramos perto, eu prometo que voltaremos logo. Assim que o bebê nascer, você vai poder retomar sua loja, que vai ser abastecida com as flores que vamos plantar em casa.

Ele sorriu levemente, o brilho nos olhos voltando um pouco.

— Obrigado por tentar me animar sempre.

Dei um beijo leve na sua testa. Fechamos a loja, e com o carro lotado de compras, pegamos estrada para nossa casa.

Do lado de fora de casa, ainda não havia nenhum carro. Estacionei e comecei a tirar nossas sacolas. O Jimin já estava esticando a mão para usar seu poder e ajudar com as compras, mas foi interrompido quando segurei seu pulso.

— Não faça isso.

— Mas a Ordem não está mais com o Taehyung, não tem como me rastrearem.

— Não vamos arriscar. Vai lá descansar que eu guardo tudo.

— Ah, mas é injusto.

— Você tá carregando um bebê de quase 3 quilos. Injusto seria se eu fizesse você carregar alguma coisa. Eu termino rápido aqui.

Ele bufou, mas aceitou e foi para dentro, enquanto eu lidava com as compras.

Depois de cerca de trinta minutos, uma SUV preta estacionou do lado de fora. Yoongi desceu do banco do motorista, e o Arconde, com dificuldade, saiu do carro com sua ajuda. Não era segredo para ninguém que a saúde do Arconde estava piorando nos últimos meses.

Recebi os dois e fomos para a sala.

— A casa é linda, assim como as redondezas. Parabéns pela conquista de vocês — o Arconde comentou, sua voz baixa.

— Obrigado, Arconde — Jimin respondeu com um sorriso educado.

O Arconde pareceu ponderar por alguns minutos, como se estivesse escolhendo as palavras certas. Yoongi, que segurava uma maleta, abriu e retirou um livro de páginas gastas e amareladas pelo tempo. Ele o entregou ao Arconde, que o segurou com cuidado antes de começar a falar.

— Este livro contém os nomes de todos os ômegas que nasceram com mutação Aether nos genes desde o início do projeto, com meus pais. O ponto que quero chegar é que, há cerca de 24 anos, quando meu pai ainda era o Arconde do vilarejo, uma ômega, Aether Classe A especialista em controle do ar, foi raptada pela Ordem do Eclipse. Você a reconhece?

Ele virou o livro em minha direção, e eu encarei o rosto que ele apontava, mas era desconhecido para mim.

— Desculpe, Arconde, não a reconheço — respondi.

Ele voltou a olhar para o livro, como se confirmasse algo, fechou, apoiou os braços sobre ele e me encarou.

— Essa Aether era sua mãe, Jeon.

As palavras dele pareciam ecoar na minha cabeça, me deixando atordoado. Minha mãe? Eu tentei lembrar de algo, qualquer memória vaga que pudesse confirmar o que ele dizia, mas minha mente estava em branco, assim como sempre foi, um capitulo totalmente em branco.

O silêncio entre nós foi pesado, e eu mal conseguia processar tudo.

— Como assim? — perguntei, tentando manter a calma.

O Arconde suspirou profundamente, como se a revelação também o afetasse.

— Depois que ela foi levada pela Ordem, eles a mantiveram em cativeiro por anos, usando seus poderes para experimentos e manipulações. Não há notícias de quem seja seu pai, mas tudo indica que a fizeram engravidar na intenção de gerar outro ômega Aether. Você é um alfa, então imagino que a Ordem não quis abrir mão de você e o treinou como caçador.

Eu mal podia acreditar no que ouvi. Minha respiração ficou pesada e meu peito apertado. O Jimin se aproximou ainda mais e segurou minha mão com força, mostrando que estava ali comigo.

O Arconde me observava com uma expressão séria, mas ao mesmo tempo, parecia compreender o que aquilo significava para mim. Eu mal conseguia processar a ideia de que eu era alguém.

— O que aconteceu com ela?

O Arconde desviou o olhar por um segundo, como se as palavras pesassem.

— Não tivemos notícias durante todos esses anos. Infelizmente não sabemos ao certo o que aconteceu, mas é provável que a Ordem tenha dado um fim nela quando já não era mais útil para seus propósitos.

Eu senti um nó se formar na garganta.

— Eu... eu já volto.

Minha única reação foi sair de casa, deixando os três para trás. Caminhei para o lado de fora, mas nem o ar fresco da tarde ajudava a clarear meus pensamentos. Meus passos foram pesados, quase automáticos, enquanto eu tentava entender o peso das revelações e como isso mudava tudo o que eu sabia sobre mim mesmo.

Eu cresci com a ideia de que eu não era ninguém, apenas um objeto, uma arma. Saber que eu tive uma mãe bagunçava toda minha cabeça. Me abaixei na grama e encostei a cabeça entre os braços, mergulhando na escuridão do abismo dos meus pensamentos.

E então, ouvi passos lentos e cuidadosos, e ao sentir uma mão nas costas, levantei a cabeça e vi que era o Jimin.

Ele se agachou ao meu lado, sem dizer uma palavra. Sua presença ao meu lado era um alívio silencioso, um apoio que eu precisava mais do que qualquer coisa. Ele passou o braço por meus ombros e eu me inclinei contra ele, sentindo seu calor.

— A Ordem me fez caçar Aethers durante toda minha vida, me contaram as piores mentiras sobre mim, pra no fim, eu ser filho justamente de uma Aether. Como eu pude ser tão idiota de acreditar neles?

Jimin apertou um pouco mais o abraço, como se tentasse transmitir toda a compreensão e apoio que as palavras não conseguiam alcançar.

— Você não foi idiota. Eles te manipularam desde pequeno, te usaram como peça em um jogo cruel. Não é sua culpa acreditar no que te disseram, especialmente quando você não tinha outra versão da história.

Eu fechei os olhos, tentando absorver as palavras dele.

— E agora? O que eu faço?

— Primeiro, você não precisa enfrentar isso sozinho, nós estamos juntos. E segundo, agora que nossas motivações são maiores, temos que acabar com a Ordem de uma vez por todas, vingando tudo o que fizeram com você e com todos.

Eu tentava parecer forte o tempo todo, mas naquele momento, as lágrimas nos meus olhos pareciam pesar toneladas, e eu mal conseguia esconder.

— Me perdoa...

— Perdão pelo quê?

— Por ter caçado você e tantos outros ômegas. Eu vou carregar essa culpa apodrecendo dentro de mim pelo resto da minha vida.

Ele me olhou com um misto de tristeza e doçura nos olhos.

— A Ordem te usou, Jun, e você fez o que achava ser o certo na época. O que importa agora é que você é a melhor pessoa que eu poderia conhecer, e é a razão da minha vida... ou melhor, das nossas. Não quero que sinta essa culpa.

Ele pegou minha mão e a colocou em sua barriga antes de continuar.

— Independente do que você foi ou já fez, hoje, você é o pai do meu filho, é quem eu amo e quem eu quero do meu lado pra sempre.

A dor e a culpa que pesavam nas minhas costas pareciam um pouco mais leves, apenas por saber que eu tinha eles ao meu lado. O Jimin veio literalmente para salvar a minha vida, e conhecer ele foi a única coisa boa que a Ordem me proporcionou.

— Obrigado, Min.

Ele sorriu, com uma expressão cheia de ternura e compreensão.

— Vamos enfrentar isso juntos, e a Ordem nunca mais vai nos controlar. Agora, vamos voltar para dentro e enfrentar isso com a cabeça erguida. Ok?

Eu concordei, e após me recuperar, voltamos para casa. O Arconde e o Yoongi ainda estavam na sala, conversando em tom baixo. Ao nos verem, o Arconde se levantou.

— Jungkook, Jimin, sinto muito por tudo isso, mas imaginei que você tinha o direito de saber — disse o Arconde, com uma expressão mais suave. — Se precisarem de qualquer coisa, estarei pronto para ajudar.

— Obrigado por tudo, Arconde — respondi. — E, mais uma vez, me perdoe pela minha parte nisso tudo.

Ele acenou com a cabeça e continuou.

— Você não tem culpa, rapaz. Mas, se puder continuar nos ajudando contra a Ordem do Eclipse, sua presença é essencial para isso.

— Eu ajudarei no que for necessário, e agora, derrubar a Ordem não é só um desejo, é uma honra.

O Arconde deu um sutil sorriso satisfeito e se levantou com a ajuda do Yoongi.

— Fico feliz em saber disso. Bem, precisamos ir; o velho aqui não está muito legal — ele riu. — Eu imagino que vocês vão querer continuar na casa, então vou encaminhar seguranças para ficarem com vocês. E, Park, evite usar seus poderes, por favor.

— Ok, eu não usarei. — até a animação do Jimin aumentou com o que o Arconde disse.

O Arconde e Yoongi se despediram e saíram. Assim que a porta se fechou atrás deles, o Min me abraçou.

— Eu te amo, não se esqueça disso.

Senti o calor e o conforto do abraço dele, e correspondi com um abraço ainda mais apertado, absorvendo a sensação de que, apesar dos problemas, estávamos prontos para enfrentar qualquer desafio juntos.

— Eu também amo você.

O restante da tarde passou tranquilo. Preparei o jantar enquanto meu gravidinho estava na sala, com o notebook ligado e estudando manipulação e extração da essência das flores, algo que ele já fazia no vilarejo.

A Haru não desgrudava dele e, agora no fim da gravidez, parecia ainda mais grudada, como se soubesse que logo teria um irmãozinho por perto.

Do lado de fora, tudo estava silencioso, e apenas os sons da casa se destacavam. Jantamos na mesa e, em seguida, subimos para o nosso quarto. Conforme o Arconde havia prometido, já havia seguranças do lado de fora, revezando para manter a proteção da casa e estar atentos a qualquer sinal de perigo.

Já deitado na cama, os pensamentos sobre minha mãe não me deixavam em paz. Como será que ela era? Sua aparência eu vi, mas, seu jeito, voz, manias... eu não sabia nada. O Arconde disse que ela era manipuladora do ar; será que ela sabia voar?

Uma Aether tão poderosa, que deu à luz a um alfa totalmente inútil e indesejado pela Ordem e por todos. Devo ter sido um motivo de pena para o Taeha não me descartar feito lixo.

— Tá pensando em quê? — Jimin perguntou, deitado ao meu lado.

— Que estou ansioso para ver o rosto do Yuki.

Não queria que ele soubesse que eu ainda estava remoendo esse assunto.

— Vem, me abraça.

Abracei ele de conchinha. O bebê estava tranquilo em sua barriga, assim como o Jimin, que foi ficando mais sonolento a cara carinho que eu fazia nele.

E então, ele pegou no sono. Comigo não foi assim, e infelizmente o sono não se fez presente durante longas horas da madrugada.


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No dia seguinte.

Era pouco mais de 03h da manhã, e eu ainda não tinha conseguido dormir. Peguei um copo de água na cozinha e comecei a andar pela casa. Pela janela, via os seguranças patrulhando a redondeza. Sendo uma área de campo, a vigilância precisava ser rigorosa.

De repente, meu celular, que estava na minha mão, começou a tocar. Uma ligação a essa hora fez meu coração disparar. Quando atendi, era o Yoongi.

— O que aconteceu?

— Céus, que bom que você atendeu rápido. Dois caçadores da Ordem estão agora atrás de um Aether nosso em Elysium. Precisamos da sua ajuda, ele está desesperado. Estamos indo com reforços, mas você chegará muito mais rápido. Já liguei para o Namjoon, e ele também está a caminho.

— Ok, me envie o endereço. Estou indo agora.

Fui para o quarto para avisar o Jimin, mas ele estava dormindo tão bem que decidi não o acordar. Além disso, eu sabia que ele ia querer vir junto, então o melhor era sair sem avisar, mesmo que ele fique irritado depois.

Escondido entre minhas coisas, peguei minha arma, coloquei um silenciador e guardei ela na cintura. Desci correndo para o carro, e antes de partir, parei ao lado de um dos seguranças.

— Estamos indo salvar um Aether. Por favor, protejam o Jimin e a casa, e me liguem em qualquer emergência.

Ele concordou e eu parti com o carro. Elysium estava a cerca de vinte minutos de distância, e o endereço que o Yoongi me passou ficava bem no centro da cidade, mais especificamente, em uma boate.

Enquanto dirigia e pensava em um plano, meu celular tocou novamente; era uma chamada do Nam.

— Você já ficou sabendo? — Ele perguntou.

— Já, estou indo para Elysium agora.

— Ótimo. Vou te esperar lá, estou a caminho também.

Diferente de mim, o Namjoon não tinha motivos pessoais para se voltar contra a Ordem do Eclipse, mas fez isso porque sabia o quanto era importante para mim.

Depois de mais alguns minutos agonizantes dentro do carro, cheguei ao endereço. Estacionei o veículo e vi que a área ao redor da boate estava cheia de pessoas, o que poderia ser tanto uma vantagem quanto uma desvantagem para nós.

O Nam chegou pouco depois e nós entramos juntos. O ambiente dentro da boate era caótico, com música alta e luzes piscando, tornando difícil enxergar e ouvir.

— Vamos nos separar para encontrar o Aether — falei.

Conferimos entre as pessoas na pista de dança, mas não encontramos nada. Decidi então verificar os banheiros, mas também estavam vazios. Segui para um corredor reservado apenas para funcionários, e foi ali que ouvi sussurros e risadas abafados vindos de uma sala trancada. Sem hesitar, estourei a porta com um único chute, e a arma em punho.

Dentro da sala, dois homens estavam em cima de um Aether, o amarrando enquanto ele estava no chão. O ômega estava com a camisa rasgada e o botão da calça aberto, e foi então que percebi que eles não estavam tentando apenas capturar ele...

— Seus desgraçados! — gritei, cego de raiva.

Disparei contra um dos homens, que caiu com um tiro certeiro no ombro. O outro tentou usar o ômega como escudo, mas não esperava que o Namjoon entrasse pela outra porta. Ele avançou diretamente no homem restante. Com um movimento rápido e preciso, ele desarmou o caçador e o imobilizou no chão, e começou a bater nele, enquanto eu me aproximei do Aether.

— Você está bem? — perguntei ao ômega, que estava visivelmente aterrorizado.

Ele me olhou em lágrimas, com olhos cheios de medo e dor, mas balançou a cabeça concordando.

— Fique tranquilo, vamos te tirar daqui agora.

Enquanto eu soltava as cordas do Aether, o Namjoon prendia as algemas no caçador. De repente, ouvi um grito do Namjoon.

— Cuidado!

Antes que pudesse reagir, um dardo de tranquilizante atingiu minha perna. A sensação foi imediata; minha vista começou a escurecer e meus movimentos ficaram cada vez mais lentos. Tentei me manter acordado, mas a consciência estava deslizando do meu corpo com rapidez.

Passos apressados ecoaram pela sala, e a sensação de perda de controle tomou conta. Com esforço, olhei para o Aether, que também parecia em choque, mas mesmo assim tentava me ajudar. E então minha visão se apagou completamente.

Eu desmaiei.

Eu não sabia por quanto tempo fiquei desacordado. Assim que acordei, meus olhos não respondiam direito e meu corpo estava completamente dormente. Tudo ao meu redor parecia distorcido, e foi quando escutei uma voz.

— Posso dizer que esperava uma traição de qualquer um, mas de vocês dois? Não... isso me surpreendeu.

Tentei focar na figura diante de mim, mas tudo o que consegui ver foi uma silhueta borrada. A voz, no entanto, era familiar.

— Me solta dessa merda! — gritei, tentando me livrar das amarras, mas meu corpo ainda não reagia como deveria.

— Não vou soltar até você me explicar por que traiu a Ordem do Eclipse — ele respondeu com frieza.

Virei o rosto com dificuldade e vi o Namjoon e o Aether ao meu lado, também amarrados e inconscientes. Meu coração disparou, e eu precisava encontrar uma forma de avisar o Yoongi.

Tudo ao meu redor estava turvo, mas bastou o homem falar algumas palavras pra reconhecer quem era... Era o Taeha, pai do Eunwoo. Ele se aproximou de mim, se abaixando ao meu lado com um sorriso presunçoso.

— Espera, não precisa falar, deixa eu adivinhar: Jeon Jungkook, o caçador exemplar que não se abalava por feromônios de ômegas e colecionava caçadas bem-sucedidas... acabou se apaixonando pelo Aether que deveria capturar. Acertei?

Virei o rosto, me recusando a dar qualquer resposta. Meu corpo estava pesado, e o efeito do tranquilizante ainda me paralisava, mas minha visão já estava melhorando. Ele riu suavemente ao ver minha tentativa de resistência.

Taeha se levantou e começou a caminhar pela sala, suas botas ecoando no piso de concreto frio.

— Mesmo com sua traição, recebemos uma notícia inesperadamente boa. E, devo admitir, você superou minhas expectativas. — Ele parou por um instante, olhando diretamente para mim.

— Do que você está falando?

— Uma criança filha de um Aether Classe A e de um caçador de alto escalão da Ordem do Eclipse? Isso é muito melhor do que eu poderia imaginar. Você realmente é um gênio, Jeon.

Meus olhos se arregalaram, e eu avancei nele feito um louco, mesmo amarrado, mas o outro caçador que estava ali me segurou com força.

— Se você encostar um dedo no meu filho, eu juro que vou te matar com minhas próprias mãos, seu velho desgraçado.

— Encostar um dedo? — ele riu com desdém. — jamais faria mal a um ser indefeso. Mas é simples: essa criança será minha, assim como você foi.

Dei uma risada carregada de ódio.

— Eu vou te caçar até no inferno, e você sabe muito bem do que sou capaz. Não se atreva a chegar perto da minha família!

O velho apenas riu com desdém, ignorando minha ameaça enquanto o caçador me segurava firme. Seu olhar frio e calculista parecia se divertir com meu ódio.

— Sua família? — ele debochou, se aproximando novamente. — Oh, Jungkook, você ainda não entendeu, não é? A Ordem do Eclipse nunca te deu escolha, você nunca foi livre. E agora, seu filho vai ocupar o lugar que você ocupou. Eu cuidarei dele pessoalmente. Imagine só, o filho de um Aether tão forte quanto aquele, e um alfa lúpus, que também é filho de outra Aether... a arma perfeita. — Ele sorriu com os olhos exalando ambição.

O ódio que queimava dentro de mim só aumentava. Minha cabeça latejava, e eu podia sentir cada batida do meu coração ressoando em meus ouvidos.

— Eu juro, Taeha... — comecei, minha voz saindo entre dentes cerrados. — Não importa onde você se esconda, não importa o quanto você tente... eu vou te encontrar. E quando eu te encontrar, eu vou acabar com você, de um jeito que nem mesmo a Ordem será capaz de te proteger. E não vou parar só em você, e vou destruir toda essa sua linhagem de merda!

Ele parou por um momento, seu sorriso sumindo brevemente, mas ele logo voltou à sua postura arrogante.

— Veremos, Jeon.

Ele começou a caminhar para a saída da sala.

— Vá embora, seu desgraçado. É com esse tipo de gente que você merece andar, dois safados que estavam tentando abusar do ômega.

Ele parou ao ouvir, olhou para o ômega no chão e viu suas roupas rasgadas. Em menos de um segundo ele sacou a arma e deu um tiro na cabeça do outro caçador que restava.

— Resolvido. Agora, assumam a culpa por esses dois vermes mortos. Com licença.

Ele saiu pela mesma porta por onde entrou. Como sua arma não tinha silenciador, o som do tiro ecoou pela boate, e os gritos começaram imediatamente. Bastou esse disparo para o Yoongi e outros seguranças do vilarejo finalmente nos encontrarem.

— Mas que merda aconteceu aqui?

— Precisamos sair daqui agora! — falei.

Yoongi não hesitou. Pegou uma faca do bolso e cortou as cordas que nos prendiam rapidamente.

— Precisamos sair por trás, a frente já deve estar lotada de gente correndo por causa do tiro — ele disse, me puxando de pé.

Eu ainda estava meio zonzo pelo tranquilizante, mas não podia perder tempo. Também ajudaram o Namjoon e o Aether a se levantarem.

— Você está bem pra correr? — Yoongi perguntou enquanto me apoiava.

— Vou ter que estar, vamos.

Nos movemos rápido pelos corredores, buscando uma saída pelos fundos da boate.

Quando alcançamos a porta de serviço, um dos seguranças do vilarejo deu o sinal de que o caminho estava livre. Corremos para o carro, e enquanto o Nam colocava o Aether no banco de trás, o Yoongi se virou para mim.

— Quem fez isso com vocês?

— O Cha Taeha... — Respondi, sentindo o ódio ferver dentro de mim. — Ele sabe sobre o Jimin e o bebê.

O Yoongi me olhou com os olhos arregalados, nitidamente preocupado. Ele conhecia o Taeha, e sua expressão de receio dizia tudo.

— Droga, o Jimin!

— Ele está em casa, vou ligar para os seguranças. Leve o Aether embora para o vilarejo e cuidem dele.

Corri em direção ao meu carro para ir embora, mas quando peguei o celular, vi 23 chamadas perdidas do Jimin. O desespero tomou conta de mim. Antes que eu pudesse ligar de volta, uma nova chamada entrou. Atendi imediatamente.

— Jeon? — não era a voz do Jimin.

— Quem é? — perguntei, o medo gelando minha espinha.

— Sou eu, o segurança que está cuidando da sua casa. Desculpe ligar, mas seu marido estava passando muito mal. Tentamos ligar para o senhor, mas como não conseguimos, trouxemos ele para um hospital em Elysium. Ele estava com muita dor e não sabíamos bem o que fazer.

Meu coração, que já estava acelerado, começou a pular no peito.

— Estou indo agora! Me envie o endereço do hospital.

Assim que o segurança me enviou, joguei o celular no banco do passageiro e saí em disparada.

O caminho até o hospital parecia interminável, com meus pensamentos indo a mil. "O que aconteceu? Será que o velho maldito fez alguma coisa?" A culpa por ter deixado o Jimin sozinho em casa me consumia a cada segundo.

Depois de cometer todas as infrações de trânsito possíveis e quase bater o carro em um cruzamento, finalmente cheguei ao hospital. Estacionei o carro de qualquer jeito e corri para a recepção.

— Park Jimin foi trazido para cá! Onde ele está?

A recepcionista, percebendo meu desespero, rapidamente verificou o sistema e indicou o andar.

— Quarto 307 da ala da maternidade. Ele já está sendo atendido.

— Espera, isso significa que...

— Ele está em trabalho de parto, senhor.

Meu coração quase parou no momento em que ela disse aquelas palavras.

— Trabalho de parto? Mas… mas não estava na hora ainda!

— Acontece, senhor. O médico está com ele agora. Vá para o quarto, eles poderão lhe dar mais informações.

Sem pensar duas vezes, corri em direção ao elevador, mal sentindo meus pés tocarem o chão. Cheguei ao andar indicado e segui para o quarto 305, com o coração na boca. Uma enfermeira me encontrou no corredor e, sem perder tempo, me levou para a sala de higienização, onde coloquei a roupa hospitalar.

Foi tudo tão rápido que minha mente mal raciocinava.

Assim que entrei no quarto, vi Jimin deitado na cama, suado e desacordado, enquanto a cesárea já estava em andamento. Respirei aliviado ao reconhecer a médica que o atendia, era a mesma do vilarejo, em quem confiamos completamente.

Ela ergueu o olhar por um segundo, percebendo minha presença, e me deu um leve aceno.

— Vai ficar tudo bem. Estamos quase terminando.

Eu parei ao lado do Jimin e segurei sua mão. Meu coração estava acelerado e minha mente uma bagunça de sentimentos. Eu olhava para ele apagado e só conseguia me perguntar se isso era normal.

E então, um choro. Me estiquei um pouco para olhar e vi... vi ele... era real! Nosso filho era real.

A médica e as enfermeiras estavam ocupadas limpando o bebê e verificando seus sinais vitais. O choro do pequeno, fraco e agitado, se misturava ao som dos equipamentos médicos. Eu senti uma mistura de alívio e euforia que me fez quase esquecer da tensão que vivi nas últimas horas.

Enquanto a equipe terminava de cuidar do bebê, um dos enfermeiros se aproximou de mim com o pequeno nos braços.

— Parabéns, pai. — Ele disse, com um sorriso.

O bebê estava enrolado em uma manta, com pequenos olhos fechados e um rostinho inchado.

— Ele é lindo... — Minha voz estava embargada, e eu quase não consegui falar.

Ele precisou levar o bebê poucos segundos depois, e médica se aproximou. Ela sorriu ao se aproximar, seu rosto ainda com a calma de quem já lidou com muitos partos.

— Obrigado por ter vindo, doutora — eu disse, ainda processando o que havia acabado de acontecer.

Ela deu uma risadinha antes de responder:

— Imagina. O Yoongi chamou um aerotáxi pra me buscar. Andei de helicóptero pela primeira vez na vida. — disse em tom descontraído.

Eu não pude deixar de sorrir um pouco, apesar de todo o caos que ainda borbulhava na minha mente.

A médica continuou:

— O bebê está bem, mas precisará de alguns exames para garantir que está tudo em ordem. A cesárea foi tranquila, e o Jimin está estável, apenas exausto. Vou me certificar de que eles recebam todo o cuidado necessário agora.

Eu acenei com a cabeça, aliviado. A médica fez um gesto para que eu a acompanhasse até a área de espera, onde eu fiquei durante um bom tempo. A ansiedade de ver Jimin e o Yuki me consumia a cada segundo.

Enquanto esperava, o Seokjin apareceu, correndo. Sua expressão preocupada aliviou ao meu ver.

— Ele nasceu? — perguntou.

— Nasceu, e os dois estão bem. Ele ainda está na recuperação, mas a cesárea foi tranquila, e o neném está saudável — respondi, tentando acalmar os nervos.

Seokjin se aproximou, colocando a mão no meu ombro com um gesto de apoio.

— Que bom que tudo deu certo, parabéns papai — disse ele, com um tom de voz reconfortante.

— Muito obrigado, Jin.

Uma das enfermeiras se aproximou do nós depois de pouco mais de uma hora.

— Senhor Jeon? Seu bebê está no berçário. Se quiser, posso te levar até lá.

— Sim! Sim, por favor — respondi, tentando controlar a emoção.

Caminhamos por corredores brancos e frios até o berçário. Lá, entre outros bebês, ela me mostrou o meu filho através do vidro. Ele parecia tão pequeno e perfeito, com cabelo escuro e olhos puxados. Eu me aproximei do vidro, emocionado, tentando ver mais de perto.

— Meu filho... — murmurei para mim mesmo, sem acreditar que era verdade.

Ainda de frente para o vidro, senti as lágrimas se acumulando nos meus olhos, mas segurei o choro. Não sabia nem como reagir àquela avalanche de sentimentos. Medo, alegria, alívio... tudo misturado. A enfermeira voltou até mim e parou do meu lado.

— Ele parece bem — comentei, sem tirar os olhos do bebê.

— Ele está ótimo, é um menino lindo — ela respondeu, com um sorriso tranquilo. — E logo seu marido também estará.

Marido... sim, ele era meu marido, e eu precisava oficializar isso.

Enquanto eu observava o Yuki dormindo, a enfermeira se afastou, e um pouco depois, a médica do Jimin se aproximou.

— Eu posso ver o Jimin? — perguntei.

— Pode, ele acordou agora, e já perguntou de você. Vou te levar até o quarto de recuperação — ela respondeu, gesticulando para que eu a seguisse.

Dei uma última olhada no bebê, ainda pequeno e frágil atrás do vidro, antes de me virar e seguir a doutora pelos corredores. Meu coração estava acelerado, batendo em um ritmo que misturava vários sentimentos.

Quando chegamos à sala, vi o Jimin deitado na cama. Ele parecia cansado, ainda pálido, mas abriu um sorriso fraco quando me viu. Me aproximei devagar, tentando não demonstrar o turbilhão de emoções que me dominava.

— Ei... — murmurei, pegando sua mão com cuidado. — Como você está?

— Cansado — ele disse, a voz um pouco rouca. — E o Yuki, está bem?

— Ele é perfeito, Min. Forte, saudável e lindo, assim como você.

Jimin fechou os olhos por um momento, suspirando de alívio, enquanto apertava minha mão com mais força.

— Eu sabia que você ia chegar a tempo — ele sussurrou, com um pequeno sorriso.

A culpa dominou cada músculo do meu corpo, e cada pedacinho da minha mente.

— Me desculpe por não estar em casa.

— Foi pelo bem de um Aether, a doutora me contou. Obrigado por isso e por todos os outros que você já salvou.

Sem dizer mais nada, me inclinei e o envolvi em um abraço forte, sentindo o calor do seu corpo e o quanto aquele momento significava. Por um instante, nada mais importava além de nós dois e nosso bebê.

Eu sabia que não deveria tocar naquele assunto agora, mas ele insistiu e me convenceu, então contei como foi pra resgatar o Aether, assim como o encontro com o Taeha. Evitei falar sobre o interesse dele no Yuki, assim como os dois caçadores mortos. Ele acabou de sair de um parto, e não era o momento para isso.

Enquanto me me ouvia, seus olhos refletiam preocupação, mas ele se mantinha firme. Nossa conversa foi interrompida pela mesma enfermeira de antes. Quando ela abriu a porta, percebemos que trazia o Yuki em um pequeno berço, com rodinhas.

Meu coração acelerou ao ver ele tão perto.

A enfermeira se aproximou e, com um sorriso gentil, pegou o neném e colocou nos braços do Jimin. Eu observava em silêncio, incapaz de descrever a emoção que eu estava sentindo.

— Ele é ainda mais lindo de perto — sussurrei, quase sem acreditar que aquele pequeno era nosso.

Jimin olhou para mim, os olhos marejados de emoção, e depois para o Yuki, que dormia pacificamente em seus braços. Ele passou a mão com carinho pela cabeça do bebê e depois em sua pequena mãozinha.

— Ele é sua cara... até o cabelo — ele disse, sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

Eu não pude conter a emoção, sentindo uma felicidade pura e intensa ao ver eles juntos. Aquele momento era maior do que qualquer palavra, e eu sabia que nossas vidas estavam ligadas para sempre.

— Pega ele um pouco.

Eu congelei por um instante. O nervosismo me atingiu em cheio, afinal, eu nunca tinha segurado um bebê na minha vida. Minhas mãos tremiam levemente enquanto me aproximava. Ele sorriu de forma encorajadora, se inclinando com cuidado para me passar o Yuki.

— Vai dar tudo certo, só mantém a cabeça dele firme — Ele disse, tentando me tranquilizar.

Respirei fundo e, com todo o cuidado do mundo, segurei ele nos braços. Ele parecia tão pequeno e frágil, mas ao mesmo tempo, uma onda de proteção e amor me envolveu, como se aquele instante fosse o mais importante da minha vida.

— Eu amo tanto você, meu menino — murmurei, olhando para o rosto sereno do neném, sentindo meu coração bater acelerado, mas cheio de paz.

Jimin riu baixinho, ainda emocionado, enxugando discretamente uma lágrima.

Ainda segurando o neném, peguei a mão do Jimin e a enchi de beijos suaves, sem conseguir conter a emoção.

— Obrigado por me fazer a pessoa mais feliz desse mundo, Min — murmurei, a voz embargada.

Jimin sorriu, os olhos brilhando, e apertou minha mão de volta.

— Você faz o mesmo por mim.

Enquanto a gente curtia esse momento, a médica do Jimin bateu na porta e entrou. Ela estava no hospital especialmente por ele. O vilarejo tinha estrutura de sobra para o parto, mas como ele estava na nossa casa, vir para Elysium foi a opção mais próxima e segura.

Como Jimin é um Aether, a médica veio às pressas para cá, já que o hospital não poderia saber.

Ela sorriu ao nos ver.

— Como estão os papais? — perguntou, se aproximando da cama e observando Jimin com um olhar profissional, mas também familiar.

— Estamos bem, doutora.

A médica sorriu satisfeita, e olhou para mim segurando o bebê.

— Você parece já estar se saindo muito bem, papai — comentou com um leve sorriso. — Não se esqueçam de que ninguém aqui pode saber sobre o Jimin.

Quando ela mencionou isso, foi como se uma pequena chave tivesse virado em nossas cabeças. Eu não perguntei, mas percebi que Jimin pensava o mesmo e, sem hesitar, fez a pergunta que estava pensando desde a gravidez.

— Ele é um ômega?

A médica começou a folhear alguns papéis que estavam em sua mão para confirmar a resposta.

— Os exames indicam que o Yuki é um alfa.

Ele respirou aliviado, e eu vi o peso que saiu de seus ombros naquele instante. Eu sabia o quanto ele tinha sofrido nas mãos da Ordem e entendia seu desejo de que o Yuki não seguisse seus genes de Aether.

— Que alívio — ele murmurou.

Depois que a doutora nos passou mais algumas orientações, ela se despediu e saiu da sala. Não demorou muito até que a porta se abrisse novamente, e o Seokjin e o Namjoon entraram juntos, ansiosos pra conhecer o bebê.

— E aí, papais, os tios chegaram! — O Jin falou com entusiasmo, indo direto até mim, que estava com o Yuki no colo.

Namjoon, que já estava melhor do tranquilizante que o Taeha aplicou, foi logo atrás de mim, olhando para o pequeno.

— Olha só esse garotinho! Ele é perfeito, JK!

— Ele é realmente lindo — Jin concordou, com um sorriso, e foi até o Jimin. — Como você está se sentindo?

— Meio cansado, mas muito, muito feliz. Não consigo acreditar que ele finalmente está aqui e nunca mais vou carregar aquela barriga pesada.

Enquanto eles conversavam, meu celular começou a tocar, exibindo o nome de Yoongi na tela. Ele tinha mencionado antes que queria vir até aqui, mas precisou ficar no vilarejo cuidando do Aether que resgatamos. Entreguei o Yuki no colo do Jimin e saí pra atender.

— O bebê nasceu?

— Sim, forte e saudável, mesmo que tenha nascido antes da hora. — respondi, com um sorriso que ele não podia ver, mas que com certeza podia ouvir.

— Que boa notícia! — a voz dele soou aliviada do outro lado da linha. — Queria estar aí, mas as coisas ficaram complicadas, com relação ao meu pai.

— Eu sei, não se preocupe. Como ele está?

— Não muito bem, mas tem um médico com ele — Yoongi suspirou, parecendo cansado. — Pelo menos o ômega está são e salvo, graças a vocês. Obrigado por arriscarem suas vidas.

— Fico aliviado de saber disso. Desejo melhoras para o Arconde, e assim que pudermos, levaremos o Yuki pra ele conhecer. E sobre o Aether, cuide dele de perto, por favor. O que ele quase passou vai ser difícil de esquecer.

— Pode deixar, vou te dando notícias.

— Ah, e eu soube que você pagou um helicóptero para trazer a médica até Elysium. Obrigado por ter feito isso.

— Imagina. Não dava pra arriscar uma médica comum fazer o parto dele. Fico feliz de ter ajudado. Mande um abraço pro Jimin e diga que estou muito feliz por vocês.

Nos despedimos, e eu voltei para a sala, onde o Jin e Namjoon continuavam admirando Yuki e conversando com Jimin. A atmosfera estava cheia de uma nova energia, e o ambiente parecia ter encontrado uma nova harmonia com a chegada do nosso filho, mesmo com toda a merda que aconteceu antes desse momento bom.

O dia passou tranquilo, em contraste com a loucura que vivemos. Namjoon acabou voltando para o vilarejo, já que estava acordado desde o dia anterior e também foi dopado, assim como eu. Seokjin ainda ficou mais um tempo com Jimin, mas logo precisou ir também. No início da noite, a doutora do vilarejo retornou à sala com um sorriso calmo.

— Tenho boas notícias: Já podemos dar alta para vocês — ela anunciou, olhando para nós com satisfação. — Vocês precisarão seguir algumas orientações de cuidados em casa, mas, no geral, a recuperação da cesárea será tranquila, muito mais rápida que um humano comum.

Ela nos passou as últimas recomendações, e, enquanto eu prestava atenção, não pude evitar sentir uma leve onda de preocupação. Sabíamos que sair do hospital seria um alívio, mas também traria novos desafios. Lá fora, precisaríamos ser ainda mais cautelosos, especialmente agora, com o Yuki e com o interesse da Ordem nele.

Eu sabia que o Jimin, com certeza, iria querer ir direto para nossa casa, onde se sentiria mais confortável. Mas, no fundo, eu sabia que o vilarejo seria a opção mais segura neste momento.

Era óbvio que ele me convenceria.

Enquanto o Jimin trocava de roupa, aproveitei para arrumar o Yuki no bebê-conforto. Ele dormia profundamente, com uma expressão serena, e por um momento, parecia que todo o caos e preocupação ao nosso redor nem existissem. O silêncio suave da sala e o ritmo tranquilo da respiração do neném criavam uma sensação de paz que eu não sabia que precisava até aquele instante.

Saímos do quarto e fomos em direção ao estacionamento. Jimin nem parecia que tinha passado por um parto, já que estava saltitando de felicidade, cheio de energia, falando sobre o futuro e fazendo mil planos para nossa vida com o Yuki.

Assim que entramos no carro e coloquei o bebê-conforto no banco de trás, o silêncio mortal tomou conta. Olhei para ele, hesitante, antes de finalmente fazer a tal pergunta:

— Nós vamos para o vilarejo?

Ele me olhou por alguns segundos, processando a pergunta. O entusiasmo que ele demonstrava até aquele momento deu lugar a uma expressão mais séria. Ele suspirou, desviando o olhar para o Yuki, que ainda dormia tranquilo no bebê-conforto.

— Eu queria ir pra nossa casa...

Havia um toque de frustração na voz dele. Ele sabia dos riscos que corremos ao tentar voltar para a rotina normal, e o vilarejo era o único lugar que oferecia o tipo de proteção de que precisamos naquele momento.

— Não é o que eu quero também — falei, estendendo a mão para segurar a dele. — Mas é o que a gente precisa fazer. Pelo menos até a gente descobrir a localização do Taeha. Sei onde encontrar o Eunwoo, mas ele não responde nada acima do pai.

Jimin fez aquele bico característico, fechando o rosto de forma teimosa, e então me olhou fundo nos olhos.

— Vamos pra casa, por favor — ele insistiu.

Suspirei, passando a mão pelo volante e tentando encontrar uma solução.

— Você não vai mudar de ideia, certo?

Ele continuou me encarando, ainda com a expressão emburrada, mas não disse nada de imediato. Sabia que ele entendia, mesmo que fosse difícil aceitar.

— Ok, vamos para casa. Mas vou falar para o Arconde mandar reforços pra ficar conosco.

Ele relaxou um pouco, seu rosto ainda mostrando uma mistura de frustração e alívio.

— Obrigado por entender.

Enquanto dirigia, Jimin cochilou, e o Yuki no banco de trás também. Aproveitei para conversar com o Yoongi por mensagem. Ele entendeu a situação e já começou a providenciar a segurança reforçada para a nossa casa, mesmo que os poderes do Jimin fosse maior do que mil seguranças juntos.

Quando chegamos, peguei o bebê-conforto e entramos no nosso lar. A Haru correu até a entrada para nos receber, completamente curiosa para cheirar o bebê e descobrir quem era.

O Jimin se acomodou no sofá e pegou o Yuki no colo com cuidado. A Haru se aproximou rapidamente para conhecer seu novo irmãozinho. Ela cheirou delicadamente o bebê.

Jimin sorriu ao ver a interação, encantado com a forma como a Haru estava aceitando o Yuki. Ela começou a ronronar, um gesto carinhoso que sempre fazia quando estava feliz.

— Que bom que você gostou dele, meu amorzinho — ele disse, dando um beijo carinhoso na Haru.

Enquanto o Jimin continuava interagindo com a Haru e o Yuki, eu aproveitei para desfazer as malas e organizar as coisas pela casa. Os seguranças iam e vinham, trazendo o restante dos itens enviados a pedido do Yoongi.

Coloquei roupas nos armários, acomodei os utensílios de cozinha, e fui organizando cada detalhe no lugar. A rotina tranquila foi interrompida por um chorinho vindo do Yuki. Fui até o Jimin, que estava em pé, balançando o bebê em seus braços com um olhar calmo.

— Acho que ele está com fome — comentou, com a voz suave, tentando acalmar o pequeno.

— Vou preparar a mamadeira. Já volto.

Fui até a cozinha, trazendo na mente as instruções detalhadas da médica. Peguei a fórmula, medi a quantidade exata e misturei com a água morna, testando a temperatura no pulso antes de finalizar. Queria me certificar de que tudo estava perfeito para ele.

Com a mamadeira pronta, voltei para a sala, onde o Jimin ainda embalava o Yuki, tentando o acalmar. Entreguei a mamadeira e ele se sentou no sofá, ajeitando o bebê em seus braços com cuidado. Assim que o pequeno começou a mamar, seu choro cessou, dando lugar ao som suave e tranquilo de sucção.

O Jimin suspirou, aliviado, enquanto observava o Yuki com um carinho quase palpável.

— Eu não quero dormir longe dele... — ele murmurou.

Parei por um momento, analisando suas palavras e sorrindo.

— Vou levar o berço para o nosso quarto, o que acha?

Os olhos do Jimin brilharam instantaneamente, como se estrelas tivessem se acendido neles, e ele me olhou com gratidão.

— Eu vou amar!

Não resisti e dei um selinho rápido em seus lábios antes de subir para preparar tudo. O berço, já montado no quarto do Yuki, foi transferido para o nosso quarto. Escolhi um lugar ao lado do Jimin, de onde ele pudesse ver e alcançar o bebê com facilidade.

Quando ele entrou no quarto com o Yuki no colo, já dormindo, seus passos eram tão cuidadosos que parecia não querer perturbar nem o ar ao redor. Com uma delicadeza que sempre me surpreendia, Jimin colocou o bebê no berço, ajeitando o pequeno com todo carinho. Ele apoiou as mãos na grade e ficou ali, observando o Yuki com um olhar de ternura que aquecia qualquer coração.

Eu me aproximei em silêncio, abraçando Jimin por trás. Envolvi sua cintura e encostei meu queixo em seu ombro, sentindo o calor que emanava dele. Minha boca encontrou sua nuca, e comecei a distribuir beijos suaves, enquanto meus olhos também se fixavam no bebê adormecido.

— Dá pra acreditar que a gente fez um bebê tão perfeito assim dentro do meu carro?

Ele me deu um tapa leve no meu braço e soltou uma risada baixa, daquela que fazia todo o ambiente parecer mais leve.

— Shh, seu pervertido — respondeu, ainda rindo, enquanto tentava manter a voz baixa para não acordar o Yuki.

Eu ri junto, beijando sua bochecha e puxando ele para mais perto. A verdade é que, mesmo nas brincadeiras, eu não conseguia evitar me sentir completamente fascinado pela família que a gente havia construído.

Ele se virou para mim, e meus lábios deslizaram da sua bochecha para sua boca. O gosto viciante da sua língua explorando a minha de forma lenta e envolvente me fascinava.

O cheiro dele, sempre tão característico e reconfortante, agora estava diferente. Seus feromônios, que sempre me atraíram, se misturavam ao aroma suave de recém-nascido, formando o perfume mais magnífico que eu poderia sentir em toda a minha vida.

Depois de um tempo admirando o neném, fomos juntos tomar banho, deixando que a água levasse embora qualquer resquício de cansaço ou preocupação.

Quando deitamos na cama, o silêncio da noite nos envolveu, e eu me aconcheguei ao lado dele, como sempre fazia. Meus braços instintivamente procuraram sua barriga, um gesto quase automático de tanto que havia se tornado parte de nossa rotina.

Senti uma pontada de nostalgia, como se a gravidez tivesse passado rápido demais e, ao mesmo tempo, a certeza de que agora uma nova fase começava.

O Jimin percebeu meu silêncio e, como sempre, leu meus pensamentos sem que eu precisasse dizer nada. Ele pegou minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus.

Com nosso filho já dormindo ao lado, o Jimin foi o primeiro a pegar no sono. Eu fiquei ali, observando os dois, admirando a calma no rosto dele e a serenidade com que nosso pequeno dormia. O quarto estava silencioso, exceto pelo som suave de suas respirações sincronizadas, e por um momento, tudo parecia perfeito.

Passei a mão com cuidado pelos cabelos dourados do Jimin, apenas apreciando a paz daquele instante.

Finalmente, depois de um bom tempo admirando o que eu tinha, também peguei no sono ao lado deles, me sentindo o homem mais feliz do mundo.
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🪻

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Oi, leitor!
O baby Yuki chegouuu!

Diferente das minhas outras fics, não vou usar imagens, mas essa não poderia passar em branco!
Aguardem as várias surpresas que virão no decorrer da história.

E até o próximo capítulo!

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