07 ; 𝙇𝙤𝙩𝙪𝙨

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⊹  P a r k   J i m i n  ⊹
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Era estranho... eu estava em uma grande sala, toda branca, completamente sozinho. Um silêncio pesado tomava o ambiente, como se o tempo tivesse parado. No começo, era até confortável, mas, aos poucos, algo começou a mudar. Uma mancha escura apareceu no canto da sala, e com o passar dos segundos, ela crescia, se espalhando como tinta derramada sobre uma tela. O branco puro foi engolido, e a escuridão tomou conta de tudo ao meu redor.

Senti um peso no peito, como se algo quisesse me esmagar, e o silêncio deu lugar a um ruído distante, algo entre um zumbido e uma respiração pesada.

Tentei me mover, mas meu corpo parecia preso, imobilizado pela escuridão que agora me cercava por completo. Uma sensação de pânico subiu pela minha espinha, e foi então que senti um cheiro estranho, um pouco familiar, que parecia se infiltrar no sonho. Odores não deviam existir ali, mas algo estava errado. Era... ovo? O aroma era nítido, contrastando com o ambiente distorcido.

E então, meu corpo finalmente reagiu, e eu acordei de repente, o coração disparado e o corpo suado. Levantei assustado, tentando entender o que tinha acontecido... Era só um pesadelo, de novo.

O cheiro de ovo continuava presente, e quando olhei para a cozinha, vi o Jungkook, cozinhando algo, sem camisa.

Por uns segundos, ainda achei que estava no sonho, mas então ele falou comigo.

— Você é sonâmbulo? Que lindo.

Peguei meu celular rapidamente e olhei meu reflexo na tela enquanto arrumava o cabelo.

— O que eu falei?

— Nada concreto, só alguns resmungos. Teve pesadelo?

Dei risada sem jeito, acompanhando sua risada.

— Tive... tô aliviado que foi só um sonho.

Como de costume, minha gata estava na cama, amassando pãozinho nas cobertas. Fiz cafuné nela, levantei e fui até a cozinha, curioso para ver o que ele estava preparando.

— Não precisava cozinhar. Você é uma visita, sou eu quem deveria estar cozinhando.

— Pare com isso, é uma honra pra mim poder fazer algo pra você comer — respondeu com um sorrisinho de canto.

Ele levantou a tampa e me mostrou que era gyeranjjim, um soufflé de ovo cozido no vapor. As cozinheiras do vilarejo preparavam isso para mim e outras crianças Aether, e eu amava.

— Que delícia! Eu não como ovo no vapor há anos.

— Fico feliz que gosta, e espero que esteja bom.

Ele também preparou um suco com laranjas frescas, que eu tenho certeza não estavam em casa, o que significa que ele saiu para comprar. Fiquei observando seus movimentos e, claro, observando ele também, que parecia uma pintura renascentista andando pela minha humilde e pobre cozinha.

Assim que terminou, nos sentamos na bancada da cozinha. O gyeranjjim estava realmente incrível, talvez até melhor do que o que as tias do vilarejo faziam.

— Hmm, eu comeria isso todos os dias. — Apontei para a minha tigela, falando quase de boca cheia, e ele riu.

— Eu cozinharia pra você todos os dias.

Seu sorriso bonito me lembrou que eu me declarei pra ele ontem, enquanto a gente transava. Meu rosto esquentou com a lembrança, e comecei a engasgar. Bebi um pouco do suco até desengasgar.

— Tá tudo bem?

Concordei, tentando disfarçar.

— Acho que comi rápido demais — falei, tentando manter a postura enquanto meu rosto ainda queimava.

Ele me olhou com aquele sorriso acolhedor de novo, como se já soubesse exatamente o que estava passando pela minha cabeça. Seria louco se eu soubesse ler mentes e saber o que ele estava pensando nesse momento.

— Obrigado por proporcionar um dos melhores momentos ontem. — Ele falou cheio de coragem.

Dei um sorriso sem jeito, olhando para a tigela na minha frente.

— Foi especial pra mim também.

A energia entre nós era tão intensa que parecia quase visível no ar. Eu queria tanto namorar com ele, mas a realidade me lembrava de que, mais cedo ou mais tarde, o Jungkook iria embora de Elysium...

Eu não queria que ele fosse embora nunca.

De repente, ele pegou minha mão que estava sobre a mesa e entrelaçou nossos dedos.

— Eu quero você pra mim, Jimin, mas antes, preciso resolver uns problemas no meu trabalho que estão afetando minha vida pessoal. Eu não menti ontem quando disse o que sinto por você.

Meu coração, que já estava batendo rápido, disparou no meu peito.

— Eu também não menti ontem. — Respondi, tentando manter a voz firme. — Sinto o mesmo por você, mas, é nítido que vivemos em realidades diferentes, você merece alguém à sua altura.

Eu queria dizer que ele merecia alguém normal...

Jungkook apertou minha mão com mais força, como se quisesse me impedir de continuar.

— Não fala isso. — A voz dele soou firme, mas também, suave. — A última coisa que eu quero é alguém diferente de você. Não importa quais sejam as nossas realidades, você é a única pessoa com quem eu tive vontade de estar.

Eu respirei fundo, tentando não deixar a insegurança tomar conta. Ele me olhou com seus olhos cheios de sinceridade e algo mais profundo que eu não conseguia identificar.

A dúvida crescia dentro de mim, me consumindo. E se ele descobrir que sou um Aether? Eu sabia que não podia esconder isso para sempre, mas o medo de que ele desistisse de mim ao descobrir a verdade me paralisava.

— Min? — A voz dele me trouxe de volta ao presente. — O que tá pensando?

Eu queria ser honesto, contar tudo. Mas ao mesmo tempo, o medo me impedia de abrir a boca. Como eu poderia explicar algo tão complexo sem afastar ele de vez? Todos temem Aethers, e ninguém quer viver com alguém que precisa viver às sombras.

— Nada demais... — Menti, tentando afastar a ansiedade. — Eu quero você também, e vou esperar o tempo que for.

Ele me observou por um instante, como se tentasse ler algo em meu olhar, mas não pressionou. Ele apenas sorriu de leve, aquele sorriso que sempre parecia capaz de aliviar qualquer tensão.

— Fico feliz em ouvir isso. — Ele respondeu. Prometo que não vou demorar pra resolver essas coisas. E quando tudo estiver certo... quero a gente junto, de verdade.

Senti um nó na garganta ao ouvir suas palavras. Eu queria tanto acreditar que tudo seria simples assim, mas a verdade é que eu ainda estava escondendo uma parte de mim que poderia mudar tudo entre nós.

Terminamos o café, e depois de atender uma ligação, ele precisava sair para resolver alguns assuntos do trabalho. Fui até a porta com ele, e assim que a abri, ele parou e me beijou, um beijo rápido, mesmo assim, apaixonado.

— Eu te ligo. Até logo, Min.

— Tchau, até...

Fiquei parado na entrada por um momento, tentando processar tudo o que aconteceu.

Entrei de volta e me apoiei na porta, ainda sem conseguir raciocinar. Eu sempre fugi do amor, todas as vezes que ele arriscou aparecer na minha vida, eu fugi, mas dessa vez... dessa vez eu não queria fugir. Ou talvez, eu até continuasse fugindo, mas dessa vez em ritmo lento, na esperança de ser alcançado por ele.

O beijo e as palavras dele me deixaram esperançoso, e eu estava determinado a aproveitar ao máximo o tempo que teríamos juntos, sem deixar que meus medos e inseguranças interferissem.

Aproveitei o momento livre para fazer o pedido das flores que percebi que estavam faltando na minha última conferência na floricultura. Enviei as informações pelo celular do fornecedor e também pedi alguns pacotes extras de terra adubada.

Enquanto me distraía com meus pedidos, a campainha tocou. Pelo olho mágico, vi o Jin fazendo uma careta engraçada, já sabendo que eu ia olhar. Abri a porta rindo, cumprimentando com um sorriso.

— Parece que você já tá bem melhor, né? — brinquei.

— Estou ótimo, meu amigo.

— Um estudante de medicina doente passa descredibilidade. — falei, zombando do estado em que ele ficou.

— Sou humano também, pô.

Eu dei uma olhada nele dos pés à cabeça, notando que estava com roupas esportivas.

— Vai correr hoje? — perguntei, já desconfiado.

— Eu não, nós vamos.

— Não vai dar, tô quebrado. — Tentei me esquivar, mas ele segurou meu ombro e me empurrou de volta para dentro do apartamento.

— Vai sim, Park. Você sabe que nosso combinado era um não deixar o outro desistir de correr. Vá colocar uma roupa, vou te esperar aqui.

Suspirei, sabendo que não tinha como escapar dessa. Ele sempre conseguia me convencer de qualquer coisa.

— Tá bom, tá bom... mas se eu desmaiar no meio da corrida, a culpa é sua.

— Pode deixar, eu te carrego. — Ele respondeu com um sorriso de canto, se jogando no sofá.

Eu fui pro banheiro, meio preguiçoso, mas troquei de roupa rápido.

— Pronto, senhor treinador. — brinquei, ajustando o tênis.

Ele se levantou de imediato, animado, e me puxou para fora do apartamento.

— Vamos, antes que você arranje outra desculpa.

Elysium era moderna, com arranha-céus imponentes e construções sofisticadas, mas também preservava uma quantidade considerável de áreas verdes. Próximo ao apartamento, havia um pequeno parque com um lago artificial, cercado por árvores altas e gramados bem cuidados.
Decidimos caminhar por lá, aproveitando a sombra das árvores, já que o calor começava a ficar intenso naquela hora do dia.

O som suave da água no lago e o canto distante dos pássaros criavam uma atmosfera tranquila, perfeita para uma conversa sem pressa e um descanso da correria da cidade.

— Agora me conta, que vampiro foi esse que atacou seu pescoço? — ele brincou enquanto corríamos em um ritmo devagar, mas constante.

Eu dei risada com o comentário.

— Ontem nós dois... bem, eu...

Ele riu com meu nervosismo.

— Não me diga que...

Eu concordei com um gesto com a cabeça, já sentindo meu rosto ferver.

— Por que será que eu já sentia isso, hm?! Vocês dois saíram do restaurante exalando desejo, era meio óbvio que isso aconteceria.

Eu parei de correr, apoiando as mãos nos joelhos enquanto tentava recuperar o fôlego.

— Tava tão na cara assim?

— Sim, estava — ele riu. — Então você finalmente fez sexo. O que achou?

— Melhor não falar disso agora, já tô explodindo de vergonha.

— Idiota... — ele riu.

Já que paramos pra descansar, aproveitamos pra sentar em um banco abaixo de uma árvore, tentando recuperar nosso fôlego.

— Se vocês forem ficar sérios, já é um bom motivo pra você parar com os supressores, já que vai ter uma vida sexual ativa.

— Não é bem assim, ele nem mora em Elysium, e só está aqui a trabalho. Não tem chances de termos algo. — Respondi, tentando convencer a mim mesmo enquanto olhava para o chão.

Jin me deu um tapinha no ombro e suspirou, ainda com aquele sorriso malandro.

— Já vi muitas histórias começarem assim. "Ah, é só algo temporário, não vai dar em nada" — ele disse, imitando minha voz de forma exagerada, o que me fez rir. — E, no final, estão juntos pra sempre.

— Bem que eu queria mesmo...

— Ele pode acabar se mudando para cá, ou até mesmo, você se mudar para a cidade dele.

Eu dei um suspiro, pensando nas possibilidades que aquilo traria.

— Independente de tudo, não sei se estou pronto pra isso, você sabe... pra assumir que sou um Aether. Qualquer ser vivo desse planeta sabe as perseguições que pessoas como eu sofrem. Ele não estaria disposto a passar por tudo isso. Bem, eu acho que não.

Seokjin colocou a mão no meu ombro, me fazendo encarar seus olhos.

— Jimin, você não sabe o que ele está disposto ou não à fazer até dar a chance dele mostrar. A verdade é que, se ele realmente gosta de você, ele vai querer te proteger, te apoiar, não importa o que aconteça.

Eu balancei a cabeça, incerto.

— E se ele não quiser? E se ele achar que não vale a pena arriscar?

— Se for esse o caso, então você vai saber que ele não era a pessoa certa. Mas você nunca vai descobrir se não der essa chance. Você merece alguém que te aceite como você é, sem medo.

As palavras dele ecoaram na minha mente, me deixando ainda mais pensativo. Eu sabia que o Jin estava certo, mas o medo de ser usado assim como todas as outras vezes era maior do que eu imaginava.

— Só pensa nisso, ok? — Jin disse, apertando meu ombro antes de continuar a corrida. — Não se cobre demais, mas também não feche as portas antes de ver o que pode acontecer.

— Obrigado Jin, de verdade.

Eu respirei fundo, e ele me retribuiu com um sorriso animado. Voltamos a correr, aproveitando o clima bom e as sombras acolhedoras das diversas árvores ao nosso redor.

Enquanto a gente voltava para casa, meu celular tocou. Olhei já despretensioso, achando que fosse uma ligação qualquer, provavelmente do meu fornecedor de flores, mas era o Jungkook. Meu coração acelerou no mesmo instante, e eu senti uma mistura de ansiedade e expectativa tomando conta de mim.

— Atende logo — o Jin brincou, percebendo meu nervosismo.

Respirei fundo antes de deslizar o dedo pela tela e atender a chamada.

— Alô?

— Oi, Min — a voz dele soou do outro lado, e eu senti um arrepio percorrer minha espinha. — Tudo bem?

— Uhum, e com você?

— Não. — A resposta dele foi direta.

Minha cabeça automaticamente já perambulou por todas as opções existentes.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntei preocupado.

— Tô morrendo de saudade de você, e eu te vi há poucas horas. Isso é normal?

Senti meu rosto esquentar, e um sorriso involuntário surgiu no meu rosto enquanto eu ria.

— Eu também estou, então talvez a gente seja um pouco louco. — Respondi meio sem jeito, meu coração ainda acelerado.

— Então tô bem louco por você mesmo. — Ele riu do outro lado da linha. — Me diz que vou poder te ver hoje de novo, por favor.

— Acho que posso abrir uma brecha na minha agenda... — brinquei, tentando disfarçar o quanto queria ver ele também.

— Ótimo, porque eu já tô planejando o nosso próximo encontro. Quer escolher o lugar?

— Pode escolher você. Me surpreenda. — Respondi de forma descontraída.

— Pode deixar, então. Preciso desligar, mas te busco. Até mais tarde, Min.

— Tudo bem, até depois.

Desliguei o telefone com um sorriso no rosto e me virei para o Jin, que estava me observando com uma expressão curiosa.

— Parece que o casalzinho tem outro encontro, ein?!

Não consegui segurar a animação e comemorei euforicamente, o que fez Jin pular junto comigo.

— Ontem ele disse que estava apaixonado por mim, e hoje, enquanto a gente tomava café, ele reforçou o que disse. Você tem noção disso? — falei, ainda em êxtase.

Seokjin riu.

— Assim como você tá por ele, que românticos.

Eu concordei, e com as palavras do Jin pude sentir que, pela primeira vez em muito tempo, as coisas realmente poderiam dar certo.

— Aproveitando, o Yeonjoo tem perguntado de você todas as vezes que vejo ele na universidade. Posso dizer que você conheceu alguém?

— Ele foi legal comigo, vai ser chato se você falar isso pra ele. Deixa que eu falo, vou ligar pra ele. — Respondi, tentando manter as coisas tranquilas. Eu não queria ser injusto com Yeonjoo, mesmo que as coisas estivessem indo para outro caminho agora.

— Beleza, mas não deixe de resolver logo. O coitado tá na expectativa.

— Vou resolver. Prometo.

Assim que chegamos no prédio, ele foi para o apê dele e eu para o meu. Tomei um banho demorado para tirar todo o suor do nosso treino. Eu não era uma pessoa ativa, mas eu e o Jin sempre corremos nos finais de semana, especialmente agora no verão. Isso quando eu ou ele não foge.

Depois do banho, deitei na cama, aproveitando o raro momento de tranquilidade ao lado da Haru. No entanto, meu descanso não durou nem cinco minutos. A campainha tocou, e, sabendo que o Jin havia esquecido um dos fones dele comigo, imaginei que ele estava voltando para pegar.

Quando abri a porta, rindo do esquecimento, minha surpresa foi grande ao ver o Yoongi ao invés do Jin. Imediatamente, me ajoelhei e abaixei a cabeça em reverência.

— Pode se levantar — ele disse, com uma voz calma.

Levantei e ajeitei minhas roupas.

— Achei que você não estava mais em Elysium. Aconteceu alguma coisa?

— Eu não estava, mas voltei para buscar você, Jimin.

Olhei para ele, confuso e um pouco assustado.

— Me buscar?

— Sim. Meu pai quer falar com todos os Aethers sobre algumas coisas que têm acontecido. Precisamos que você esteja no vilarejo, e você vai comigo.

— E... quando seria isso?

— Hoje. Ou melhor, agora.

Puta merda, justo hoje que eu ia sair com o Jungkook.

— Eu não posso fazer a reunião online?

Ele cerrou os olhos e me encarou.

— Que pergunta, hein, Park?!

Encolhi os ombros, sem saber o que fazer.

— E quando voltamos?

— Amanhã cedo. Vou te esperar no carro, não precisa levar muita coisa.

Yoongi desceu, e eu, meio frustrado, fui pegar o que precisava para a viagem. Rapidamente, fiz uma mala pequena com o essencial e subi até o prédio do Jin deixar a Haru com ele. Quando ele abriu a porta, olhou para mim, para a gata e para a mala ao meu lado, confuso.

— Onde você pensa que vai?

— Advinha...

Ele pensou por uns segundos antes de arregalar os olhos e responder.

— Não me diga que você vai pra Hadong?

— Acertou.

Ele entrou no apartamento e olhou pela janela para ver o Yoongi lá fora.

— Merda... Descobriram que você usou seus poderes?

— Não, mas o pai dele quer conversar conosco. Bem, eu não tenho escolha. Eu volto amanhã, então cuide da Haru, por favor.

— Pode deixar. E mande notícias.

Me despedi e desci com a mala até o carro. Ele dirigia em silêncio, e eu me perdi em pensamentos sobre o encontro com Jungkook. Não sabia o que dizer a ele. A ideia de cancelar nosso encontro me deixava inquieto e irritado. Eu estava ansioso pra ver ele, mas agora me sentia preso em uma situação que não planejei. Nunca quis passar por nada disso.

O som do motor e a estrada passando pela janela se misturavam com meus pensamentos. O tempo parecia passar mais devagar na estrada, e eu tentava me distrair observando a paisagem passar pela janela. As árvores e casas se misturavam, mas minha mente estava ocupada demais com a preocupação e a frustração para realmente absorver o que estava ao meu redor.

Finalmente, Yoongi quebrou o silêncio:

— Você parece preocupado.

Eu respirei fundo, tentando reunir coragem para falar.

— Não estou, tá tudo bem.

Ele me lançou um olhar que mostrava que não estava convencido com minha resposta.

— Eu te conheço desde criança, nanico. Sei quando você está mentindo.

— Não é nada, pode confiar.

Ele arqueou uma sobrancelha, mas decidiu não insistir mais. Passamos o restante da viagem em silêncio. Eu ouvindo música no celular de um lado e ele dirigindo concentrado do outro.


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Hadong-gun, Coreia do Sul.

Chegamos ao vilarejo e, ao sair do carro, fui imediatamente recebido por uma atmosfera carregada de seriedade. Muitos Aethers estavam se reunindo no grande salão comunitário. Quando entrei, fomos para um canto onde o pai do Yoongi, o atual Arconde dos Aethers, estava sentado observando todos os presentes.

Ele me viu e fez um sinal para eu me aproximar. Assim que cheguei, me ajoelhei em um cumprimento respeitoso.

— Park, quanto tempo que não te vejo. — O Arconde falou com uma mistura de calor e autoridade.

— Boa tarde, Arconde. Faz muito tempo mesmo.

Ele me observou com um semblante sério, mas não sem um toque de familiaridade.

— Ache um lugar e fique à vontade. Precisamos discutir algumas questões importantes sobre a nossa comunidade.

— Ok, com licença.

Caminhei para um assento no salão e me acomodei, enquanto vários Aethers conversavam em murmúrios baixos. Quando o Arconde começou a falar, o ambiente se tornou ainda mais silencioso. Ele abordou temas preocupantes relacionados à segurança e ao nosso bem-estar.

Até chegarmos no assunto temido por todos: a Ordem do Eclipse.

— Como sabem, o Taehyung foi capturado por caçadores da Ordem há alguns meses. Isso deu uma vantagem enorme para eles, permitindo que localizassem vocês com mais facilidade, já que ele tem poderes rastreadores. É de extrema importância que vocês não usem seus poderes fora do vilarejo, pois isso os expõe. Ressalto também que, em suas vidas pessoais, vocês não devem confiar ou se relacionarem com ninguém. Qualquer pessoa que se aproximar deve ser vista como suspeita.

Eu sabia que estava fazendo exatamente o contrário, me aproximando do Jungkook, mas era impossível acreditar que alguém tão bom quanto ele pudesse ser da Ordem.

O Arconde continuou a falar.

— A situação está cada vez mais delicada. A Ordem do Eclipse está cada vez mais ativa e sofisticada em suas operações. O risco de exposição nunca foi tão alto, e seus caçadores estão cada vez mais treinados. Qualquer descuido pode ser fatal, não só para vocês, mas para toda a nossa comunidade.

Ele fez uma pausa para que todos absorvessem suas palavras antes de prosseguir.

— Para garantir a segurança, estamos implementando novas medidas de proteção. A partir de agora, cada um de vocês deve estar em contato constante e diário com seus guardiões diretos e reportar qualquer atividade suspeita imediatamente.

A seriedade do Arconde fazia com que o ambiente ficasse ainda mais tenso. Eu me sentia cada vez mais inquieto, pensando em como essa situação me afetaria, já que significa que, uma hora ou outra, o Yoon saberia da existência do Jungkook.

Quando a reunião terminou, o salão foi lentamente se esvaziando. Eu me levantei, sentindo o peso dos meus pensamentos. A ameaça era mais real e perigosa do que eu imaginava, e isso me deixava tenso.

Yoongi se aproximou, notando que eu estava inquieto.

— Saímos amanhã cedo daqui, ok?

— Uhum...

— Por que essa resposta desmotivada?

Eu ia começar a responder quando o Arconde se aproximou de nós.

— Vocês dois, me acompanhem, por favor.

Nos dirigimos até ele, que nos levou até sua sala. O Arconde se sentou atrás de uma mesa e apontou para as cadeiras em frente. Assim que nos sentamos, ele voltou a falar.

— Park, vou ser direto. Precisamos que você fique aqui. Você é um Classe A, então com certeza vai ser muito mais caçado do que os outros.

Eu já sentia que ele falaria isso.

— Arconde, me desculpe, mas eu estou bem com a vida que levo. Eu não vou usar meus poderes, então não serei rastreado. Tenho apenas um amigo que o senhor mesmo já conheceu pessoalmente. Eu ficarei bem.

O Arconde me olhou com um misto de frustração e preocupação.

— Não é uma questão de querer ou não. A ameaça que enfrentamos pode vir de qualquer lugar, e você, como Classe A, está em maior risco. Precisamos garantir que todos estejam protegidos, especialmente aqueles com habilidades mais poderosas. Sua segurança é nossa prioridade.

Eu hesitei, lutando para encontrar as palavras certas.

— Entendo a preocupação, mas isso não muda o fato de que quero continuar minha vida como é. Não posso simplesmente ficar aqui sem uma razão clara, quero um propósito na minha vida. Se realmente precisarem de mim, eu vou ajudar. Mas, por agora, prefiro manter minha rotina.

O Arconde suspirou, insatisfeito com minha resposta, mas não insistiu mais.

— Ok. Eu não posso insistir, mas não se esqueça que, se a situação mudar, você deverá vir para cá. Não subestime a Ordem.

— Ok, farei isso.

Com um aceno de cabeça dele, eu levantei, me curvei, e saímos da sala. Yoongi me seguiu, e saímos da sala. Enquanto a gente caminhava, olhei ao redor para garantir que não havia ninguém por perto e então falei o inevitável.

— Yoon, estou gostando de alguém.

Ele me olhou surpreso, e por um instante seu olhar pareceu pesar, talvez tentando entender o que aquilo significava. Depois, lançou um olhar discreto ao redor, como se quisesse escolher bem o lugar para continuar a conversa.

— Vem, vamos para outro lugar — ele disse.

Caminhamos em silêncio pelo vilarejo, e cada esquina e detalhe pareciam me puxar para o passado. Tudo ali era tão bonito e tranquilo, como se o tempo realmente tivesse desacelerado. Eu costumava amar esse lugar quando era criança, até o momento em que percebi quem eu era e que certas coisas sobre mim nunca mudariam. Talvez fosse esse contraste entre o vilarejo antigo e minhas lembranças de infância que me deixava com a sensação de que uma parte de mim sempre ficaria aqui.

Por fim, encontramos um banco de madeira sob uma árvore frutífera, robusta e cheia, com galhos amplos que lançavam uma sombra fresca e acolhedora. Sentamos ali, deixando que o leve som das folhas ao vento preenchesse o silêncio entre nós. Até que ele quebrou esse silêncio.

— Posso saber onde você conheceu ele? — Yoon perguntou.

— Na floricultura. Ele trabalha com organização de eventos e foi até lá comprar algumas flores para usar no trabalho.

Yoon me observava com atenção, e seus olhos examinavam cada movimento e cada expressão.

— E você tem certeza de que ele não faz parte da Ordem?

— Uhum, tenho certeza.

Yoongi ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre o que eu havia dito.

— Mesmo que confie nele, é essencial que você tome muito cuidado. A Ordem não perdoa fraquezas e muito menos sentimentos. Eles podem explorar qualquer vulnerabilidade que você tenha pra te alcançar e enganar.

Eu balancei a cabeça, compreendendo o que ele queria dizer. A ideia de perder Jungkook, ou qualquer chance de algo mais com ele, me deixava angustiado, mas a ideia dele ser meu inimigo nem existia na minha mente.

— Eu confio nele.

Yoongi pensou por um momento antes de continuar.

— Eu sei que você não é uma criança, afinal, já escapou de tantas situações que muitos Aethers não conseguiriam. Mas mesmo assim, tenha cuidado, por favor.

— Ok, prometo que serei cuidadoso. Só... só não conte para o Arconde, pelo menos, ainda não.

— Fique tranquilo, não vou falar. Mas se lembre de que qualquer cuidado, mesmo que bobo, pode ser útil para garantir sua segurança.

Eu balancei a cabeça em agradecimento, sentindo um alívio por saber que podia contar com o apoio dele.

Depois da conversa com Yoongi, ele foi para o casarão e eu fiquei no banco, olhando a vista. Peguei meu celular e, com um suspiro, liguei para o Jungkook. A mente estava acelerada, tentando encontrar uma desculpa que não soasse suspeita ou desinteressada.

— Que gostoso ver uma ligação sua — a voz dele soou tão boa do outro lado da linha, que eu senti um aperto no coração.

— Oi, Jungkook. — Tentei manter a voz tranquila. — Eu sinto muito, mas não vou poder te encontrar hoje à noite. Eu... eu tive uns compromissos de última hora na minha cidade, e vou precisar voltar pra Elysium amanhã cedo.

— Tudo bem, eu entendo. Espero que tudo esteja bem com você.

— Sim, está sim. Só surgiu algo inesperado mesmo. — Respondi, tentando esconder a tristeza na voz. — Vamos tentar marcar outro dia.

— Claro. Quando voltar amanhã, me avise, que vou te encontrar.

— Obrigado por entender.

Nos despedimos e desliguei o telefone. Me encostei no banco, sentindo um peso no peito. Era difícil manter a aparência de normalidade quando o que eu realmente queria era estar com ele. O vilarejo parecia ainda mais silencioso e distante enquanto eu lutava para lidar com a frustração de ter que cancelar nossos planos.

Próximo ao banco, havia um pequeno lago, onde patos nadavam livremente e flores de lótus flutuavam na água. Eu fiquei observando as flores, pensativo. Elas simbolizavam renascimento, pureza e novos começos. Aquelas flores me faziam refletir sobre minha própria situação e as mudanças que estavam por vir.

Eu esperava profundamente que fossem boas mudanças.

Quando a noite caiu, houve um banquete para todos presentes. Eu não estava com fome, então apenas fiquei no gramado do lado de fora, olhando o céu.

Lembro que minha mãe dizia que eu tinha poderes porque nasci em uma das estrelas do céu, e eu acreditava fielmente nisso. Hoje, já sei que sou só o resultado de testes de dois cientistas malucos.

Enquanto olhava para as estrelas, lembrei que estava no vilarejo, o que significava que eu podia usar meus poderes sem preocupações. Vi uma macieira na minha frente e, com a mente, comecei a mover uma maçã que estava pendurada. O fruto flutuou lentamente até minha mão, e eu o peguei.

Eu observava a maçã na minha mão e sentia um alívio momentâneo. Era bom lembrar que, apesar de todas as dificuldades e dos segredos que cercavam minha vida, eu ainda tinha o controle sobre algo. Levei a maçã até perto do meu rosto, cheirando seu aroma doce, e então mordi uma fatia. A sensação de frescor me fez sentir um pouco mais leve, como se pudesse encontrar uma pequena paz nesse cenário caótico.

O céu estava limpo e estrelado, e a tranquilidade do vilarejo à noite contrastava com a tensão que eu carregava. Fechei os olhos por um momento, permitindo um breve escape da realidade. Eu estava sentindo falta do Jungkook, e nunca imaginei me sentir assim por alguem.

Após alguns minutos brincando com meus poderes, movendo pequenos objetos e apreciando a sensação de controle, levantei pra ir ao quarto. Caminhei até um dos quartos disponíveis no vilarejo, onde pude finalmente me isolar do ambiente social.

Eu realmente não nasci pra socializar com as pessoas, e sempre foi assim.

Enquanto estava deitado, olhando o ambiente ao meu redor, comecei a pensar em como as coisas poderiam ser diferentes se eu fosse normal. Eu só queria poder viver sem esse constante sentimento de estar sendo vigiado ou caçado, mesmo que isso custasse abrir mão dos meus poderes.

Ainda distraído em meus pensamentos, tanto sobre mim quanto sobre o Jungkook, comecei a bocejar, e após rolar mais um pouco na cama de um lado para o outro, eu finalmente consegui dormir.

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No dia seguinte.

Acordei cedo, ansioso para deixar o vilarejo. Comecei a procurar o Yoongi, mas fui informado de que ele estava em uma reunião com seu pai, o que significava que eu teria que esperar.

Aproveitei para tomar um café rápido na cozinha do vilarejo. O aroma do café fresco me ajudou a acalmar um pouco a ansiedade. Com a xícara nas mãos, saí para o lado de fora, onde me acomodei em um banco, observando a paisagem tranquila enquanto aguardava.

O tempo parecia se arrastar lentamente. A espera não ajudava a aliviar a inquietação que eu sentia, mas, ao menos, a manhã estava agradável e calma.

Depois de trinta minutos, Yoongi apareceu com a chave do carro na mão. Me curvei em cumprimento, e seguimos até o carro dele para começar o retorno. No vilarejo, eu podia ser eu mesmo, mas meu lugar era na minha floricultura.

Apesar de ser um alfa, Yoongi sempre cuidou dos ômegas, e por ser recessivo, não exalava tantos feromônios. Ele também não era afetado pelos nossos, o que tornava a convivência com ele mais fácil para todos.

— Como ele se chama? — Yoongi perguntou enquanto dirigia.

Hesitei por um instante antes de responder.

— Jeon.

— Vamos lá, quero o nome completo. Preciso investigar pra ter certeza de que ele não te oferece perigo.

— Jeon Jungkook — respondi.

Yoongi acenou levemente com a cabeça, já processando as informações.

— Ele trabalha com o quê mesmo?

— Organização de eventos.

— Mora em Elysium?

Dei uma risada nervosa com o interrogatório.

— Quanta pergunta.

— É para o seu bem. Vai, responde — ele insistiu.

— Acho que mora em Wonju.

— Ótimo. Te mantenho informado se descobrir algo.

Continuamos a viagem com ele concentrado na estrada, e eu no meu celular, ansioso pra chegar.


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Elysium, Coreia do Sul.

E depois de algumas horas, finalmente chegamos em Elysium, e o Yoon me deixou na frente do apartamento.

— Eu vou ficar na cidade por um tempo, então não hesite em me ligar se precisar de algo. E não se esqueça de ter cuidado.

— Ok, obrigado, Yoon.

Desci do carro e entrei no apartamento. Deixei a mala em um canto da sala e, ansioso, liguei para o Jungkook. Infelizmente, a chamada foi direto para a caixa postal, o que me fez pensar que ele devia estar ocupado com o trabalho. Não insisti para não parecer chato ou pegajoso.

Então, liguei para o Jin.

— Ufa, você está vivo...

— Idiota — ri. — Onde você foi com a minha gata, seu ladrão de pet? Estou ouvindo barulho na sua ligação.

— Saímos pra passear com ela, eu e minha mãe. Depois te devolvemos. Temos guarda compartilhada.

— Vou aproveitar pra arrumar meu apê. Até depois.

Aproveitei que estava em casa e coloquei algumas roupas na máquina de lavar. Enquanto a máquina fazia seu trabalho, comecei a limpar o apartamento. Organizei tudo, deixando o lugar arrumado e agradável, e também cuidei das minhas flores.

Assim que terminei, me sentei no sofá, um pouco cansado, mas com a sensação de dever cumprido. Eu estava com saudade do meu apartamento.

No celular, ainda não havia nenhuma tentativa de ligação dele, e comecei a me sentir culpado, pensando se ele poderia ter achado que eu menti ou estava desinteressado. Mesmo com meu coração implorando para ligar novamente, eu não liguei.

O silêncio do apartamento parecia ecoar minhas dúvidas, e eu me afundei no sofá, tentando não pensar no que poderia estar passando pela cabeça dele.

E então, após meu pensamento perambular por todas as paranóias possíveis, meu celular tocou. Eu peguei o aparelho apressado e, para minha alegria, era realmente o Jungkook. Um sorriso bobo se abriu no meu rosto enquanto atendia.

— Oi, Jungkook — Respondi, tentando esconder minha ansiedade. — Desculpe ter ligado, devo ter te atrapalhado.

— Você nunca me atrapalharia. Desculpe não ter atendido na hora, estava resolvendo um problema com um colega de equipe.

— Ah sim, tudo bem.

— Você já voltou?

— Uhum.

— Que bom saber disso. Que tal a gente se encontrar hoje à noite? Não vale desmarcar dessa vez.

Meu sorriso se alargou ainda mais com o convite.

— Eu aceito, e não vou desmarcar, prometo.

— Combinado.

Finalizamos a chamada enquanto eu deitei no sofá todo feliz, abraçando meu celular no peito. Eu realmente estava apaixonado, e essa era a melhor sensação que já senti na vida.

Mas junto dessa euforia, veio a inevitável sombra da verdade que eu estava escondendo. Eu não queria mais mentir pra ele. Precisava contar de uma vez por todas quem eu realmente sou. Se for pra ele ficar, quero que fique sabendo que eu sou um Aether.

No fundo, mesmo que eu estivesse disposto a fazer as coisas do jeito certo, o medo de perder ele era esmagador. E se ele não aceitasse? E se ele decidisse se afastar, com medo do que eu sou ou do perigo que isso pode trazer? Essas perguntas se repetiam na minha cabeça, mas ao mesmo tempo, eu sabia que mentir para ele por mais tempo não era uma opção, não agora que existe sentimento entre nós.

Ele me buscou no apartamento às 20h, e assim que entrei no carro, me puxou para um beijo tão gostoso que eu praticamente me derreti nas mãos dele. Era como se, naquele momento, tudo ficasse em segundo plano. O mundo ao nosso redor simplesmente desapareceu, e eu só conseguia focar no jeito que seus lábios se moviam contra os meus, com uma mistura de carinho e desejo.

— Acho que esperei o dia inteiro por isso — ele sussurrou contra minha boca, com um sorriso malicioso.

Eu ri baixinho, sentindo meu coração disparar mais uma vez.

Ele afastou um pouco o rosto, me olhando com um sorriso de canto, e eu senti meu corpo inteiro esquentar com aquele olhar intenso. Era como se eu não conseguisse me controlar perto dele.

— Espero que tenha valido a pena. — Brinquei, tentando disfarçar o nervosismo que eu sentia só de estar ali com ele.

— Valeu muito.

Eu conhecia o caminho que ele estava fazendo e, quando fomos nos aproximando, percebi que ele estava indo até o porto de Elysium. Assim que ele parou e descemos do carro, tomei coragem pra perguntar:

— Nós vamos andar de barco?

Ele desceu um degrau para o deck e estendeu a mão para me ajudar.

— Vamos. Espero que você goste.

Eu me animei imediatamente. Assim que embarcamos, dois homens da tripulação nos cumprimentaram e nos levaram até a parte de trás do barco, onde vi uma mesa montada, linda, com velas e um ar completamente romântico. O céu estrelado e a noite quente pareciam uma pintura, compondo um cenário perfeito.

— Tudo isso... é pra nós?

Ele concordou com aquele sorriso fodidamente lindo, e puxou a cadeira para eu sentar. Ele se sentou também, e um garçom se aproximou já com alguns pratos de frutos do mar.

— Sei que gosta de sair pra comer, mas não queria te levar a um simples restaurante, então pensei em algo diferente.

Eu me sentei, ainda surpreso com tudo. A brisa leve fazia as luzes das velas balançarem suavemente, e o som das ondas batendo no casco do barco completava a atmosfera mágica.

— Eu amei tudo, obrigado por me trazer aqui — disse, tentando expressar o quanto estava impressionado e feliz.

Ele sorriu satisfeito e segurou minha mão por cima da mesa, sem desviar o olhar.

— Nada do que eu faça chega aos seus pés. Você merece muito mais.

Nós conversamos e rimos durante o jantar, a atmosfera entre nós ficando cada vez mais íntima e confortável. Com o tempo, o jantar se transformou em algo ainda mais especial, com olhares e toques que diziam mais do que palavras poderiam expressar.

Assim que terminamos de comer, o garçom trouxe a sobremesa. Na verdade, para mim não era bem uma sobremesa, afinal ele lembrou que eu não gostava de doces.

O garçom colocou na minha frente um prato com frutas frescas e queijos, que me fizeram sorrir. Ele realmente havia pensado em tudo, desde o lugar até os pequenos detalhes. Era como se ele soubesse exatamente o que eu gostava, e isso só tornava o momento ainda mais especial.

— Você realmente presta atenção em tudo, não é? — comentei, pegando uma uva e a levando à boca.

— Claro. Eu disse que você merece o melhor — ele respondeu, olhando para mim com um sorriso suave. — Cada detalhe importa.

Enquanto eu aproveitava meu prato, sentia meu peito se aquecer com a forma como ele me tratava, era como se ele estivesse me conquistando ainda mais.

O momento estava perfeito. Conversamos sobre vários assuntos e compartilhamos nossos sonhos, com o som das ondas e a luz das estrelas tornando tudo ainda mais mágico.

À medida que a noite avançava, o barco foi retornando ao porto, proporcionando uma visão deslumbrante das luzes da cidade refletidas na água. Encostados na grade de proteção, a gente se beijava e trocava carícias, aproveitando cada segundo do passeio.

Enquanto ele dirigia para meu apartamento, os carinhos entre nós não paravam. Eu estava encantado por tudo o que ele fez, mas em todos os momentos que tivemos, não tive coragem de falar a verdade para ele.

No caminho, Jungkook parou em frente a uma conveniência.

— Vou só comprar algumas bebidas pra gente.

— Uhum, ok.

Esperei no carro, até que o celular dele, que ficou no painel, começou a tocar. Como estava próximo ao câmbio, deu para ler o nome de um tal Namjoon. Deixei a chamada tocar e não fiz nada, mas a insistência do homem me fez pensar que algo urgente poderia estar acontecendo. Olhei pela janela e vi que Jungkook ainda estava em frente ao freezer escolhendo as bebidas. Decidi levar o celular para ele.

Peguei o aparelho ainda tocando, mas desligou logo em seguida. Enquanto eu abria minha porta, uma mensagem chegou e iluminou a tela. Mesmo tentando não parecer invasivo, acabei lendo pela notificação.

"Você ainda está com o florista? O líder quer fazer uma videochamada com nós dois, parece que tem dicas de mais um Aether em Elysium."

Assim que li a mensagem, minhas mãos começaram a tremer e o celular caiu no assoalho do carro. O pânico tomou conta de mim enquanto eu pegava o aparelho de volta. Com as mãos ainda trêmulas, li a mensagem novamente, tentando processar o que isso significava.

O celular não tinha senha, então foi fácil acessar a conversa e entender o que estava acontecendo. Várias mensagens trocadas sobre mim estavam ali, e em todas, ficava claro que ele estava me caçando...

O Jungkook era da Ordem do Eclipse.

— Eu não acredito nisso...

Nada fazia sentido, mas ao mesmo tempo, tudo começou a se encaixar. Era por isso que alguém como ele se interessaria por um zero à esquerda como eu...

Eu poderia ficar ali e acabar com tudo em um estalar de dedos, mas, em vez disso, minha única reação foi sair do carro e começar a correr, fugindo o mais rápido que consegui. O medo e a raiva me impulsionavam, enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto e o som dos meus passos ecoava na noite.

Corri pelas ruas escuras, sem nem saber pra onde eu estava indo, tentando afastar a sensação de traição que estava no meu peito. Cada esquina parecia me levar a um lugar desconhecido, e a única coisa que eu conseguia pensar era em como ele conseguiu me enganar.

A adrenalina fazia com que meus músculos queimassem, e o ar parecia cada vez mais difícil de puxar. A cidade estava se transformando em um labirinto de confusão e dor.

Eu precisava de um lugar seguro para pensar, sabendo que, a essa altura, ele já devia ter percebido minha falta. Encontrei um pequeno parque no caminho e me escondi atrás de uma árvore, tentando recuperar o fôlego e acalmar os pensamentos.

E então, eu comecei a chorar.

Peguei meu celular e liguei para o Jin, em prantos. Assim que ele atendeu, ouviu meu choro.

— Jimin? O que aconteceu?

— Era tudo mentira, Jin — solucei. — O Jungkook é da Ordem, era tudo a porra de uma mentira...

Eu chorava ainda mais enquanto tentava falar.

— Merda... Jimin, calma, por favor. Respira. — A voz dele estava cheia de preocupação. — Onde você está?

— Não sei... — disse em soluços.

— Me envie sua localização, tô indo te buscar com o carro do meu pai. Não saia daí.

Enviei a localização e me abaixei ao pé da árvore, tentando controlar a respiração e evitar que o choro me dominasse completamente.

Enquanto esperava, me perguntei como tudo tinha chegado a esse ponto. Eu estava tão apaixonado e confiante no Jungkook que fiquei simplesmente cego. As mensagens no celular dele mostravam um lado dele que eu não imaginava, e a dor era quase insuportável.

Meu celular começou a tocar com ligações do Jungkook, e a única coisa que fiz foi bloquear o número dele.

— Organizador de eventos... Seu desgraçado mentiroso!

Depois de um tempo que pareceu eterno, ouvi o som do carro e vi suas luzes se aproximando. O Jin parou perto da entrada do parque e correu em minha direção.

— Vamos, precisamos sair daqui.

Ele me ajudou a entrar no carro, e, enquanto dirigia, eu olhava pela janela, sem acreditar no que estava acontecendo. Tudo parecia tão bom, tão incrível, que eu simplesmente não me dei conta dos sinais.

— Eu sou um idiota, eu me odeio...

— Para com isso, Park, você não tem culpa. Tem que ter alguma explicação pra isso, não tem como ele estar todo esse tempo te enganando, ele deve realmente sentir algo por você, afinal, já teve muitas chances de te capturar.

Eu balancei a cabeça, sem conseguir encontrar conforto nas suas palavras.

— Se ele realmente se importasse, ele teria me contado a verdade. Mas ele escondeu tudo, me fez acreditar que eu estava seguro ao lado dele, e agora... — minha voz falhou. — Agora eu nem sei mais o que é verdade ou mentira.

Ele me lançou um olhar de preocupação enquanto dirigia.

— Eu sei que tá doendo, mas você precisa de um tempo pra processar isso. Não toma nenhuma decisão precipitada, pelo menos até falar com ele. O Jungkook pode ter um motivo pra ter agido assim, e você merece ouvir a versão dele.

— Eu não quero! Não quero nunca mais olhar pra cara dele!

Assim que ele se aproximou do apartamento, vimos o carro do Jungkook parado na frente. Eu já devia imaginar que o primeiro lugar que ele viria era na minha casa.

— E agora? O que fazemos? — O Jin perguntou.

— Me leva pra algum hotel, albergue, qualquer coisa.

— Tem certeza?

— Sim.

Ele hesitou por um momento, olhando para o carro estacionado em frente ao apartamento, mas concordou.

— Tudo bem, vou te levar pra um lugar seguro. — Ele deu a volta no quarteirão e acelerou em direção a um hotel próximo que achou na internet.

Eu me afundei no banco do carro, tentando ignorar o nó na garganta. Minha cabeça rodava com pensamentos conflitantes. Parte de mim queria encarar esse cara, exigir respostas, mas a dor e a traição eram fortes demais. Eu não conseguia. Não agora.

Chegamos ao hotel, e Jin insistiu em me acompanhar até o quarto. Assim que entrei, me joguei na cama, exausto emocionalmente.

— Eu vou dormir aqui com você.

— Não precisa, Jin. Eu sei que você tem prova amanhã. Além disso, eu preciso ficar sozinho — respondi, tentando parecer mais forte do que realmente estava.

Ele me olhou com insegurança, relutante em me deixar.

— Eu não vou te deixar sozinho, Jimin. Você não tá bem.

— Confia em mim, eu preciso desse tempo. Eu te ligo amanhã cedo, prometo. Só cuida da Haru pra mim.

Ele ainda hesitou, querendo ficar, mas só foi embora depois de muita insistência minha. Assim que fechei a porta, o peso da situação me atingiu de novo, e voltei a chorar.

Como eu fui me dar o luxo de acreditar que alguém realmente se apaixonaria por mim? Isso já tinha acontecido outras vezes, e eu caí de novo. Dessa vez era pior, já que confiei tanto nele ao ponto de me entregar e perder a virgindade com ele.

Foi então que meu celular começou a tocar. Outro número desconhecido. Eu sabia que era ele... Sem pensar duas vezes, bloqueei o número e desliguei o celular.

Com o celular desligado, o silêncio no quarto parecia ensurdecedor. Meus pensamentos rodavam, como um turbilhão que não parava. Cada lembrança, cada momento com ele, agora parecia uma farsa, uma mentira cruel que eu não conseguia suportar.

Me encolhi na cama, abraçando o travesseiro com força, como se isso pudesse aliviar a dor que crescia dentro de mim. O cheiro do quarto era neutro, sem vida, o oposto completo do que eu sentia quando estava com ele. Tudo o que eu queria naquele momento era apagar, esquecer que isso tinha acontecido, mas a realidade me esmagava.

Lágrimas continuavam a escorrer, e por mais que eu tentasse me acalmar, a dor parecia insuportável. Meus pensamentos se misturavam entre raiva e tristeza. Tudo que eu podia fazer era esperar o tempo passar, tentar sobreviver mais uma noite com o coração em pedaços.

O sono veio aos poucos, enquanto o peso da exaustão emocional finalmente me venceu. Eu dormi com o rosto coberto de lágrimas, e o coração repleto de dor.
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🪻

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Oi, leitor!
Parece que nem tudo são flores, literalmente.
O que será que vai acontecer à partir de agora? Vamos nos preparar.
Senta o dedo na estrelinha ali em baixo, te amo!

Te vejo no próximo capítulo!

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