L1|| III. No Coração Da Cidade

Jogado no sofá vermelho da recepção do escritório onde trabalho está Flavio, dispensando minha ladainha com "ahams", cara colada em seu celular. Não importa quão importante o que eu conto é, seu grupo de WhatsApp parece mais urgente neste momento.

Conheci o gigante magricelo de dezoito anos, com carinha de menininho e vozerão de homem quando o vi substituir seu pai, o sorridente Sr. Jair, na portaria do prédio. Começamos jogando conversa fora sobre video games e música, daí descobrimos que dividimos o mesmo senso de humor besta para memes idiotas e em pouco tempo, mesmo com a diferença de idade, conectamos numa amizade talvez improvável, mas que segue firme.

Se ele está aqui no prédio onde trabalho, é assim que passamos nosso horário de almoço: juntos, fazendo nada.

— E então, Magrelo? — Pergunto novamente, chamando sua atenção usando o apelidinho que coloquei nele.

— Então o quê? — Ele nem olha para mim. 

— O que você acha do meu sonho?

— Ah, isso. — Flavio finalmente me fita por um minuto, celular ainda na mão. — Todo mundo sonha esquisitice, Magrela.

Alguns minutos atrás quando fomos almoçar num truck de coxinhas e pastéis aqui numa das esquinas da Avenida Paulista, eu contei a ele como acordei hoje suando e tremendo.

De novo.

Não era uma esquisitice "normal". Meus sonhos estão ficando mais longos, vívidos, impossívelmente altos em volume, literalmente fazendo meus tímpanos doerem. Chegou ao ponto de dificultar meu dormir. E a frequência entre um e outro está aumentando.

Sonhava um ou outro assim enquanto crescia. Durante a adolescência, eles se tornaram mais longos, mas ainda assim eram raros. Agora adulta com vinte e dois anos, acontecem quase todo mês. Não são necessariamente cenas de terror, por isso não os chamo de pesadelos. 

São apenas... intensos

Flavio repara que sua explicação não desfaz minha cara de preocupação e tenta novamente.

— Já procurou na internet? — Indaga.

— Sim. Encontrei muitas explicações. Posso ter de gripe suína a câncer terminal. — A internet é cruel com quem pode estar doente. Sério, jamais procure nela qualquer coisa relacionada a sua saúde, ou senão vai piorá-la. — Mas poucas fazem sentido. Psicosomas não são particulares de nenhuma doença específica.

Ele me olha divertido, acha engraçado quando uso jargões médicos.

— Não sei, Verena. — Em raras vezes ele me chama por nome. — Acho que devia ir no médico se as dores estão te preocupando. Tem alguns aqui no prédio, mas o Doutor Gregório é o melhor. O Djimmy te dá seguro de saúde, não? Usa lá. — Flavio sugere e dá de ombros.

A sugestão de ir no Doutor Gregório me dá um frio na barriga. Ter que ir ao médico por causa de dores causadas por sonhos parece exagerado e assusta um pouco... e se tiver mesmo algo de errado comigo? "Vou morrer por que não tenho dinheiro para pagar um tratamento" , rio por dentro para não chorar por fora.

— Você não é o garoto prodígio estudante de medicina? Tô me consultando contigo agora, oras.

— Não é você que quer ser psicóloga? Devia saber sobre isso, então! — Ele retruca. — Tô no meu primeiro ano, e apesar de não precisar de um diploma pra saber que você é meio louca, preciso de um pra confirmar. — Ele ri.

Respondo com uma careta e decido mudar de assunto antes que eu mande ele ir para aquele lugar.

— A que horas será seu jogo amanhã?

— Não vai mais ser amanhã. — Flavio responde.

— Como não? Não é todo sabado?

— O bosta do prefeito vai usar a quadra amanhã para um evento. Anteontem anunciaram que o jogo seria sexta-feira, ou seja... — Flavio levanta e vem até minha mesa, se escorando na pequena mureta de mármore branco a frente dela. Por ser muito alto, daqui onde sento ele parece um coqueiro. — Hoje á noite. Você vai, né?

— Hoje não dá! — Torço meus lábios. — Não te disse há vinte minutos atrás que vou trabalhar até tarde e depois vou à festa do Lucas?

— Que Lucas? — A voz dele afina com a indagação. Soa engraçado e ele faz de propósito.

— Meu vizinho. — Sorrio.

— Ah... o boneco.

Como sempre falo de Lucas e seu imáculado corpo, rosto e cabelo, segundo Flavio, parece que estou afim de um boneco "Ken" da Barbie.

— Começou... — Reviro os olhos.

— Ué, você não fica falando que o cara é sarado, perfeito, lindo, bla, bla, bla? Todo cara que é assim é boneco.

— Nossa, falou o canhão. — Acuso.

Flavio adora causar comigo. Ele é uma gracinha, magrelo do tipo esportivo, certamente tem várias menininhas correndo atrás dele o que faz dele um Ken em potencial. Além da carinha fofa, sua altura e talento no basquete também são notáveis. E é um super CDF! Tirava as melhores notas na escola. Mas mesmo tendo a inteligência, não tinha o dinheiro para estudar na faculdade em que passou no vestibular com êxito. Então, meu chefe praticamente apadrinhou Flavio, pagando sua mensalidade entre outras coisas como transporte, livros, etc.

Flavio merece tudo isso pelo seu trabalho duro. Ele é dedicado e eu o tenho como um irmão, mesmo sendo um baita dum mala sem alça ás vezes.

— Desde quando o boneco te convida pra festa?

— Me convidou hoje de manhã quando eu estava saindo pra trabalhar. Lembra que depois da coxinha parei pra comprar aquele vestido hoje? Foi lá que te disse que ia sair á noite. Se você não estivesse com a cara no whatsapp, saberia.

— Ah é, pode crer. Ha, olha só a Magrela, comprou até vestido novo pra pegar o cara. Dedicada, hein!

— Não comprei vestido pra pegar ninguém. — Mentira, comprei sim. Mais ou menos. Mesmo assim peguei uma caneta da minha mesa e joguei nele pelo abuso de falar alto minhas segundas intenções, mas ele desvia a tempo. — Eu não tinha roupa pra sair, ia comprar roupas novas de qualquer jeito.

Pela cara dele, sei que não acredita.

— É, você tá quase um personagem de desenho animado, usando a mesma roupa todo dia. — Flavio joga na minha cara. 

Aliás, ele adora jogar coisas na minha cara. Nunca conheci ninguém tão sem filtros.

Torço o nariz e penso em responder, mas... ele tem razão. Quando me mudei para São Paulo, não trouxe muitas roupas comigo. Nunca tive muito dinheiro, tempo ou saco para ir comprar mais roupas. E também para quê faria isso se nunca tive muitos lugares para exibí-las? Além de quê, onde estudei na cidade de Cunha, interior de São Paulo, não podiamos usar nada além do uniformes horríveis providos pela escola estadual que mais pareciam sacos de batata com o slogan do governo. 

Agora adulta continuo simples: me dê uma camisa flanelada, uma calça jeans e meu fiél All Star branco, e eu estou pronta para o que der e vier.

E cá entre nós, Flavio não tem moral nenhuma para me acusar.

— Quê que você tá falando, sua vara de pescar? Eu só te vejo com regata do Chicago Bulls e não tô reclamando, seu projeto de Michael Jordan. 

— Ah, mas mulher é diferente, né. Adora gastar dinheiro com roupa e tal.

E homem adora achar que mulher é tudo igual. Reviro os olhos e mudo de assunto de novo.

— Enfim magrelo, não vai ficar bravo se eu não for nesse jogo de hoje, né?

— Fiquei bravo quando você não foi nos outros? — A resposta é não. Ele olha no celular. Nosso horário de almoço acabou. — Beleza magrela, vou voltar pra portaria. — Me levanto para ele me dar o abraço de despedida de sempre. Por um raro momento me sinto baixinha entre seus longos braços, acompanhados por um beijo na testa. O cabeçudinho é carinhoso que só. —Aproveita lá na festa mas não vai pagar mico, hein? 

— Que festa? — Uma voz grave nos interrompe me assustando, e eu me pergunto por quê raios eu nunca o ouço entrar...



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