Capitulo único
Sienna não queria de maneira nenhuma ter que dividir a cabine de um trem com seus pais.
Não é como se ela os odiasse, o problema é que , se ela não suportava nem o poucos minutos do trajeto casa/escola, dividir esse espaço onde a única coisa que pode existir para tirá-los de tédio é a conversa, será torturante.
Serão horas sem poder fugir de sua mãe que está com todos os sentimentos aflorados, e de seu pai, que é tão melodramático ao ponto de nunca perder a oportunidade de entupir seu cérebro com todas as histórias que ele pode contar. Não seria problema algum ouvir histórias legais e divertidas, mas o romance daqueles dois, desde o tempo da escola, ainda é tão doce que aumenta a taxa de glicose de qualquer um, e é sobre o que ele mais gosta de falar.
O caso é que sua mãe, Eleanor Roberts está entrando na trigésima oitava semana de gestação, o irmão de Sienna está a caminho, o pequeno Harry, ela queria ter o bebê no lugar mais calmo e sossegado que se pode imaginar, na casa de seus pais, os avós de Sienna, que fica em Painswick, uma pequena cidade do interior da capital.
E desde que essa notícia chegou aos ouvidos de Sienna ela manteve-se inquieta, traçou rotas de fuga e planos mirabolantes para fugir do que ela chama de "atentado a sua pouca sanidade", mas não teve jeito, naquela manhã ela foi literalmente arrastada até King's Cross. E é de lá que o trem acaba de sair, e Sienna sabe que ler será impossível, e nem todas as músicas das suas playlists a salvará naquele momento.
Sentados na confortável cabine, ela já encarava a paisagem passando rapidamente através da janela, fazia o máximo possível para não encarar seus pais que estavam sentandos a sua frente, mas foi impossível.
- E então Sienna, conseguiu animar-se com a viagem ? - Seu pai, Oliver Roberts perguntou, ela demorou alguns segundos para responder, já que sua cabeça ainda traçava um jeito de escapulir dali, mesmo que não fosse possível.
- De forma alguma - Ela respondeu com a testa e os olhos colados na janela - Ainda acho que Harry poderia ter nascido em Londres, essa criança nem chegou e já está me dando trabalho.
- Sua irmã é uma reclamona Harry, não seja esse tipo de pessoa - Eleanor murmurou acariciando a barriga, enquanto Sienna limitava-se a rolar os olhos.
- Isso me faz lembrar do dia em que você nasceu filha - Seu pai ajeitou-se no banco e se preparou para dar inicio a sua historia - Era um dia tempestuoso em Londres...
- O Senhor já vai começar papai ? - Ela o interrompeu virando-se para os dois e cruzando os braços, e quando ele notou sua expressão apenas sorriu. O passatempo favorito de Oliver era encher a paciência de Sienna.
Finja que está gostando, ela sempre dizia para si mesma, esperava que se ele não visse tédio em sua expressão parasse de falar, mas aparentemente a unica coisa de que ele gostava mais do que irrita-la era vê-la gostando da historia, portanto ela não tinha escapatória.
- É para passar o tempo - Sua mãe ajeitou-se com certa dificuldade, já que sua barriga estava de um tamanho consideravelmente grande - Não seja tão ranzinza - Ela finalizou sorrindo.
- Como eu estava dizendo, era um dia com o tempo totalmente fechado em Londres.
E assim Sienna ouviu, e pelas suas contas era a trigésima sexta vez, a historia do seu nascimento. Quando naquela tarde chuvosa de dezembro, Sienna adiantou-se uma semana da data para qual estava prevista para nascer e pegou todos, principalmente seu pai inexperiente e extremamente nervoso de surpresa.
E para infelicidade de Oliver Roberts a chuva torrencial que despencava não impediu a bolsa de estourar e menos ainda todas as outras situações que viriam a frente, como o carro quebrar em meio a uma pista encharcada, e Eleanor quase arrancar um pedaço de sua mão ao se dar conta da dor que estava sentido.
Sienna fingiu ouvir tudo atentamente, o carrinho com refeições passou, muitos tipos de doces estavam disponíveis e Sienna viu ali a oportunidade de ocupar parte do seus tempo, comendo. E então, não tardou para que se segui-se a história do dia em que o casal se conheceu e consequentemente se apaixonaram.
Enquanto saboreava seu crumble, um mix de frutas, cobertas com uma farofa de manteiga, farinha e açúcar, acompanhado com Chantilly, ela se viu no meio das lembranças do que para qualquer pessoa seria o romance perfeito, mas não para Sienna, ela não da muita atenção ou importância para histórias de casais felizes e apaixonados, logo teve que ouvir toda aquela história forçando-se para não rolar os olhos e controlando a ânsia de vômito toda vez que seus pais soltavam suspiros e se olhavam com tamanho desejo.
- O dia em que nos casamos foi o mais perfeito de todos - Eleanor disse segurando a mão de seu marido e sorrindo .
- Um lindo casamento no campo - Sienna murmurou apoiando a cabeça no banco atrás de si e fechando os olhos.
- Sim, filha, realmente um lindo casamento - Oliver disse com aparente entusiasmo, Sienna pensou que deveria mesmo ter ficado calada, já que não disse sua frase com suficiente sarcasmo.
- Estávamos tao felizes - Sua mãe continuou - E nem mesmo a cara amarrada do meu pai foi capaz de destruí aquele belo dia.
- Do seu pai e de todos os seus irmãos não é mesmo.
- É claro pai, o Senhor havia acabado de desonrar a princesinha da família - Apesar de está totalmente entediada, Sienna não podia evitar que vez ou outra frases escapulissem.
- De fato, isso não os deixou nada satisfeitos.
- É verdade - Eleanor murmurou ajeitando-se no banco e soltando um "ai" sufocado em seguida. O que fez os olhos de Sienna se abrirem imediatamente.
- Algum problema mãe ? - Ela perguntou, seu pai já apoiava a mão no ombro de sua esposa, que aos poucos desfazia a careta que estava em seu rosto.
- Não, foi só uma dorzinha, mas já passou - Ela ainda a encarava, sua mãe mudou de posição e passou a mão pela barriga.
- Parece que alguém esta muito animado com nossas historias - Oliver disse, Sienna abriu um sorriso debochado e voltou a olhar para a paisagem que passava com rapidez pela janela do trem.
- Com certeza ele está - Eleanor sorriu - Lembro-me de seus primeiros anos Sienna, minha primeira filha e o maior amor da minha vida.
- Até então não é mesmo mãe ? Agora esse amor será dividido por dois.
- Não, ele será multiplicado - Siena que até então estava impaciente e até levemente irritada com todas aquelas histórias, não pode deixar de se interessar pelo modo como sua mãe falou, ela apoiou o braço na janela e encostou sua cabeça na mão.
- Foi fácil ? - Ela perguntou - Cuidar de uma criança.
- Se é fácil, não é mesmo ? - Oliver interferiu - Afinal você ainda é uma criança.
- Ai pai - Ela rolou os olhos - Estou tentando socializar, o senhor pode por favor facilitar ?
- Claro, claro, me desculpe - Ele sorriu, Siena voltou os olhos para sua mãe.
- Fácil não foi - Ela disse - Como não é, apesar de não ter mais que fazer coisas básicas como te dar banho, ou comida na sua boca, a preocupação continua sendo a mesma.
- Sienna, filhos são para a vida, apesar de todos os problemas que surgem - Oliver completou.
- E se somos tao problemáticos e os deixamos cheios de preocupação, porque ter mais um ? - Ela perguntou, pela primeira vez durante toda a viagem ela não se sentia entediada, queria conversar, todo aquele papo lhe trouxe uma curiosidade tamanha - Mãe, além de multiplicar o amor, a senhora vai multiplicar o estresse, a preocupação, os problemas, tudo será em dobro.
- Sienna - Eleanor e Oliver se olharam com cumplicidade e um sorriso brincou nos lábios dos dois - Você não imagina o que é ter alguém nosso no mundo, porque querendo ou não os filhos são uma parte dos pais.
- Passar pelos problemas novamente pode ser complicado, mas assim como foi com você vamos tirar cada cólica, cada ida ao hospital, e cada minimo som de choro, de letra - Oliver completou.
- Porque o amor está e sempre estará acima de tudo - Sua mãe exclamou, Sienna sentiu lagrimas quentes se acumularem em seus olhos, e foi um tanto complicado não permitir que elas rolassem - Ver o sorriso, os primeiros passos, as primeiras palavras, sempre irá suprir tudo isso.
- É maravilhosa a sensação de saber que existem pessoas que confiam em nós - Oliver disse a encarando - E com os filhos é exatamente assim que nos sentimos, somos o porto seguro deles, seu e em pouco tempo de Harry.
- É, vocês são - Ela murmurou, levantando-se e os abraçando, o mais apertado que pode - Eu os amo, desculpem se sou chata, contraria e difícil de lidar a maioria das vezes.
- Todos temos defeitos Sienna - Sua mãe acariciou seu cabelo - Você não é imune a isso.
Ela plantou um beijo na bochecha de cada um, e ajoelhou-se aos pés de sua mãe em seguida.
- Harry, Harry, Harry, eu amo você meu irmãozinho, prometo que não serei uma chata de galocha.
- Ela também promete ouvir todas as nossas historias, e sem cara feia - Oliver disse, Sienna levantou os olhos pra ele com a testa levemente enrugada - Sim, eu imagino que não.
- Vamos admitir que você pediu um pouco demais querido - Ela sorriu assentindo, plantando um beijo na barriga de Eleanor em seguida, ainda ajoelhada sentiu um liquido molhar a perna de sua calça.
- Ai mamãe - Ela se levantou - A senhora fez xixi em mim ?
E pelo jeito nem se passou pela cabeça de Sienna o que tinha acabado de acontecer. Até que um grito ensurdecedor de Eleanor fez com que Oliver levantasse num pulo e ficasse ao lado de Sienna, que assim como ele não estava entendendo nada.
- A bolsa estourou - Foi o que eles conseguiram entender em meio aos gemidos, rosto contorcido e tentativas de exercícios de respiração de Eleanor. A boca de Sienna escancarou, ela e seu pai ficaram estáticos vendo ela se descabelar e gritar - EU VOU TER UM FILHO, MEXAM-SE - Ela berrou e só então os dois pareceram voltar à terra.
Oliver sentou ao lado de sua esposa para tentar ajuda-la, enquanto Sienna murmurava que ia procurar ajuda e corria cabine à fora, deixando uma porta arreganhada, um homem totalmente pálido e uma mulher prestes a ter uma criança num trem em movimento para trás.
Ela correu metade do trem procurando por ajuda, chamava todos que encontrava pela frente, mas até então nenhuma alma viva prontificou-se para tal feito.
Decidiu então que teria que ir até a cabine do maquinista, alguém teria que tomar alguma providencia, nem que fosse preciso ela arrumar uma verdadeira briga pra isso. Mas, ela não precisou chegar ate lá, já que quando corria desesperada, tentando desviar das pessoas que perambulavam pelo trem, acabou trombando com um mulher de aparentes 60 anos.
- Tenha cuidado mocinha - A senhora murmurou quando Sienna a segurou pelos braços para evitar sua queda, ela ajeitou seu chapéu florido e encarou a menina.
- Me desculpe, é que eu preciso parar esse trem - Ela disse rapidamente tentando voltar para sua corrida .
- Parar o trem ? - A senhora sorriu, e Sienna precisou de todas a sua força de vontade para não rolar os olhos, não tinha tempo para isso - Querida, estamos quase chegando à Painswick e acho que não seria possível parar um trem, a menos que alguém tenha caído para fora, ou...
- A minha mãe está tendo um bebê - Ela segurou a senhora pelos ombros - Preciso que a senhora cale a boca para que eu possa procurar alguém que possa me ajudar.
- Um filho ? Aqui no trem ?
- Isso, agora com licença - Tentei sair, mas fui puxada de volta pela senhora - Ai, o que houve ? A senhora não me ouviu ?
- Ouvi, e posso lhe ajudar - Ela sorriu, Sienna a encarou confusa.
- A senhora irá parar o trem ?
- Na verdade não - Ela esticou a mão para Sienna, que tentava, mas não conseguia compreender a situação - Prazer, sou Amarílis Clark, Dr. Clark, aposentada, no entanto ainda repleta de conhecimentos.
- A meu Deus, que maravilha - Sienna sorriu agarrando-a pela mão e fazendo o caminho de volta - Vamos.
Elas caminharam à passos demasiado rápido, Sienna levou a Dr. Clark para a cabine na qual havia deixado seus pais. E assim que olhou pela porta aberta , deparou-se com uma linda cena.
Talvez tivesse perdido muito tempo procurando por ajuda, ela pensou, Eleanor estava deitada no chão da cabine com a cabeça apoiada logo abaixo da enorme janela de vidro, completamente nua e com o cabelo colado ao rosto suado, Oliver encontrava-se ajoelhado entre as pernas de sua esposa.
Sienna encarou sua mãe e logo em seguida seu olhar caiu sobre o bebê que chorava nos braços do seu pai.
- Ai meu Deus - Ela murmurou , seus pais sorriram, a Dr. Clark manteve-se encostada na porta, em silêncio. Oliver pôs o pequeno Harry sobre os braços de Eleanor, e assim que esta o amamentou a criança se calou, Sienna caminhou até eles e se ajoelhou.
- Então você não suportou a ideia de ter que nascer num hospital não é mesmo ? - Ela disse passando o dedo suavemente pela cabeça cabeluda do irmão.
- Sienna Roberts - Oliver exclamou sorrindo - Você está chorando ?
- É, eu estou - Ela disse passando as costas da mão pela bochecha.
- Meus filhos realmente sabem como chegar ao mundo - Ele completou sorrindo e passando o braço pelo ombro de Sienna.
- De uma coisa eu tenho certeza - Ela sorriu - Ao menos essa história, Harry não irá cansar de ouvir.
E ali Sienna viu o amor, ela viu o milagre da vida acontecer.
Espero que tenham aproveitado e gostado da leitura, serei grata em poder ler a opinião de todos!
Um enorme beijo 🚉💜
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