22: Um Motivo para Tentar

Notas Iniciais

Olá, coelhinhos! Tudo bem com vocês?
Primeiramente eu queria dizer que senti muitas saudades! Não coube dentro do peito! 😭😭😭💜💜💜

E queria me desculpar por passar tantos meses sem uma atualização ou interagir tanto.
Estou tentando interagir mais, não sei direito como funciona no tt, ou curiouscat, mas aprenderei aos poucos kkkk prometo melhorar nessa parte!

Estou aceitando sugestões, o que vocês gostariam de ver dos nossos personagens em outras plataformas?

Pensei em usar a #coelhinhotk para que vocês possam me dizer no tt o que acharem também 🥺

Eu ainda não encontrei palavras para agradecer pelos 100k de leituras e por me oferecerem experiências incríveis como autora, me apoiando e dando o seu carinho! Muito obrigada de coração! 💜💜💜

Obrigada também por terem paciência comigo e esperado até aqui! Tenho voltado a ter o mesmo pique de antes e espero que daqui em diante as atualizações saiam mais rápido e nós possamos passar mais tempo juntos!

Esse demorou a vir porque eu fiquei doida tentando seguir o planejamento do capítulo certinho e entregar do jeito que eu queria, porque ele é muito importante e marca uma nova fase da fanfic hehe

Então, sem mais delongas, peguem suas garrafinhas de água e tenham uma boa leitura, coelhinhos! 💜💜💜

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"Ah, eu nunca soube que você era a pessoa que estava esperando por mim.

Eu encontrei alguém mais forte que qualquer pessoa que conheço, ele compartilha dos meus sonhos e espero que um dia eu compartilhe seu lar. Eu encontrei um amor para carregar mais do que apenas meus segredos, para carregar amor. Nós ainda somos crianças, mas estamos tão apaixonados.”

Perfect - Ed Sheeran.

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Durante as três horas seguintes daquela revelação tão cruel, nenhuma voz foi ouvida outra vez, nenhuma papelada foi relida e os ruídos presentes se resumiram em passos e um único choro fraco e dolorido. Todos os pares de olhos exaustos estavam fixos naquela parte da janela. O berçário movimentado acolhia amas de leite e os híbridos de onça — que corriam de um lado para o outro cuidando do pequeno bebê pantera —, ele não tinha forças para se mover, mas lágrimas densas escapavam pelos olhinhos bem fechados, sentindo dor.

— Pronto, acabou. — O híbrido exercendo suas várias funções de formação, ergueu as orelhas triangulares e douradas movimentando-as tensionado, colocando o último tubo de coleta de sangue no apoio da bandeja prata. — Vamos tentar a posição de mamãe canguru, tire o jaleco por favor, amor.

Fazendo o que lhe foi pedido, Junseo tirou a peça branca, resmungando agoniado com a dor aguda que lhe atingiu os músculos dos ombros e costas.

Calmamente, o mais velho explicou como deveria fazer ao outro médico enquanto passava o filhote de trinta semanas para seus braços, deixando-o na posição fetal e em pé apoiado contra o peitoral quente do felino mais baixo, que firmava as mãos com toda a delicadeza que conseguia no pequeno e frágil corpo. Descansou ao lado deles a bolsa artificial e improvisada de oxigênio.

— Não demora, ele é muito pequeno nas minhas mãos, Ji.

Ao encará-lo por um instante, Jihoon repuxou os lábios, falhando em esconder um sorriso de presas afiadas em uma mistura de cansaço e diversão momentânea, observando o marido parecendo indefeso e perdido com o bebê nos braços, cuidando para não deixá-lo desconfortável.

— Mas ele parou de chorar, isso é ótimo. — Soltou uma fraca risada com o olhar surpreso do outro e o observou por alguns instantes olhando para baixo, movendo as orelhas conferindo espantado a figura pequena aconchegando-se em seu calor.

No fim das contas, Jihoon concluiu que eles seriam ótimos pais no futuro.

Em seguida, um dos seguranças da ong alertou em seu celular a chegada da equipe que transportava equipamentos médicos da prefeitura.

— Deviam ter chegado com a incubadora horas atrás. — Mudando rapidamente de humor, o pediatra controlou um rosnado após seu comentário em voz alta, digitando uma rápida resposta.

Eles estavam fazendo o possível para manter o bebê vivo e seguro.

Cerca de quarenta minutos depois, o equipamento estava instalado em um dos cantos do berçário, próximo a janela — onde todos se reuniram para vê-lo ressonar calmamente após tantos exames e dificuldades, conectado ao oxigênio e alguns outros fios medindo sua temperatura e umidade, usava uma fralda recém trocada tendo o calor essencial para conseguir descansar.

— Ele vai ficar bem, doutor? — Yoongi perguntou assim que a porta do berçário se abriu e o casal de híbridos deixou o cômodo, depois de passarem toda a noite ali.

— O quadro é estável, já enviei as amostras de sangue para o laboratório, logo teremos respostas mais concretas. — Jihoon apertou suavemente a mão do marido, pedindo apoio de forma muda. — Ele está pesando setecentas gramas, precisa ganhar peso para conseguir se recuperar rápido, levá-lo para outra ong que já tivesse uma incubadora pronta era muito arriscado. Os primeiros testes sensoriais também indicaram que o bebê é surdo.

Suspiros escaparam de todos os presentes na sala de espera. Yoongi — parecendo o mais vulnerável e afetado — se aproximou do vidro apoiando a mão destra ali, assistindo as semelhantes minúsculas da pequena pantera movendo os dedinhos suavemente, a barriguinha descoberta subindo e descendo profunda e lentamente com o aparelho do lado de fora daquela cúpula mostrando os batimentos cardíacos se fortalecendo aos poucos.

— Não vai ter chances para aquele diretor imundo, ele vai ser condenado, ainda mais por causa da situação desse pequeno aqui. — O homem moreno cerrou os punhos com raiva.

— Temos que ir com calma, Yoonie. — Jimin foi até ele, tocando um de seus braços com carinho.

— Com mais calma do que já estamos?! Foram mais de sessenta mortes!

— Mas o seu companheiro tem razão, o bebê não tem nenhum documento ainda, se ele for ser uma testemunha viva, vão querer tirá-lo daqui. — Seokjin retrucou, apoiando as mãos nos quadris em um gesto incomodado.

— É um risco enorme agora, ele não vai aguentar ser transportado para outro lugar de novo. — O pediatra franziu o cenho, assumindo outra vez uma postura de seriedade e profissionalismo.

O Min suspirou derrotado, voltando a olhar para aquele pequeno ser especial.

Queria mandar o diretor Am para o inferno.

— Precisamos fazer os documentos dele o quanto antes.

— Mas por hoje basta tudo o que você já fez, amor — O gatuno o surpreendeu ao passar os braços atrás de seus joelhos e costas, o erguendo do chão. — Nós vamos para casa agora e você vai descansar.

— Eu não tô cansado, Jimin…

Apesar do riso soprado, Park sabia que seu namorado mal estava conseguindo manter sua estrutura em pé.

— Depois nós resolvemos o que falta.

— Vou ser o primeiro a dar todas as informações do filhote. — Reforçou Jihoon.

— Tudo bem. — Um enorme bico se formou nos lábios pálidos e secos de Yoongi.

Pouco tempo depois do completo nascer do sol, os turnos das equipes de seguranças foram trocados e todos se despediram calmamente. Apesar dos braços dormentes pelo peso extra relaxado sobre si, Jimin continuou segurando o namorado adormecido firmemente, farejando seu cheiro enfraquecido pelo corpo ainda se restabelecendo durante todo o percurso do elevador silencioso, ainda que junto de seus companheiros.

Ao se separarem em família e em duplas chegando no estacionamento, Jeongguk e Taehyung se despediram dos felinos e acompanharam Jimin até seu carro, zelando por Yoongi que estava sendo carregado. Completamente esgotado.

— Ele provavelmente esqueceu de tomar o remédio para ansiedade — Jimin falou, seguido de um suspiro preocupado quando ajeitou o mais velho no banco de trás e percebeu uma expressão indicando dor esboçando na face dele. — e atacou o estômago outra vez, vou fazer ele tomar um comprimido antes de voltar a dormir em casa.

O Kim concordou, com os braços cruzados escondendo o coração estrangulado. Seu melhor amigo sempre precisou tomar aquele remédio controlado, e todas as vezes que ele era posto em uma situação complicada, estava por perto para cuidá-lo. Porém agora não iria se culpar por não ter ficado por perto, sabia que Jimin também estava lá por ele, somente pela forma como correu ao seu encontro horas atrás. O amor deles era maior e bonito.

— Vocês vão ficar bem? — Desfez a cruza dos braços, alcançando a mão gelada do anjo e entrelaçando seus dedos.

— Não se preocupe, Tae, ele vai querer tomar um banho e o remédio para voltar a dormir de qualquer forma.

— Mas e você, hyung? — Jeongguk mantinha a cabeça escorada na altura do ombro de seu príncipe, retribuindo o gesto dele com um aperto suave sentindo o calor de sua mão, aproveitando o conforto que o resto de seu corpo dolorido não tinha.

— Eu já passei noites em claro por motivos piores e assustadores… — Os híbridos se confortaram no olhar caloroso um do outro. — hoje não vai ser nada ruim ficar acordado por ele.

Jimin riu baixinho, erguendo o rosto para o céu azulado.

— Folga para os dois hoje. — O acastanhado afirmou.

— Obrigado, Tae! Achei que teria que pedir. — Provocou o gatuno, arrancando risadinhas de ambos. — Agora que Yoongi sabe que o bebê está bem, vai conseguir descansar. Eu também.

— Então vá e dirija com cuidado. — Tae foi o primeiro a abraçá-lo, em seguida o moreno. — Bom descanso.

— Para vocês também.

O felino entrou no carro prata e dirigiu com extremo cuidado pelo corredor do estacionamento, deixando os mais novos assistindo-o até sumir pelos portões.

— Vamos para casa, pequeno?

— Vamos, eu só queria me despedir do Junseo hyung e do marido dele.

Ambos os médicos tinham trocado de ala hospitalar para dar outra dose de medicamentos para os pacientes adultos e crianças, sem pensar em descansar, antes de todos irem para o estacionamento.

— Claro! Eu passei por eles antes quando peguei a papelada da ong no escritório, então vou ficar te esperando aqui.

— Tá bom, hyung! — Com o resto de energia que possuía, Jeongguk voltou o caminho até o enorme prédio. Nem ele, nem seu lado coelho compreendiam a sensação de estar renovado quando podia ficar entre as paredes delimitando o tamanho daquele lugar. Amava a sua segunda casa.

O Kim esperou apenas sua silhueta sumir para abrir a porta traseira de seu carro preto, pegando o enorme e ainda vivo buquê de gloxínias, maquinando em sua mente um bom esconderijo para elas e amedrontado com a chance de murcharem antes de estar nas mãos de Jeongguk.

— Cara, estou começando a suspeitar de que você tenha um clone de si próprio.

Ele deu um salto com a voz sarrista de Hoseok tomando conta do estacionamento.

— Eu tenho até medo de perguntar o porquê… — O acastanhado tentou se recompor, abrindo um sorriso pequeno para a face igualmente cansada do mais velho.

Hoseok havia respondido suas mensagens horas antes de voltar com o Jeon para a ong, explicando toda a situação por Yoongi e que ele e Eunbi não poderiam deixar os filhotes sozinhos, pois eram muitos entre o alvoroço das ambulâncias e paramédicos.

O Kim estava orgulhoso de seu time de amigos.

— Oras, você consegue estar com o Ggukie em uma passeata e comprar flores ao mesmo tempo?!

Sem conseguirem se conter, os homens gargalharam.

— Eu passei em frente a uma floricultura por acaso.

— Sempre tem uma floricultura por acaso no seu caminho. — O tom debochado do outro fez Tae revirar os olhos, apesar de continuar sorrindo divertido.

— Essa foi especial, a dona da loja não queria cobrar pelo buquê, mas me pediu ajuda para levar o altar de rosas vermelhas que a própria montou até a rua, no fim, como eu deixei meus pertences na loja, saí de lá deixando para ela um bom pagamento…

Ele suspirou, encantado pela senhora Kang e seu jeito de cuidar das flores.

— Você é um rico humilde, meu amigo, gosto disso em você.

Taehyung comprimiu os lábios para não rir da fala do amigo.

— Vai entregar ao Ggukie quando?

— Não sei mais o que fazer, elas seriam um presente e um convite para… bem… jantar. — Os ombros dele se curvaram, estava envergonhado buscando por uma saída.

— E o que te impede, na verdade?

— A noite foi muito longa e elas não vão durar muito mais.

— Não! Eu digo, um encontro romântico não precisa ser um jantar em um restaurante caro.

Era exatamente o que Taehyung pensava em fazer, o que fez a vontade de estapear a si próprio aumentar.

— Então o que eu faço, hyung? — Perguntou, tentando disfarçar o leve tom de desespero em sua voz.

— Um café da manhã, ou um almoço também são românticos.

Ele olhou para a tela do celular.

— Mas ainda é muito cedo para ter algum restaurante aberto.

Hoseok não respondeu de imediato, apenas estendeu a mão estapeando o braço do amigo, rindo alto.

— Ah, Tae! Você é bobo? Não precisam nem sair de casa, cara! — O cenho do acastanhado se franziu em completa confusão. — Convide ele e monte uma mesa em algum lugar especial para vocês, vai ser mais romântico que qualquer outra coisa.

— Você está certo, hyung!

— Vou dar uma de Yoonie e dizer que sempre estou. — Riram juntos dessa vez, divertidos com aquele momento. — Só quero te ver feliz, Tae, eu lembro daquele garoto babaca que você beijou na faculdade e tenho vontade de acabar com a raça dele até hoje.

Sendo um amigo cheio de energia, o Kim não duvidaria do Jung.

— Tudo bem, foi só uma fase ruim.

— Só uma fase ruim?! Ele te extorquia!

— Sim, hyung… — As bochechas amorenadas foram tomando um tom tenso de vermelho.

— E te tratava mal!

— Eu sei.

— E você ainda corria atrás dele como se fosse o único gay da faculdade!

— Hoseok!

— Tá bom, desculpe, mas eu não quero mais ver essa insegurança em você, já passou muito tempo depois de tudo o que aconteceu, você não precisa mais esconder esse teu lindo coração, tudo bem? — Com o sorriso em formato de coração, Hoseok estendeu os braços puxando-o para si.

— Obrigado, hyung. — Tae retribuiu o abraço.

— Não é nada, só me desculpe falar mais do que devia.

— Tudo bem. — Um riso soprado escapou do mais novo.

— Eu também já dei umas dicas para o Ggukie.

— É-É sério?!

Foi a vez do Jung rir.

— Sim! E pelo o que eu vejo, ele também quer você.

O Kim se afastou abruptamente, encarando-o nos olhos.

— Sem ser como amigo?! Mesmo?!

— Eu não vou te responder essa… pergunta para ele.

Se afastando, Tae virou na mesma direção que o amigo, escondendo desesperadamente o buquê atrás das costas observando seu anjo voltar, com os braços caídos e relaxados dos lados do corpo, sustentando um sorrisinho cansado nos lábios.

— Boa sorte, Tae. — Hoseok foi se afastando, voltando o olhar confuso para o acastanhado quando teve seu braço segurado.

— Eu se fosse você, levaria lírios laranja para a Eunbi. — Soltou uma piscadela e o Jung corou até as pontinhas das orelhas.

— Ah, mas que engraçadinho você! — Se soltando completamente envergonhado, o Jung começou a se afastar, encarando o chão sob o olhar curioso do coelho que já estava próximo o suficiente para ouvir a conversa. — Eu vou indo embora, bom descanso para vocês! — Girou nos calcanhares dando alguns passos apressados, antes de parar e se virar uma última vez para os amigos. — Lírios laranja, não é?

— É, hyung!

O mais velho de fios negros assentiu e praticamente saiu correndo digitando algo no celular, deixando os garotos apaixonados rindo para trás.

— Eu acho que a Eunbi também gosta dele. Claro, do jeitinho dela. — Jeongguk falou depois de ter certeza que estava aconchegado no maior. Completamente manhoso.

— Eu não tenho dúvidas de que algum dia eles se tornarão um casal.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, até Taehyung suspirar e em uma lufada de coragem, se afastar do moreno, apenas o suficiente para encontrar seus olhos.

— Eu tenho um presente para você.

— O que é? — Lá estavam aqueles olhos galácticos, brilhando como os de um filhote outra vez.

Tirando de trás das costas o arranjo, o homem envergonhado o estendeu na direção de seu anjo.

— São lindas, TaeTae! — Animado, Jeon trouxe o buquê para suas mãos, farejando o aroma doce que ele exalava, misturado ao morango despregando da pele amorenada do príncipe.

Por outro ângulo, vê-lo contornado pelos tons das flores deixavam Taehyung fora de órbita.

— Você gostou?

— Muito! — Os olhos dele demoraram um pouco para encontrar os do príncipe, pois estavam fissurados pelos miolos coloridos suavemente e as pétalas de tons mais fortes de rosa, estendendo-se até às pontas onde eram contornadas da mesma cor clara do centro em um degradê bonito. — Quais são essas, hyung?

— Gloxínias, pequeno. — Os passos doloridos e cansados rodeavam um ao outro lentamente naquele pequeno pedaço de calçada.

— E o significado?

Taehyung sentiu os músculos tensionarem, fixando o olhar nas flores que pareciam estar perfeitamente confortáveis nos braços de sua paixão. Não. Estava certo de que era seu amor.

— É-É que você… lá estava hoje e f-foi, — As mãos de repente suando foram parar nos cabelos ondulados, bagunçando os fios de forma nervosa. Jeongguk soltou uma risadinha. — É difícil de explicar.

— Então tenta de novo, TaeTae.

Um suspiro derrotado escapou do acastanhado. Seu pequeno nunca mais cederia à falta de resposta de seu coração acelerado.

— Tudo bem. — Respirando fundo, o Kim passou alguns segundos pensando em sua escolha de palavras. — É que hoje foi a primeira vez que você gritou pelo nosso povo e eu pensei, porque elas são bonitas e você estava tão lindo lá.

As bochechas do garoto coelho coraram intensamente.

— Estou orgulhoso de você, pequeno.

— Então elas também significam beleza e orgulho… — O de orelhas felpudas assentiu para si próprio, guardando a informação da maneira mais adorável que o empresário já viu.

— Admiração também, é uma flor aveludada que expressa toda a delicadeza do significado.

Jeongguk passou as polpas dos dedos pelas pétalas, sentindo a maciez de cerdas quase invisíveis para confirmar. Eram lindas.

— Obrigado, Tae, eu amei o seu presente. — Os olhos negros refletiram em milhares de cores brilhosas. Encontrando não só o olhar de mel como o coração desenfreado dele.

— M-Mas n-não é nada comparado ao verdadeiro significado. — Nervoso, Taehyung recuou um passo, sob o olhar extremamente atento do mais novo.

Será que vai acontecer agora?

Pensou um ansioso Jeongguk, começando a arrebatar o pé direito contra o chão, seu rabinho se contorceu em eletricidade pelo discreto furo em sua calça e suas orelhas viravam em direção ao mais velho, tentando capturar qualquer ruído.

— Qual é?

— Q-Que foi primeira vista é amor, é! Não!

— O quê?

Com milhões de nozinhos de pensamento apertando em sua cabeça, Jeon fingiu não ter entendido. Queria palavras claras. Queria tudo o que o príncipe pudesse lhe dizer naquele momento.

Deu um passo à frente.

— O que quer dizer, TaeTae?

Estava na hora.

— Elas significam amor. — O Kim soltou de uma vez, prendendo a respiração com medo da reação do anjo, porém, com o sorriso de dentinhos avantajados surgindo, seu peito transbordou. — Amor à primeira vista, meu anjo.

Anjo. O coração do garoto coelho parecia querer explodir a qualquer momento, com as batidas extremamente aceleradas refletindo por todo o seu corpo eletrizado.

Jeongguk deu mais um passo à frente e impediu qualquer pensamento de seu príncipe de tentar fugir, entrelaçando os dedos na manga do seu paletó cinza chumbo.

— Príncipe… — Chamou quando percebeu o rosto dele vermelhinho, os olhos de repente cravados no chão. — Você vai me dar o seu amor? Como nos doramas?

Um torturante e eterno silêncio fez a resposta inicial do mais velho.

— Não.

Os olhinhos negros tiveram o brilho recém conquistado abalado por um breve momento.

— E-Então…

Erguendo a mão direita e livre, Taehyung apoiou sobre a bochecha macia e gordinha correspondente do moreno, acariciando aquele pedaço de pele com devoção. Segundos depois encontrou os olhos do garoto por quem havia perdido a posse de seu coração.

— Eu vou te dar o meu amor real. Não preciso atuar em um dorama para amar você, nenhum momento entre nós tem a possibilidade de não ser real.

Ambos os garotos apaixonados ficaram se encarando em silêncio, mas por estarem conectados através de suas almas, conseguiam escutar os corações batendo unidos.

— B-Bem, eu vou entender, se caso, você… sabe…

Interrompendo-o, em um ato de coragem, Jeon agarrou o colarinho de sua camisa exposta, puxando-a até seus rostos se aproximarem.

Mais perto.

Os bigodes invisíveis pertencentes ao coelho arrepiaram, sentindo a respiração quente do acastanhado bater contra o seu rosto humano, uma lufada de ar tão desorientada quanto a sua própria.

— G-Gukie.

Tae sentia suas pernas perdendo as forças, mas não se permitiria afastar nenhum mísero milímetro dele.

Os nozinhos de Jeongguk também apertaram, ele desejava um beijo. Desejava tocar os lábios macios que tanto pensou durante os últimos dias. Desejava aquele gesto de amor romântico.

Seus olhos redondinhos passeavam por cada detalhe do rosto do outro, parando bons segundos para admirar os lábios róseos.

Puxou a gola da camisa. Mais perto. Seus narizes se tocaram efervescentes ajudando a denunciar as faces cobertas pela euforia.

— TaeTae…

"Eu não tenho mais medo."

Era o que o garoto desejava dizer, antes de ser interrompido pelas vozes de outros hyungs se aproximando. Com um pequeno passo para trás, soltou o colarinho de seu príncipe, voltando a abraçar completamente o lindo presente que havia ganhado.

Jamais saberia dizer qual flor era sua favorita, nem os momentos que as recebia.

— Ah! Vocês ainda estão aqui. — Junseo se aproximou rapidamente deixando o marido para trás. Suas orelhas caídas denunciando um sentimento incomum na personalidade enérgica do felino. — Não vão para casa hoje? — Zombou, acompanhado de uma risadinha.

— Nós vamos hyung… s-só estávamos conversando.

— Ah sim, com certeza. — O sorriso dele era de presas afiadas. — Reforço meu desejo de bom descanso para vocês. Então, te vejo daqui um dia, Ggukie.

— C-Certo, hyung!

Assim que os felinos se afastaram, Jeongguk soltou um ruído manhoso em meio a um suspiro, deitando a cabeça no ombro de seu príncipe.

Mais uma vez desistiu de seu desejo, porém, era certo de que seria a última vez.

— Vamos para casa, TaeTae?

— Claro, meu pequeno.

Apesar de envergonhados, os garotos entraram no carro sustentando bobos sorrisos, fugindo precariamente dos raios de sol daquela manhã calorenta. O caminho até a enorme propriedade também foi silencioso, porém confortável e preguiçoso para o Kim que observava com encanto — sempre que podia — a figura morena ao seu lado acariciando as flores com fascínio, este último permitindo a dança de suas orelhas extensas e felpudas enquanto fingia não perceber o olhar de mel sobre si. A sensação do frio na barriga e das palavras dele que ainda ecoavam em seus pensamentos deixavam seu corpo efervescente.

Quando entraram em casa, foram recepcionados pelos braços calorosos de Byeol noona, que veio a passos ligeiros da cozinha secando as mãos no pano de prato sobre seu ombro.

— Meus meninos! Vocês chegaram! — Com a voz embargada, ela apalpou os rostos joviais, olhando de um para o outro preocupada. — Vocês estão bem? Não se machucaram de alguma forma? — Eles negaram com leves sorrisos. — Estão com fome? — Ela perguntou depois de ter certeza de que seus moleques estavam bem e seguros em casa, fazendo seu coração materno tranquilizar-se automaticamente.

— Eu estou com fome, noona! — O acastanhado foi o primeiro a se adiantar em direção a porta da cozinha, formando um bico nos lábios quando teve o braço esquerdo segurado pelo mais novo.

— Primeiro vamos nos lavar, hyung, estávamos na rua.

— Isso mesmo! — Noona concordou prontamente.

— Mas é só lavar as mãos… — Os ombros largos caíram e um bicão se formou nos lábios de Tae. — Estou com fome.

— Eu também, mas para descansar bem precisa estar limpinho, TaeTae! — Um sorriso arteiro se abriu na boca vermelhinha. — Eu não vou te deixar deitar na cama desse jeito.

Taehyung mordeu o interior das bochechas arqueando apenas uma sobrancelha.

Como assim não vou deitar na minha própria cama?

Pensou controlando o riso, pois o garoto que amava já havia dominado até mesmo seus lençóis e travesseiro com o cheirinho de torta de limão.

Por fim, ergueu as mãos em rendição, escutando a risada maléfica da mulher de meia idade.

— Você venceu, meu anjo…

O apelido carinhoso desestabilizou Jeongguk.

— Ó-Ótimo.

— O que está acontecendo aqui? — Noona perguntou sarrista, intercalando o olhar entre seus dois meninos de forma curiosa.

— V-Vou tomar banho já! — O empresário passou entre os dois, fugindo para o segundo andar.

— Noona… — O Jeon chamou acanhado logo após, sentindo o rosto flamejante.

— Oh querido, não precisa falar nada, eu estava apenas brincando, não sou intrometida!

Apesar da fala compreensiva e confiante, o mais novo quis rir pelos olhos castanhos e atentos dela no buquê em suas mãos.

— Eu acho… — Desviou o olhar assim que a mais velha voltou a encará-lo também. — Que o TaeTae também quer conhecer o amor comigo.

A reação da mais velha foi um resmungo histérico que ela falhou em prender na garganta. O coelho gargalhou.

— Eu tinha certeza que esse momento iria chegar! — A mais velha deu alguns pulinhos ao redor do próprio corpo, comemorando com palmas abafadas.

— Na verdade, noona, eu estava esperando para ouvi-lo dizer que… queria também, mesmo eu sendo assim.

— Assim como? — A mais velha parou de repente, lhe dando um olhar preocupado.

— Um híbrido que tinha um monte de problemas e pensamentos ruins… mesmo ele me dando todo o tempo e espaço do mundo.

— Entenda primeiramente uma coisa, Ggukie — A Byun se aproximou cautelosa, contornando os ombros do garoto alguns centímetros maior que si. — você não pode deixar o passado continuar atormentando você, tudo o que passou pode não ter sido escrito para ser uma história feliz. As decisões que você tomou lá atrás qualquer um consegue perceber que foram para sobreviver, meu menino, mas tudo isso não define o final da sua história, mas sim, o que você escolhe ser agora… — Os olhinhos negros a encaravam brilhantes pelas lágrimas acumuladas. Jeongguk queria ser mais forte ainda agora. — E segunda coisa, quando alguém se apaixona, é literalmente por todos os detalhes até mesmo pelos defeitos.

— Existem defeitos, noona?

A mais velha riu baixinho do jeito singelo de seu menino ao tentar mudar de assunto.

— Essa é a parte que os doramas não mostram, querido, é conhecendo alguém intimamente que nós descobrimos.

— Certo!

Em surpresa, o moreno descansou o buquê sobre a mesa de centro da sala — ainda que cuidadoso — agarrando a cintura daquela figura que lhe despertava sentimentos diferentes também. Sentimentos maternos e carinhosos.

O coelho escondeu o rosto na dobra de seu pescoço, apreciando o cheiro de casa e baunilha.

— A noona tem cheirinho de mãe…

Comentou depois de um bom tempo apenas abraçado a ela. Em seguida, o garoto encabulado se afastou apenas para coletar as flores e correr em direção a escada, imitando seu príncipe ao pular os degraus desesperadamente, deixando Byeol incrédula para trás.

— Mãe… — Um risada anasalada escapou dela, que tentava conter as batidas incertas de seu coração envelhecendo junto a si. — Esse menino. — Chacoalhando a cabeça afastando os pensamentos daquele moreno sem vergonha que se parecia com um coelhinho, a mais velha voltou à cozinha para terminar de ajeitar a mesa para ambos.

Jeongguk foi diretamente para seu quarto, deixando o buquê sobre a cama posta e entrando no banheiro. Ali, passou a maior parte do tempo refletindo sobre as coisas que ouviu, sobre tudo o que fez tanto por si próprio como para as pessoas ao seu redor, onde foi cativado e sentia necessidade do lugar acolhedor que era a ong.

O moreno então encarou seu reflexo no box após passar a mão para afastar o vapor que o deixou embaçado.

— Eu sou bom. O Jeongguk é um homem bom.

Sorriu exibindo os dentes salientes, assistindo suas orelhas dançarem e se arrepiarem para expulsar a água da pelagem.

Ele repetiu a frase algumas vezes em pensamento, enquanto a água quente relaxava seus músculos doloridos.

Depois de ficar limpinho, colocou uma troca de roupas largas e confortáveis deixando o quarto de forma preguiçosa, seus olhos pareciam pesar uma tonelada. Ao passar pela porta de frente, prendeu os lábios entre os dentes controlando uma risadinha. Seu príncipe estava esticado sobre a cama escondendo os olhos com um dos braços, os joelhos expostos para fora do colchão e os pés batucando o chão polido lentamente. Completamente despojado e cheiroso. Jeongguk não perdeu a oportunidade de se aproximar.

— Tem mais espaço aí, TaeTae?

O acastanhado se sobressaltou, causando uma risadinha no mais novo.

— G-Gukie, sim tem!

Arrastando-se para o lado, o empresário abriu espaço para seu amor, prendendo a respiração quando ele se deitou e virou em sua direção.

Ainda estava tentando entender como teve coragem de se declarar e seus nozinhos malucos não estavam ajudando, dando inúmeras opções do que Jeongguk poderia responder, dentre elas, a de que não seria possível eles ficarem juntos.

Seu peito apertou com a possibilidade.

Porém, tudo o que fez foi suspirar deixando o ar preso em seus pulmões sair, deveria esperar ele falar sobre aquele assunto primeiro.

— Então…

Começaram juntos, soprando risos em uma mistura divertida e envergonhada um para o outro.

— Hoje foi bom, hyung, apesar de tudo o que aconteceu — Um suspiro escapou durante uma breve pausa do moreninho. — Aprendi muitas coisas com os outros híbridos pelas ruas…

Uma parte em Taehyung se decepcionou. Ele estava esperando uma resposta para seus sentimentos. Porém o resto de seu ser rapidamente se esqueceu do momento anterior e ficou extremamente feliz com o brilho salpicado de estrelas nos olhos de jabuticaba.

— Isso é muito bom, meu pequeno, eu também aprendi muito hoje.

Jeongguk mordeu o interior das bochechas falhando em esconder um sorriso, lembrando do príncipe dando o próprio jeito para andar do seu lado, sem parar em nenhum momento.

Sim. Tinha certeza que queria conhecer o amor com ele. Pensou perdido por alguns segundos no reflexo do olhar de mel.

— Você estava lindo lá, hyung.

O mais novo se aproximou, sentindo novamente as famosas borboletas no estômago que aprendeu com os doramas, permitindo que seus narizes se tocassem.

— Você também, Ggukie. — Taehyung ergueu a mão devagar, arrastando com delicadeza uma mecha do cabelo macio para trás da orelha correspondente dele. Em seguida, segurou o riso com o nariz redondinho e avantajado remexendo contra o seu. — Devo procurar uma palavra maior que: extraordinário. Para você ela se tornou pequena demais.

Ele não viu, mas os dentinhos avantajados apareceram.

O Jeon estava feliz e o Kim estava concentrado nos olhos negrescos, tão inocentes e fortes. Se encontrava fissurado pela luta e vulnerabilidade que eles passavam ao mesmo tempo. Encantado pela coragem e bondade, mesmo com todo o passado vivido tão amargamente. Derretido pela cor vibrante como as penas de um corvo. Desejando que apenas uma estrelinha dentro deles, fosse o amor e o carinho destinado a si. Ele olhava em silêncio para os olhos que diziam sem palavras.

— Você é um bobo. — A risadinha tímida o tirou de seus devaneios.

— Acho que eu sou mesmo. — Concordou, o retribuindo por fim.

— Nós vamos descer para comer?

— Vamos sim.

Apesar da concordância, ambos permaneceram encarando um ao outro. Tão perto e exalando calor, que mal perceberam as pálpebras pesando e os corpos se enroscando lentamente até os sonhos virem fazer uma visita aos apaixonados.

Durante o tempo que não quiseram contar, Tae jurou ter sonhado com seu anjo perguntando se ele queria ser o seu amor.

Ggukie, ainda de olhos fechados, sussurrou essa pergunta — docemente contra os lábios dele — antes de ter tempo para notar sua proximidade e voltar a cair no sono.

No centro da cidade, o silêncio predominava no aconchegante apartamento de Yoongi e Jimin. Estavam cansados demais para falar sobre qualquer coisa.

O alaranjado terminava seu banho depois de ter deixado o namorado descansando na cama, esse também de banho tomado e vestido com roupas confortáveis, outra vez completamente à vontade e calmo. Jimin deixou o banheiro com passos preguiçosos poucos minutos depois, enquanto secava o cabelo com uma toalha menor desistindo de vestir a camiseta e ficando apenas de calção. Encontrou o olhar puxadinho e castanho quando sentiu-o queimar suas costas pintadas de sardas.

— Achei que já estivesse dormindo, amor. — Sorriu de forma fofa escondendo os olhos atrás das pálpebras inchadinhas de cansaço.

Yoongi se limitou apenas a balançar a cabeça, entorpecido pelo efeito do remédio. Porém com um bicão formado em seus lábios.

— Quer comer algo agora?

Outro aceno.

— Então?

— Eu estou… tão bravo com você! — Explodindo em raiva, o Min virou o rosto, deixando de encará-lo e cruzando os braços.

— O quê? Por que?

As orelhas alaranjadas se esticaram imediatamente, em seguida, dobrando para trás em alerta.

— Você é um péssimo namorado em algumas questões!

— Você…

Jimin tentou regular o tom de voz, estrangulando um miado raivoso. Como ele podia falar aquilo?! Tinha feito tanto por si nos últimos dias!

Parecendo escutar seus pensamentos, o humano continuou:

— Não ouse entender só o que essa sua cabecinha quer, seu gato fedido!

De um segundo para outro o híbrido estava sentado sobre suas pernas, encarando-o com o rosto próximo até demais para deixá-lo concentrado.

— Então me explique, Yoongi.

— N-Não me chama de Yoongi! — Sua braveza estremeceu. — Para você eu sou o seu amor, entendeu?

— Entendi — O gatuno continuou a encará-lo seriamente. — Então me explique, meu amor.

— E-Eu fiz um jantar todo chique esses dias atrás… — Os dedos branquelos se entrelaçaram. O Min inflou as bochechas momentaneamente se sentindo sem graça. — E você nem deu bola, ou sequer reparou no que eu estava usando! — Decretou por fim, mostrando a língua para o namorado.

A reação do Park foi a formação igual de um bico nos lábios.

— Poxa amor, me desculpa.

O humano puxou-o pelos ombros, queria o contato tão íntimo que eles compartilhavam há alguns anos.

— Eu não estou bravo de verdade, entendi na prática pelo que a ong estava passando — Suas testas se encontraram. — Só queria contar que era por isso que estava agindo de forma estranha com você, me desculpa, gatão.

— Até sendo um egoísta você é fofo, sabia?

Resmungando alto e bravo, o platinado empurrou o híbrido fazendo-o cair no colchão ao seu lado, voltando a cruzar os braços quando o ouviu explodir em risadas.

— Você é um bobão, Jiminie!

— Está bem eu sou, mas você também é, meu amor!

— Não sou não!

— É sim!

O Park deu uma breve pausa, até que uma ideia marota acendeu em sua mente e começou a fazer cócegas em seu amado humano, até o momento que ele se contorceu e passou a deitar gradativamente. Aproveitou para agarrá-lo entre seus braços, ainda podendo ouvir sua risada tão gostosa.

— Você está melhor? — Perguntou por fim.

— Estou. — O breve silêncio entre eles foi algo confortável. — Eu senti que você estava lá o tempo todo.

Completamente manhoso, Yoongi escondeu o rosto no pescoço com o cheirinho de hortelã, que um dia jurou não vir naturalmente do namorado, mas era satisfatoriamente dele.

— Eu disse que iria correndo.

— Disse mesmo. E como você está?

Aquele era um dos momentos favoritos do alaranjado desde que conheceu o humano, o poder da calma e segurança ao conversar sobre o dia, sabendo que uma noite fria jamais voltaria a engoli-lo outra vez.

— Foram dias cansativos e eu senti muita dor nas costas… — Enquanto Park falava, o humano apertava-o contra o próprio corpo. As costas haviam sido o lugar onde a maioria dos machucados mais profundos cicatrizaram sem os devidos cuidados antes do felino ser resgatado. — Mas estou realizado, nada é comparado a força e poder para ajudar o nosso povo.

— Estou orgulhoso de você, gatão, fez um ótimo trabalho. — Yoongi soprou contra a pele sensível de seu pescoço.

Jimin riu baixinho com o arrepio bom que passeou por seu corpo todo.

— Todos nós trabalhamos bem.

— Uhum. — O resmungo sonolento do mais velho indicou ao felino que aquela conversa estava chegando ao fim.

— Bom, agora nós podemos ter nosso merecido descanso, durma bem, meu amor.

— Você também, gatão.

Assim, vagarosamente os olhos foram se fechando e os corpos embolados pesando relaxados contra o colchão. Positivamente o prédio que moravam também estava silencioso e agradável, levando o casal apaixonado rapidamente para o mundo dos sonhos.

[...]

Todo o restante do dia passou repleto da luz do sol e do calor. As ruas tinham seu movimento habitual, porém agora com mais cores, as pessoas corriam de um lado para o outro, sem notar a graciosidade da estação, sempre ocupadas demais esquecendo uma papelada importante, ou atrasados para buscar seus filhos nas escolas.

Foi quando as luzes artificiais começaram a acender que alguns dos garotos se levantaram, cada um com seu tempo, descansados dos longos dias que a ong precisou da atenção deles o tempo todo.

Hoseok tomava da segunda xícara de café, despojado em seu sofá com o notebook ligado sobre as pernas procurando a identidade do híbrido de pantera que não resistiu ao parto cheio de dificuldades, tentando encontrar sua origem e como conseguiu ajuda para salvar o seu bebê. Seokjin havia lhe mandado toda a papelada, mas cada linha enchia ainda mais seus olhos. Iria garantir que o diretor Am não tivesse como recorrer, faria-o ficar atrás das grades e encontraria cada um que participasse de todo aquele plano cruel junto dele.

Outra vez estava cansado. Constatou encarando o relógio da luxuosa sala, já faziam três horas que passava os olhos pela tela sem parar. Três horas que encontrava pequenas brechas para sentenciar o homem que foi responsável pela morte dos sessenta e cinco híbridos.

Inesperadamente, seu celular começou a tocar, era um número até então desconhecido.

— Olá. Estou ouvindo.

A chamada ficou silenciosa durante alguns segundos. O homem franziu as sobrancelhas, afastando o aparelho até enxergar a tela percebendo que ainda estava na chamada, voltando a aproximá-lo da orelha em seguida.

— Olá?

— Hoseok-ssi?

A voz feminina invadiu a ligação, fazendo um enorme sorriso em formato de coração se abrir automaticamente nele.

— Eunbi-ssi, você realmente me ligou.

— Não sabia que horas deveria ligar, você estava cansado demais.

— Estou disposto há algum tempo já. E você, descansou bem?

— Sim, obrigada.

Eles se calaram por um momento. Eunbi suspirou antes de tomar coragem para começar um novo assunto.

— As coisas por aqui ainda estão muito agitadas, pedi para o Junseo-ssi que cancelasse as minhas próximas consultas. Pelo menos tenho saúde agora, os outros precisam dele mais do que eu.

O Jung não podia ver, mas a raposa mantinha-se grudada ao telefone da sala da ong no primeiro andar, amassando o papel onde ele escreveu seu número e que ela tinha até mesmo decorado, apoiando nas pernas as bonequinha igual a si. O presente que não saía mais do seu lado.

— Sua atitude é admirável, Eunbi-ssi.

— Mas isso não significa que você não precise mais vir essa semana, tudo bem? Os filhotes estão perguntando sobre você…

O moreno mordeu o interior das bochechas, contendo uma risadinha.

— Pode deixar, amanhã estarei aí pela tarde, certo?

— Certo, Hoseok-ssi! — A raposa soltou um rosnado após a própria fala, achando-se animada demais para seus sentimentos bagunçados e mal cicatrizados.

— O que você vai fazer agora? — Perguntou o homem de forma carinhosa.

— Estou assistindo as investigações sobre o diretor Am, os advogados dele estão recorrendo para que ele responda em liberdade. Acha que vão conseguir?

— Não se um advogado da Kim Imperial comandar o caso.

— Nem me atrevo a perguntar quem é.

Ambos riram baixinho, com medo, como se ninguém mais pudesse ouvir aquele som que havia se tornado habitual entre eles.

— Você se acha demais, Hoseok-ssi.

— Não-Não! Eu me admiro, é diferente.

— Como se precisasse se admirar, quando tem muitas pessoas que já admiram você.

— Você ganhou, tem um ponto…

A raposa sempre lembrava o homem do potencial que muitas vezes ele — injusto consigo próprio — acreditava não ter.

Assim, a conversa se estendeu por vários comentários diferentes sobre tudo o que acontecia ao redor e as atenções daquela dupla de amigos foram desviadas do que faziam antes, sem que até mesmo o relógio controlasse eles.

Yoongi tirou o cobertor de cima de seu rosto, esticando o corpo afastando a preguiça. Abrindo os olhos lentamente procurou pelo seu amor, encontrando primeiramente o rabo extenso, peludinho e laranja serpenteando lentamente o ar, em seguida, as costas nuas coloridas de pintinhas nos tons de chocolate e salmão. Yoongi adorava se perder naquele pedaço de pele do gatão.

Virando de lado, usou uma das mãos para desenhar uma linha invisível desde a lombar do mais novo até a nuca coberta de fios ruivos, entrelaçando os dedos ali iniciando uma massagem. Sorriu grande com o ronronar alto e satisfeito que passou a ouvir.

— Cadê o meu gatão? — Perguntou com um tom de voz fofo, que aprendeu a usar apenas com o namorado.

Isso que fingia detestar muitas coisas fofas entre eles como um casal. Achava brega.

— Tô aqui, amor. — A resposta veio com um miado baixo e rouco. O felino rapidamente se moveu pelo colchão, escondendo-se no abraço do humano.

— Descansou bem?

— Uhum…

— Ótimo, porque eu estou morrendo de fome e você vai me ajudar a cozinhar.

Jimin resmungou, jogando uma perna sobre o namorado o prendendo a si.

— Jiminie!

— Vamos ficar deitados só mais um pouquinho, Yoonie, por favor…

Com um suspiro, o Min apenas parou de se mover em uma falha tentativa de escape, contornando o corpo maior e quente distribuindo inúmeros carinhos pelo híbrido mais bonito, cheiroso e cheio de amor que completava e dava sentido à sua vida, sorrindo de canto com as mãos grudadas nas costas dele — vibrando pelo ronronar fofo — .

A mansão Imperial dos Kim também brincava com as cores sob o entardecer no jardim. A brisa fresca, a iluminação dourada e as flores, chamaram a atenção do garoto coelho, que não recusou doar um pouco de seu tempo para meditar em meio a toda aquela mistura de cheiros, sabores, e principalmente do silêncio.

Um momento para si próprio.

Porém, não se sentia sozinho, a aceleração constante em seu coraçãozinho o lembrava porque não conseguia pensar em nada além do que seu príncipe lhe falou mais cedo. Ele não estava tão cansado ao ponto de ter sonhado acordado com o que a voz rouca disse, ou então ter visto tão nitidamente as bochechas do príncipe corando.

O que deveria responder?

Taehyung também não tocou mais no assunto. E se tivesse se arrependido?

O que faria a seguir se optasse por ficar em silêncio?

Bufando, Jeongguk se deitou sobre a grama macia esticando as pernas desleixadamente, também dobrou os braços e usou-os como travesseiro para seus nozinhos pesando cada vez mais por culpa de seus sentimentos aprisionados.

O belo homem era o motivo que chegava a lhe dar dor de cabeça.

Havia deixado ele adormecido na cama antes de ir até o jardim, já deviam ter se passado longas horas para seus pensamentos fixos em uma única coisa.

Voltou a se martelar. Ouviu o que queria da boca de Tae.

Então por que não tentar?

Se sentando abrupta e novamente, o coelho observou tudo ao redor, procurando por alguma opção de presente que pudesse ser o seu cortejo ao príncipe.

Abrindo o catálogo minutos depois com as flores dos canteiros, que criou junto do dono de seus pensamentos no seu celular, começou a busca relendo cada informação sobre as mais diversas flores que plantou junto dele, aproveitando para anotar sobre suas novas amigas. As gloxínias.

Orgulho… admiração… amizade… amor.

Encontrou novamente os belos lírios-tigre.

Um sorriso tímido tomou seus lábios. Taehyung tentou enganá-lo dizendo um falso significado, ou, talvez tivesse ficado sem coragem para lhe pedir seu amor. Não importava qual das duas opções poderia ser, ele tinha descoberto o verdadeiro presente nas pétalas delicadas e desejava ver a reação dele. Planejava contar o que descobriu quando parasse de duvidar do que acontecia entre ambos.

Chacoalhando a cabeça, voltou a focar na procura por um presente.

Tae tinha um cheirinho doce de morango. As damas-da-noite começavam a exalar a sua fragrância. Talvez…

Não.

Tae tinha os lábios cor de pêssego. Talvez se lhe desse cravos delicados e cheirosos.

Não.

Seus olhos então passearam pelas rosas, vermelhas como a cor das bochechas dele quando ficava envergonhado.

Mas já havia lhe dado uma no seu aniversário.

Jeongguk suspirou. Por que seu príncipe não podia gostar de legumes e verduras?

Seria fácil escolher entre cenouras, tomates, couves e temperos verdinhos cheirosos.

Continuou sem respostas e no momento com seu estômago roncando. O cheiro que vinha de dentro — do que parecia ser o jantar em preparo — era maravilhoso.

— Ah que difícil. — Resmungou, erguendo o rosto de cenho franzido para o céu e com as pálpebras fechadas, tentava criar a imagem do que queria entregar a seu príncipe.

Talvez se pedisse a ajuda de noona… não! Queria pensar sozinho.

Então, um click acertou seus nozinhos em cheio, como uma bola de boliche nos pinos no fundo da pista.

Se erguendo, o garoto descalço correu pela maciez da grama até o cercado que limitava a hortinha de sua noona. As flores que haviam plantado nos canteiros ainda não estavam prontas para serem podadas, mas tinha uma entre os temperos, em especial, que anotou secretamente em seu catálogo, essa desconfiava que nem o acastanhado conhecia: flor de maracujá; encontrou o significado dela em uma de suas inúmeras pesquisas sobre botânica. Com as pétalas brancas, miolos lilases e cerdas longas e verdinhas que davam a impressão de que abraçavam uma à outra, sabia que poderia despertar a curiosidade no belo homem e poderia contar que estava apaixonado.

Colheu três flores daquela espécie com cuidado, juntando seus caules e entrelaçando as próprias cerdas verdes do comprimento umas nas outras, formando um pequeno e delicado buquê. O cheirinho de maracujá preencheu o ar ao seu redor de forma agradável e inebriante.

Seu rabinho pomposo se agitou, bem como suas orelhas extensas e peludinhas. Estava eufórico com o súbito desejo de vê-las nas mãos de seu príncipe.

Do outro lado da casa, porém, o acastanhado andava de um lado para o outro bem desperto. Havia se levantado assim que o anjo se afastou do segundo andar, planejando junto de sua noona o que estava rondando seus pensamentos desde a conversa com Hoseok.

E ali estava ele, na área de lazer onde iluminou tudo em volta com luzes de pisca-piscas douradas, a piscina ainda estava vazia, mas tinha agendado a manutenção para que ela desse dias frescos e divertidos a Jeongguk. Seus pés descalços marcavam ao redor do balcão perfeitamente arrumado com uma toalha vermelha quadriculada, pratos brilhantes de porcelana e taças de cristal reluzindo em seus olhos brilhantes, pela mistura entre a ansiedade e o medo. O boné branco estava virado com a aba para trás escondendo seu cabelo desgrenhado pelo sono anterior e seus dedos se entrelaçaram na barra da camisa amarela mostarda, que conferia de minuto em minuto se não havia sujado com o preparo da carne começando a dourar na churrasqueira. Seu celular estava na mão livre trêmula, aceso na tela de mensagens com o moreninho, mas tudo o que fazia era encarar a foto fofa de perfil dele. Não conseguia digitar uma simples mensagem chamando-o para ir até ali.

Não quando iria dizer sobre o seu desejo de ser mais do que apenas um amigo leal e um protetor. Queria ser verdadeiramente o príncipe dele.

Digitando pela enésima vez um: "Olá, pequeno!", deu um sobressalto com a voz de noona preenchendo o local.

— O arroz está pronto, querido!

— N-Noona!

Assistiu abismalmente a mais velha caminhar até o balcão, depositando a panela sobre o suporte anti térmico protegendo a toalha.

— O que foi, menino?

— N-Não dá! Eu não consigo.

— Não vai amarelar, agora, moleque! — Byeol parou ao seu lado, encarando a tela acesa. — Você não mandou a mensagem para o Ggukie ainda?!

— Eu estou com vergonha, noona!

A reação da mulher de meia idade foi uma risada alta e divertida.

— Ele pode estar te esperando também, lá no jardim. Vi o Ggukie correndo de um lado para o outro procurando alguma coisa.

Um sorriso quadrado se abriu.

— Ele é tão fofo.

— É sim, mas só vai vir até aqui se você chamá-lo.

O Kim ficou em silêncio por alguns segundos, sentindo seu rosto efervescente.

— Já sei! — Gritou enérgico. — A noona traz ele aqui!

— Eu?! — Os olhos castanhos e escuros se arregalaram.

— Por favor, noona. — Tae formou um biquinho nos lábios, ajudando a compor a expressão de falso sofrimento. — Eu não vou conseguir chamar ele.

— Quanto drama, moleque! — Ajeitando o avental preso a sua cintura, dona Byun bufou. — Na minha época era só chamar e pronto, levava para conhecer os pais e namorava no sofá da sala.

— Nessa época ainda não existiam restaurantes, noona? — Diante a provocação, Taehyung ganhou um beliscão no braço. — Ai-ai!

— Essa vai ser a primeira e a última vez que eu faço isso… — Os olhos dela encontraram os seus. Ameaçadores. — não deixe aquele menino confuso, fale o que sente e sejam felizes para sempre, ok?!

O Kim se limitou a concordar freneticamente, engolindo em seco quando noona se afastou até abandonar o cômodo.

O momento certo havia chegado.

Dona Byun atravessou a casa silenciosa com ligeireza, pensando no que falaria para convencer seu caçula a ir para a área de lazer sem estragar a surpresa do homem sensível se desfazendo pelo nervosismo lá.

— Se eu não fosse aposentada, iria cobrar um extra daquele moleque…

A mulher parou defronte para as portas de vidro da sala, sorrindo quando encontrou o moreno entrando em casa, alegre e todo sorridente para o que trazia em mãos.

— Querido! O que estava fazendo?

— Estava pensando no que me disse, noona… eu tenho um motivo para tentar agora.

— É muito bom ouvir isso, meu menino. — A mais velha se aproximou para oferecer um carinho nos cabelos negrescos. — Essas lindas flores fazem parte do plano?

— Uhum! Acha que é um bom presente? — O sorriso avantajado se abriu espontaneamente.

— É perfeito! — Suspirou a mais velha durante uma breve pausa. — Por falar nisso, eu preciso de um favor seu, querido.

— O que é, noona?

— Pode ir até a área de lazer? O Tae acordou e está fazendo uma tremenda bagunça procurando por algo no depósito. Se eu chegar muito perto, vou dar uns cascudos nele.

A mulher não mentiu sobre a última frase, mas se contagiou com Jeongguk gargalhando de forma gostosa para seus ouvidos.

— Vamos ver o que esse hyung está aprontando, noona.

A dupla voltou o caminho pelo extenso corredor, passando pela sala de banho da casa e adentrando a área de lazer.

— TaeTae! — Ggukie chamou assim que o avistou, em seguida, jogou a cabeça levemente para o lado, observando curiosamente a figura alta e forte puxando os cabelos enquanto mordiscava os lábios.

— G-Gukie! — O acastanhado deu um sobressalto, caminhando em sua direção desesperadamente. — Veio você! Não… argh. — Uma risadinha nervosa escapou.

— O que você está fazendo?

— Esperando você…?

Os olhinhos negros então percorreram por todo o local, vislumbrado com as luzes no ambiente aconchegante, pela cor dourada que cobria a pele avermelhada de seu príncipe envergonhado e pelo cheiro maravilhoso que o lembrou que estava com fome.

Voltando a se concentrar no homem em sua frente, soltou uma risadinha erguendo a mão livre, mantendo a outra escondendo as flores atrás das costas, ajeitou os fios castanhos e macios em um carinho singelo, acalmando o príncipe. A expressão desesperada e ao mesmo tempo enfeitiçada dele era uma cena fofa de se admirar e idolatrava momentos assim.

— A noona tinha me dito que você estava fazendo bagunça.

— Só um pouco. — Riram baixinho em sincronia.

— Bom, então agora eu vou deixá-los a sós. — A voz da mais velha chamou suas atenções. Voltaram os olhares envergonhados para ela, que riu em resposta voltando a se aproximar da porta. — A louça suja é toda de vocês.

Byeol não deu tempo para ouvir uma resposta, deixou seus meninos ali, fechando a folha de madeira atrás de si no início da área de lazer, tentando conter o largo sorriso e a ansiedade pelo que viria a seguir.

Os garotos apaixonados permaneceram olhando para o ponto onde a figura feminina sumiu, adiando o novo encontro de seus olhares com os rostos flamejantes.

Estavam sozinhos.

— E-Então… — Tae começou após um pigarreio. Completamente nervoso. — Como nós trabalhamos duro nos últimos dias, eu pensei que… que talvez um jantar em um lugar calmo, é…

Arregalando os olhos melados, Taehyung interrompeu a si próprio, engolindo em seco com o rosto sério e indecifrável do moreninho, que o encarava de repente com as orelhas rígidas extremamente esticadas, fora do costume dele.

Porém, o que mais o surpreendeu e tirou todo o ar de seus pulmões, foram as mãos se estendendo em sua direção, segurando firmemente um singelo ramo de três flores cheirosas.

— São para você, Tae.

Ali, o acastanhado sentiu-se desfalecer. Virou uma geleia molenga e vermelhinha de amor no chão sob seus pés.

— O-Obrigado, Ggukie! — Corado, tomou delicadamente o singelo buquê em suas mãos. — Eu amei o seu presente! É… simplesmente maravilhoso! — Exasperou emocionado.

— Que bom que gostou, hyung! — Os dentinhos avantajados voltaram a aparecer. — Eu passei algum tempo procurando pelo presente ideal! Que tivesse os seus olhos, o seu cheiro, os seus lábios… — O olhar negresco foi se arregalando enquanto a voz sumia. O coelho dentro do homem praguejou baixinho, sentindo o focinho coçar envergonhado. Jeon pigarreou. — Estou com fome.

Tae chacoalhou a cabeça, engolindo uma grande quantidade de saliva que por pouco não escapou de seus lábios. A animação de seu anjo era contagiante e hipnótica.

— Eu também! É, vamos nos sentar, sim?

Concordando, o garoto coelho o seguiu até o mármore, rindo baixinho quando teve a banqueta puxada para se sentar.

O príncipe era um verdadeiro cavalheiro de dorama, sempre abria a porta do carro, ou segurava as portas do elevador para que passasse primeiro, agora puxava a banqueta e o gesto tirava seu ser de órbita, mesmo fingindo que não ligava.

Aquilo tudo era exatamente o que desejava obter como resposta ao que estava sentindo.

Quando ele se sentou em sua frente, o enorme sorriso quadrado e as mãos grandes dedilhando com cautela as pétalas delicadas, fez aquele se tornar o momento favorito de Jeongguk. E ele não evitou tirar o celular do bolso e apontar a câmera para o outro, registrando o belo homem distraído e vermelho até as pontas das orelhas.

— Flores de maracujá são lindas.

O comentário na voz rouquinha chamou a atenção do moreno.

— Você já as conhece, hyung? — Perguntou surpreso por ele ter quebrado sua convicção.

— Da origem ao miolo… — Ao terminar a frase, Taehyung franziu levemente o cenho. Conhecia aquela flor tão bem que um click se acendeu em sua mente. Voltou a encarar o moreno, observando desde suas orelhas dançantes até os lábios tornando-se vermelho vívido pelos dentes os mordiscando. — G-Ggukie, elas dizem que… o que significam nesse momento?

O empresário sentia o peito arder, tentando não criar expectativas. Desejava tanto aquela resposta.

— Que sim.

— Sim?

— Essa é a minha resposta, príncipe… desde os lírios-tigre até agora.

Taehyung entreabriu os lábios, pasmo.

— E-Eu achei que… — As palavras escaparam do dono da mente e coração em completa euforia. — eu sou só um humano, não tenho nada de especial, mas mesmo assim eu desejei que… nós… acontecesse, sabe? Eu desejo.

Jeongguk não o respondeu de imediato, ficou pensando em suas palavras e como cada uma tocou seu coração, agitando junto de toda sua estrutura com o sopro quente e rouquinho daquela doce voz.

Como ele poderia ser somente um humano?

Como ele poderia não ser especial?

Assim como tinha sido cuidado pelo belo homem, também queria cuidar dele e mostrar tudo o que aprendeu, afinal, era um príncipe dentro da história que criaram juntos. Taehyung também precisava ser cuidado, amado, e seria esse alguém para ele.

— TaeTae…

O coelho chamou baixinho — para que apenas eles pudessem ouvir — apesar de ter os olhos de mel fixos em si a todo instante. Estendeu as mãos gélidas e suadas sobre a mesa e sorriu ao perceber que Tae não pensou duas vezes antes de retribuir seu gesto.

Surpreendendo-o com sua aproximação, farejou o perfume cítrico do morango emanando da pele dourada e febril, em seguida, depositou um longo selar no dorso delgado.

Tae engoliu a bola de saliva que parecia entalada em sua garganta, assistindo aquela cena com seu coração vibrando em seus ouvidos.

— Eu não tenho mais medo, hyung… — O moreninho falou após se afastar suavemente, acariciando a mão que oferecia inúmeros carinhos e gestos bonitos para si igualmente. — e você também não precisa mais ter. — Seus olhos negavam até mesmo um piscar, pois queriam fixar aquele momento, sem perder um mísero segundo. — E eu te retribuo, você me tem completamente Kim Taehyung.

Em seguida, o moreninho começou a rir da expressão travada de olhos caramelados cintilantes e o sorriso torto. Taehyung era um homem cheio de sentimentos delicados e fofos.

— E-Eu feliz muito estou! Quero dizer que é o que quis sempre! Não! O que eu quero dizer é… Ggukie! — Os olhos castanhos se arregalaram. — A carne vai queimar!

Se levantando às pressas, soltando a mãozinha tão suada quanto a sua própria, apesar de ser a contragosto, o mais velho cuidou para que as flores fossem descansadas em um jarro com água sobre o mármore da pia, parando em frente a churrasqueira, usando o garfo trinchante para virar os pedaços de carne sobre a grade. Começando a sorrir à toa por ainda ouvir a bela voz de seu amor dizendo que retribuía seus sentimentos, Tae cantarolou alguma música que acompanhava junto de seu amigo violino, tirando uma fatia cheirosa e bem passada, colocando sobre um prato e cortando um pedaço. Ao se virar em direção a mesa outra vez, gargalhou com o narizinho avantajado buscando o aroma temperado do que fazia.

— Experimente… — Ofereceu ao garoto por quem era completamente apaixonado. — Assopre antes, está quente, meu anjo.

Tae assistiu com fascínio, o biquinho fofo se formando nos lábios vermelhinhos, soprando e em seguida mordiscando o pedaço do garfo.

Os olhinhos negros se iluminaram ainda mais.

— Hum! — Jeongguk exclamou com as bochechas infladas. — Está maravilhoso, hyung!

— Obrigado! — Lidando com a vergonha, o citado voltou-se para a churrasqueira tirar as outras fatias. — Aprendi com a minha mãe.

Mãe.

Falar sobre ela não doía mais, Taehyung soube disso a partir do momento em que foi acolhido nos braços do anjo, no corredor de pedras frio e silencioso do cemitério. Tocar violino não doía mais, porque sua mãe dançava de onde quer que estivesse, no momento, tocava para assistir seu grande amor. Receber mensagens e pedidos de dinheiro de seu pai também não o incomodavam mais, pois o dinheiro não iria fazer falta se pudesse agendar uma transferência alta para as ongs, onde aquela parte de seu mundo novo estava sendo construído tão especialmente.

O garoto de lindos olhos negros e pele pálida era a cura que nenhum médico jamais pode lhe prescrever.

— Sua mãe tinha um ótimo talento, além da dança.

— Quem sabe cozinhar sempre vai ser mais talentoso, não é?

Riram divertidos.

— Você pediu para ela te ensinar, TaeTae?

Voltando a se sentar de frente para o mais novo, o Kim sorriu largo, fatiando a carne e oferecendo mais pedacinhos ao garoto esfomeado e fofo.

— Na verdade, quando cheguei na adolescência, ela me disse que se fosse para conquistar alguém, que eu começasse pelo estômago. Então eu sempre a ajudei, só que faço muita bagunça até hoje.

Jeongguk tinha o rosto apoiado nas mãos, sorrindo para a história que seu hyung contava, prestando total atenção ainda que seu estômago continuasse roncando.

— Por isso, noona deixou a louça para nós.

A sincronia de suas vozes e risadas preencheram o cômodo desde então, eternizando aquele momento tão doce e quase palpável. Aquele não era apenas um jantar, mas o tempero certo para o que deu início a uma nova fase de suas vidas, dessa vez conjunta, inocente e intensa.

[...]

Dois dias depois, os garotos apaixonados pareciam ainda não ter voltado à atmosfera normal, estavam presos no universo um do outro e ninguém poderia colocá-los de volta ao chão. E nem queriam, pois há muito tempo todos os amigos esperavam vê-los daquela forma, ainda que não tivessem dito claramente.

Yoongi, Taehyung e Hoseok voltaram a passar mais tempo na empresa, trabalhando arduamente para que a nova linha de produtos estéticos fosse entregue dentro do prazo. O Kim não evitou rir da cara dos amigos quando terminaram suas partes e correram para a ONG, pois o próprio faria igual.

Sentado na cadeira giratória em frente a mesa de vidro, suspirou desgostoso, eram muitos documentos para assinar e lhe exigiria um bom tempo longe do coelhinho.

— Senhor Kim? — Sua secretária chamou depois de três batidas na porta.

— Pode entrar.

— Os diretores pediram para que assinasse a transferência da campanha deste semestre destinada a restituição das árvores.

— Claro. — Sorrindo gentil, o homem pegou a pasta de papel marrom estendida em sua direção. — Hoje o dia não para… — Comentou para si próprio analisando os papéis dentro daquele documento, em seguida, assinou o final da folha e apertou o botão do carimbo com o brasão da empresa embaixo de seu nome.

— O senhor quer ajuda?

Tae ergueu os olhos para a mulher loira. Sorriu torto.

— Não, obrigado, continue fazendo o seu trabalho tranquilamente, senhorita. — Devolvendo a pasta para sua secretária, o acastanhado voltou a atenção para os documentos que já mexia antes. — Não, na verdade espere. — Mudou de ideia e a mulher parou no batente da porta.

— Senhor?

— Eu gostaria que fizesse uma encomenda na floricultura da Haneul noona, preciso do maior buquê de rosas vermelhas que ela tiver. — Apesar de não encarar diretamente sua secretária, um largo sorriso quadrado se abriu com as imagens inundando a mente dele. — com alguns raminhos comestíveis também, ela até já sabe quais. — Uma lufada de riso escapou disfarçadamente.

— É um presente para alguém especial, senhor?

— Exatamente! E esse alguém é mais do que especial. — O suspiro apaixonado do homem de nada agradou a mulher de sua idade. — Peça para a noona anexar o bilhete que vou mandar por e-mail, por favor.

— Sim, senhor. Mais alguma coisa? — Perguntou a secretária, rancorosa.

— Não. Obrigado senhorita Hua.

— Por nada. — Mau humorada, ela deixou a sala presidencial voltando para o enorme cômodo junto de seus companheiros de setor, que se esforçavam verdadeiramente para deixar tudo em ordem.

Curiosa, se sentou em sua bancada e abriu a caixa de e-mails na tela acesa do computador de frente para si, clicando imediatamente na mensagem enviada em nome de seu secreto amor e patrão.

Cerrou os punhos sobre a mesa ao terminar de ler o pequeno texto que dizia ser um mimo desejando um excelente dia para alguém que ele chamou de: meu anjo.

— Nem em pensamentos… — Negou para si própria, ainda que fazendo o que lhe foi ordenado.

Após a ligação atendida da mulher de idade com cheiro de flores, Hua ditou o endereço esquecendo-se propositalmente do tal bilhete e excluindo o e-mail de sua inbox.

A mulher respirou fundo largando o celular sobre a mesa e começou a pensar com um sorriso maligno nos lábios sobre o que o antigo presidente havia lhe dito por telefone algum tempo atrás, prometendo seu filho a ela se fosse seus olhos e ouvidos dentro daquela empresa, pois ele precisava continuar com suas formas de fazer o Kim mais novo continuar trabalhando em linha reta sem saber que investia seu dinheiro em mercados de híbridos e sem saber também quais contatos tinha fora dos mercados.

Ela tinha apenas uma ordem: agir o quanto antes para conquistá-lo e distraí-lo do que ele planejava fazer.

[...]

Jeongguk bocejou antes de abrir os olhos. Completamente preguiçoso.

Com um tempinho livre depois do almoço para descansar, ele não negou a oferta de seus amigos coelhos, embaralhou seu corpo pequeno e peludinho entre os demais, contribuindo - para o que parecia de forma cômica - um tapete felpudo e colorido nos tons de branco, castanho e preto, pelos colchonetes daquele quiosque.

Dormir em sua forma de coelhinho era uma de suas novas manias favoritas.

— Tio Ggukie! Eu cheguei!

A voz fininha e infantil de Nora invadiu o ambiente arejado, em seguida, um gritinho animado quase despertou a todos.

— Eu quero aprender a me transformar também! Tio Ggukie!

A garotinha assistiu encantada o coelho branco deixar o ninho, puxar com a boca algumas peças de roupa e adentrar um segundo cômodo do quiosque, voltando minutos depois com as mãos no rosto tentando despertar e completamente vestido.

— Nora-yah! Como foi na escola hoje?

O adulto a puxou para um abraço aconchegante, farejando seus cabelos lisinhos e cheirosos presos por um laço colorido.

— Foi normal e chato como todos os dias, — Uma lufada de riso escapou do moreno depois de se afastarem. — ser a única híbrido da turma me torna um brinquedo, tio Ggukie, parece que meus amiguinhos nunca viram uma coelhinha antes!

— Tão linda como você, eu acho que não mesmo. — A menina não demorou em abrir um largo sorriso, balançando o pequeno corpo com as mãos atrás das costas.

— Ah, muito obrigada, você também é lindo tio Ggukie! — A pequena voltou a encaixar o corpo no seu, o abraçando com mais força. — Eu fiquei com muito medo por ter ido embora sem me despedir de você e do tio ursinho no dia do protesto.

Arregalando os olhos, Jeongguk esticou as orelhas, sentindo seu coração retumbar dentro do peito ao ouvir um ruído, choroso e incomum, esse que não vinha de algum lado externo de onde estavam, estava ouvindo o coelhinho cor de chocolate de sua pequena amiga.

Seu corpo inteiro se arrepiou, jamais havia presenciado algo daquele tipo antes. Seu coelho interno remexeu os bigodes, curioso.

Em um instinto protetor, trouxe a filhote para seu colo, deixando ela farejando seu cheiro e apertando seus ombros.

— Está tudo bem, Nora-yah, eu estou aqui, não estou? — Brincou, afastando o rosto para encarar o bico da garotinha, esperando ela lhe dar uma resposta afiada, como era sua mania.

Porém, ela apenas tombou a cabeça para o lado, antes de apoiar as mãos nas bochechas rechonchudas e sorrir ao mesmo tempo.

— Tio Ggukie! Seus olhos estão azuis! Como faz isso também?

— M-Meus olhos? — Ele perguntou confuso.

Caminhando em direção ao banheiro do quiosque, onde se trocou algum tempo antes, o moreno passou a observar sua figura no espelho notando a falta do negresco brilhante de suas orbes, sendo substituído por um azul oceano.

— Isso é bom, não é tio Ggukie?

— Eu… eu não sei.

Era estranho ver a si próprio, naquele momento era como se fosse outra pessoa.

Os assustando devido o curto silêncio, o celular em seu bolso começou a tocar, indicando o despertador que havia configurado para não perder a hora de voltar a trabalhar.

Colocou a garotinha espoleta no chão com cuidado.

— Vou precisar voltar para ajudar o Junseo hyung.

— Você não vai poder brincar hoje?

— Infelizmente não, pequena, muitos de nós precisam de ajuda. — Sorriu, ainda se sentindo estranho com seus sentidos ainda mais aflorados.

— Tudo bem, tio Ggukie! Cuide deles direitinho! — A inocência infantil o distraiu de seus nozinhos. Soltou uma risada.

— Pode deixar, Nora-yah! — Trocaram um high-five. — Venha comigo, pedi para as noonas guardarem leite de banana para você e o Sunbae-yah.

— Eba!

Assim, a dupla de coelhos deixou o quiosque, um pouco ligeira e envergonhada por ter despertado alguns híbridos.

— Ah! Jeongguk! — Um do grupo de híbridos de leão, segurança da ong, o chamou assim que pisaram nos primeiros degraus brancos.

— Sim, hyung? — Sua voz saiu baixa e envergonhada pelos olhares ao redor sobre ele, ao que o homem de terno preto esticou um lindo buquê de rosas vermelhas em sua direção.

Taehyung…

— O entregador disse ser para o senhor em nome da Kim Imperial.

— O-Obrigado, hyung!

Tomando delicadamente as flores em mãos, Jeon farejou seu doce aroma antes de tirar uma do ramo, juntamente de pequenos ramos de camomila e dentes-de-leão que foram diretamente dilacerados pelos dentinhos avantajados da garota.

— Hum! Fresquinhos!

Concordando de forma muda, o moreno se curvou diante do segurança e voltou a segurar a mão pequena, guiando-os para além das portas de vidro.

A gargalhada fofa e infantil de Nora chamou sua atenção, enquanto seus nozinhos estavam presos na imagem do Kim e seu sorriso lindo.

— O que foi, Nora-yah?

— O tio Ggukie está todo vermelhinho depois de ganhar um presente do namorado.

O nariz avantajado do adulto remexeu com a sensação dos bigodes invisíveis arrepiados, sendo reproduzido por reflexo no nariz redondinho da mais nova enquanto eles se encaravam.

— O-O Tae hyung não é meu namorado.

Um sorriso se abriu involuntariamente em seus lábios.

— Ainda!

— Vamos, garotinha! Eu preciso voltar para o hospital. — Mudando de assunto, eles voltaram a andar.

Ao deixá-la no refeitório, bem como o buquê em uma jarra com água fresca, o de fios negros agradeceu suas noonas e correu para a ala hospitalar, encontrando no meio do caminho o casal de onças se despedindo com um breve selar.

— Ah! Ggukie! — Ao ser chamado, o pediatra abaixou o rosto envergonhado e saiu quase correndo. Junseo negou assistindo-o sumir pelo corredor. — Não ligue, Jihoon é um bicho do mato às vezes. — Riram em sincronia. — Vamos voltar ao trabalho?

— Sim, hyung!

— Nossa, seus olhos estão azuis! — A onça comentou assim que se aproximou dele. — Alguém está com os instintos bem aflorados hoje, huh? — A risadinha descontraída dele acalmou o garoto coelho.

Então era apenas aquilo: instintos aflorados.

A tarde se passou tão rápida quanto a agilidade dos dois para trocar os curativos e medicar seus pacientes, sempre singelos e usando o mínimo de toques físicos possíveis, dizendo palavras respeitosas e acolhedoras para ajudá-los na adaptação para a liberdade. Noites ruins jamais votariam para eles.

Havia apenas um híbrido ainda arisco. Um urso-malaio de pelo curto e completamente castanho. Seus instintos ferozes contribuíam para seus atos, estava com medo e machucado.

— Você acordou, meu amigo, se sente melhor? — Junseo perguntou baixo e saudoso. Teve que sedar o garoto para que conseguisse descansar devidamente. Recebeu como resposta um rosnado no mesmo tom. — Já viu como trocamos seus curativos mais cedo, não é? Não doeu nada. Preciso fazer um último exame, é uma ecografia para eu ver o que deixa esse desconforto no seu estômago, tudo bem?

O garoto - ainda afetado pelo calmante - apenas virou o rosto para o outro lado, encontrando diretamente os olhos azuis do Jeon. Rosnou.

As orelhas felpudas baixaram instintivamente, mesmo que o corpo maior e debilitado tremesse e desse solavancos de medo mais do que si próprio.

— Senhor Chinmae… — Um suspiro escapou de Junseo. — Eu sei que está com medo, mas nos dê um voto de confiança, prometo que ninguém nunca mais vai voltar a machucar você.

O urso continuou encarando fixamente o moreno.

Em um ato de coragem e compaixão, Jeongguk apoiou sua mão sobre a dele, surpreso pelo seu próprio calor envolvendo o outro, que permitiu seu toque, apesar do novo rosnado e choramingo.

O coelho em Jeongguk também escutou.

— Escute ele, tudo isso vai acabar logo. — Seu sorriso de dentes avantajados se abriu.

— F-Fugir… mau.

— Aqui não tem nada mau, você está livre e logo vai ficar curado também.

— Não… aqui não. — O híbrido repetiu, como se quisesse confirmar em seus próprios pensamentos nublados.

— Aqui você vai ter comida boa, noites de sono em uma cama quentinha e amigos! — O Jeon entendeu que aquela era a súplica dos olhos castanhos.

Sentindo seu corpo arrepiar novamente, seus feromônios passaram a se despregar de sua pele intensamente, permitindo seus instintos de falar com o grande predador.

Junseo, aproveitando que seu aluno havia encontrado uma forma de distrair o outro híbrido - ainda que parecesse tão surpreso por estar fazendo aquilo - passou o gel gélido pelo abdômen do seu paciente, em seguida, pressionando o aparelho ecógrafo abaixo do umbigo, olhando diretamente para o computador traduzindo as ultrassons de diferentes sequências vindas dele.

O aperto no peito indicava a sujeira que viu em quase todos os seus pacientes, porém, um carocinho diferente dentro da massa uterina chamou sua atenção.

Entendeu o instinto protetor do urso, ainda que o próprio talvez não estivesse ciente do porquê. Sua cabeça latejou e teve que engolir em seco ou sentia que sua garganta iria fechar completamente.

Focando em seu profissionalismo, terminou a ecografia e mandou para a impressão. Suspirando de forma pesada, saiu da sala assistindo Jeongguk ajudando o maior a se erguer da maca e acompanhá-lo, foram a passos lentos até o bebedouro. Chinmae parecia mais desperto e calmo, soltando poucas palavras, porém interagindo com seu aluno.

— Senhor Chinmae… — As orelhas chocolate em forma de meia-lua dançaram. O urso voltou em sua direção. — Eu vou conseguir uma psicóloga particular para você em breve, quero que se sinta um pouco mais confiante em contar o que aconteceu. Preciso também te fazer algumas perguntas, mas nós temos tempo ainda, queria que estivesse confortável e completamente consciente quando me der suas respostas e…

— N-Não quero.

— M-Mas eu não termi…

— Não quero que nasça.

A resposta afetou a todos, principalmente o garoto coelho, por ter compreendido o que seu professor queria dizer através das entrelinhas.

Junseo tentou controlar seus instintos, sua compaixão diante daquele que era parte de seu povo e manter o profissionalismo, mas segurou a mão dele com ternura.

— Você é muito corajoso… vai ficar tudo bem.

Foi tudo o que conseguiu dizer, antes do corpo maior e forte apagar contra os seus e os braços do coelho.

Duas horas se passaram até o híbrido de urso-malaio acordar novamente, dessa vez ele estava em um quarto quentinho e confortavelmente na maca, coberto por um lençol macio.

Sua cabeça parecia pesar toneladas, seus curativos ardiam e sentia vontade de usar suas garras para arrancar as gases e coçar a pele frágil pela falta de vitaminas até acabar com a coceira, mover um músculo sequer enviava pontadas de dor por todo seu corpo, mas a falta da ânsia e do mal estar por dentro aliviava todo o resto.

Junseo entrou no quarto minutos depois com leves batidas na porta, sorrindo ao vê-lo acordado.

— Como está o meu amigo corajoso?

— D-Dói e não dói… — A onça riu baixinho.

— É um novo começo para você, senhor Chinmae. — O médico se aproximou, fiscalizando o soro conectado no braço direito do outro predador. — Fizemos tudo o que estava em nosso alcance, o senhor ainda terá que passar por uma psicóloga sobre o feto… — Os olhares de ambos se desviaram, angustiados. — mas dada a sua resposta, eu já enviei todos os papéis para Seokjin e Namjoon, eles são cuidadores de ongs grandes, vão conseguir uma autorização rapidinho e tudo vai dar certo. — Chinmae não o respondeu, apenas maneou a cabeça de forma leve. — A melhor parte é que a cicatrização dos seus machucados agora vai ser rápida, com muito repouso e alimentação correta. — O corpo grandão relaxou sob os lençóis. — As noonas já vão trazer seu jantar, fizeram especialmente para você.

As orelhas redondinhas dançaram.

— Obrigado. — Seus olhares se encontraram novamente e o peito do médico transbordou.

— Não precisa me agradecer, eu quero que celebre a sua vida como merece, Chinmae.

[...]

Jeongguk retirou seu jaleco e pendurou no gancho atrás da porta branca, voltando em direção a mesa que servia de escritório para seu professor, assistindo-o abocanhar um brinquedo de borracha em forma de cenoura.

Acharia engraçado se ele não estivesse descontando sua raiva em mordidas e arranhões.

— Eu fico louco toda vez que isso acontece, Ggukie! — Os olhos faiscando em um dourado tenebroso encontrou os - novamente negros - do garoto coelho. — Não faz sentido esse governo idiota dizer que protege a vida dos híbridos… — O felino fez aspas com os dedos, ainda segurando o brinquedo. — e obrigá-los a terem filhotes que não querem! — O moreno apenas abaixou a cabeça. — E o caso dele é claro de que não é com a intenção de procriar! — Rosnando, o médico mordeu o pedaço colorido da borracha outra vez, aplicando toda a força que tinha. — Sabe de uma coisa? Os de cima são tão sujos, que quando obrigam um híbrido a ter o filhote, fazem com que ele devolva… para o tutor! Me diz no que isso ajuda?! Só vai piorar mexendo com o nosso corpo e mente! — Mordendo a ponta daquela cenoura de brinquedo, Junseo usou a outra metade para arranhar e puxar da própria boca, apenas para que pudesse afundar ainda mais suas presas na borracha.

— O que nós podemos fazer, hyung? — Os olhos tristes de Jeongguk o fizeram largar o brinquedo. O médico respirou fundo e se levantou.

— Vamos nos obrigar a ter calma e rezar para que os Kim consigam ajudá-lo a tirar.

Ambos suspiraram desgostosos, permanecendo em silêncio por algum tempo. Era tão difícil comprar a liberdade, quanto tê-la de verdade.

— Bom… ele se alimentou bem e está repousando em observação, precisa estar descansado para o que vai enfrentar ainda. — O moreninho concordou. — Mas nós também, então vá para casa, Ggukie. A troca de médicos vai acontecer daqui a pouco, então não tem com o que se preocupar.

— E você, hyung?

— Eu vou ficar com o meu marido lá na pediatria, quem sabe a fofura dos filhotes não me distrai. — Junseo abriu um sorriso fraco.

— Não vá morder nenhum. — Jeon brincou, retribuindo o sorriso cansado.

— Não vou, o Ji tem ombros largos, logo, tenho mais espaço.

Uma risadinha escapou do felino enquanto o coelho corava por todo o rosto.

Depois de uma despedida com um abraço longo e significativo dos dois, o de fios negros passou pelos quartos desejando boa noite aos seus pacientes, com o peito tornando-se calmo apesar das batidas aceleradas demais - algo natural em seu lado animal - em seguida encontrou a cozinha onde havia deixado o lindo presente que sabia ser de seu príncipe e por fim seguiu para o elevador apertando o botão diretamente para o térreo, encostando seu corpo dolorido e cansado em uma das paredes de metal durante o breve trajeto. Quando deixou o pequeno cômodo metálico, dirigiu-se para a saída se curvando levemente para os outros híbridos que passavam e o cumprimentavam, andando apressado até às portas de vidro da entrada procurando pelo dono do perfume de morangos e chuva fresca, que podia sentir ainda ao longe, afinal, tinha recebido uma mensagem dele avisando que viria o buscar.

Ao avistar a grama verde do enorme quintal, colorida de filhotes chegando das escolas juntamente de seus pais dos trabalhos, o garoto coelho negou descrente enquanto abria um enorme sorriso, encontrando um homem alto e bonito, com o cabelo preso em um semi coque e vestido apenas com a camisa social não mais branca, se misturando ao filhotes em uma brincadeira que parecia correr e pegar.

— Te peguei tio ursinho! — Sunbae gritou ao finalmente conseguir escalar seus ombros largos e ser erguido do chão. — Nossa! Como eu sou alto!

— Você está virando um homenzinho!

Gargalhadas gostosas escapavam dos lábios de pêssego, acertando diretamente o garoto apaixonado.

Sem demora, desceu os três degraus da entrada do prédio e passou a caminhar pela grama esquecendo-se do cansaço de outrora.

— Oi, coelhinho! — Taeho acenou para si. Estava escorado em um dia pilares do primeiro quiosque acompanhado de outros guardas e amigos.

— Oi, hyung!

— Como estão todos os resgatados?

— Estão melhorando! Se você quiser pode ir lá conversar com eles!

A resposta inocente de Jeongguk, que não havia parado de andar, deu por encerrada a curta conversa, com o híbrido de coelho negro acenando com a cabeça e os outros gargalhando e lhe empurrando os ombros soltando provocações.

O Jeon não prestou atenção àquilo, pois seus olhos estavam fixos em seu príncipe.

— Olha tio ursinho, seu namorado está vindo!

Nora gritou erguendo os bracinhos, rindo de forma sapeca junto dos outros filhotes.

— E-Eu sou um urso muito mau e vou pegar todos vocês! — Tae gritou deixando seu tom de voz grave e rouco, imitando um rosnado feroz assustando as crianças, essas saíram em disparada soltando gritinhos e gargalhadas.

Rindo sem jeito, o acastanhado esperou seu anjo se aproximar, tentando regular a respiração entrecortada pela brincadeira enérgica de minutos atrás.

— Oi, meu pequeno!

Chamou quando ele apenas parou em sua frente e permaneceu olhando-o diretamente nos olhos.

— O-Oi, hyung! — Jeongguk chacoalhou a cabeça tentando desviar sua atenção dos poucos fios castanhos que escaparam da fita, estavam úmidos de suor grudando na pele dourada ajudando a deixá-la ainda mais brilhante. A camisa social colada no corpo esbelto também lhe chamou a atenção e em reflexo, seu corpo todo esquentou.

Seu príncipe era lindo.

Apesar de terem declarado um pouco do que sentiam, os jovens apaixonados ainda estavam envergonhados e sem saber como agir um com o outro. O pequeno coelho decidiu dar o primeiro passo depois de alguns segundos, erguendo o rosto para selar a bochecha bronzeada, porém, a proximidade e o calor do momento fez seus lábios encostarem no cantinho da boca do mais velho.

O tempo - bem como os corpos deles - pareceu congelar, Tae engasgando com a própria saliva e Ggukie encabulado com a maciez e temperatura daquela parte em seu príncipe que tanto desejava.

Quando se afastou e voltou a olhá-lo nos olhos, sentiu o coelho dentro de si saltitando eufórico e seu lado humano abrindo espaço para a curiosidade de trocar um beijo.

Um beijo de verdade. Porque havia sentimentos reais ali.

— Você dormiu bem? — Apesar de não embolar a língua, o empresário atropelou seus próprios pensamentos. Em seguida, apoiou as mãos nos cabelos, bagunçando-os. — Digo! V-você está bem?

— Estou, hyung! — Uma risada fraca escapou dos lábios vermelhinhos. Jeongguk ainda olhava para a boca dele de minuto em minuto. — E você?

— Melhor impossível! — Um breve silêncio se instalou entre ambos e o acastanhado aproveitou a brecha para mudar de assunto. — Cheguei mais cedo do que o previsto, não quis atrapalhar você e resolvi esperar aqui, então Nora e Sunbae me encontraram e começamos a brincar, depois de pouco tempo eu não soube mais quantos filhotes tinham ao meu redor, brincamos de correr e pegar e de sermos guerreiros.

O moreno continuou em silêncio, apenas ouvindo e assistindo seus olhos brilharem junto do sorriso quadrado em seu rosto. Taehyung era um homem bonito, fazia com que faltasse ar em Jeon, somente por ele ser quem era, sem receios, sem medos. Tinha o espírito de uma eterna criança.

— Ggukie? — Chacoalhou a cabeça ao ser puxado da bolha a qual estava flutuando em pensamentos. — O que foi?

O garoto coelho não soube responder na hora, encontrou seus olhares e compartilhou das bochechas coradas com o mais velho.

— Seu presente melhorou meu dia, príncipe, eu amei!

— Fico muito feliz, meu anjo!

Quando os filhotes retornaram ao seu encontro, animados para uma nova rodada de brincadeiras no momento que tinham também seu tio Ggukie, voltaram de orelhas baixas e alguns rabinhos entre as pernas em direção ao enorme prédio que formava suas casas. O tio ursinho havia dito que não podiam mais brincar porque o tio Ggukie precisava descansar.

Os apaixonados não se aguentaram e riram compadecidos enquanto andavam de mãos dadas para o estacionamento.

O percurso até a propriedade Kim foi silencioso e harmônico, ambos estavam cansados e preferiram aproveitar apenas a presença um do outro. De um lado, a cabeça do garoto coelho estava cheia de nozinhos dormentes, do outro, o empresário conferia seu sono em cada semáforo da avenida.

Tae se lembrava perfeitamente da expressão agoniada e o corpo trêmulo do anjo quando ele precisava entrar em um carro há tempos atrás, no momento, já conseguia até mesmo cochilar e isso o alegrava imensamente.

Pela temperatura elevada da estação, ligou o ar condicionado deixando circular o vento suave e fresquinho, as músicas românticas tocando no rádio ajudando a compor um ambiente relaxante sobre as rodas.

Descer do carro e ir para o segundo andar se banhar foi uma tarefa complicada para o híbrido, que optaria por ficar dormindo pelo resto da noite no próprio banco de couro nobre. Seu corpo estava dolorido e havia acabado de encontrar uma posição confortável encolhido e virado de lado, defronte para a janela onde podia sentir pontos de luz das ruas em suas pálpebras fechadas. Sempre procurando segurança.

Porém, com um jeitinho especial, o Kim convenceu-o, ditando os benefícios que ele teria ao se sentar à mesa para desfrutar do jantar que noona havia feito especialmente para eles, dividindo o que gostavam e principalmente separando a salada feita com cenouras frescas de sua hortinha, enquanto, estavam limpos e prontos para descansar. Os olhos negros se abriram no mesmo segundo, arrancando risadinhas do maior.

Os garotos não demoraram nas pequenas tarefas de autocuidado, pois o cansaço dos dias normais pareceu maior do que toda a ação com as ongs de resgate e protesto. Isso noona e Tae poderiam confirmar com os sorrisos bobos e compadecidos em direção ao garoto coelho, que comia lentamente com os olhos inchados de sono.

Ao final da noite, quando puderam finalmente se deitar, as palavras foram faltando no acastanhado enquanto sentia os braços branquelos contornando seu tronco. Olhou para baixo e suspirou, não havia mais nenhuma marca, nenhum ponto arroxeado, apenas a pele branquinha colorida de pintinhas minúsculas. Jeongguk também estava mais forte, os ombros largos e com os braços engrandecidos de massa muscular. Tae concluiu que ele ficava mais bonito a cada dia.

— Hyung? — A voz baixa tirou o empresário de seu devaneio.

— Sim, pequeno?

— Posso chamar a Hyubi noona para vir me ver? — O tom magoado bombardeou o coração do mais velho.

— Claro que pode, meu anjo, — Se virou ficando de frente com seu amor, analisando a expressão apagada com pesar. — Aconteceu alguma coisa que você queira compartilhar?

Jeongguk sentiu sua garganta trancada, como a gaiola de um passarinho.

— E-Eu e o Junseo-ssi estamos cuidando de um híbrido especial… ele carrega um filhote, mas não é como os outros híbridos, ele não o quer, porque é fruto de um… — Sua fala foi se tornando fraca até silenciar completamente outra vez. Tae podia sentir as mãos gélidas apertando o tecido de sua camisa com uma força maior. — Eu consigo me colocar no lugar dele perfeitamente — Continuou o moreno depois de um breve suspiro. — e mesmo na ong, ele não tem o direito de dizer não, de dizer o que é melhor para ele próprio.

— Me desculpa por não ser capaz de imaginar o que ele deve estar sentindo agora, Ggukie. Mas eu sei como você está se sentindo em relação a tudo isso, acontece com os híbridos como acontece com muitas mulheres humanas e é tão agonizante que eu sempre desejei que fosse mais fácil de resolver, com uma simples assinatura em um pedaço de papel impresso e com as vítimas sendo ouvidas e respeitadas. — Taehyung o apertou contra seu peitoral ao ouvir uma fungada baixa. — Fique calmo, pequeno, não sei como, mas nós vamos dar um jeito de enfrentar isso com ele.

O Kim não queria encher seu amor de informações sobre todas as coisas que aconteceram depois do Diretor Am ter sido detido, mas por ter forçado os híbridos a procriarem, uma lei, que estava sendo analisada em um processo lento demais para suportar ficar esperando, ganhou preferência dentro dos tribunais. Uma lei a qual o híbrido que havia se apegado a ajuda de Jeongguk, poderia ser o primeiro a usá-la.

Porém, enquanto pensava no momento certo de contar a ele, não se incomodou em realizar inúmeros carinhos pelas costas e cabelos do belo garoto, protegendo-o do quarto escuro em que estavam até senti-lo cair no sono agarradinho em si, como se tivesse medo de que algo pudesse separá-los durante a noite.

O Jeon não tinha mais medo, apesar de absorver a dor de seus semelhantes - o que há pouco tempo atrás também sentia -, ele encararia os desafios da nova fase que se iniciava em sua vida e Taehyung também sabia disso. Só desejavam ter todo o tempo que pudessem para isso.

───────•••───────

Notas Finais

E então, o que acharam????

Eu quis mostrar como cada casal é entre si quando estão a sós ou descansando hihi

As coisas na ong estão se ajeitando aos poucos, fiquem calmos! Essa parte me trouxe um bloqueio enorme por causa da situação que eu apresentei, mas espero ter usado os termos certos e entregue da forma como eu sempre fiz. Fiquem tranquilos que pode dar tudo certo!

Agora veio e ainda vai vir mais ainda aí, o nosso taekook eeeeeeh

O que acham que vai rolar agora???
Eu espero que tenham gostado e me perdoem os erros!

Tenho montado coisinhas da fanfic que posto no tt de vez em quando, então se quiserem, me sigam lá! É @MissMinie_

No Instagram também @_missminie_
Não se esqueçam da #coelhinhotk vou amar interagir com vocês!

Até a próxima atualização coelhinhos, se cuidem! 💜💜💜

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