Conclusões precipitadas e de volta a realidade.


Jimin tinha noites maldormidas com uma frequência maior do que a esperada por uma estudante universitária, fosse por realmente precisar estudar para uma prova — algo que ela não fazia muito — ou por madrugar jogando algum de seus jogos online e não ter muito tempo para dormir. Porém, definitivamente, nenhuma daquelas noites ruins se comparava com a que tinha passado hoje.

Lembrava-sede ter acordado, no mínimo, quatro vezes, sendo apenas uma delas para beber água. Desde o que aconteceu no dia anterior, não cruzou com Minjeong por nenhum metro quadrado daquela casa, que era grande, mas não o suficiente para alguém evaporar ali dentro. Constatou então que a garota estava a evitando.

Havia dormido com Giselle, segundo ela, a namorada quis dormir com Minjeong. Ao menos era melhor do que o sofá. Quando levantou para beber água acabou dando um tempo na cozinha na esperança de encontrar a loira por ali, mas aquilo não aconteceu.

Então ali estava ela, às seis da manhã, com grandes olheiras e uma cara de poucos amigos, encostada na grande árvore na frente da casa com a enorme mala ao seu lado. Por ser tão cedo, fazia frio e um pouco de neblina também era presente. Com as mãos enfiadas dentro do bolso do grosso casaco para amenizar o frio na ponta dos dedos, ela aguardava as outras saírem, mais precisamente uma pessoa.

Giselle logo saiu, não carregava malas, pois sequer tirou do carro quando voltou, aguardou a namorada sair também e fechou a porta. Minjeong apareceu logo atrás, vestindo um moletom duas vezes maior que seu número. A loira também não tinha dormido muito bem e a julgar por suas olheiras, não estava tão diferente da outra. Minjeong desceu os degraus atrás de Giselle e evitava olhar para frente.

Ela sabia quem estava ali.

Jimin precisou arrumar a postura, por um momento sentiu um incomodo em sua garganta.

— Jeongie... — Tentou chamar, em um tom que saiu mais baixo do que ela havia planejado, mas foi ignorada.

Minjeong passou por ela como se não tivesse escutado, não quis conversar antes e ainda preferia ficar sozinha.

Jimin não se surpreendeu, mas embora já esperasse isso, não conseguiu não se sentir triste. Todavia, se a indiferença da loira não havia a deixado surpresa, vê-la caminhar em direção ao carro de Giselle a deixou.

— Você vem comigo. — Ningning avisou atrás dela.

Jimin suspirou pesadamente.

Não esperava retornar no mesmo carro que a ruiva, afinal, aquilo com certeza significava que elas conversariam sobre aquilo o caminho inteiro. Um pouco — talvez muito — a contragosto, a morena guardou a mala no banco de trás do carro, optou por não colocar no porta-malas.

Enquanto observava Ningning procurar as chaves do carro na mochila, virou-se e viu Giselle fechando o porta-malas de seu carro onde tinha guardado a mala da loira, também observou que Minjeong já estava no banco do carona e olhava de forma fixa para frente. Jimin buscou o olhar da melhor amiga e logo o encontrou, a japonesa sorriu sem graça e negou com a cabeça entendendo o questionamento silencioso.

Giselle não teve escolha.

Jimin assentiu lentamente e bufou, aquela situação tinha apenas começado e já estava se tornando insuportável. Entrou no banco do carona e fechou a porta frustrada, a vontade era de batê-la, mas sabia o quanto Ningning odiava aquilo e preferiu evitar mais um estresse.

A ruiva também entrou no carro logo em seguida e ambas colocaram o cinto, a morena não sabia explicar a sensação que sentia, mas ao ouvir o barulho do motor do carro dando partida teve a certeza que sentiria falta daquele lugar.

— Esqueceu de algo? — Ningning perguntou.

— Não. — Ao menos não que ela lembrasse.

Não demorou mais do que um minuto para pegarem o caminho de volta e por mais estranho que aquilo pudesse parecer, talvez ainda quisesse ter ficado um pouco mais. Ou provavelmente tudo aquilo que estava sentindo fosse apenas desapontamento por não ir embora da forma que gostaria.

Perguntava-se onde tinha errado e por que era tão difícil lidar com os próprios sentimentos.

Jogou o capuz por cima da cabeça e afundou-se no banco de couro, cruzando os braços. Encarando o espelho retrovisor pode ver a grande casa ficar cada vez mais distante e os pneus levantarem poeira, queria dormir e acordar apenas quando chegasse, mas sabia que não conseguiria.

Ningning estava estranha, definitivamente, ela constatou. Em uma situação comum a ruiva estaria puxando todo tipo se assunto, falando até sobre coisas que não a interessavam, mas ali estava ali, calada e quieta. Jimin não era burra, sabia muito bem o porquê, mas esperava qualquer coisa menos um silêncio desconfortável.

Não entendia o porquê de ir naquele carro quando a outra não falava nada, sequer uma palavra. Passaram-se dez, quinze e vinte minutos desde que haviam saído de lá, ainda estavam em uma estrada de terra com árvores as cercando por todos os lados e nenhum sinal de alguma conversa iniciaria. Viu a ruiva remexer-se no banco algumas vezes e tamborilar ao dedos no volante, parecia inquieta.

Em um certo momento, e para o seu alívio, Ningning ligou o som, deixando tocar a primeira playlist que viu pela frente. Aquela playlist, a mesma da viagem para Moonlight.

Se Giselle realmente estivesse certa sobre acasos e não acreditar em destino, por que diabos sentia como se tudo, absolutamente tudo remetesse a ela?

Não aguentaria aquilo a viagem inteira, então logo tocou o display para mudar de playlist. O ato não passou despercebido pela ruiva, que nada disse, apenas a olhou de soslaio. Jimin conseguiu sentir o olhar sobre si, fingiu não se incomodar e focou na paisagem bucólica que passava rapidamente através da janela.

Depois de tantas árvores altas cercando a estrada, montanhas agora dominavam a paisagem ao fundo, a morena não lembrava bem de tê-las visto na viagem de ida, mas agora confessava que era uma das cenas mais bonitas que já presenciou.

Sua mente divagou um pouco, mas logo retornou ao ponto que não a deixava em paz. Kim Minjeong. Sentia-se exausta, observando a paisagem e tentando tirar os mesmos pensamento de sua mente, acabou dormindo ali mesmo de forma um pouco desconfortável, mas o sono falou mais alto.

Ningning demorou alguns minutos para notar, o silêncio entre as desde que saíram da casa de campo era tão grande que sequer percebeu em que momento a outra havia dormido. A ruiva suspirou e desligou a música, mantendo o olhar firme na estrada — agora não mais de terra — enquanto sua cabeça estava buscando formas e mais formas de lidar com aquilo. Ela não queria ter deixado o clima ruim dentro do carro, mas seu lado protetor com a melhor amiga a fazia sentir um pouco de raiva de Jimin, embora admitisse que tinha culpa também.

Depois de duas horas de viagem e um pouco de trânsito, finalmente estavam chegando. Em certo momento a morena acordou com as notificações do celular e decidiu ficar acordada a partir dali. O aparelho tinha notificações de mensagens do grupo da sua turma na faculdade e inúmeros alertas de aplicativos, apenas ali notou que sequer tinha sentido falta do celular durante todos os dias que passou na casa de campo. Duas semanas sem sinal e completamente e completamente alheia a internet, poderia ter usado o aparelho para tirar algumas fotos ou gravar vídeos, mas nunca foi muito fã disso.

Ningning respirou fundo ao parar em um semáforo e olhou Jimin de soslaio, ainda focada no aparelho se atualizando de tudo que havia perdido. A ruiva abriu e fechou a boca algumas vezes em um intervalo de poucos segundos, queria falar algo, mas não sabia como começar. Apenas quando chegaram em frente ao prédio da morena, a primeira frase foi dita.

— Obrigada pela carona. — Jimin disse sem a olhar, já sem o cinto de segurança, fez menção de sair.

— Jimin. — Ningning a impediu. A morena a encarou esperando que ela prosseguisse. — Por que?

Jimin pareceu confusa.

— Por que o quê? — A morena rebateu a pergunta, a mão segurava firme a maçaneta interna do carro. Jimin não estava com muita paciência no momento, a viagem tinha sido longa.

— Por que fez isso com ela? — A pergunta da ruiva saiu carregada de mágoa.

A morena suspirou pesadamente e bufou.

Ela não aguentava mais ser tratada daquela forma, Minjeong sequer a dava ouvidos e agora Ningning a tratava como se ela fosse uma ameaça.

— Se você realmente quisesse saber teria conversado comigo e não tirado suas próprias conclusões. — Rebateu impaciente. — Você não trocou uma palavra comigo durante toda a viagem e sequer me olhou... achei que fosse minha amiga também.

Dito isso a morena saiu do carro e abriu a porta do banco de trás para pegar a mala, batendo a porta em seguida. Ningning apenas observou a morena distanciar-se e entrar no prédio que morava, apertou os olhos e relaxou os ombros.

“Achei que fosse minha amiga também.” Era a única frase que ecoava em sua mente.

Dentro do prédio, Jimin se surpreendeu ao ver o elevador funcionando e agradeceu por não ter que subir seis andares de escada com a mala pesada, bastava ter tido uma viagem de volta ruim e ter discutido com a sua amiga, tudo aquilo acumulando um estresse dentro de si mesma. O elevador estar funcionando era o mínimo de conforto que ela poderia ter no momento.

Quando entrou em seu apartamento, pode sentir o cheiro do próprio lar novamente, era reconfortante, sentiu falta da sua sala de estar, do seu quarto, do seu computador e principalmente da sua cama. Em seu celular tinha uma mensagem de seu pai, perguntando se ela havia chegado. O fato de não morar mais com seus pais fazia com que eles sempre andassem preocupados.

Mais tarde naquele mesmo dia, enquanto desfazia as malas, a morena viu uma polaroid cair de dentro de uma das suas roupas. A foto em que dormia ao lado da loira, tirada no dia que passou a noite na casa das vizinhas. Um sorriso tristonho foi desenhando em seus lábios, lembrando-se perfeitamente de como tinha sido uma noite perfeita de sono.

Jimin estava de volta a sua realidade, mas para a sua infelicidade, ela já não a agradava mais tanto quanto antes. E ela sabia exatamente o porquê.

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