Começo e fim.
O campus estava muito movimentado, o primeiro dia de aula trouxe consigo toda a rotina corrida de cada um daqueles estudantes, andando de um lado a outro, uns com mais pressas que outros, mas todos em busca dos novos horários, novas salas e com a esperança de um semestre mais tranquilo que o anterior.
No grande refeitório, o burburinho era ouvido, conversas de um lado e de outro, pessoas colocando os assuntos e fofocas em dia depois de um longo mês de descanso.
Jimin estava sentada em uma das mesas, a que costumava sentar sempre com as amigas, mantinha o olhar no celular em sua mão e acabou rindo ao ler uma mensagem de minutos atrás.
— Do que está rindo? — Ouviu o tom curioso na voz da loira ao seu lado.
Minjeong tinha as pernas sobre o colo da morena e brincava com os dedos da mão da mesma, entrelaçando-os e fazendo um leve carinho.
— Ningning. — Jimin virou a tela do celular para que ela pudesse ver. A mensagem da ruiva estava aberta no aplicativo de bate-papo.
Minjeong riu baixo e revirou os olhos.
— Ela sempre manda tantos emojis. — A loira comentou. Era um fato, Ning Yizhuo era a rainha dos emojis, ainda mais quando estava brava.
Jimin havia pedido para a amiga pegar a mochila em seu apartamento, afinal, ela estava com a chave. Um ato corajoso para alguém que havia sumido desde o dia anterior e não deu notícia alguma, sabia como a ruiva ficava possessa. Recebeu um xingamento e vários emojis de carinha brava, mas sabia que aquilo significava: estou muito irritada, mas vou fazer o que me pediu.
— Ainda ignorando as mensagens dela? — A morena perguntou, deixando o aparelho de lado um pouco.
Minjeong assentiu.
— Ela vai querer me matar quando chegar. — O riso no tom de voz disfarçava o pequeno medo que sentia, a melhor amiga poderia ser muito assustadora quando estava brava.
Jimin e ela tiraram o dia para irritar a ruivinha.
— Nos matar, você quis dizer. — A morena deixou claro. — Ao menos ela aceitou pegar a minha mochila. — Deu de ombros.
Minjeong levou a outra mão para a nuca da morena e fez um carinho no local.
— Você realmente não se preparou para o primeiro dia de aula. — A loira comentou baixo.
— Estava mais ocupada me preocupando em me resolver com uma certa pessoa... — Os olhos da morena brilhavam em sua direção, a garota a sua frente agora era a sua namorada e por mais que tenha achado que nunca usaria aquele termo para ela, combinava perfeitamente.
Minjeong sorriu abertamente, aproximou o rosto da outra e capturou os lábios em um selinho demorado. O seu olhar caiu para as roupas que a morena usava e um sorriso ainda mais largo que o anterior foi desenhado.
— Sabe... — Deu mais um selinho. — Posso me acostumar em te ver usando as minhas roupas.
Naquela manhã quando acordaram, a loira checou se as roupas da outra haviam secado, mas infelizmente — ou felizmente — ainda estavam úmidas, por sorte elas vestiam números parecidos, então a morena estava completamente vestida de Kim Minjeong.
— Por falar nisso, como vou pegar as que deixei na sua casa? — A morena perguntou.
— Quando estiverem completamente secas eu te devolvo, não precisa se preocupar. — Disse simples.
Jimin pareceu ponderar por breves segundos. Minjeong notou que algo a incomodava desde que haviam acordado.
— Tem certeza que a sua mãe não vai se importar? — A morena indagou incerta.
— Com o que exatamente? Você parece nervosa. — Minjeong queria entender. O seu polegar fazia um leve carinho no rosto da namorada.
— Me sinto uma folgada aparecendo ontem na sua casa, dando trabalho, dormindo sem avisar... — Jimin admitiu em voz alta e repuxou os lábios em um sorriso sem graça.
Boba. Minjeong pensou.
Na verdade, passou por sua mente que aquele poderia ser o motivo.
— Ei. — Chamou-a carinhosamente. — Meus pais são tranquilos, não são caretas, eles não se importam com isso. — Tentou tranquilizar.
Jimin havia frequentado a casa da loira poucas vezes, mas o suficiente para conhecer seus pais, sabia que de fato, não era do tipo assustadores, mas nunca esteve no papel que estava agora.
— E sobre a gente?
— Bom... eles não fazem o tipo tradicional se é isso que quer saber. — Minjeong quis deixar claro que não precisaria de toda a formalidade que possivelmente assustava a mente da morena.
— Nem o seu pai? — A loira negou.
— Ele vive viajando a trabalho, não liga muito para isso. — Havia voltado de viagem e sequer viu seu pai ainda, sempre viajando de um lado a outro, mas ligava todas as noites. — Você não precisa pensar nisso demais.
— É que nunca fiz isso antes, não assim. — Minjeong entendia o que a outra queria dizer.
— Como namorada? — A palavra em questão saía como doce da boca da loira.
— Sim... — Jimin respondeu admitindo sua pequena e passageira insegurança.
A loira achava aquilo fofo, toda a preocupação da outra em não incomodar e sobre seus pais gostarem dela ou não.
— Eles são tranquilos, não precisa criar paranoias na sua mente. — Minjeong beijou novamente os lábios da morena. Viu um sorriso leve desenhá-los e se sorriu também. — Mas e os seus?
Minjeong nunca havia conhecido os pais de Jimin, lembrava-se de já ter ido ao apartamento dela uma ou duas vezes porque era obrigada pela melhor amiga.
A morena morava sozinha desde que começou a faculdade, seu apartamento foi um presente de seus pais por ter passado no curso que queria, os visitava apenas em datas comemorativas ou em feriados prolongados, mas seus pais vez ou outra a visitavam.
— Vão dar uma festa quando descobrirem. — Jimin riu baixo. Conhecendo bem seus pais, adotariam a loira e esqueceriam completamente da existência da própria filha.
Minjeong acabou rindo também.
— Isso parece surreal. — Ela sussurrou.
— Eu sei. — Parecia surreal para a morena também. Saiu do apartamento no dia anterior pouco esperançosa e agora estava ali.
— Tanta coisa mudou em tão pouco tempo.
— Estamos bem agora, isso que importa. — Jimin assegurou e capturou os lábios da loira em um outro beijo.
Não se sentiam envergonhadas em demonstrar carinho em público, com tantas pessoas e com o burburinho das conversas cercando o lugar.
— Acho que vou pegar um milkshake, você quer? — Minjeong avisou depois de ficar ali um tempo. Haviam chegado bem cedo, tinham tempo de sobra. Viu a morena assentir em confirmação. — Do que?
— Do que você quiser. — Jimin sorriu.
— Volto logo. — A loira deu um breve selinho nos lábios da outra e logo levantou rumo a sorveteria que tinha por ali.
Jimin tinha um sorriso natural desenhado nos lábios, sentia-se leve pela primeira vez em algum tempo.
Seu sorriso ficou ainda maior quando pôde avistar as duas figuras que esperava adentrando o refeitório. De longe, podia ver a ruiva gesticular bastante e pela cara da outra pareciam estar discutindo. Ningning e Giselle aproximaram-se da mesa e logo a morena conseguiu constatar que de fato estava certa.
— Discutindo a essa hora da manhã? — Jimin perguntou em meio ao riso. Nunca levava a sério as briguinhas daquele casal.
Ningning ignorou completamente a pergunta e colocou a mochila da outra sobre a mesa, sentando-se em seguida.
— Ela cismou com uma conversa que achou no meu celular. — Giselle revirou os olhos.
— Não é qualquer conversa! — A ruiva explicou-se. Não era do tipo ciumenta, apenas quando precisava ser. — Ela estava falando com a ex-namorada.
— A Chaewon? — Jimin perguntou confusa.
Giselle apenas assentiu, achava a namorada fofa com ciúme, mas não aguentava mais aquele assunto.
— Eu não estava falando somente com ela, as meninas criaram um grupo. Não nós falávamos mais quanto antes, então resolvemos nos reaproximar. — Certo, fazia sentido. Jimin pensou.
— Quem 'tá nesse grupo? — Ela perguntou curiosa.
Jimin sabia que quanto mais enrolasse naquele assunto, menos ouviria sobre ter sumido completamente.
— Lia, Rosé, Yeojin e... — Giselle foi interrompida pela namorada.
— A bendita. — Foi tudo o que a ruiva disse.
— Eu também cresci com ela, Ning. — Ningning ouviu a namorada se explicar.
A ruiva entendia, mas não conseguia não se sentir incomodada. Demoraria um pouco, mas sabia que em algum momento iria se acostumar.
— Já sinto algo na minha cabeça. — A ruiva fez um drama.
— O nome disso é paranoia. — Giselle acabou rindo baixo. As vezes não conseguia levar a outra a sério.
— Ou... — Jimin complementou zoando a amiga.
— Não ouse terminar a frase. — Ningning ameaçou fazendo ela levantar os braços nem rendição. — Onde esteve? Ainda me fez passar no seu apartamento 'pra pegar isso, não tem vergonha? — A ruiva perguntou apontando para a mochila sobre a mesa.
— Eu pedi porque sei que me ama. — A morena respondeu de forma sapeca.
— Não respondeu a minha pergunta.
De boba a ruiva não tinha nada.
— Eu estive na... — Iria contar, mas foi surpreendida com o tom de voz agudo de Ningning.
— Espera ai! — A ruiva encarou a garota a sua frente completamente surpresa. — O que 'tá fazendo com o moletom que eu dei a Minjeong?
Touché.
Jimin segurou o sorriso ladino que queria desenhar os próprios lábios.
Como um timing perfeito, o momento acabou sendo interrompido pela loira que voltava com ambos os milkshakes em mãos.
— Aqui está. — Entregou para a morena sob o olhar atento e surpreso das outras duas. — Sobre o que conversavam? — Minjeong perguntou sentando-se ao lado da namorada e dando um breve selinho na mesma. A loira, assim como a morena ao seu lado, prendia o riso.
Um, dois, três segundos.
Um largo sorriso foi se abrindo nos lábios da ruiva a frente delas, seu cérebro finalmente juntando todas as peças depois do choque.
— Vocês se resolveram! — A ruiva levantou de supetão e inclinou-se sobre a mesa, puxando ambas as amigas em um abraço fazendo-as quase derramar a bebida.
— Ning! — Minjeong reclamou pelo aperto repentino.
— Isso dói... — Jimin choramingou sentindo o aperto. Desde quando a ruiva havia ficado tão forte?
— Contem tudo, estou esperando! — A ruiva estava eufórica e falava tudo muito rápido.
Ambas precisaram contar, ocultando certos detalhes, sobre como se resolveram. Ningning sentia-se a pessoa mais feliz do mundo, quando criou o plano e viu a confusão que deu, conheceu o sentimento de culpa, mas vendo que no final tudo tinha dado certo, não conseguia demonstrar outro sentimento além de felicidade.
— Então você dormiu na casa dela? — Giselle perguntou, tão envolvida na história quanto a namorada.
Jimin assentiu um pouco envergonhada.
Minjeong sentiu o olhar da melhor amiga queimar a sua pele, a ruiva a encarava um pouco desconfiada, os olhos dela pareciam vasculhar ela inteira.
— O que está olhando? — A loira perguntou constrangida. Com toda certeza do mundo estava parecendo um tomate de tão vermelha.
— Nada. — Ningning respondeu com um sorriso na voz.
— Vou precisar de um tempo para acostumar. — Giselle comentou alheia demais ao que acontecia na mesa. Estava tão feliz quanto a namorada, mas ainda era estranho ver aquelas duas daquele jeito.
— Eu consigo me acostumar rápido. — A ruiva disse. Sempre se considerou madrinha daquele casal antes inexistente, mas que agora existia.
Jimin e Minjeong trocaram olhares cúmplices e sorriram um pouco sem graça, suas mãos entrelaçadas por baixo da mesa.
— Agora que tudo ocorreu bem, acham que seria uma boa viajarmos no natal? — Giselle expôs a ideia que vinha tendo desde que voltou.
— Para onde? — Jimin perguntou curiosa. Estava louca para mudar de assunto.
Suas amigas constrangiam como ninguém.
— A casa de campo. — A outra respondeu. Tinha conversado sobre aquela possibilidade com as amigas de infância. — Poderíamos ficar lá, nós quatro dessa vez. — Frisou.
— Por mim tudo bem, já sinto falta daquele lugar. — Minjeong comentou concordando.
— Por mim também. — Era óbvio que a morena aceitaria a sugestão.
Um pequeno silêncio se instalou, elas esperavam a resposta da ruiva.
— Eu vou precisar pensar sobre isso. — Ningning fingiu birra por um momento.
— Ning...
Giselle chamou-a usando de um tom manhoso que quase fez as outras duas vomitarem ali na mesa, mas a morena sabia que a ruiva gostava daquilo.
— Estou brincando, eu topo. — Como imaginou. — Mas ainda estou de olho em você. — Ningning avisou.
— Pode ficar, quero que tenha olhos somente para mim mesmo. — Giselle respondeu abraçando a namorada de lado e fazendo-a rir um pouco.
— Promete que não vamos ficar assim? — Minjeong sussurrou para Jimin.
A morena acabou rindo. Não parecia tão ruim assim.
— Eu não prometo nada.
Naquela mesma mesa em um refeitório cheio, onde o plano havia começado, ele teve um fim. Mas as duas garotas que protagonizaram cada um daqueles momentos, sabiam que não havia sido obra de um simples plano arquitetado.
Porque alguns acasos não eram simples coincidências e o delas era um acaso prometido.
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