Abandonadas e cheias de fome.
Minjeong talvez devesse se lembrar de nunca mais decidir deixar as cortinas abertas antes de dormir. Acordar com a forte luz incomodando seus olhos não era nada agradável e ela estava constatando isso naquele exato momento.
A verdade é que ela não as deixou abertas porque quis, e sim porque acabou esquecendo por puro descuido da sua parte ao ficar durante um bom tempo sentada na janela — estilo bay window — para observar melhor o lago durante a madrugada.
A loira gostava de fazer isso.
Observar as coisas e pensar sobre a vida tarde da noite e, durante a madrugada que havia passado, não tinha sido diferente. Ela ainda procurava digerir o que estava acontecendo e pensava no quanto tinha sido tola por deixar Ningning a enganar.
Agora ela estava destinada a suportar alguém que detestava por pura loucura das suas amigas.
Minjeong suspirou depois de muito relutar contra ter que se levantar, mas acabou cedendo no fim das contas. Depois de passar alguns minutos dentro do banheiro, ela decidiu averiguar a situação da casa, que naquele momento estava em um esquisito silêncio.
Uma casa com Giselle e Ningning juntas nunca ficava em silêncio.
— Ning? — Minjeong chamou assim que pôs o pé no corredor, mas não obteve nada como resposta. Estranho.
Decidiu descer as escadas para o andar de baixo, logo tendo visão de Jimin dormindo encolhida no sofá. Minjeong fez uma careta e seguiu em direção ao quarto que a amiga dividia com a namorada, mas antes de entrar bateu algumas vezes na porta para não ter o azar de ver o que não queria, porém como também não obteve resposta, resolveu abrir, encontrando um quarto vazio e uma cama muito bem-arrumada.
Elas haviam acordado cedo?
A loira estava achando aquilo tudo muito estranho, mas optou por procurar pelo resto da casa, muito provavelmente Giselle havia levado Ningning para conhecer o lago ou desbravar alguma trilha ali perto. Era a cara da japonesa acordar cedo para fazer isso. Minjeong abriu a porta que dava na sacada de frente para o lago e sentiu os raios solares esquentarem a sua pele naquela manhã agradável.
Precisava admitir que aquela casa a passava uma sensação boa.
Foi até o guarda-corpo de madeira e apoiou os braços ali inclinando a cabeça para cima e aproveitando o sol que tanto tinha a incomodado assim que acordara no quarto. O ruído da correnteza movimentando a água no lago cristalino era prazeroso e o canto de alguns pássaros fazia a loira imaginar que estava vivenciando a cena de algum dos seus filmes favoritos sobre princesas.
Havia uma casa na outra margem do lago, tão grande quanto a dos pais de Giselle. Mas se a casa que estava tinha um ar mais rústico, aquela era, sem dúvidas, mais moderna. As paredes em um tom impecavelmente branco e janelas enormes que possibilitavam ver alguns cômodos não negavam isso.
Alguém muito bom de grana deveria morar ali com certeza.
Depois de alguns minutos aproveitando o momento completamente alheia a qualquer preocupação, a loira resolveu entrar. Os pés descalços rumo a cozinha, ainda a procura da sua amiga que não havia dado um mínimo sinal de vida.
Passou pela morena deitada no grande sofá mais uma vez, Jimin tinha os fios negros sobre o rosto de um jeito bagunçado e uma das pernas quase encostando no chão. Minjeong segurou uma risada e seguiu seu caminho, parando de frente a bancada assim que observou um papel sobre a mesma.
Ela pegou sem muito se preocupar, mas ao ler as primeiras frases ali escritas, a loira quis mais do que nunca voltar no tempo e ter negado aquela maldita viagem e à medida que ia lendo aquele pedaço de papel ela tinha mais a certeza disso.
“Aqui é a Ningning.
Esquisito escrever carta hoje em dia, mas é que eu sei que aí não tem sinal para eu enviar uma mensagem e nesse momento em que você, seja a Minjeong ou a Jimin, estiver lendo isso, Giselle e eu estamos bem longe rumo a casa de praia dos meus avós.
Essa é a parte do plano que ocultamos de vocês.
Acordamos extremamente cedo hoje, vocês foram bobas de não notar que fomos as únicas que não desfizemos as malas. Gi achou que vocês tinham notado, mas eu sabia que estariam ocupadas demais se odiando do jeito que só vocês sabem fazer.
Por favor não levem isso como um castigo, levem isso como uma oportunidade. Uma oportunidade que resolvemos dar para que vocês se entendessem e parassem de infernizar nossos almoços na faculdade com as mesmas brigas de sempre.
E enquanto escrevo isso estou me segurando para não rir, juro que não faço por mal, mas eu sou uma excelente atriz, certo? Certo.
Quase me esqueci… estamos indo no carro da Gi, então meu carro ainda está aí, mas nem se animem. Nenhuma de vocês duas sabem dirigir.
Espero que nenhuma decida fugir a pé, a cidadezinha mais próxima fica a uma hora e meia de carro, imagina se decidirem ir andando…
É isso, nós amamos vocês!
Voltamos daqui a alguns dias.
PS: Não tentem se matar.”
Aquilo não podia ser real.
Minjeong estava vivendo o pior de seus pesadelos.
Agarrou o papel com força e foi até a sala a passos pesados e firmes. Não podia acreditar no que Ningning e Giselle haviam feito. Abandonar ela com uma maluca em um lugar que ela não conhece?
Aquilo havia passado dos limites definitivamente. E o pior é que ela não via saída. Malditas!
— Yoo Jimin! — Chamou pela morena ao parar em frente a mesma, mas Jimin parecia aproveitar de um sono bom demais para se desligar daquilo no momento. — Jimin! — Minjeong elevou o tom.
Jimin mexeu-se levemente apenas.
A loira pôde constatar que a mais alta tinha um sono pesado.
— Yoo! — Foi o último chamado antes da loira perder a paciência que já estava esgotada e empurrar a morena sofá a baixo fazendo com que ela batesse o corpo no piso de madeira sem aviso prévio.
— Porra… — Jimin resmungou sonolenta e sentindo uma dor no lado esquerdo da cintura. — Quem ousa me… — A morena estava prestes a xingar quando viu a loira em pé a sua frente. — Você não tem o que fazer, Kim?
— Cala a boca e lê isso. — Minjeong não estava com paciência para briguinhas e resolveu ser a mais direta que conseguiu.
Ainda muito sonolenta e sem entender nada do que estava acontecendo, Jimin sentou-se no sofá e encarou o papel estendido a sua frente. Pegou o objeto e encarou, por alguns segundos,
a loira sentar ao seu lado, para em seguida começar a ler o conteúdo.
A morena teve que ler e reler diversas vezes a carta, sua mente definitivamente não funcionava muito bem pela manhã, mas após alguns curtos minutos a morena passou a entender e compreender a gravidade daquela situação.
Ela tinha sido abandonada pela melhor amiga, em uma casa que nunca tinha pisado antes, em um lugar que não conhecia e com a pessoa que mais detestava na face da terra.
— Isso só pode ser brincadeira… — Foi tudo o que conseguiu dizer ainda encarando o papel. — Eu não acredito que aquelas duas sonsas tiveram a coragem e audácia de fazer isso comigo!
Jimin levantou impaciente esquecendo o sono e pegou o celular que estava sobre a mesinha para mandar mensagens para Giselle, mas assim que viu a antena de sinal extremamente baixa quis jogar o aparelho pela janela.
— Eu não posso estar presa aqui, sem sinal e ainda por cima com você…
Aquela discussão seguiu por pelo menos vinte minutos. Nenhuma das duas queria passar as férias presas na companhia uma da outra e definitivamente aquele estava sendo o pior de seus pesadelos.
Minjeong tinha planejado passar boa parte das férias na casa de sua avó que não via há alguns meses e Jimin não pretendia sair de seu quarto, mais precisamente da frente de seu computador até as aulas voltarem.
Mas ambas caíram no plano das amigas como dois patinhos inocentes e agora estavam destinadas a conviver, apenas elas duas, sob o mesmo teto durante pelo menos, duas semanas ou até mais se as outras duas decidissem as sacanear mais um pouco.
Após Jimin ler a carta, ambas entraram em uma pequena guerra sobre quem estava mais ferrada e o argumento sempre era sobre quem merecia menos passar por aquilo e mesmo que aquela discussão fosse completamente inútil e sem pé nem cabeça, pois não mudaria o fato de que nenhuma das duas sairia dali, elas não se importavam. Porque para Kim Minjeong e Yoo Jimin pouco importava se o motivo de uma briga valia a pena ou não, o que alimentava o ego das duas era apenas brigar entre si e não perdiam uma mínima oportunidade para isso.
E aquele foi o início da primeira manhã juntas de tantas que ainda passariam.
Uma primeira manhã cheia de muitas farpas trocadas, que terminou com uma morena irritada carregando suas coisas do sofá e levando para o quarto onde Ningning e Giselle haviam dormido.
Aquele seria o seu quarto por agora, muito melhor do que dormir no sofá que sim, era confortável… mas definitivamente não para dormir.
E assim a manhã seguiu.
Minjeong passou o resto daquele fatídico amanhecer sentada na sala enquanto assistia algum programa de culinária qualquer que fazia o seu estômago reclamar de fome. Ela não tinha comido nada desde o jantar da noite passada e nem ousava se aventurar na cozinha mais uma vez.
Depois de algum tempo a morena saiu do quarto que havia se trancado e passou pela sala ignorando completamente a existência da loira — que agora via uma animação da Disney na TV.
Criança…
Jimin apenas pensou.
Caminhou até a cozinha e decidiu fazer algumas torradas para aliviar a fome que estava sentindo antes do almoço, mas Jimin não imaginava que o cheiro da manteiga derretida sobre o pão dentro da torradeira fosse chamar a atenção da loira, ou melhor, fosse aumentar a fome da Kim.
Minjeong sabia que Jimin estava preparando algo para comer apenas pelo cheirinho de café da manhã, assim como o que a sua mãe fazia.
Ah como ela queria… Deveria pedir? Claro que não! Seu orgulho era muito maior do que isso.
Mas cheirava tão bem…
Depois de muito trocar de canal para se distrair, a loira resolveu ir até a cozinha ver o que a outra fazia e quem sabe, conseguir algo dando uma de sonsa, mas assim que pisou no cômodo recebeu um olhar da morena que dizia: nem ouse.
Mas óbvio que ela ousaria.
As torradas estavam tão quentinhas sendo colocadas no prato…
— Não olhe assim, eu não vou lhe dar! — Jimin não costumava negar comida quando alguém pedia, mas não era uma pessoa qualquer… Era Kim Minjeong.
Uma Minjeong morta de fome por sinal.
— Eu só quero um pedaço… — O orgulho da loira tinha ido pelo ralo.
— Vá matar a sua fome vendo algum programa culinário, não vou cozinhar para você. — Jimin manteve-se firme e deu as costas para pegar algo na geladeira.
Ela não ia cair na da loira.
Minjeong suspirou, viu o prato sobre o balcão, pensou em beliscar um pedacinho, mas não o fez, então apenas bufou dando as costas e seguindo para a sala.
Ela ainda pôde ouvir Jimin mexer em algumas outras coisas, mas dessa vez nem ousou olhar para aquela que tinha a negado a porcaria de uma simples torrada.
É... parece que ela teria que comer qualquer besteira depois.
Minjeong então se concentrou novamente no que estava passando na televisão e alguns minutos depois viu a morena sair da cozinha a passos pesados segurando o prato em uma mão e um copo de leite na outra.
Apenas por curiosidade a loira levantou para verificar se não tinha sobrado nada na cozinha e se surpreendeu ao ver um prato igual ao que a morena tinha carregado, sobre o balcão de mármore. Porém sem o leite.
Minjeong não gostava de leite de qualquer forma, então apenas sorriu vitoriosa.
Parece que alguém tinha caído na dela.
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