Sonhos e Entregas

A morena remexeu-se sob as cobertas de forma lenta enquanto seus olhos eram abertos com certa dificuldade por conta da suave claridade adentrando o cômodo. Chaeyoung soltou um suspiro preguiçoso, esticando cada músculo do corpo, sentindo-se leve naquela grande cama.

Ela estava sozinha em meio aos edredons.

O gostoso perfume levemente doce fez-se presente quando a morena tateou o lado em que a outra dormiu, fazendo-a lembrar do acontecimento da noite anterior e as borboletas em seu estômago despertarem, assim como ela naquela manhã.

Um sorriso bobo desenhou os lábios da morena, um misto de nervosismo combinado a algo que ela ainda não sabia definir, mas que a fazia sentir-se nas nuvens. Com os cabelos um pouco desgrenhados, a morena sentou-se na cama, finalmente abrindo completamente os olhos e encarando cada canto daquele quarto.

Nenhum sinal de Mina.

Ela provavelmente acordou mais cedo. Chaeyoung pensou.

Embora estivesse envergonhada, ela teria que encarar a loira hora ou outra, mas isso não a impedia de gastar o máximo de tempo possível por ali. Chaeyoung arrastou-se para fora da cama, sentindo o assoalho frio sob os pés descalços e caminhou de forma preguiçosa — quase arrastando-se — até o banheiro.

— E se ela voltar a me odiar? — Perguntou de forma baixa para si mesma após lavar o rosto com a água gelada.

Não se arrependia de ter beijado Mina, mas admitia que agiu por impulso e agora sentia-se insegura sobre como a outra reagiria.

Chaeyoung encarava a própria imagem no espelho, como se esperasse que seu reflexo realmente a respondesse com alguma frase motivadora ou conselho milagroso. O que não aconteceu, obviamente.

Alguns momentos da madrugada preencheram a mente da morena, fazendo-a vacilar na tentativa de tentar não focar naquilo por ao menos um minuto. Mas quando ela lembrava das sensações, era como se estivesse deitada novamente de frente para a loira. Lembrou do olhar castanho sobre o seu, pegando-a de surpresa e fazendo suas pernas fraquejarem — ela provavelmente cairia se não estivesse deitada. Suas bochechas esquentaram quando lembrou do quanto os lábios de Mina eram macios, mesmo que o beijo não tenha passado de um selar demorado, foi o suficiente para fazê-la ansiar por mais.

Ela iria enlouquecer.

Há duas semanas atrás acreditava com todos as forças que detestava a garota, há uma semana pareceu a ideia mais infernal de todas estar presa em uma casa de campo com a mesma e agora... Ela desejava que os dias se arrastassem lentamente.

Passou mais alguns minutos no banheiro, gastando tempo entre escovar os dentes e arrumar coragem para caminhar pela casa. O andar de cima encontrava-se em pleno silêncio, fazendo-a descer as escadas rumo ao andar inferior. Seus pés pareciam pisar em ovos, estava nervosa e andava de forma tão lenta que o assoalho da escada sequer rangia.

Na cozinha, Mina encarava a torradeira sobre o balcão como se aquele fosse o objeto mais inusitado que já pudera ver, perdida demais em seus pensamentos, como um gato observando um aquário com alguns peixinhos. As mãos apoiavam o queixo, enquanto a sua mente vagava por lembranças de um sonho que tivera na noite anterior e dominava seus pensamentos desde que acordou.

Um sonho.

O toque, a respiração, o gosto... As borboletas em seu estômago voaram ao lembrar-se de cada detalhe do que a sua mente criou. Escondeu o rosto entre as mãos quando sentiu o rubor em suas bochechas, uma linha fina desenhou seus lábios em um sorriso bobo. Sentia-se como a adolescente apaixonada do ensino médio.

— O que está fazendo? — Mina foi pega de surpresa pela voz de Chaeyoung atrás de si. Virou o corpo rapidamente para encará-la, encontrando a morena com os cabelos presos em um rabo de cavalo e ainda parecendo estar com um pouco de sono.

Fofa.

Por fora, a morena parecia estar normal. Por dentro, sentia como se estivessem soltando fogos de artifícios em sua barriga.

— Torradas. — A loira disse de forma simples. Sequer parecia que estava tendo um pequeno surto segundos antes.

— Você dormiu bem? — Chaeyoung indagou aproximando-se da cafeteira. Mina parecia tranquila.

Tranquila demais.

— Sim. — A loira virou-se novamente encarando a torradeira, não queria queimar suas torradas. — Mas tive um sonho esquisito. — Acabou deixando escapar.

— Sonho? — A morena ficou curiosa.

— Isso. — Mina limitou-se a dizer. Já havia falado demais, não queria correr o risco de acabar contando com o que sonhou.

Chaeyoung ponderou por alguns segundos, com a xícara de café em suas mãos ela encostou-se no balcão enquanto Mina estava de costas para si.

— Com o que? — Perguntou antes de dar um gole na bebida quente. Perguntava-se mentalmente o porquê da loira estar agindo como se nada tivesse acontecido.

— O que? — Mina disse de forma nervosa, olhando-a por cima dos ombros rapidamente. — Nada demais. — Ela deu um riso nervoso. — Isso apita quando fica pronto? — Perguntou referindo-se a torradeira, resolvendo mudar bruscamente o assunto.

Chaeyoung nada disse, encarando o líquido escuro em sua xícara. Sentia-se ainda mais nervosa do que quando havia saído do quarto, seus dedos magros seguravam firmemente a lateral do objeto como se o mesmo pudesse cair a qualquer mínimo movimento.

— Chaeyoung? — A loira a chamou estranhando o silêncio repentino. Mina tirou a atenção da torradeira novamente e virou-se para a morena.

— Oi? — Ela saiu de seus devaneios, encarando os olhos castanhos da outra com seu olhar um pouco perdido.

— Você parece estranha.

Chaeyoung apenas assentiu lentamente.

Sua mente buscava entender algum motivo para a loira a sua frente estar agindo normalmente daquela forma. Ela tinha planejado conversar, esclarecer alguns pontos e agora sentia-se perdida no que fazer ou dizer. Se havia sido ruim para a outra, esperava ao menos que a mesma dissesse e não agisse daquela forma, estava completamente frustrada e podia sentir um incomodo em seu âmago.

Um silêncio constrangedor instalou-se naquele cômodo, Mina procurava entender o porquê da morena estar daquela forma, enquanto Chaeyoung buscava não demonstrar demais o quanto aquela situação estava a incomodando.

Demorou cerca de um ou dois minutos para algo finalmente surgir na mente da mais baixa, a fazendo franzir o cenho com a possibilidade. Talvez o nervosismo acabou deixando-a lenta o suficiente para não perceber um ponto muito importante naquela manhã.

Ela acha que foi um sonho?

— O sonho foi... Bom? — A morena finalmente quebrou o silêncio, fazendo um certo esforço para não gaguejar.

Mina ruborizou por ser pega de surpresa com aquela pergunta estranha.

— S-Sim. — Se Chaeyoung conseguiu não gaguejar, a loira falhou completamente.

Ela realmente achou que foi um sonho. Chaeyoung constatou ao ver as bochechas da loira ficarem extremamente vermelhas.

Queria sorrir em alivio por perceber que não estava sendo completamente ignorada.

— Você gostou desse sonho? — Ela deu ênfase na última palavra, não sabendo de onde estava tirando coragem para fazer aquelas perguntas.

Mina apoiou as mãos sobre o balcão atrás de si, apertando de forma firme. Sentia-se extremamente nervosa, a morena estava agindo estranho e fazendo perguntas ainda mais esquisitas. A loira nunca foi rápida para captar certas coisas no ar, mas também não era tola.

Era o que ela estava pensando?

Seu olhar desviou do da outra, procurando por ali um outro ponto para focar, ignorando a pergunta da morena a sua frente.

Talvez fosse apenas bobagem da sua mente ainda afetada.

Chaeyoung suspirou, deixando a xícara sobre o balcão atrás de si, seus olhos buscavam os da loira que pareciam estar em fuga.

— Mina... — Iria iniciar algo, mas fora interrompida.

— Não foi um sonho, 'né? — A pergunta deixou de sufocar a garganta da loira. — Aquilo realmente aconteceu? — Mina tinha medo da resposta.

— E se tiver acontecido? O que você sentiu? — Elas conversavam de forma baixa, como se compartilhassem um segredo que qualquer um poderia ouvir.

A loira sentiu um calafrio em sua barriga, por um momento parecia não haver chão embaixo de seus pés e temia que a qualquer momento ela pudesse afundar ali mesmo.

— Chaeyoung, eu preciso... — Mina não sabia como reagir, o que fazer ou o que dizer. O beijo durante a madrugada tinha sido real e ela não entendia como e o porquê aquilo tinha acontecido.

Nervosa, ela faz menção em afastar-se, mas a morena a sua frente acabou dando alguns passos em sua direção, impedindo-a.

— O que sentiu quando eu te beijei? — Chaeyoung reuniu toda a sua coragem para fazer aquela pergunta. Estava ainda mais próxima de Mina e podia sentir o olhar da mais alta queimar o seu com tamanha ousadia.

— Por que fez aquilo? — A loira esperou por aquele momento por muito tempo, mas agora que tinha acontecido ela sequer entendia o porquê daquilo.

— Você não respondeu a minha pergunta, por que eu deveria responder a sua? — A morena parecia sempre ter uma resposta para tudo.

— Chaeyoung... — Mina suplica em nervosismo.

A morena suspira pesadamente ainda mantendo firme a troca de olhares.

— Eu estou nervosa, Mina. Não pense que foi fácil para mim, descer as escadas e encarar você agora, mas não quero que ache que aquilo não aconteceu. — Chaeyoung disse tudo de uma vez, como se aquilo estivesse a sufocando.

— Eu não entendo o porquê. — Aquilo poderia soar repetitivo, mas para a loira não era fácil simplesmente acreditar no fato de que havia beijado a garota que por tanto tempo foi apaixonada e que a semanas atrás parecia convencida a odiar.

— Certas coisas não possuem um porquê.

— Você ainda é como uma incógnita para mim. — Mina admite.

— Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, apenas pareceu certo e eu me deixei levar pelo momento. Não me arrependo, Mina. — Chaeyoung disse da forma mais sincera que conseguia, sentindo suas pernas quase bambas com aquela quase confissão.

Mina fica em um breve silêncio assimilando tudo aquilo, mas é tempo suficiente para fazer toda a confiança da outra sumir.

— Você parece ofendida, eu sinto muito se confundi tudo. — A morena sentiu um gosto amargo em sua boca ao dizer aquilo. Um passo foi dado para trás, a última coisa que queria era pressionar a loira.

— Não estou ofendida. — Mina disse de forma quase automática. Sua mão segurou timidamente a barra do casaco da morena a sua frente, impedindo-a de afastar-se ainda mais.

Chaeyoung se aproxima novamente da mais alta, dessa vez não contendo um sorriso sem graça desenhado nos lábios. A morena apoia uma das mãos sobre o mármore do balcão atrás da loira e com a outra mão ela retira alguns fios dourados do rosto de Mina, prendendo-os atrás da orelha da mesma, fazendo a mais alta suspirar.

— Você tem mexido comigo. — Chaeyoung admite frente a frente com Mina.

— Chaeng...

— Me sinto estranhamente nervosa perto de você. — A frase sai como melodia para os ouvidos da loira. Aquilo realmente soava como um de seus mais secretos sonhos.

— Não é a única a se sentir assim. — Mina resolveu abaixar a guarda e sentir o carinho das mãos da outra.

— O que acha de descobrirmos juntas o que estamos sentindo? — Chaeyoung pergunta em um tom baixo, as borboletas a essa altura faziam festa em seu interior.

Chaeyoung sente o aperto na barra de seu casaco e lentamente dá mais um passo para frente, fazendo a mais alta encostar-se completamente no balcão atrás de si e seus corpos ficarem a apenas centímetros de distância. A morena desce o seu toque até a mão pequena de Mina — que ainda segurava o tecido da sua roupa — segurando-a e entrelaçando seus dedos, fazendo um suave carinho com a ponta de seu polegar, tentando fazer a loira ficar menos nervosa, mesmo que ela também estivesse da mesma forma.

Por alguns segundos a loira manteve-se em silêncio, não ponderando o que responder, apenas admirando a garota a sua frente. Encarava os lábios entreabertos da garota tão perto de si, vendo-a umedecer os mesmo com a ponta da língua, em um convite silencioso.

Com um impulso de coragem, a loira largou todas as suas armaduras e defesas, se abaixando e levando a mão livre até a nuca da morena, capturando os lábios macios em seguida.

O beijo aconteceu lento e profundo, a loira podia sentir o gosto doce do café que a morena tomara antes a inebriar, fazia um leve carinho com a ponta dos dedos sobre a pele da morena e sentia o toque da mesma ainda permanecer em sua mão. Chaeyoung inclinou-se um pouco para frente, colocando a mão livre — antes sobre o balcão — na cintura de Mina, apertando-a levemente fazendo com que seus corpos agora estivessem completamente unidos.

Os lábios tocavam-se de forma delicada e elas não tinha a menor pressa para quebrar aquele contato, um sorriso foi desenhado durante o beijo por parte da loira, que em seguida capturou os lábios da morena novamente em um ósculo que seguiria por ainda mais tempo, se não fosse pelo barulho ensurdecedor da torradeira atrás de si.

Mina assustou-se, não o suficiente para se afastar do corpo da outra, mas acabou quebrando o toque dos seus lábios.

A morena a sua frente riu baixo, fazendo seus olhos quase sumirem em uma meia lua. Chaeyoung aproximou seus rostos mais uma vez para deixar um selar suave nos lábios que tinha acabado de beijar, logo deixou outro e depois mais outro, arrancando uma risada baixa e envergonhada de Mina que ainda tinha as bochechas rosadas.

— Acho que ficou pronto. — Chaeyoung brincou referindo-se as torradas, causando um sorriso sem graça por parte da loira.

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