Conversa Direta e Tempestade.
— Um doce por seus pensamentos.
A voz suave a surpreendeu.
Chaeyoung estava pensativa há alguns minutos encarando o rio enquanto se mantinha parada na margem do mesmo, um pouco distante de onde o luau ainda acontecia. Em sua mão direita ela segurava uma pedrinha, uma das tantas que já havia arremessado em direção a água.
— Você me assustou. — Com um sorriso sem graça ela encarou Tzuyu atrás de si.
— Não foi a minha intenção, eu juro. — Tzuyu retribuiu o sorriso e se aproximou mais, ficando ao seu lado. — O que faz aqui longe de todo mundo?
Chaeyoung suspirou e arremessou mais uma vez a pedra que quicou apenas uma vez e afundou no rio sob o olhar atento da garota ao seu lado.
— Eu estava precisando pensar um pouco. — Abaixou-se e logo já tinha outra pedrinha em sua mão.
Tzuyu assentiu lentamente, olhou para os seus amigos e a sua namorada que se divertiam ao redor da fogueira — a última que acenou para ela com um marshmallow na boca — para em seguida voltar a atenção na nova conhecida.
— Você e a Dahyun estão se conhecendo ou algo assim? — Indagou de forma amigável.
Chaeyoung a olhou de canto de olho e sorriu.
— Ela é legal…
— Mas…? — Tzuyu sabia que a outra queria falar algo mais.
— Talvez ela queira algo que eu não posso dar no momento. — Chaeyoung sabia das intenções da garora desde o início e até tinha ficado animada por ter recebido um flerte, mas logo notou que foi algo passageiro.
Ela não se sentia confortável pra ficar com ninguém naquela viagem.
— Sabe que ela só quer te dar uns pegas, né? — Tzuyu conhecia a amiga e sabia exatamente que Dahyun não era de se apegar a ninguém.
— Não me sinto no melhor momento para me relacionar com ninguém, seja namoro ou pegação. — Chaeyoung deixou claro esperando não parecer rude com a garota.
— Espero que deixe isso claro para ela, sinto que você ainda não falou sobre.
Tzuyu tinha razão.
— É… Ainda não falei, mas vou falar! — Chaeyoung disse mais para si mesma do que para a outra.
O frio estava chegando sorrateiro e todo mundo ali presente já começara a sentir um certo incômodo, mas permaneceram sentados ao redor da fogueira quentinha. Tzuyu abaixou-se para pegar uma pedra e riu nasalmente quando viu a garota ao seu lado falhar em uma das incontáveis tentativas que a tinha visto fazer desde que aproximou-se.
Tzuyu pensou por alguns segundos e logo arremessou a pedrinha fazendo-a quicar na água quatro vezes e afundar em seguida deixando uma Chaeyoung boquiaberta ao seu lado. Tzuyu sabia que era boa nisso.
— Você veio para me humilhar! — Chaeyoung fingiu estar ofendida com a incrível habilidade que a garota ao seu lado tinha e que faltava nela.
— Você que é péssima nisso. — Tzuyu deu de ombros vitoriosa e sorriu sentindo um empurrão leve em seus ombros.
— Fazer elas permanecerem na superfície é mais fácil do que você pensa se quer saber. Você precisa apenas jogar da maneira correta e treinar um pouco. — Tzuyu falava como uma profissional no assunto, a mais baixa achava aquilo um tanto quanto engraçado. — É como lidar com alguém que você não gosta.
Chou Tzuyu definitivamente era a pessoa menos discreta do universo.
Chaeyoung a encarou instantaneamente com uma das sobrancelhas arqueadas.
— Por que de repente eu sinto que isso foi uma indireta? — Chaeyoung riu baixo.
— Na verdade eu fiz referência ao meu relacionamento com a Sana, mas pode servir pra você também. — Tzuyu era péssima em ser discreta, mas era excelente em contar mentiras.
— Você e a Sana não se gostavam? — Chaeyoung indagou curiosa. Ela nem imaginava que estava caindo na mesma lábia que Mina havia caído alguns minutos atrás na sacada enquanto conversava com Sana.
— Nos odiávamos, mas essa é uma história um pouco longa. — Tzuyu agora estava brincando de arremessar pedrinhas em sequência no rio. Chaeyoung apenas a observava de canto de olho.
Elas ficaram em silêncio por alguns segundos e Tzuyu aproveitou para iniciar o assunto que tanto queria naquela noite.
— Qualquer tipo de relacionamento com uma outra pessoa precisa ser construído aos poucos. — Tzuyu iniciou sob o olhar atento de Chaeyoung que sabia muito bem sobre o que ela estava falando. — É como jogar pedras em um lago e torcer para que ela vá o mais longe possível, mas se aquela for a sua primeira tentativa provavelmente não vai dar certo. É necessário paciência e um pouco de treino. Você nunca tentou ser um pouco mais paciente?
— Eu sou paciente. Eu só sinto que não vale a pena insistir em casos perdidos. — Ela desviou o olhar.
— Se não vale a pena insistir em casos perdidos por que entrou para falar com a Mina? — Tzuyu foi direta e percebeu o olhar de quem foi pega de surpresa da mais baixa.
— E-eu fui pegar uma bebida.
Péssima arremessadora de pedras e terrível mentirosa.
— E voltou sem nada na mão. — Droga. — Eu sei que conversou com ela, a Sana estava lá e me contou sobre você ter aparecido.
— Por que vocês duas estão agindo como se soubessem de várias coisas? — Chaeyoung não era acostumada a se sentir tão indefesa assim. Isso a deixava extremamente desconfortável. — Vocês não sabem de nada.
— Não sabemos, mas todo mundo naquela fogueira… — Pausou para olhar para os seus amigos. — Notou o clima esquisito entre vocês, não foi muito difícil deduzir que são como a Sana e eu éramos no ensino médio.
Todo mundo ao redor delas parecia compreender o que estava acontecendo e ainda mais, pareciam saber dizer sempre as melhores e mais corretas palavras sobre aquele assunto. Mas então, por que as coisas não se tornavam tão fáceis assim aos olhos das garotas que tanto diziam por aí se odiarem?
— Eu não vou te alugar aqui e conversar sobre a sua vida pessoal, mas se quer saber… A Sana conversou com a Mina, que desabafou bastante sobre o quão sufocante é toda essa situação. Isso não afeta somente as suas amigas ou a você, isso afeta ela também. — Tzuyu concluiu.
Chaeyoung não esperava que Mina estivesse conversando sobre ela com Sana. Definitivamente não esperava.
A morena queria dizer algo, mas só conseguiu enfiar as mãos no bolso de seu moletom e suspirar pesadamente.
— E se quer saber… Ela foi embora tem uns quinze minutos. — Chaeyoung parou para encarar a sua casa do outro lado do rio pela primeira vez e notou a luz do quarto da loira acesa. Mina havia voltado pra casa, sem avisar, sem dizer nada. — Ela se despediu da gente na fogueira e foi embora enquanto você estava aí.
Chou Tzuyu não era tão boa com as palavras quanto a sua namorada, mas definitivamente seu jeito direto havia sido mais eficaz com Chaeyoung do que ela pensou que seria.
• • •
Mina odiava se sentir idiota e naquela noite ela havia se sentido daquela forma tantas vezes que sabia que tinha chegado em seu limite. Logo que notou o clima ficar gelado e as nuvens se formarem, a loira sabia o que estava por vir e não queria, de maneira alguma, parecer ainda mais idiota com seu medo infantil de tempestades na frente de tantas pessoas.
E foi por esse motivo que não pensou duas vezes antes de se despedir de todo mundo, fingindo estar com bastante dor de cabeça e correr para casa, mais precisamente para o seu quarto.
O maior refúgio da loira nessas horas era estar aconchegada debaixo das cobertas e abraçando Nayeon. Entretanto naquela noite era apenas ela e as cobertas.
Ao menos era isso que ela pensava.
As luzes de seu quarto estavam acesas e não demorou muito para uma leve garoa que havia se iniciado, dar lugar a uma chuva mais forte. Mina odiava estar sozinha, odiava aquela situação, odiava o fato da melhor amiga a ter abandonado.
E bastou um simples relâmpago clarear a janela do cômodo para que a japonesa se encolhesse ainda mais e lágrimas começassem a descer por seu rosto. Mina estava mais vulnerável.
Seu choro era silencioso, suas lágrimas desciam por seu rosto com uma facilidade quase de outro mundo. O choro era por angustia, por saudade e por viver aquilo tudo sem ter o ombro da melhor amiga para chorar.
Um pouco longe dali, Nayeon não conseguia dormir sabendo que a sua amiga estava precisando dela naquele momento. Cogitou diversas vezes voltar e esquecer daquele maldito plano, mas Jeongyeon conseguiu a acalmar e confortar dizendo que não era sua culpa e que a loira ficaria bem.
Como se soubesse que Mina não ficaria sozinha.
Como se soubesse que Chaeyoung havia entrado na casa de campo um pouco molhada devido a corrida em meio a chuva.
Como se soubesse que a morena havia pressentido algo ruim e tivesse corrido diretamente para o quarto da loira batendo seguidas vezes em sua porta.
Como se ela soubesse que após ver que a porta não estava trancada, Chaeyoung entraria no quarto encontrando uma Mina aos prantos e muito nervosa, deitada encolhida, apenas de um lado da cama, embaixo de seu edredom.
Chaeyoung não pensou em nada naquele momento, apenas aproximou-se a passos apressados, sentou na borda do colchão, descobrindo a loira que a encarou como se ela fosse a melhor das respostas que ela estava esperando.
E então o corpo magro da loira juntou-se com o seu, em um abraço que pedia abrigo e um pouco de conforto. Mas foi quando as mãos quentes de Chaeyoung abraçaram suas costas, que Mina soube que ela não estaria sozinha naquela noite.
Ela havia encontrado abrigo onde jamais esperava.
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