Capítulo 74. (Bônus)

Ellen...

Correr por um parque próximo ao meu apartamento em Mumbai todas as manhãs já tinha se tornado um hábito que eu espero conservar quando voltar para Londres, pois é algo que me faz muito bem tanto ao meu corpo quanto a minha mente.

Assim que cheguei aqui comecei a usar minhas corridas matinais como forma de esquecer um pouco a dor, da saudade que eu sentia de casa, organizar a minha mente e me distrair do fato de eu estar sozinha com um coração partido em um país estranho com uma cultura diversa. Sinto que quando eu corro as diferenças não importam, tudo parece menor, me pergunto por que não tinha esse hábito em casa.

Depois de quase uma hora correndo parei perto de uma árvore grande com aparência antiga sob a qual um senhor muito velho de cabelos brancos e corpo magro meditava de pernas cruzadas e olhos fechados, meditação era outro hábito que eu adquiri no meu tempo aqui, embora ainda seja difícil me concentrar as vezes. Me alonguei em silêncio, afastada do senhor que meditava a fim de não o atrapalhar virando meu rosto para o céu e contemplando sua imensidão azul enquanto sentia o calor do sol penetrar em minha pele exposta.

Quando terminei meus alongamentos sentia meu corpo mais  leve e relaxado e a dor em minhas costas que me incomodava desde a noite anterior praticamente já não existia mais, sorri com o resultado, tomei um gole de água da garrafa que eu trazia na mão e segui na direção a saída do parque.

Do lado de fora a calmaria do parque dava lugar a um apinhado de pessoas e carros, vozes e buzinas se misturavam em um cenário caótico e harmonioso ao mesmo tempo, era um espetáculo de se ver, desejei ter minha câmera comigo para fotografar, mas como não tinha tive de me contentar em pegar o celular preso a uma faixa de braço e fazer algumas fotos com o aparelho. Caminhei por entre as pessoas que andavam de um lado para o outro, a maioria não parecia se importar com as roupas que eu usava, estão acostumados com turistas, no entanto se eu estivesse com uma roupa muito curta não seria da mesma forma.

Parei em frente ao meu restaurante preferido para o café da manhã, sim, nesse ano eu conheci a maioria dos restaurantes de Mumbai, já que meus dotes culinários se restringem a ferver água, por que até miojo eu queimei uma vez. Dessa maneira, sobrevivi de comida de restaurante, o que não é ruim.

Procurei uma mesa vazia afastada do fluxo e pedi uma porção de chapati, uma de puris, geleia de damasco, um creme de tofu com especiarias que é uma maravilha e café. Quando eu cheguei aqui estranhei a comida, o tempero é forte, bem apimentada e muitos pratos não levam carne, mas, em pouco tempo eu tomei gosto pela comida local de modo que acabei engordando um pouco aqui, coisa que raramente me acontece. Que a Pria não me ouça, mas com certeza o que eu mais vou sentir falta daqui quando eu for embora na próxima semana vai ser da comida.

- Obrigada. – Falei na lingual local quando uma garota de pele escura e olhos redondos me trouxe meu pedido. Ela apenas sorriu e se afastou.

Comi enquanto observava as pessoas que entravam e saiam do estabelecimento, alguns apressados outros em uma calmaria quase preguiçosa. De todos os lugares que eu já visitei (Não que tenham sido muitos) aqui é onde o contraste entre a tradição e a modernização se faz mais evidente. É como se presente e passado caminhassem lado a lado, acho bem bonito como eles se modernizam sem esquecer as origens, as tradições, o que os identifica como povo, mas que evoluam em alguns aspectos.

Terminei minha maravilhosa refeição, paguei a conta e sai para a rua vendo um mar de cores ondulantes dançando em frente aos meus olhos. Não pude ficar mais tempo observando aquilo, a contra gosto me virei e voltei rapidamente para casa, não quero me atrasar para meu último dia de aula. 

Cheguei em alguns minutos ao apartamento, passei direto para o banheiro, tomei uma ducha lavando o cabelo, escovei os dentes, me sequei, penteei e sequei meus cabelos, vesti uma lingerie branca, coloquei uma calça jeans escura, uma blusa branca de seda e um casaco, calcei uma sapatilha preta, peguei minha bolsa e fui até a geladeira. Peguei um pão abri e passei creme de tofu e pesto, coloquei em um pote junto de uma fruta, peguei um suco e coloquei tudo na minha bolsa saindo do apartamento em seguida, não quero descer para o almoço hoje, por que eu quero passar um último momento no maravilhoso laboratório e por que eu não estou nem um pouco com vontade de dá de cara com o Leo.

**

Ellen... 

Abri os olhos lentamente sentindo a claridade feri-los e me perguntei por que cargas d’água eu fui acompanhar a Pria na bebida, levei as mãos as têmporas apertando afim de diminuir o latejar constante. Peguei meu celular e arregalei os olhos vendo que já eram quase 9 horas, o que significa que em 3 horas estarei embarcando de volta pra casa.

Me sinto feliz e orgulhosa por ter passado esse tempo aqui, pelo que eu aprendi, pela amizade que fiz, pelas coisas que vive, por ter me curado, me sinto imensamente feliz, por estar voltando para casa, para as pessoas das quais eu senti falta cada dia que estive aqui, mas uma parte minha sentirá falta daqui, das cores, da Pria, das aulas, da música... Ainda assim, era muito bom estar de volta, mesmo que as coisas não fossem mais as mesmas, em um mês Meg vai se casar com o homem que acidentalmente lhe pagou por uma noite que passaram juntos, Carol está morando no antigo quarto de Meg e agora vai dividir apartamento comigo, nosso grupo de amigos expandiu consideravelmente, pelo pouco que pude ver deles, são boas companhias.

Meu celular apitou e olhei para a tela vendo uma mensagem de Pria me chamando para o desjejum em sua casa, respondi que iria me arrumar e logo mais estaria lá. Era bom mesmo ela me recompensar pela ressaca, quando ela bateu na minha porta ontem a noite dizendo que tinha conseguido trocar o plantão e me chamando para comemorar meu último dia aqui eu fiquei reticente por aceitar o convite já que hoje eu viajaria ao meio dia, mas insistente como só ela sabe ser, acabou me convencendo e me arrastando para a rua.

Fomos a um pub chique e reservado que só permite a entrada de algumas pessoas, e onde uma mulher pode beber livremente, Pria como uma Kamall entrava sem dificuldades nesse tipo de lugar. Ela é de uma família rica e influente ligada a política, a 5° de 6 irmãos e diferente da maioria deles que seguiu os passos dos pais nos negócios da família ela resolveu ser médica, cirurgiã de trauma para ser mais exata, o que fazia dela um orgulho para todos.

Ficamos no pub até por volta de uma da manhã e quando saímos estávamos em um estado deplorável, de modo que o motorista de Pria nos olhava acusadoramente pelo retrovisor o caminho inteiro, balançando a cabeça algumas vezes em negativa, mostrando como o nosso comportamento não era aceitável.

Sorri e balancei a cabeça afastando os pensamentos da noite anterior da mente e caminhando até o banheiro. Tomei um banho demorado, escovei os dentes, tomei um remédio pra ressaca, penteei e sequei meus cabelos, passei corretivo para disfarçar as olheiras, máscara de cílios e tint nos lábios para parecer um ser humano vivo. Vesti uma calça de moletom e uma camisa de algodão preta com uma câmera fotográfica amarela. Sai do quarto indo para a sala e saindo do apartamento em seguida.

- Você vai viajar de calça de moletom? – Pria perguntou me olhando parada na soleira da porta. 

- Eu vou passar 12 horas dentro de um avião, sim vou com uma roupa confortável. – Respondi entrando.

- Você tem razão.  – Ela fechou a porta e caminhou até a cozinha onde a mesa estava posta. – Como está a cabeça?

- Parecendo que tem sinos batalhando dentro. – Reclamei me sentando.

- Vai dizer que não se divertiu.

- Isso não vem ao caso. – Ela rio.

- Meu pai me ligou hoje. – Começou enquanto se servia de linguiças vegetarianas. – O motorista me dedurou e eu ouvi um puta sermão sobre eu ser uma Kamall, ter um nome a zelar e que eu devo me comportar como uma mulher respeitável de uma boa família. – Ela virou os olhos ao falar a segunda parte.

- Você sabe como o seu pai é e ainda provoca. – Ri.

- Eu não provoco, eu vivo. – Nisso ela tem razão. – É diferente.

Comemos enquanto conversávamos alegremente, depois voltei ao apartamento para guardar as últimas coisas. As 11 horas o motorista de Pria levou minha bagagem para o carro e nos descemos, deixei a chave com o porteiro e saímos.

Em cerca de 20 minutos estávamos entrando no aeroporto, desde que saímos do nosso prédio Pria estivera bem calada como se quisesse não falar nada ou não soubesse o que dizer.

- Ellen.  – Ouvi quando estávamos próximas ao portão de embarque. – Ellen. – Chamou novamente e eu me virei vendo Leo vir em minha direção. 

- Oi.

- Oi, eu não queria que a nossa última conversa fosse uma discussão. – Ele falou se aproximando.

- Nós não discutimos Leo, não temos o que discutir.

- Temos sim, eu tinha que tentar, não quero que você vá embora, não quero que me deixe. – Ele segurou meu rosto me deixando incomodada.

- Leo, eu não estou lhe deixando por que nós não temos coisa alguma. – Falei pausadamente como se conversasse com uma pessoa com a capacidade de compreensão reduzida. – A gente não tem, não teve e não terá nada, entendeu? – Tirei suas mãos do meu rosto. “Qual o problema comigo pra sempre atrair homens problemáticos?”

- Ellen você não me entende... nós. 

- Leo, você é um homem incrível e vai encontrar uma pessoa que te ama do jeito que você é, do jeito que merece, mas essa pessoa não é e nem será eu. – Falei calmamente e vi seus olhos cheios de lágrimas. – Adeus Leo, espero que seja feliz. – Sorri em sua direção rezando para que ele não fizesse uma cena no aeroporto como fez no festival, pois agora teria plateia.

- Adeus Ellen, não me esqueça. – Uma lágrima escorreu por seu rosto e ele saiu rapidamente.

"Não me esqueça? Que merda foi essa?"

- O que acabou de acontecer aqui? – Pria perguntou se divertindo com a situação.

- Nem eu sei direito.

- Ele está um pouco obcecado por você, pesando assim é bom que você vá embora mesmo. – Ela falava seria, mas logo acrescentou. – Tu tens um psiquiatra na boceta pra atrair doido? Ou o que?

- Credo, você é horrível. – Falei olhando em volta para ver se ninguém tinha escutado.

Ela deu de ombros rindo e me seguiu até o portão de embarque, respirei fundo parando e me virando para encarar Pria que tinhas os olhos cheios de lágrimas. 

- Obrigada por ter estado comigo todos esses meses. – Falei pra ela.

- Eu que agradeço por fazer minha vida melhor. – Nos abraçamos.

- Me prometa que mesmo longe vamos manter contato e que você vai me visitar.

- Eu prometo se você prometer o mesmo. – Ela sorri ao falar.

- Claro que sim.

Nos abraçamos mais uma vez e trocamos algumas palavras antes de eu saí em direção ao embarque com o peito apertado, espero que ela não fique sozinha agora que eu estou partindo. 

**

Ellen...

Três pares de olhos focaram em mim enquanto eu empurrava um carrinho de aeroporto com minhas malas. Olhei sorrindo para os meus amigos e apressei o passo na direção deles que caminharam ao meu encontro. Três pares de braço me envolveram quando estávamos próximos o suficiente, me senti sufocada de amor e carinho e isso era uma sensação maravilhosa.

- Senti tanta falta de vocês. – Falei quando nos separamos.

- Nós também. – Eles responderam ao mesmo tempo.

- Deixe que eu levo, vamos. – Iam falou pegando o carrinho e empurrando, sempre um cavalheiro.

- Vamos jantar para comemorar sua volta. – Meg falou entrelaçando nossos braços.

- Escolhemos algo simples já que sabíamos que você chegaria cansada. – Natalie acrescentou.

- Estou cansada mesmo. – Confessei sentindo meus músculos cansados. – Vamos jantar onde?

- No Salt, namorar o dono tem suas vantagens. – Iam falou em tom de brincadeira e todos caímos na gargalhada. 

- Falando nisso, por que o Henry não veio?

- Ele quis nos deixar sozinhos. Disse que amanhã vai te ver. – Meg sorriu e acrescentou. – Adam e Carol estão nos esperando.

Assim que saímos para a rua agradeço mentalmente por ter pego casaco, por que a noite está fria de gelar até os ossos. Entrei rapidamente no carro de Meg ao seu lado no banco de trás e Iam e Natalie foram no carro de Iam. O trajeto para o restaurante se passou rapidamente com Meg me perguntando várias coisas sobre meu tempo na Índia.

- Gostosa. – Adam falou assim que chegamos na mesa onde ele aguardava por nós. 

- Adam. – O abracei apertado.  – Senti sua falta. 

- Eu também, o estúdio não é o mesmo sem você. – Falou me soltando. Adam é meu sócio no estúdio de fotografia. – Você tem que ver o novinho que contratei em sua ausência, uma graça e competente. – Sussurrou enquanto nos sentávamos, apenas sorri e balancei a cabeça para o sorriso malicioso que ele tinha nos lábios.

- Pode começar a contar. – Natalie falou me olhando.

Respirei fundo antes de começar a falar, cerca de 20 minutos depois Carol chegou pedindo desculpas pelo atraso, sua audiência havia demorado mais que previu e por isso a demora, ela ainda usava uma saia lápis preta, uma blusa vermelha e um terninho preto com os cabelos presos em um coque elegante.

Continuamos por algumas horas falando sobre minha estada na Índia, o que eu aprendi, as dificuldades que sobre, falei sobre Pria. Depois conversamos sobre o sucesso do livro de Meg e seu casamento, principalmente sobre o casamento. O tempo foi passando, e não nos demos conta até eu soltar um bocejo e chamar a atenção de todos.

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Ellen está de volta e dessa vez pra ficar.

Os amigos enfim todos reunidos. 😍

O livro está perto do fim, tem mais 4 capítulos pela frente.

O segundo livro vai ter a Ellen como personagem principal. 

Até domingo. 😍💜

Vote e comente.  😊😘

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