☠️ Capítulo XIII ☠️

Lee Feng

Sua boca está colada na minha, suas mãos em minhas bochechas parecendo segurar algo delicado, seu perfume inebria meu olfato e eu não demoro em responder ao beijo surpresa.

É delicado, mas urgente. Doce, carregado de uma sensação que não consigo identificar. Sua língua explora minha boca, o ritmo se tornando mais necessitado, o mundo parece sumir ao nosso redor e meu peito parece queimar querendo-o mais perto.

Quando o ar falta, o ósculo é rompido. Seus olhos são profundos, seu peito sobe e desce em uma velocidade maior que o normal, os cabelos levemente bagunçados pelas minhas mãos. Thomas está malditamente bonito dessa forma. Tento beijá-lo mais uma vez, mas como se finalmente estivesse no controle de suas mentes ele se afasta meio assustado.

— Thomas?

Ele não me responde e se afasta ao meu toque como se eu tivesse uma doença contagiosa. Desajeitado e perturbado, o ruivo caminha abrindo caminho entre as pessoas dançando e vai embora me deixando para trás confusa.
O que deu nele? Porque reagir assim a um simples beijo? Foi ele que tomou a iniciativa, ele não queria isso?

Lentamente, o mundo ao meu redor começa a ter sons e sinto alguém se aproximar de mim.

— O que aconteceu com aquele seu ruivo? — A voz de Ben é melodiosa e meio embriagada  em meu ouvido.

— Eu não sei. Ele simplesmente fugiu como se tivesse repulsa de mim. — Um aperto em minha garganta se forma, algo entre tristeza e raiva. Ben dá um breve aperto em minha cintura e beija meu pescoço.

— Posso fazer melhor do que ele…

— Hoje eu não estou afim Ben. — Retruco já sentindo meus ossos serem banhados em raiva. O elfo d’água quando me encara compreende perfeitamente o que quero.

— Angry night? — Seu semblante é cheio de cumplicidade e consigo abrir um breve sorriso.

Nós caminhamos para uma área mais vazia cheia de jogos e logo o platinado faz sinal para que o garçom traga as jarras de bebida.

Ben Water, é comandante de um dos navios da minha esquadra e um bom amigo. Originalmente veio de uma cidade submersa no mar Fantasma, onde muitas espécies de criaturas marinhas residem, mas migraram para o refúgio com a expansão marítima da coroa e sua crueldade. Ben tinha apenas sete anos quando toda a sua família foi assassinada por corsários ingleses e espanhois, quando chegou ao refúgio ficou vagando sozinho e desolado até ser aceito como grumete no navio do capitão Ludovic Turc.

Quando o conheci nessa mesma taverna, ele tinha dezoito e eu tinha dezesseis, enquanto eu estava melancólica pela perda do meu pai, ele estava irado por ter sido rebaixado na tripulação de seu capitão.

Foi uma conexão incrível, viramos amigos, desabafamos sobre nossas vidas, xingamos os responsáveis por nossas vidas miseráveis, bebemos incontáveis jarras de cerveja, nos beijamos até quase nossas bocas cair e inventamos o melhor jogo de todos. Angry night, é basicamente um jogo de dardos só que com o rosto os motivos das nossas raivas coladas no centro da mira e qualquer tipo de armas que estiver ao nosso alcance.

Rapidamente rabisquei um esboço do rosto de Thomas, enquanto ele apenas se sentou desleixado em uma das cadeiras com as botas sobre a mesa.

— Quem é esse ruivo? Seu namorado? — Meu amigo pergunta, enquanto disparo uma bala de sua pistola. Bem no olho direito.

— Ciúmes, lindo?

— Só um pouquinho? — Ele me lança um beijo no ar, me fazendo rolar os olhos. Canalha.

— Meu novo navegador. Um completo idiota… — Outra balha acerta o nariz do desenho. — Moralista… — Uma bala no olho esquerdo. — Patético… — Uma bala na testa.

— Ele parecia estar com ciúmes quando cheguei, porque ele foi embora sem mais nem menos?

— Eu não faço ideia. — Lanço uma adaga poucos centímetros acima da bala na testa. — Esse cara é muito complicado. Sempre tentando ser o bonzinho, o manda chuva de moralidade. Eu finalmente achei que ele estava caindo nas minhas graças, que aquele beijo era o sinal de que era meu, mas ele ferrou com tudo, de novo.
— Você gosta dele. — Não foi uma pergunta e o esse fato me faz errar o alvo, a adaga para na madeira do lado.

— Eu não gosto dele. Eu o desprezo.

— Você já foi melhor nas suas mentiras, Mary.

— Cala a boca e me passa o machado. — Ele obedece sem pestanejar, apenas rindo da minha irritação crescente. — Eu não gosto dele, ele é apenas uma peça importante para que eu possa finalizar meu plano maior. — O desenho é  rasgado a cada golpe da arma, a raiva sendo descontada no mero objeto. — Só preciso descobrir o que fazer para que ele me leve primeiro até o meu mapa e depois ao encontro das sete relíquias, para que eu possa ter a minha mãe de volta e o gostinho de mandar a Marinha real para as profundezas do inferno. Apenas isso.

— Se é no que você quer acreditar, então que seja. — O elfo se levanta me entregando uma caneca. — Trouxe dois barris de Tequila do México, vamos beber até cair?

A sugestão faz um sorriso grande surgir em meus lábios. Estou farta de pensar em Thomas ou em qualquer  responsabilidade

— Vamos beber até cair.

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O sol está alto enquanto caminho cambaleando para casa, a ressaca comandando todo o meu corpo é terrível. Assim como decidimos, eu e Ben bebemos até cairmos, acordei embrenhado no sofá do apartamento de do elfo com uma dor de cabeça infernal e o estômago roncando. Ele ainda estava em um sono profundo esparramado no chão da sala e achei melhor deixá-lo descansar um pouco mais, juntamente com um café da manhã anti-ressaca.

Com as botas e o lenço nas mãos, e uma cara horrenda, vou retribuindo os cumprimentos de alguns conhecidos, até poucos minutos está de frente para minha casa.

Quando atravessar essas portas corro o risco de ficar cara a cara com Thomas. Um pequeno lapso de vergonha me atinge ao relembrar a forma como ele se afastou de mim após me beijar. Já fazia um tempo que eu não beijava alguém, será que foi tão ruim ao ponto dele ter fugido? Uma pequena fagulha de raiva acende em meu peito. Quem ele pensa que é? Ele está se achando o rei da cocada preta para me rejeitar daquela forma e ainda assim dominar meus pensamentos? Thomas Black não merece esse reconhecimento.

Essa noite será tratada apenas como uma mera ilusão. É isso. Esse beijo nunca ocorreu. Decidida, entro confiante, me separando com Angelo, Thomas e Jimmy jogando cartas. O ruivo é o primeiro a me encarar.

— Onde estava? — Angelo pergunta sem tirar os olhos do jogo.

— Bebendo com o Ben em seu apartamento.

— Pensei que seu namorico com ele tinha acabado há tempos.

— Não consegui resistir ao charme dele. — dou de ombros indiferente seguindo meu caminho para o meu quarto.

Cansada, desarrumada e morrendo de sede, apenas toco a campainha da área dos serviçais e me largo na cama. Eu preciso de um banho e uma massagem nas costas, depois disso estarei pronta para começar o dia.

— Do que precisa, senhora? — Meifen e Meiling entram no quarto.

— Meifen peça para que preparem um café bem reforçado. Meiling prepare um banho quente e vou precisar da sua milagrosa massagem.

As gêmeas fazem seu trabalho em completo silêncio, enquanto a minha cabeça retorna a todos os meus pensamentos. Falta um mês e meio para meu aniversário, até a próxima semana preciso zarpar rumo a Costa de Jade para chegar a tempo ao templo e continuar com a minha tradição de aniversário. Depois desse dia é crucial que Thomas me diga onde está o mapa das sete relíquias, ele só terá que decidir se será da forma fácil ou do jeito difícil.

A água quente faz meus músculos relaxarem e as mãos de Meiling fazem maravilhas lavando meu cabelo, poucos minutos depois Meifen entra com uma bandeja cheirosa e com boa cara.

— Um dos mercadores trouxe um creme maravilhoso da Terra da Deriva que deixa a pele bem macia, quer testar senhora? — Meiling pergunta estendendo um pote cheiroso para mim.

— Pode ser, estou ao cuidado de vocês.

Elas dão risada e começam a me tratar como uma donzela delicada. Cremes e óleos, massagens e chás aromáticos. É como se eu estivesse em uma realidade paralela onde sou de verdade uma princesa. Eu não sei quanto tempo se passa, mas no fim estou me sentindo renovada, limpa e cheirosa envolta em um roupão de seda vermelha e com os cabelos bem cuidados presos com um Hashi Kanzashi.

— Precisa de mais alguma coisa? — Meifen questiona, enquanto me sento na cama acompanhada de alguns livros.
Duas batidas na porta nos chamam a atenção e a cabeleireira vermelha de Thomas aparece pela fresta.

— Licença, um mensageiro deixou isso aqui e pediu para te entregar, capitã. — Ele se aproxima com o meu sinal fechando a porta atrás de si.

— Meninas, vocês já podem ir. — As garotas prestam uma reverência e saem silenciosas. — O mensageiro disse quem o enviou?

— Não, só entrou e disse que era para a senhorita. — O ruivo me entrega o papel.

A carta tem o selo oficial da corte marcado em será marrom. É a cor usada para quando se trata de um assunto importante, mas que não é de fato tão urgente. O que não entendo é ela ser destinada a mim, faço parte da mesa dos lordes piratas, só sou influente pela minha fama e por ter assumido como herdeira de Jin Zhao que atuava como segundo lorde da corte.

Convocamos todos o capitães da fortaleza pirata para comparecer amanhã na sede da corte para ser eleito o sétimo lorde (ou lady) da companhia de comando da fortaleza.
Candidatos ao cargo:
Capitão Julian
Bigode vermelho
Capitão Bonny
Capitã Lee Feng

Algo entre surpresa e alegria corta meu peito. Candidata a ocupar a cadeira vaga da mesa dos lordes? Puxa, quem diria. Eu estava tão focada em todas as coisas que aconteceram na minha vida nos últimos meses que nem sequer me dei conta que esse ano era um ano para a nova eleição.

Em uma análise rápida posso dizer que tenho uma das maiores chances de vencer. Bonny não tem muitos feitos que não sejam pequenas aventuras em ilhas no limite do mar gelado, histórias que não carregam nem um pouco de emoção. Bigode Vermelho é um homem asqueroso, foi nomeado capitão pelo Miller, um homem carregado de crueldade e descontrolado, de fato ele tem histórias cheias de adrenalina e fez muita fortuna, mas é horrendo com seus marinheiros e alguns relatam que ele é um babaca. Toda essa personalidade e aquele bigode terrível são um atentado a toda a estrutura da nossa organização.

Julian é talvez o meu oponente mais forte. Segue a risca o código de Kallimur, é estrategista e acredito que seja o pirata mais justo de nossos tempos, além do fato de ser o irmão mais novo de Ludovic Turc. Mas os seus feitos mais dignos de respeito foram os saques aos navios de tráfico de Africanos onde ele libertou mais mil homens, mulheres e crianças escravizadas.

— Sobre o que é a carta? — Thomas pergunta curioso. Uma parte de mim quer mandá-lo para o raio que o parta, mas estou feliz demais para ser mesquinha.

— Convocação para a eleição para a mesa dos lordes. Sou uma candidata.

— Pensei que só existiam eleições para o rei pirata.

— São semelhantes, mas tem suas divergências. — Explico ainda olhando deslumbrada com meu nome no papel. — Diferente das votações para rei pirata que acontecem apenas quando uma guerra iminente se aproxima e envolve toda a população da fortaleza, as eleições para um cargo junto aos lordes são feitas entre os capitães e os candidatos  são selecionados pelos seus feitos mais impressionantes. Valeu muito a pena roubar o Porto da Marinha Real da forma mais descarada possível.

— O que os lordes fazem?

— São como juízes, julgam as questões que são levadas até eles segundo as nossas leis, mas quase não tem ocorrências aqui dentro então os eleitos lordes acabam sendo mais figuras de prestígios e quando se tem uma guerra é um desses lordes que será rei.

— Uau! — Ele parece impressionado, um breve sorriso se acende em seus lábios. — Parabéns pela conquista.

— Obrigada. — O ruivo faz menção de sair, já abrindo a porta. — Eu não te dispensei, Thomas. Você ainda me deve três perguntas do jogo de ontem.

— Lee, eu…

— Sente. — O comando é frio e ele o atende imediatamente sabendo que não tem para onde fugir. Ele puxa a cadeira da escrivaninha para perto da cama. — Por que você fugiu como se eu tivesse a pior das doenças contagiosas?

— Eu… Eu estava pensando  em tantas coisas e… E… Entro em pânico… — A cada palavra engasgada que sai a muito custo de sua garganta tento não pular em seu pescoço.

— Que tipo de coisas você estava pensando?

— Minha mente estava uma bagunça, eu não consigo colocar em palavras tudo que se passava. — Suas mãos estão mexendo inquietas e sua respiração está irregular. Mentiroso.

— Por que me beijou? — A pergunta sai afiada como uma adaga e sou respondida com o silêncio. Um. Dois. Cinco minutos. — Eu te fiz uma pergunta, Thomas. Por que me beijou?

— Olha, é complicado…

— Não, não é complicado. Por que você me beijou?

— Eu não sei exatamen…

— Foi uma decisão sua. Por que. Me. Beijou?

— Eu…

— POR QUE ME BEIJOU? — Grito sentindo a paciência escapar pelos meus dedos.

— POR QUE PARECIA QUE EU MORRERIA SE NÃO TE BEIJASSE COMO VENHO DESEJANDO A TEMPOS! — Ele retruca se levantando e começando a caminhar de um lado para o outro. — Você mexe comigo, desde aquele momento que me defendeu na briga de taverna e depois de ontem na sua cabine foi… Ainda teve aquele cara, eu só senti que precisava fazer aquilo ou então morreria.

— Então, por que se afastou? — Nem mesmo me dei conta de quando me levantei, mas meu corpo já estava de frente para o seu. Olho com olho, sua respiração pesada fazendo cócegas no meu rosto. O ruivo permanece em silêncio.

— Sinto muito, capitã, mas já gastou suas três perguntas. — Sua voz sai baixa, rouca e com um sentimento que não consigo nomear.

Sem a minha permissão, ele vai em direção a porta. Um tornado de coisas me bagunçam por dentro, eu não sei o que foi isso que acabou de acontecer. A porta do quarto se fecha em um pequeno baque bem a tempo quando jogo um jarro próximo em sua direção.

É inacreditável a forma como esse homem pode ser um pamonha, um metro e oitenta de puro coração mole e inconsistência. Eu deveria ter ficado calada, esquecer que um dia toquei aquela boca, que senti suas mãos me segurar como se eu fosse o bem mais precioso do seu mundo…

Irritada, confusa e sentindo o peso do cansaço mental me alcançar apenas me deito deixando minha cabeça escurecer lentamente e me carregar para a inconsciência.

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