☠️ Capítulo I ☠️
Thomas Black
O oceano é um lugar que caminha em uma linha tênue entre o fascinante e o aterrorizante. Sua imensidão é hipnotizante, mas o que mais me atrai são as histórias que deixam o ar dos meus pulmões rarefeitos e os fios dos meus cabelos em pé. Eu poderia passar horas debruçado nos escritos místicos que o cercam.
Krakens, sereias e outros tipos de monstros marinhos… Maldições, tesouros e bruxaria… Simplesmente fascinante documentar cada história passada de boca em boca enquanto mapeio cada canto desse imenso mundo.
Para meu pai — um almirante condecorado pela marinha real por bravura em batalha e bem-sucedido caçador de piratas — era um castigo ter um filho que sentia mais prazer em redigir mais de duzentos textos variados entre descobertas de arquipélagos e feitos hediondos de alguns foras das leis que marcaram alguma colônia do que servir ao seu país como um cão de caça. Nossa relação já não era muito boa, meu gosto diferenciado só piorou. Me lembro dele em seu leito de morte, mesmo ferido de sua última batalha arranjando forças do além para me dar esporro e mandar que eu fizesse algo de útil para fazer valer seu legado.
Já fazem três anos que ele se foi e não me arrependo de olhar no espelho — para o cabelos ruivos, o rosto anguloso e olhos castanhos, a aparência praticamente idêntica a sua juventude — e dizer que sou o tenente Thomas Black, marinheiro e mestre de mapas da coroa.
— Ficou sabendo do novo decreto? — a voz de Jimmy corta meus pensamentos e logo uma folha com o selo rela é jogada sobre minhas anotações. — Lee Feng é inacreditável.
— Ele é um típico pirata ladrão. — dou de ombros. — Mas precisamos admitir que ele é bem mais inteligente que os demais.
— Dizem que não sobrou nem a porta do cofre de São Timóteo para contar a historia, a costa da Goela do Cisne está enlouquecida em sua caçada. Bem que você disse. — meu amigo de farda, com seu corpo esquio e alto, se acomoda relaxado na cadeira mais próxima. Seus cabelos loiros estão mais uma vez desgrenhados e vários fios se soltam da tira de tecido que usa para amarra-los, as lentes arredondadas como fundos de garrafa deixam seus olhos azuis mais evidentes no rosto fino. — Você é uma bruxa disfarçada? Como consegue acertar as estrategias desse pirata?
Não posso deixar de abrir um sorriso arrogante para sua pergunta. Eu nunca passaria para o lado pirata, mas gosto de imaginar a adrenalina de suas trajetórias. Um passatempo, um jogo mental criado pela curiosidade sobre esses homens de carácter duvidoso, seria complicado tentar explicar isso para um homem filho de um marinheiro e uma costureira como Jimmy Roberts.
— São piratas, pilhar e saquear tesouros é a vida deles, eu só calculei qual era a riqueza mais gorda e desafiadora que ele poderia desejar. — O loiro dá de ombros, batendo breves palmas para minha resposta.
— Thomas Black, o estrategista e leitor de mentes piratas. Uau! Você é o melhor, cara!
— Eu sei. Eu sei. Obrigada, meu fã.
Nós caímos na gargalhada, na mesma atmosfera que sempre nos englobou desde que nos conhecemos um ano atrás quando caímos no mesmo dormitório no Porto da Marinha Real. Não me lembro de como exatamente ficamos amigos, me lembro apenas dele com um pote de biscoitos caseiros e uma autoconfiança na altura dos céus. Se alguém me perguntar como acabamos aqui, não tenho ideia do que argumentar.
“Hoje é seu dia de sorte, novato, você vai dividir o quarto como o homem mais lindo da Marinha Real. Cuidado para não se apaixonar.”
— Com licença, tenentes. — Um soldado bate levemente na porta do meu escritório, antes de adentrar com seu recado. — O almirante está chamando pelo senhor, tenente Black.
— Tudo bem.
Um pouco de surpresa faz meu coração acelerar um pouco. Eu nunca me interessei muito por combate naval ou liderança em embarcação, meu trabalho é ser um ser invisível que desenha rotas para navegadores de alto escalão, é meio inusitado que o almirante esteja procurando por mim.
Corredor após corredor, não demora até que eu esteja na porta do gabinete do meu superior recebendo a autorização para entrar. Almirante Jonas Malibu, um homem já de idade com seus cabelos grisalhos contrastando com sua pele negra, na lapela de sua casaca várias medalhas por bravura marcam seu alto grau de importância.
— Ai está a minha bola de cristal. Fiquei sabendo que você desconfiava do ataque a São Timóteo. — ele aponta para que eu me sente a sua frente, uma ordem silenciosa. — Me diga, como conseguiu?
— Eu só tento pensar como eles, senhor.
— Então fiz a escolha certa para essa missão. — Ignorando minha confusão ele puxa um pequeno caderno de notas da gaveta colocando a minha frente junto com um cartaz de procurado de um homem de ascendência oriental identificado como Shang. — Seu pai antes de morrer tinha a missão de caçar os piratas do mar oriental. Ele derrubou vários deles. Shin, o cruel; Matsu, o tigre negro; Yan Li, o pavão e até mesmo Ayumi, que foi intitulado pelos seus como a rainha pirata, mas o Lee Feng sempre esteve um passo a frente dele, tão a fente que em um unico embate deixou o capitão Black em seu leito de morte.
Meu pai poderia dizer que era um verdadeiro filho de Poseidon, impulsivo e feroz como o alto mar sem se preocupar com o mínimo de prudência. Esse foi o erro fatal quando lançou seu navio em uma batalha contra Lee Feng. Vendo que não tenho nada a comentar sobre a menção da morte trágica do meu pai, o almirante retorna ao seu monólogo.
— Você é cauteloso e estratégico, então acredito que seja a pessoa perfeita para completar essa missão.
— Desculpe, senhor, mas eu não sou um marinheiro e…
— O Princesa do Mar, navio do Lee Feng vai atracar em nosso porto essa noite. — ele não deixa que eu termine minha objeção para soltar a bomba em forma de informação. Como ele pode saber disso? — O desgraçado está recrutando novos homens para a tripulação. Você vai a taverna Dama de Copas, vai se infiltrar na tripulação dele e vai coletar toda e qualquer informação que puder. Quero detalhes sobre o navio, a esquadra e qualquer coisa comentada sobre o refúgio pirata deles.
— Achei que a história do refúgio pirata criado pelo capitão Kallimur depois da guerra da goela fosse só um mito.
— Meu informante alega que é real, um verdadeiro ninho cheio de piratas imundos, mas não confio muito em um informante que só se comunica por bilhetes. Quero que você me dê a prova de sua existência e uma rota segura até lá. Se voltar dentro de três meses com boas informações neste caderno, vou te transferir para a academia de erudição real para trabalhar com os melhores mestres de cartografia da nossa era.
O fôlego deixa meus pulmões. Somente os nomes dados por um almirante de prestígio são aceitos por lá, é o ambiente de trabalho que sonho desde os meus dez anos de idade. Uma instituição com áreas como astronomia e os melhores telescópios do mundo, foram os mapas históricos mais desejados de todos os tempos. Ser indicado a esse trabalho é a maior honra que um homem da marinha real poderia receber.
— Posso contar com você, tenente? — O almirante me encara com uma expressão convencida. Droga, ele sabe bem o meu ponto fraco.
— Vejo o senhor em três meses.
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A lua já está alta no céu quando minhas botas pisam no chão lamacento das vielas de Porto Marino. Nessa área da cidade as tavernas se multiplicam aos montes com muita gente bêbada, meretrizes, cantigas antigas e vários piratas disfarçados. Meu coração acelera à medida que me aproximo do local coberto por uma placa em vermelho chamativo e desenhos obscenos.
Por três meses serei um pirata. Céus, eu vou me jogar dentro de um covil de lobos. Ouvi algumas histórias de homens da marinha que foram pegos espionando piratas e a forma como cada morte é descrita é perturbadora demais para não me fazer suar frio. Meu corpo trava antes de abrir a porta da taverna, o medo incrustado em meus ossos.
— Tenha coragem, Thomas. — sussurro para mim mesmo na penumbra da noite. — Você sempre teve que fingir gostar de treinar tiro com seu pai, agora você só tem que fingir ser um deles… Vai dar tudo certo.
Não acredito cegamente que vai dar tudo certo, mas com uma pequena fagulha de coragem empurro a madeira escura repetindo mentalmente o mantra: “vai dar certo, vai dar certo, vai dar certo”.
Meus pensamentos são calados pela dor cortante que se alastra quando algo acerta a minha têmpora. O som de vidro estilhaçado e uma confusão generalizada explode sem explicação. A confusão e a dor me deixam lerdo.
Mas que…
Me esquivo rapidamente de um soco de um homem que nunca vi na minha vida e logo sou incluído na troca louca de golpes. O que está acontecendo? Um homem de meia idade meio bêbado salta sobre mim, nós rolamos no chão entre socos e pontapés até ele parar sobre mim. Com um sorriso maníaco ele puxa uma adaga que tirou sabe-se deus de onde. O desespero toma conta do meu corpo. O desespero controla meus sentidos enquanto tento não ganhar um buraco no corpo, mas ele é estranhamente rápido para sua idade.
Merda. Eu vou morrer nos meus primeiros minutos da missão? Aí já é sacanagem!
Antes que eu possa pensar em uma boa desculpa para dar ao meu anjo da guarda na porta do mundo dos mortos, uma garrafa acerta a cabeça do meu agressor o fazendo tombar inconsciente para o lado. Uma mulher, uma linda mulher de rosto redondo e olhos orientais, me oferece a mão para me levantar. Com agilidade consigo me colocar de pé e reparo em seus cabelos longos tingidos de azul presos em sua nuca, as roupas masculinas um tanto maiores que ela e uma espada longa e afiada.
— Está me devendo uma garrafa de rum, bonitão. — ela me oferece um sorriso ladino, sem perder tempo em desembainhar sua espada e lutar contra três homens de uma só vez.
Não sei se foi o choque pela situação ou qualquer outra coisa, mas meu corpo não parece responder, meus olhos se fixam em seus movimentos ágeis e fortes. Sua técnica com a lâmina é ótima e ela sempre busca manter uma postura para não se cansar. A desconhecida se vira para mim e algo em meu interior se agita, seus olhos — escuros como a noite — me encaram e quando finalmente posso abrir a boca para falar algo, ela puxa a pistola do meu coldre e dispara em alguém atrás de mim.
— Agora me deve duas garrafas. — ela coloca a arma de volta em minhas mãos e me lança uma piscadela, me deixando para traz com uma provável cara de idiota.
Mais som de balas zunindo me despertam e em um desespero de não morrer me jogou para trás de um balcão. Meu coração bate agitado pela adrenalina e meu corpo pula em sobressalto quando algo se choca contra o meu ombro. Algo não, alguém.
— Que festa de recepção, não? — Jimmy me encolhe quando uma garrafa passa por cima de nossas cabeças. Diferente da minha cara que estampa o mais completo desespero, o loiro estampa um sorriso eufórico nos lábios.
— O que está fazendo aqui?
— O almirante pediu que eu o seguisse como suporte na missão. — Ele está em trajes semelhantes aos meus. Calça esfarrapada, camisa simples e botas usadas por homens civis. — E então? Com essa confusão, como vamos nos candidatar?
— Eu não faço ideia, não consigo encontrar o tal Shang…
— Quem me procura? — Como em um passe de magico um homem com traços orientais, as calças sujas de alguma coisa não identificada, camisa completamente desabotoada e um lenço cobrindo a cabeça se materializa recostado na parede como se trinta homens não tentassem se matar a alguns centímetros a frente. — Querem entrar para a tripulação de Lee Feng?
Como ele chegou aqui e como ele pode estar tão tranquilo?
— Sim… Você é o Shang? — respondo cauteloso.
Ele não responde, apenas leva o gargalo de uma garrafa a boca se esquivando de uma adaga que se crava na parede. Todo pirata é meio louco? O estranho suposto Shang tira uma folha de papel do bolso junto com um pequeno frasco de tinta e uma pena, jogando os objetos em nossa direção, uma ordem silenciosa para assinar e segui-lo. Eu e Jimmy nos olhamos, mas não contestamos suas instruções. Poucos segundos depois estamos os três seguindo por uma viela ao lado da taverna que leva até um pequeno porto. Um grandioso navio está atracado, a pintura feita em uma azul e dourado impecável, as velas brancas bonitas, poderia facilmente se passar por um simples navio comercial exceto pelo nome Princesa do mar e a marca de um dragão dourado feito de ouro puro na popa.
— Quais os seus nomes? — o oriental pergunta à beira das escadas para subir.
— Eu sou Jimmy Roberts, mas você pode me chamar de Jim ou Rob, fica a sua escolha. — o loiro diz com um sorriso no rosto e a mão estendida, mas é ignorado pelo pirata que se vira para mim.
— Eu sou Thomas.
— Muito bem, rapazes. Sejam bem-vindos a bordo do Princesa do Mar e a tripulação de Lee Feng, o terror dourado. — Feita a sua apresentação, alguma coisa acerta a minha nuca e tudo ao meu redor escurece.
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