Prólogo: O Passado, O Começo

Dizem que em toda lenda há uma verdade a ser revelada, e que cada ser existente no universo um destino a cumprir. Pois bem... Essa história data de muito antes do mundo ser o que é hoje, data de uma época em que vários seres e criaturas ainda viviam sobre a terra e de como um deles, traiu seu próprio povo ao ter clemência por outro e a coragem necessária para se reerguer e encarar a verdade embora a mesma a pudesse destruir. Ainda lembro quando tudo começou...

Naquela mísera noite, o fogo das tochas iluminavam o nosso reino, criando sombras fantasmagóricas ao seu redor enquanto que as rochas das montanhas protegiam e guardavam a entrada de nosso mundo. Todos festejavam, bebiam e gritavam se empanturrando como um bando de selvagens, ao comemorar a grande devastação causada pelo nosso governante em um dos povoados distantes, localizado ao norte daquela região.

Ali, no salão central, todos estavam reunidos esbanjando seu poder e sua força, rindo e se divertindo com o banquete que Sirius havia providenciado, mas ao contrário deles, eu me encontrava no canto mais distante dali, escorada em uma parede qualquer, enojada ao avistar aquela cena deplorável. Era lamentável como as coisas podiam chegar a tal ponto e, ainda assim, eu ser a única que não via o sentido real daquilo.

A única coisa que eu conseguia sentir ao estar ali era pena. Sim, eu sentia pena daqueles cujo azar tiveram ao cruzar nosso caminho, pena daqueles que tiveram sua liberdade e a perdiam, e pena dos que tinham a alegria de viver e ver o mundo, mas que agora, naquele instante perdiam a vida da forma mais hedionda e monstruosa possível. Era horrível eu sabia, mas não havia nada que pudesse fazer naquele momento, a não ser desviar o olhar e ignorar seus gritos implorando por piedade e clemência enquanto seus crânios eram esmagados e seus membros despedaçados.

E enquanto suas vidas se iam, o meu povo comemorava com alegria a morte daqueles meros prisioneiros. Estava errado. Algo estava muito errado, eu sentia e queria poder parar com aquilo, impedir que aquelas atrocidades continuassem acontecendo, mas como? Ir contra Sirius seria o mesmo que traição, ele era nosso lider e governante, sua palavra era lei, seus seguidores fiéis, seu exército poderoso e sua força incomparável. Era graças a ele que nosso reino era superior a outros e todos temiam nosso clã. Desafiar seu poder era inútil, ir contra ele suicídio. Não, eu não podia fazer isso.

Ao invés disso, apenas fechei meus olhos tentando ignorar o aroma de sangue fresco que impregnava o local e os gritos de comemoração a cada novo prisioneiro despedaçado. Qualquer um que me observasse com certeza pensaria que estava apenas aproveitando o momento, enquanto que na verdade, tentava não enlouquecer. Eu odiava aquilo, não importa se para todos ali, sentir pena era uma fraqueza, eu simplesmente já não aguentava mais aquela vida. Mas infelizmente, acabo sendo despertada de meus devaneios ao sentir alguém se aproximar.

- Aproveitando o show? - o ouvi dizer, e mesmo de olhos fechados, sabia que ele estava sorrindo.

- Como não aproveitar, General? - digo desafiadoramente, o encarando. - Ganhamos mais uma batalha, todos conhecem nosso poder e nossa força. Nós somos invencíveis e é uma tolice deles pensarem, realmente, em nós desafiar.

- Infelizmente, o mundo está cheio de tolos. - comenta, divertido, ao notar que mais um prisioneiro era trazido para o centro do salão, para assim encontrar seu fim.

- Não se preocupe, General. - sorrio. - Tenho certeza de que logo todos conhecerão e temerão ainda mais nossos nomes. Por enquanto, aproveite a noite. - e com um breve aceno, sai calmamente dali, deixando-o para trás.

Mas pouco antes de me afastar completamente, consegui ouvi-lo, conversando sobre um prisioneiro que realmente chamara a atenção de Sirius. Aparentemente, o jovem rapaz não fora capturado durante nossa pequena invasão, pelo contrário, após devastarmos seu povoado ele simplesmente tivera a ousadia de nos seguir durante dias e adentrar nosso mundo. Aparentemente, estando sozinho, seu plano era assassinar nosso líder e em seguida acabar com todo nosso povo. Com certeza uma missão suicida, já que sem reforços e sem guerreiros a seu lado, ele fora facilmente capturado sem ter sequer a mínima chance de escapatória.

Não havia dúvidas. Sirius estava cuidando pessoalmente daquele invasor, brincando com sua mente, ele o torturaria ao máximo até exaurir completamente as suas forças e quebrar seu espírito, para só então acabar com sua patética vida. Era ingenuidade, era tolice invadir nosso reino sozinho e realmente pensar que poderia nos atacar sem ser visto, sem ser pego. Mas havia algo que me incomodava nessa situação, uma pergunta que insistia em voltar a minha mente sempre que me lembrava do assunto. Por quê? Por que ele tentara invadir sozinho? Eu precisava descobrir.

Discretamente, continuei andando pelo salão fingindo estar interessada nos entretenimentos que aconteciam, pegando assim uma bebida e saboreando as iguarias que tínhamos para aquela noite. Sirius estava ocupado rindo e comemorando sua vitória sobre o povoado para sequer notar minha presença, e aproveitando essa oportunidade, me dirigi cuidadosamente à saída, passando discretamente pelos portões, sendo encoberta pelas sombras das tochas.

Os corredores se encontravam desertos, e o silêncio era gritante enquanto caminhava rapidamente pelos ladrilhos escuros do chão. Após alguns minutos, caminhando calmamente, virei à direita em um simples corredor e me dirigi à ala leste do reino até chegar a uma longa escadaria em espiral, levando-me assim a masmorra onde mantínhamos nossos prisioneiros de guerra.

Nenhum guarda podia ser avistado e tudo se encontrava extremamente silencioso, e por um momento pensei se seria possível que todos os prisioneiros já tivessem encontrado seu fim naquele salão. Andando com calma, passei em frete a cada uma das vinte celas que havia naquele corredor. Algumas continham ossos de prisioneiros que simplesmente morreram ali há muito tempo, outras eram tomadas pelo mofo e o sangue fresco dos que há pouco estiveram ali, mas foi apenas quando cheguei na vigésima e última cela que o vi.

Seus braços estavam presos sobre a cabeça, sendo contidos por correntes grossas e pesadas, seu peito estava descoberto mostrando assim arranhões, hematomas e ferimentos profundos que cobriam cada parte do seu ser, enquanto que a cabeça pendia para baixo, escondendo seu rosto e mostrando que já foram subjugado há muito tempo. Com cuidado, abri a única passagem daquela cela e adentrei o lugar, me aproximando do prisioneiro e me deparando com pedaços de tecido e manchas de sangue próximos a seus pés.

- Por que não me matam de uma vez? - o escuto perguntar com a voz rouca e a cabeça ainda abaixada, provavelmente pensando que seria Sirius ou então um dos guardas a entrar ali.

- Não seria divertido pra eles se morresse rápido. - respondi, atraindo assim sua atenção.

Ao erguer a cabeça pude prestar mais atenção em seu rosto, seu cabelo era curto e um pouco arrepiado, sendo coberto por sangue, suor e terra. Os olhos azuis, eram moldurados pelos cílios longos e negros, e me encaravam com surpresa e curiosidade. O nariz era longo e fino, destacando perfeitamente a expressão em seu rosto enquanto que seus lábios mostravam um pequeno corte do lado esquerdo, causado por um soco provavelmente.

- Quem é você? - o ouço, se esforçando para se manter consciente.

- Não sou ninguém, o importante agora é quem é você. - admito, curiosa, me aproximando dele. - Soube que você entrou pela passagem e tentou acabar com a vida do governante. Por quê? Isso é suicídio, ele é o mais forte entre todos aqui!

- Ele... precisava pagar. - murmura, tossindo um pouco de sangue e fechando os olhos.

- Você é um tolo. Como pôde simplesmente vir até aqui sozinho e achar que conseguiria obter êxito? - murmuro descrente. - No que estava pensando?!

Ele estava condenado. Mesmo estando há poucos minutos ali, eu sabia perfeitamente por seus ferimentos que o haviam torturado e o maltratado além do limite, e agora seu coração pulsava lentamente e a qualquer momento pararia permanentemente. Suspirando e não acreditando em mim mesma, me dirigi até as correntes em seus braços, soltando-o e apoiando seu corpo pesadamente antes que o mesmo caísse e atingisse o chão, depositando-o no mesmo.

Sua respiração estava fraca e não fazia idéia do que poderia fazer para ajudá-lo, não havia como salvá-lo, sua vida era única e não poderia segurá-la em nosso plano a não ser... Não! Não, não, não, não, não! Seria loucura, não havia a menor chance de conseguir fazer isso, era praticamente impossível! Além do mais, mesmo se eu obtivesse sucesso, ainda seria praticamente impossível retirá-lo dali.

- Encantamento... - o ouço dizer, vendo-o retirar debilmente um pedaço de papel que ele havia escondido em um dos bolsos de sua calça. - Eu fiz... os preparativos, mas... mas fui pego antes de... co... começar. - confessa, tendo dificuldades de respirar.

Imediatamente peguei aquele pequeno pedaço de papel e o desdobrei, e enquanto lia seu conteúdo finalmente entendi o plano daquele ingênuo rapaz. Aquele era um antigo cântico, provavelmente de uma sabedoria de milênios atrás. Como ele conseguira tal relíquia? Infelizmente, ao analisar o cântico uma falha se tornou visível. Para que aquele encantamento funcionasse seria necessário muito mais do que meros preparativos, para que obtivesse sucesso uma grande quantidade de energia e de magia teria que ser sacrificada. Ele não conseguiria, mesmo que estivesse na sua melhor condição não seria o suficiente, o encantamento sugaria sua vida e ele morreria. O que eu faria?

Olhando-o uma última vez, dois pensamentos vagavam em minha mente, deixar que a vida seguisse seu curso ou os prender eternamente. Eu não sabia o que fazer, as duas opções eram terríveis, mas algo em meu interior não queria que aquele pobre rapaz morresse e não queria que ninguém mais passasse pelo que ele passara, e foi assim, sem pensar em mais nada, sem considerar os riscos e as consequências tomei minha decisão. Aquela que mudaria completamente minha vida e que afetaria tanto o meu povo, quanto aquele rapaz desconhecido.

Sem mais delongas, invoquei todo o material que precisaria. Velas começaram a aparecer por toda a cela enquanto que símbolos negros se desenhavam nas paredes e no chão, tendo o jovem como centro de tudo. Eu realizaria duas cerimônias, mas ambas eram complexas e exigiam muita magia e força de seu praticante, fazer uma já seria praticamente impossível, mas se quiséssemos ter alguma chance as duas deveriam ser realizadas ao mesmo tempo.

Sinceramente, não sabia se iria funcionar ou se conseguiria ir até o final. Talvez falhasse, talvez morresse antes mesmo de completar o encantamento, mas uma coisa era certa, por algum motivo eu me sentia em paz com o que iria fazer e foi pensando nessa paz que comecei a cerimônia. Segui o mais firme que podia, vendo o castelo inteiro tremer e uma forte onda de luz me cegar, enquanto o suor escorria por meus membros que queimavam em uma dor causticante que parecia devorar cada vez mais minha existência, antes de enfim perder a consciência e me deixar ser embalada pelos braços da escuridão.

🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺🌺
E ai, pessoal? Gostaram do Prólogo?
Querem mais capítulos? Se sim...
Comente, vote, compartilhe.

Isso me inspira a trazer novos capítulo para vocês. Bjs... até o próximo capítulo.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top