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- Você está planejando usar tudo isso? - Camila passou o dedo por uma das facas que carregava na bolsa sem nem tentar escondê-las.

Quando aterrissaram no aeroporto John Wayne, ela foi apresentada aos seguranças de Lauren e percebeu que não eram humanos. Mas também não eram inumanos ou malignos, isso ela teria sido capaz de sentir, como no caso do atendente da mercearia, que chamou sua atenção como um luminoso de neon. Para se sentir mais segura, ela preferiu pegar a bolsa com seu arsenal particular assim que apanhou a mala da esteira de bagagens. Ela deu de ombros, tentando parecer despreocupada como a maior.

- Fico mais tranquila com isto aqui ao alcance da mão. - Ela vinha matando criaturas inumanas e malignas desde os dezesseis anos, e fazia muito tempo que não perdia o sono por isso. Sua preocupação naquele momento era Lauren. Aquela coisa horrenda a conhecia... e a respeitava... e ficou com medo quando foi ameaçada por ela. E Camila, enlouquecida como estava, ainda se sentia segura ao lado de Lauren, uma sensação que não experimentava desde os cinco anos de idade.

Minha nossa... Ela sabia como ignorar certas coisas, esperar por uma melhor oportunidade. Já tinha descoberto onde Sam trabalhava, podia ter feito tudo de uma forma mais discreta. Em vez disso, preferiu se expor completamente, como se de repente tivesse decidido ficar nua em público. Ela havia feito aquilo porque não podia deixar de fazer. Era nova demais para conseguir salvar sua mãe, mas desde então jurou que nunca mais veria outra pessoa inocente ser morta na sua frente. O olhar no rosto de Sam quando desistiu de atacá-la dizia tudo: ele estava procurando encrenca. Ela não ia permitir que ele fosse embora com um pensamento como aquele na cabeça. Não conseguiria parar de pensar em quem ele iria descontar aquela humilhação e frustração, e que ela teria sido capaz de impedir que aquilo acontecesse.

- Você fica mais tranquila carregando uma arma? - Repetiu Lauren, observando-a a seu lado no banco traseiro do carro. Seu Maybach preto subia pela encosta de um morro, vencendo a estrada sinuosa e deixando a cidade para trás.

- O que você é? - O coração dela estava disparado, forçando-a a admitir o quanto estava abalada. Com um esforço tremendo, conseguiu fazer com que seu cérebro parasse de especular sobre coisas que ela não entendia. Não era o momento de correr de volta para o precipício escuro dentro de sua mente, para o lugar onde a insanidade sussurrava em seu subconsciente como um amante carinhoso. Seu terapeuta da infância a considerava um dos casos mais bem-sucedidos da carreira dele. Achava que ela era uma mulher muito bem resolvida para alguém que havia testemunhado o assassinato brutal da própria mãe aos cinco anos de idade. Ele só não sabia que, quando um dos pilares de sustentação de sua vida fora arrancado, ela mesma havia criado outro.

Uma existência na qual criaturas com poderes inexplicáveis trabalhavam em mercearias e cortavam a garganta das pessoas na frente dos próprios filhos. Ela havia se tornado uma guerreira nesse mundo em preto e branco, onde humanos enfrentavam inumanos ferozes. Mas a existência de Lauren e seus guarda-costas punha um ponto de interrogação em uma afirmação que até então ela aceitava como verdadeira. O que Lauren seria? E o que ela seria? Onde ela se encaixaria num contexto no qual criaturas inumanas não eram necessariamente malignas? Camila sentiu um nó apertando na garganta, o nó da incerteza e da confusão.

Lauren curvou os lábios de maneira quase imperceptível. A energia quente e pulsante que preenchia o ar ao redor parecia estar em completa oposição com aquela postura insolente e relaxada. Ela estava elegantemente acomodada no assento, com uma aparência graciosa porém mortal. Quando dirigiu sua ameaça a Sam sem alterar o tom de voz, ela conseguiu entender por que a tal criatura quase se mijou toda. Embora parecesse impassível por fora, Lauren ressoou como um tornado para ela, uma força destrutiva, violenta e implacável. Se a morte tinha um rosto, era o de Lauren quando estava irritada: e sua beleza inacreditável só servia para tornar esse fato ainda mais assustador.

- Você não sabe o que eu sou. - Ela falou, e a voz ressoou dela como nunca. - Mas sabia o que era o atendente lá da loja?

- Eu só me arrisco a descobrir quando estou com a faca na mão. - Ela se moveu absurdamente depressa. Num momento, estava a um braço de distância. No instante seguinte, ela estava sendo imobilizada por Lauren. A mão que segurava a faca estava prensada contra o assento de couro, enquanto a outra era mantida sob controle diante de um punho de ferro. Os olhos verdes de Lauren brilhavam, literalmente reluziam na escuridão. O coração de Camila estava disparado, de admiração e de medo. Não fazia ideia de quem ela era, mas sabia que era capaz de liquidá-la sem esforço. Sua força irradiava como uma onda, fazendo sua pele esquentar e seus olhos arder.

- Me solta. - O olhar de Lauren era uma mistura de raiva e excitação.

- Você vai ver que eu sou extremamente permissiva com você, Camila. Vou deixar que você faça coisas que não admito que ninguém mais faça. Mas, no que diz respeito à sua segurança, a coisa fica bem séria. Você matou um dragão sem que ele tenha feito nada contra ninguém. Por quê?

- Um dragão? - Ela quase perdeu o fôlego. - Está falando sério?

- Você nem sabia o que ele era e já quis matá-lo?

Ao perceber que ela estava, sim, falando sério, Camila desabou no assento e abandonou todo e qualquer impulso de resistência.

- Eu sabia que ele era maligno. E que não era humano. - Assim como Lauren não era, ela também sabia. Ela não era humana, mas também não era cruel. Era assustadora, mas não provocava aquele medo paralisante que a afligiu quando sua mãe foi morta. Camila procurou dentro de si, esperou que o pavor aparecesse e a sufocasse. Mas isso não aconteceu. A turbulência que sentia haver dentro de Lauren não era um arroubo de violência. Até isso nela era diferente, o modo como acionava seu radar interior. Camila a compreendia da mesma maneira como compreendia os eventos climáticos, como se Lauren fosse um dos ventos que se comunicavam com ela desde sempre. Havia algo familiar nela, algo que ela não era capaz de explicar nem de negar. E, apesar de estar submetida a ela, sentia que seu toque era firme porém suave, que o olhar no rosto dela era de desejo e tormento... Tudo o que Lauren fazia para ela só a tornava mais humana a seus olhos.

Ela podia ser o que fosse, mas Camila a via como uma mulher. Não um monstro.

Lauren a encarava com os dentes cerrados. Sobre elas, o teto de vidro do carro revelava o céu escuro e estrelado. Os segundos foram se passando, e ambas se mostraram incapazes de desviar o olhar. Por fim, ela sussurrou algo num idioma que Camila não conhecia, com a voz trêmula de emoção que provocou nela um estremecimento de surpresa. Lauren inclinou a cabeça. Encostou a têmpora na dela e começou a acariciá-la com o rosto. Roçou a orelha de Camila com os lábios, e os cabelos sedosos dela eram como fios de seda contra a testa de Camila. O cheiro dela, um aroma de terra molhada depois da chuva, a envolveu. Seus lábios se abriram, sua respiração se acelerou e ela buscou cegamente pela boca da serafim, tomada por uma necessidade inexplicável de sentir o gosto dos lábios de Lauren. Ela recuou e se recostou no assento. Virou a cabeça para o lado e perguntou num tom absolutamente controlado:

- Como você sabia? - Camila permaneceu imóvel, devastada pelo fim de um momento de ternura tão fugaz que chegou a se perguntar se não o havia imaginado. Teve que se esforçar para se recompor, e engolir em seco para recuperar a voz.

- Eu consigo sentir essas coisas. Sei que você também não é humana.

- E pretende me matar? - Aquela insinuação ameaçadora a deixou arrepiada. Ela se ajeitou no assento.

- Se for preciso.

- E está esperando o quê?

- Mais informações.

Ela começou a virar deliberadamente a pequena lâmina por entre os dedos, tentando recobrar seu ponto de equilíbrio dedicando-se a uma atividade mais familiar. Não iria dizer nada sobre o vento e sua comunicação com ele. Nada garantia que esse fato não podia ser transformado em uma fraqueza a ser explorada.

- Você é... diferente. Não é como os outros.

- E o que exatamente são esses outros?

- Vampiros.

- Vampiros?

- Isso. Dentes afiados, garras, sede de sangue. Maldade.

- E desde quando você mata vampiros?

- Já faz dez anos. - Houve um silêncio prolongado.

- Por quê?

- Chega de perguntas. - Ela protestou. - O que você é?

- Estou ouvindo o seu coração bater acelerado. - Lauren comentou baixinho. - Você faz bem em ser prudente. Não sabe quem eu sou nem o que posso fazer. E o fator surpresa não está mais do seu lado. Eu já sei do que você é capaz. - Camila sorriu em resposta ao desafio, apesar de não ter achado graça nenhuma. O estado de espírito de Lauren era volátil, e abalava os sentidos dela como uma tempestade de verão.

- Você não faz ideia do que eu sou capaz. Na verdade ainda não viu nada. - Inclinando-se na direção dela, ela repetiu pausadamente: - O que você é?

A serafim se virou para a frente.

- Quando chegarmos em casa, eu mostro para você. - Camila a encarou enquanto brincava despreocupadamente com a faca. Lauren havia investido contra ela momentos antes, pegando-a de surpresa, e nem isso serviu para colocá-la na defensiva. Estava totalmente seduzida por ela, apesar de saber o quanto podia ser perigoso. O que quer que fosse que descobriria sobre Lauren Jauregui, o fato era que ela tinha conseguido iludi-la. E isso era mais perigoso do que qualquer garra, presa ou escamas que ela viesse a revelar. E muito mais assustador também.

Ela se concentrou no belíssimo perfil de Lauren. Mesmo depois de ter sido o alvo de sua plena atenção nas duas horas anteriores, ela ainda estava impressionada com o desenho de seu maxilar e o contorno aristocrático de seu nariz. E adorava também os lábios dela, tão lindamente desenhados que pareciam uma obra de arte... Imagens mentais daquela boca sedutora percorrendo sua pele enquanto sussurrava palavras carinhosas e eróticas em meio a sorrisos fizeram o coração dela se apertar. Em sua mente havia todo um repertório de imagens íntimas e difusas que pareciam ser quase lembranças. A excitação se fez sentir à flor da pele, enrijecendo seus mamilos e fazendo brotar um líquido quente no meio de suas pernas. Ela virou a cabeça e olhou para o outro lado, fazendo força para domar a respiração acelerada. Porra. O que estava acontecendo com ela? Estava descontrolada. Trêmula, irritada, excitada e, acima de tudo, descontrolada.

A distância entre as casas construídas em cima do morro ia ficando maior à medida que subiam. A iluminação da estrada se tornou escassa e depois inexistente, e o céu escuro permitia que enxergassem apenas o trilho estreito delimitado pelos faróis do automóvel. Ela lembrou a si mesma que Lauren era uma figura pública e que seu pai a conhecia, mas isso não era suficiente para que uma parte de seu cérebro se desviasse do fato de que ela não era humana.

O carro diminuiu a marcha quando chegaram a um portão de ferro que se impunha no meio do caminho, bloqueando o acesso ao local. Ela olhou ao redor e se fixou em uma coluna revestida de granito em que se liam as palavras MORADA DOS ANJOS. Um arrepio de inquietação percorreu a espinha de Camila. Um segurança enorme saiu de dentro da guarita. Ele deu uma olhada para o motorista de Lauren, Elijah, fez um aceno com a cabeça e voltou lá para dentro a fim de abrir o portão.

O Maybach percorreu mais uns bons metros antes que a casa se tornasse visível. Apesar da noite escura naquele local que pairava bem acima da névoa de poluição da cidade, Camila conseguiu enxergar a construção sem maiores dificuldades. Era tão bem iluminada que quase parecia ser dia. Era impossível se aproximar daquela casa por qualquer um dos lados sem vê-la. A residência erguida na lateral do penhasco tinha três andares, cada um com uma enorme varanda do lado de fora. Com acabamento em madeira rústica, degraus escavados na superfície do morro e vigas de madeira expostas, a casa quase parecia fazer parte da paisagem.

Ela não entendia nada de arquitetura, mas a Morada dos Anjos devia ser uma construção caríssima, como tudo o mais que Lauren possuía. Quando o carro parou, a porta do lado dela foi aberta por outro segurança. Enquanto Camila se preparava para descer, Lauren apareceu a seu lado com a mão estendida. Ela notou a velocidade de seus movimentos, algo que pelo jeito ela não via mais por que esconder, mas não fez nenhum comentário. Gostou de perceber que ela tinha desistido de fingir que era humana, mas não a elogiaria por isso. Os pés dela se fixaram sobre o caminho de cascalho. Estava tentando absorver mentalmente toda a grandeza da casa quando um movimento chamou sua atenção no perímetro de seu campo visual. Um lobo gigantesco se aproximava. Em um gesto instintivo de medo e surpresa, Camila se encolheu contra a lateral do carro. Lauren a pegou pelos cotovelos, e o escudo de seu corpo proporcionou a ela uma sensação de conforto e alívio indefiníveis.

O animal farejou um dos pneus, levantou a cabeça e a observou, demonstrando uma inteligência inquestionável. Os instintos dela gritaram, preparando seu corpo para um gesto de defesa.

- Não precisa fazer isso. - Murmurou Lauren, fazendo com que ela percebesse que já estava com uma faca na mão. Elijah contornou a parte da frente do carro. Um rugido grave reverberou em seu peito enquanto encarava o lobo. O animal deu um passo atrás e baixou a cabeça. Mais lobos apareceram. Uma alcateia inteira, talvez duas.

Camila não sabia quantos lobos eram necessários para compor uma alcateia, mas havia pelo menos uma dúzia de animais de diferentes cores circulando pela entrada da casa. Todos tinham um porte imponente. Pareciam ter um tamanho comparável ao de uma vaca. Um relâmpago cruzou o céu, reproduzindo com perfeição a carga de eletricidade que cercava Lauren. Minha nossa. Ela soltou um suspiro. O caráter sobrenatural tanto do lugar onde estava como da mulher ao seu lado a fez estremecer. O vento a acariciava, sacudindo seus cabelos, mas não parecia trazer nenhum aviso ou garantia de tranquilidade. Ela estava sozinha, e sentia que havia caído na toca do coelho, estava confusa, fascinada e atordoada. Lauren apontou para a casa.

- Vamos entrar. - Camila seguiu a indicação dela.

Entraram por uma porta dupla, atravessando um hall revestido em pedra para chegar a uma sala de estar enorme, localizada alguns degraus abaixo. Uma lareira imensa ocupava toda uma parede. Camila tinha quase certeza de que o carro dela inteiro caberia ali dentro.

- Gostou? - Lauren perguntou, observando intensamente a reação dela, como se sua opinião fosse muito importante.

O interior da casa de Lauren era um lugar extremamente bonito, decorado em tons de marrom e cinza, com toques de um vermelho vivo que lembrava ferrugem. Materiais naturais reaproveitados também haviam sido amplamente usados, aparas de madeira, tecidos de algodão cru, grama seca. Na parede em frente, havia uma janela enorme, com vista para os morros menores e o vale logo abaixo. Ao longe, as luzes da cidade piscavam como uma chama bruxuleante, mas a metrópole era outro mundo em relação àquele lugar transcendente. Impressionante era pouco para definir aquela casa, que combinava perfeitamente com Lauren. Por mais urbana e civilizada que parecesse, Camila sentia nela uma conexão visceral com a natureza. Ela apertou a bolsa junto ao corpo e se virou para Lauren.

- Por que não gostaria?

- Ótimo. - Ela fez um gesto imperial de aprovação com a cabeça. - Você vai ficar aqui por tempo indeterminado. - O autoritarismo em seu tom de voz era atordoante.

- Como é?

- Preciso que você fique aqui para poder garantir sua segurança.

Preciso que você fique... Como se ela tivesse o direito de fazer isso.

- Talvez eu não queira ficar aqui.

- Você devia ter pensado nisso antes de matar um dragão em público.

- Foi você que atraiu a atenção dele. Ou os seus guarda-costas, sei lá. Se eu estivesse sozinha, ele não ia nem reparar em mim. Portanto, se eu virei um alvo, a culpa é toda sua.

- Não dá para dizer de quem é a culpa. - Disse, sem perder a calma. - Elijah notou que você estava sendo seguida. Durante o tempo em que você ficou no banheiro, ninguém sabe o que Sam estava fazendo. Ele pode ter dito para alguém que viu você conosco. Caso tenha feito isso, seu desaparecimento vai levantar suspeitas, e nós vamos ser os primeiros interrogados a respeito. - Camila franziu a testa.

- Por que o fato de você estar com uma garota ia despertar o interesse de alguém? Você é linda e podre de rica. Aposto que vive acompanhada de um monte de mulheres. Está querendo dizer que ele avisou os paparazzi? Ou seus amigos dragões? - Lauren apontou para o corredor com um movimento gracioso com o braço.

- Agora vou mostrar o seu quarto. Podemos conversar depois que você se instalar.

- Conversar não. - Corrigiu Camila. - Você vai falar, e eu vou ouvir. - Lauren apoiou a mão na base da coluna dela, e Camila sentiu a energia que pulsava em seu corpo, um turbilhão contido por uma força titânica que a deixava perplexa. A energia da serafim era um tanto diferente quando estava em casa.

A tensão que Camila sentiu no começo era mais aguda, mais refinada. Ou talvez apenas mais aparente. Podia ser até algo proposital. Fosse como fosse, a agitação que Lauren demonstrou no Maybach parecia sob controle. Mas por que ela deixaria transparecer alguma inquietação para ela, uma estranha, para depois escondê-la no conforto de seu lar, o lugar do mundo onde devia se sentir mais segura?

Ela olhou em volta e percebeu que não estavam sozinhas. Havia outras pessoas por lá: mais sujeitos musculosos, e alguns eram tão elegantes quanto Lauren. E mulheres também, todas deslumbrantes o bastante para despertar sérios surtos de ciúme e insegurança. Ao todo, devia haver uma dúzia de espectadores ao redor da sala, medindo-a dos pés à cabeça com olhares um tanto hostis. Ela enfiou a mão na bolsa e envolveu com os dedos o cabo de uma segunda faca. Eles estavam em maior número e, por não serem humanos, eram também mais poderosos.

O coração dela disparou.

- Camila... - A mão de Lauren envolveu seu outro pulso, e seus batimentos desaceleraram imediatamente, uma sensação de tranquilidade se espalhou por seu corpo a partir do lugar onde ela a tinha tocado. - Você não precisa de nada disso. Este é o lugar mais seguro do mundo para você. Ninguém vai fazer nada com você aqui dentro.

- E eu vou fazer o possível para que seja assim. - Ela prometeu, falando para que todos ouvissem. Uma ameaça vazia, quase com certeza, já que ela não sabia nem ao menos com que tipo de criatura estava lidando.

- Muito cuidado. Você é mortal. E frágil. - Camila a encarou. Ela era capaz de se garantir contra qualquer outro mortal, até mesmo homens com o triplo de seu tamanho. O fato de Lauren descrevê-la como alguém frágil só reafirmava sua crença de que, fosse o que fosse, Lauren possuía poderes que ela nem imaginava serem possíveis.

- Mas ainda não sei o que você é. - A serafim suspirou.

- Você comentou sobre vampiros. Que outras criaturas você conhece?

- Dragões. Graças a você. - Lauren a soltou e deu um passo atrás.

- Se existissem anjos, você acha que seriam mocinhos ou vilões? - Camila ficou confusa. Anjos remetiam a histórias bíblicas, e ela tinha virado as costas para a religião fazia tempo. Não havia outra opção. Ela ficava furiosa só de imaginar que existia alguém com a capacidade de prever a morte de sua mãe, mas que mesmo assim não fez nada a respeito. Ela tentou relaxar os ombros rígidos.

- Isso depende da posição deles em relação a matar vampiros e dragões. - Lufadas de fumaça começaram a se erguer atrás de Lauren. Depois a névoa se espalhou, tomando a forma e a substância de asas, asas impecavelmente brancas com pequenas manchas vermelhas, como se respingadas de sangue fresco. Camila cambaleou para trás, mal conseguindo se equilibrar mesmo depois de apoiar uma das mãos contra a parede. A pureza da verdadeira forma de Lauren parecia capaz de cegá-la. O poder irradiava de seu corpo em ondas quase palpáveis. Ela sentiu como se estivesse cara a cara com a fonte de energia de todo o universo. As lágrimas brotaram de seus olhos e seus joelhos fraquejaram. O corredor inteiro começou a girar, e uma terrível sensação de déjà-vu se misturou à imagem das asas de Lauren. Roupas diferentes... outros cortes de cabelo... cenários variados. Por um instante, ela temeu que fosse desmaiar. E então tudo culminou em um único pensamento: um anjo. Que merda. A religiosidade era algo tão distante para ela que parecia ser um conceito de outro mundo. Inclusive naquele momento diante daquelas asas e daquele impressionante brilho dourado, o que ela sentia passava longe de ser um desejo de reverência. Parecia mais um desejo sexual primitivo e pecaminoso. Ela se sentiu ainda mais atraída por Lauren ao ver suas asas abertas, porque enxergar além de seu disfarce significava um acesso a seu verdadeiro ser, similar ao que ela tinha permitido a Lauren quando se revelou na mercearia.

Camila sempre tinha sido estranha. Mais rápida e mais forte que os demais, capaz de perceber as mínimas mudanças nos rumos do vento, que dizia para ela se havia alguma coisa errada a caminho. Quando criança, ela muitas vezes se sentia uma mutante, sempre precisava tomar o cuidado de vigiar a própria velocidade. Nos dez anos anteriores, vinha se esforçando para parecer normal enquanto procurava criaturas perigosas para matar. Ela já havia perdido as esperanças de manter um relacionamento amoroso de longo prazo. A necessidade de esconder uma parte tão importante de si mesma a havia transformado numa pessoa solitária na mais profunda acepção da palavra. E agora estava diante de alguém que sabia que ela era diferente. Alguém que era capaz de aceitar esse fato, porque, afinal de contas, também era diferente. Ela sabia que não podia conversar com ninguém a respeito do submundo que havia descoberto. Mas Lauren sabia de tudo...

- Você ia deixar aquele dragão escapar! - Camila acusou, escondendo sua súbita vulnerabilidade atrás de um ataque de raiva. Quando descobriu que ela caçava, Lauren tomou contato com sua essência, uma intimidade que ela não dividia com mais ninguém. E o fato de ser uma criatura etérea de beleza imensurável só a tornava mais preciosa aos olhos dela.

- A minha preocupação principal era com a sua segurança.

- Eu sei me cuidar sozinha. Você devia ter se preocupado com ele.

- Eu caço vampiros. - Lauren afirmou, tranquila. - E, como eu disse, ele era um dragão. - A porta da frente se abriu e atraiu o olhar de Camila. Elijah entrou, carregando as compras. Deteve-se logo depois, e seu belo rosto não demonstrou nenhuma reação diante do cenário tenso que se revelou sob seus olhos. Uma mecha de seus cabelos castanhos havia caído sobre a testa, emoldurando os olhos verde-esmeralda. Apesar de não tê-lo visto sorrir nenhuma vez, sentiu que ele exalava uma energia amistosa. Ele parecia simplesmente zeloso e bastante curioso. E muito inteligente. Espertíssimo, ela pensou, do tipo que nunca é pego desprevenido. Ela sentiu que Lauren se aproximava por trás. O cheiro da pele dela se fez sentir quando ela inspirou o ar novamente. Ela é um anjo. E caçadora de vampiros...

- Você deve estar com fome. - Ela murmurou. - Agora você vai guardar suas coisas e conhecer o lugar onde vai ficar, e depois podemos conversar enquanto eu faço o jantar. - A ideia de uma criatura alada celestial esquentando a barriga no fogão pareceu bizarra, mas ainda assim havia uma sensação de que o acesso à intimidade de Lauren, o fato de ela lhe preparar uma refeição, deveria ser algo natural.

Ora, ela precisava se controlar. Precisava entender as novas regras do jogo e aprender a aceitá-las, ou então contorná-las. O que não podia era continuar na ignorância, nem a ter alguém que dissesse onde ficar e aonde ir. Em algum lugar do mundo, os vampiros que mataram sua mãe estavam aterrorizando outras pessoas. Eles sentiam prazer em infligir sofrimento e medo. Ela não sossegaria enquanto não acabasse com eles. E queria fazer isso pessoalmente, e só deixaria de caçar quando tivesse a certeza de que eles nunca mais destruiriam a inocência de outra criança como haviam feito com a sua.

- Certo. - Concordou. - Mas, como eu disse antes, você vai falar, e eu vou ouvir.

***

- Quem é ela?

- Não sei. - Elijah apoiou o antebraço na cama de cima de um beliche no alojamento dos licanos e olhou para os machos e as fêmeas reunidas a seu redor. - Não sei o que se passa na cabeça de Lauren. Ela a viu no aeroporto e não tirou mais os olhos da garota desde então. Ela nunca deu bola para as mulheres, mas não consegue tirar os olhos dessa.

- Talvez a garota faça o tipo dela. - Comentou Jonas, confirmando sua ingenuidade natural de garoto de dezesseis anos.

- Os serafins não têm um tipo. Nem sentimentos, como nós. Não têm desejos, não ficam com tesão. - Pelo menos foi isso o que Elijah aprendeu quando filhote, e mais tarde constatou com os próprios olhos. Mas naquela noite, durante o trajeto da mercearia para casa, ele sentiu uma energia bruta irradiando de Lauren, algo que denunciava uma reação emotiva à ameaça imposta a Camila Cabello pelo dragão. E o jeito como ela a tratava deixava implícita uma ideia de possessividade. Ela agia como se Camila fosse importante para ela, apesar de serem claramente desconhecidas uma para a outra.

- Mesmo assim ela é gostosa. - Jonas comentou dando de ombros. - Eu comeria.

- Não fale isso nem de brincadeira. - Avisou Elijah. - Lauren acabaria com você. Quase matou um demônio em público só porque olhou torto para ela.

- O que teria irritado tremendamente Raguel. - Assinalou Micah, esfregando o queixo com a mão, pensativo. - Os arcanjos levam muito a sério esse negócio de território, principalmente quando diz respeito aos serafins. Isso sem falar da possibilidade de enfurecer os superiores do tal demônio. Seria encrenca demais para uma mulher que Lauren acabou de conhecer.

- Por que ela? Ela é humana. - O tom de voz de Esther era dos mais sérios, e as outras fêmeas concordaram com a cabeça.

- Ela exterminou um dragão como se estivesse espantando uma mosca. - Elijah notou a multidão de olhos verdes que o encarava. - Ela se movimentou numa velocidade impossível para qualquer mortal, mas você tem razão, Esther. Ela é humana. Não consegui farejar mais nada nela.

- Mas deve ter mais alguma coisa. - Supôs Micah, verbalizando uma suspeita que já estava pairando no ar.

- Pois é. - Concordou Elijah. - Eu a ouvi dizer para Lauren que era capaz de sentir a presença de demônios e vampiros, e que já faz dez anos que está no encalço deles. - Um rumor de descrença se espalhou pela matilha. Ele abriu um sorriso malicioso. - Lauren estava mostrando as asas para ela quando entrei na casa. Tem alguma coisa aí. Seria bom descobrirmos o que é.

- E o que podemos fazer? - Perguntou Jonas, olhando para Elijah em busca de uma resposta, assim como todos os outros licanos no recinto. Os outros recorriam a ele com uma frequência exagerada. Era um fardo que Elijah não desejava nem tinha condições de suportar. Todos sabiam que ele havia sido transferido para a matilha de Lauren a fim de ser observado. Ele achava que se tratava de um castigo por sua teimosia. Que a intenção era que ele desistisse de fazer as coisas à sua própria maneira. Mas até mesmo isso significava a ostentação de um poder que ele não possuía.

- Mantenham a cabeça baixa. - Ele enfim respondeu. - E o nariz em alerta. Jason insinuou que a morte de Nathaniel pode ter sido provocada por um licano. Não vamos dar nenhum motivo para eles continuarem com esse tipo de suspeita.

- Jason nunca confiou em nós. - Protestou Esther.

- E agora ele é o segundo na linha de comando. - Lembrou Elijah. - A opinião dele é importante. - Ele olhou para o alojamento comprido e estreito. Era um espaço com fins meramente utilitários, com várias fileiras de beliches de metal pintadas em verde-oliva e baús de metal da mesma cor. De todas as matilhas, a de Lauren era a que dispunha de menos conforto. A maioria das outras ficava em áreas remotas, onde os Sentinelas mantinham os vampiros confinados, locais onde os licanos podiam correr, caçar e fingir ser livres. Por outro lado, a matilha de Lauren era a de maior prestígio. A capitã dos Sentinelas pagava bem e oferecia alimentação de primeira qualidade para seus licanos e, o mais importante, caçava apenas os maiores transgressores, os vampiros mais ferozes, traiçoeiros e perigosos. Qualquer licano digno do nome ansiava a vida toda por uma presa difícil e desafiadora. Elijah encolheu os ombros. - Meu conselho: prestem atenção a tudo que disserem perto de vocês. Todo e qualquer detalhe é importante. E, por favor, pensem duas vezes antes de fazer qualquer coisa que atraia algum tipo de atenção para vocês.

O grupo grunhiu em discordância e se dispersou antes que alguém visse o que estavam fazendo. Conspiração e motim eram acusações graves que nenhum deles gostaria de enfrentar. Micah ficou por lá, passando a mão pelos cabelos ruivos que ele mantinha por cima de sua pele de lobo. Antes de falar, ele olhou por cima dos ombros fortes para se certificar de que ninguém ouvia. Depois se inclinou e falou:

- Ela pode ser o nosso passaporte para a liberdade. - Elijah ficou tenso.

- Pode parar por aí.

- Alguém precisa dizer isso! Nós não deveríamos viver assim... contrariando nossa própria natureza e reprimindo nossos instintos. Eu vi você carregando as compras da Lauren, caralho! Você merece muito mais que isso. E muito mais que ela!

- Já chega. - Elijah virou as costas. Não havia nada que ele pudesse fazer. O único efeito possível de uma rebelião seria a morte de seus entes queridos. - Ela salvou a minha vida hoje.

- E acabaria com ela com a mesma facilidade.

- Eu sei. Mas por ora estou em dívida com ela.

- Eu não posso deixar passar essa ocasião, e nós não temos chance sem você. Tenho certeza de que você entende a oportunidade que essa mulher representa. Se ela é assim tão importante para Lauren, quem sabe do que ela seria capaz de abrir mão para garantir sua segurança?

- Ela não abriria mão do controle sobre os licanos! - Elijah desabou na cama de baixo de um beliche. - Se você acha que com a nossa proteção os Sentinelas ficaram mais fracos ou desleixados, está delirando. Eles são serafins treinados para derrotar outros serafins, as criaturas celestiais mais poderosas depois do Criador. Lauren vive e respira sua missão. Os Sentinelas se preparam todos os dias como se o Juízo Final fosse amanhã. Eles acabariam com a nossa raça.

- Melhor morrer como licanos do que sobreviver como cães.

Elijah sabia que Micah não era o único licano com esse tipo de inquietação. Muitos outros acreditavam que a disputa de poder entre anjos e vampiros não era mais problema dos licanos, e que uma revolução para ganhar a liberdade representava uma obrigação da espécie. Elijah não discordava da ideia, mas também não tinha uma parceira ou filhotes por quem lutar. Só contava consigo mesmo, e caçar vampiros era sua vida. Trabalhar para Lauren lhe proporcionaria a oportunidade e os recursos para realizar o que fazia de melhor.

- Não estamos só sobrevivendo. - Ele disse baixinho. - Somos responsáveis pela contenção de antigos serafins. É uma grande responsabilidade.

- É servilismo puro.

- E o que poderíamos fazer se não tivéssemos essa função? Para onde iríamos? Você iria procurar emprego num escritório? Pegar o trem todos os dias para trabalhar? Convidar as criancinhas humanas para irem até sua casa brincar com os seus filhotes?

- Quem sabe? Eu seria livre. Só faria o que tivesse vontade.

- Nós seríamos caçados. Passaríamos o tempo inteiro fugindo, esperando o dia em que Lauren apareceria para matar todo mundo. Ser um fugitivo não é o mesmo que ser livre. - O ruivo se sentou a seu lado na cama.

- Você pensou bastante sobre isso... bastante mesmo, ao que parece. Infelizmente, preciso ir... Estou indo para Louisiana participar de uma caçada... mas nós conversamos de novo quando eu voltar.

- Não temos sobre o que conversar. Fugir seria inútil. Pode parar de forçar a barra.

- Eu sou o seu Beta, El. - Micah sorriu. - Essa é a minha função.

- Eu não preciso de um Beta. Não sou um líder de matilha.

- Pode continuar pensando assim, mas isso não vai mudar nada. Você consegue controlar seu lado selvagem e, por algum motivo, isso lhe dá força para exercer poder sobre os demais. Eu sei que você sente isso também, sabe que todos os licanos recorrem instintivamente a você em momentos de perigo. É uma coisa inevitável. Querendo ou não, você é quem manda aqui. Nós podemos virar tudo de pernas para o ar, mas, quando chegar a hora, vamos precisar de um líder, e você é o único aqui com o prestígio necessário para isso. - Elijah ficou de pé. O que o tornava diferente na verdade era a salvação dos demais. Se ele não assumisse a liderança do grupo, os outros ainda teriam chances de sobreviver. Ele sabia o que diziam a seu respeito. Sua capacidade de domar seu lado selvagem era uma tremenda anomalia entre os licanos. Medo, raiva, dor, tudo isso provocava reações indesejadas, mas ele nunca as demonstrava, a não ser quando queria. Para Elijah, isso até podia fazer dele um mutante, mas nunca um alfa. Isso certamente significaria conduzir sua espécie ao extermínio.

- Você está me pedindo para comandar um banho de sangue. - Ele falou. - Mesmo sabendo que não vai servir para nada. Isso não vai acontecer. Nunca.

- Tarde demais, El. O tempo de evitar isso já passou, e foi séculos atrás.

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