13

Lauren continuou a passar as mãos pelos cabelos para alinhá-los antes de se olhar no espelho oval do hall de entrada da suíte. Apesar da túnica comprida sem manga em estilo oriental que ela vestiu para esconder a ereção, o rosto vermelho, o brilho nos olhos e os lábios inchados pela volúpia de Camila denunciavam sua fraqueza mortal.

Ela examinou seu reflexo, controlando a respiração e tentando recompor as feições austeras que se esperava encontrar em seu rosto. Ela também recolheu as asas, sabendo que, assim como seu olhar, elas dariam pistas demais sobre seu agitado estado de espírito.

A campainha tocou pela terceira vez, seguida por outra batida na porta. Ela girou a maçaneta de um lado da porta dupla, depois se afastou e esperou que ela se abrisse. Enquanto caminhava pelo recinto, ela derrubou mentalmente algumas das flores mais cheirosas entre os vasos que ornamentavam a imensa suíte. Os aromas marcantes não eram capazes de ocultar o cheiro de sexo das narinas afiadas de um anjo, mas aquela tentativa de disfarce não deixava de ser uma demonstração de respeito.

- Capitã. - Jason a saudou de maneira a deixar claro que sabia o que estava acontecendo.

- Alguma novidade? - Ela foi até a cozinha e lavou as mãos, enxaguando o tão amado odor do desejo de Camila. Seu sangue ainda fervia pela lembrança da sensação do corpo dela em seus braços. Aquele delicioso momento de intimidade teria acabado com ela caso Camila não a tivesse feito rir, algo do qual ela nem se recordava mais de um dia ter feito. Lauren havia se esquecido de como a afinidade entre as duas era poderosa. Não se lembrava de ficar assim tão abalada. Era como se tivesse passado por uma fundição, sua matéria bruta aquecida até que ela derretesse, e depois remoldada numa nova forma.

- Onde está Karla?

Ela se virou, sentindo-se estranhamente agitada ao ouvir um nome que ainda não era capaz de explicar a Camila, e viu que Elijah acompanhava Jason. Os instintos primitivos do licano não haviam deixado passar batido o que estava acontecendo antes da interrupção causada por eles. O cheiro de Camila estava no corpo dela e, a julgar pela narinas abertas, Elijah tinha detectado isso.

- Camila - enfatizou Lauren, - ainda está se recuperando.

Jason o observou atentamente.

- Mas ela já se levantou. E... comeu.

- Como um caminhoneiro.

- E o braço dela? - Perguntou Elijah, com um expressão impassível.

- Está cicatrizando bem.

- Ótimo. - O licano acenou de leve com a cabeça.

Lauren cruzou os braços, observando Elijah. Não havia mais dúvidas de que se tratava de um alfa, não depois de observá-lo em ação juntamente com os outros licanos na limpeza do ninho de Hurricane. E também não havia mais dúvidas de que ele era perigoso: seu papel dominante e sua capacidade de liderança sobre os demais licanos eram sinônimo de problemas. No entanto, por ora, ele estava comprometido com Camila. Ela tinha salvado sua pele, e mais de uma vez, segundo ele dizia. Elijah pagaria sua dívida com ela protegendo-a com a própria vida, e era desse tipo de lealdade que Lauren precisava para mantê-la a salva.

- Eu só queria perguntar - começou Jason, indo até a mesa de jantar. - sobre a ideia de voltar a Utah amanhã mesmo. Esse cronograma ainda é viável?

- Eu já disse que sim. - Lauren falou num tom de voz baixo e tranquilo, mas teve que fazer força para não cerrar os punhos quando viu Jason parado no lugar onde ela havia penetrado Camila momentos antes. - Às seis em ponto eu já quero estar na estrada.

- Certo. - Jason apoiou as mãos na mesa e a encarou. - Helena está em Vegas. Ela quer ver você.

- Vou falar com ela assim que me trocar. Elijah, cuide de Camila.

Lauren foi para seu quarto, do lado oposto ao de Camila. Ela fechou a porta e sentou-se na beirada da cama, soltando um suspiro profundo antes de pegar o telefone e apertar o botão do interfone para o aparelho do quarto dela.

Ela demorou para atender.

- Alô?

- Camz... você está bem?

Ela suspirou.

- Não. Nem um pouco.

Lauren fechou os olhos. Ela estava visivelmente envergonhada e confusa.

- Eu preciso sair. Elijah vai ficar aqui com você. Podemos conversar quando eu voltar.

- Certo.

- Se precisar de alguma coisa enquanto eu estiver fora, é só pôr na conta da suíte.

- Ai, Deus. - Ela resmungou. - Por favor, nem tente me comprar.

- Eu jamais pensaria nisso. Você não tem preço.

Houve outra longa pausa. Quando voltou a falar, a voz dela parecia fria com aço.

- Você tem razão, Lauren. O meu preço é alto demais. E eu não vou deixar você pagar.

Ela olhou para a porta fechada e soltou um palavrão silencioso. Ela precisava que Lauren a confortasse e lhe dedicasse atenção depois do acontecido, mas com os outros ali Lauren nada tinha a fazer. Havia coisas que ela ainda não podia dizer, apenas mostrar para ela, mas apenas se tivessem privacidade para tanto.

- Quando eu voltar nós conversamos. - Ela repetiu.

- Cuide-se.

- E você se comporte. - Lauren pôs o telefone no gancho e ficou de pé. Quanto antes cuidasse de tudo, mais depressa poderia voltar para ela.

Camila tomou outro banho. Quando saiu do chuveiro, encontrou outras roupas à sua espera na cama. Estavam num cabide, e cobertas pela capa de transporte da loja. As peças estavam lá dentro, ainda com as etiquetas indicando seu preço astronômico. Era um belo conjunto, com calças preta e uma blusa estampada em azul-turquesa e dourado. Caríssimas e elegantes, bem ao gosto de Lauren. Um estojo de maquiagem estava logo ao lado, novo em folha. E, jogado em cima da cama como se fosse algo sem importância, um envelope com o logo do hotel, preenchido com um belo maço de notas de cem dólares.

Ela passou as mãos pelo rosto e soltou um gemido. A sentinela estava tão preocupada com Camila que a sufocava. Lauren era demais para ela. Camila não sabia como lidar com aquilo. Não sabia como lidar com Lauren. O modo como a olhava, como falava com ela, como a tocava... o que quer que estivesse fazendo, nada parecia gratuito. E, não importava o que ela dissesse, não importava o quanto ela resistisse, Lauren estava determinada a seduzi-la a qualquer custo.

Ela se vestiu e se arrumou, depois se sentou na poltrona onde Lauren havia feito sua vigília e ligou para seu pai.

- Cabello Automotores, Alejandro Cabello falando.

- Oi, pai. - Ela ouviu o ruído das ferramentas ao fundo, e sentiu um nó na garganta de saudade. O pai dela não conhecia nada a respeito do lado obscuro de sua vida, mas sabia que ela não era exatamente normal, e mesmo assim a amava de forma incondicional. - Sou eu. Desculpa não ter ligado antes.

- Oi, amor. Já está melhor? - Aquela voz tão querida parecia perturbada pela preocupação.

Ela franziu a testa.

- Melhor? Sim, eu estou bem. Muito bem, na verdade.

- Fico feliz de ouvir isso. - Um suspiro de alívio preencheu o silêncio entre eles. - Fiquei preocupado por não conseguir falar com você. Seu celular está caindo direto na caixa postal.

- Ah, sim. Eu ainda não pus para carregar desde que cheguei. Deve ter acabado a bateria.

- Agradeça a Lauren por ter ligado e dito que está tudo bem. Se ela não tivesse feito isso, eu já teria mobilizado a guarda nacional para ir atrás de você.

- A Lauren ligou para você? - Ela sentiu uma pontada de inquietação. Mesmo com tantos problemas em mãos, ela levou em conta a preocupação do pai dela e se deu ao trabalho de aliviá-lo. Essa demonstração de consideração a emocionou profundamente.

- Ontem. Ela me contou que você pegou uma virose. Você precisa descansar por alguns dias, e se hidratar bastante. E acho que você já devia pensar em algo mais sério com Lauren Jauregui. Ela parece gostar muito de você. Pode ter uma coisa interessante surgindo aí.

Como se fosse possível. Quando enfim encontrou uma mulher de quem não precisava esconder nada, ela não podia tê-la para si.

- Você está se cuidando direitinho?

- Se eu não me cuidar, sei que vou levar bronca, então, sim. Fui até a casa do Sam ontem à noite jogar pôquer.

- Que bom. - Camila sempre o incentivava a sair mais de casa. Uma noite de carteado com os amigos era um bom começo.

- Onde você está? No indicador de chamadas apareceu Mondego Resort.

- É um hotel do grupo Gadara. - Ela explicou, olhando para o logotipo da Gadara Empreendimentos na cabeceira da cama.

- Então você já voltou ao trabalho. Você precisa se cuidar melhor. Está sempre exigindo demais de si mesma.

- Veja só quem fala - ela rebateu - vamos fazer um trato: toda vez que você tirar um dia de folga, eu também tiro um.

Ele riu, e ela absorveu o som de sua risada com deleite.

- Certo. Combinado.

- Eu amo você. Ligo de novo daqui a uns dois dias, mas, se acontecer alguma coisa, pode me ligar no celular, que vai estar carregado.

- Pode deixar. Amo você.

Camila pôs o telefone no gancho e se preparou para sair do quarto, aproveitando para pegar sua bolsa no caminho. Não se ouvia mais vozes na sala de estar fazia um bom tempo, mas mesmo assim ela respirou fundo para criar coragem antes de abrir a porta. Ouvir a voz de seu pai ajudou a retomar o equilíbrio, mas a sensação de vulnerabilidade persistia. Lauren realmente a tinha deixado abalada. Por mais que desejasse o contrário, ela não tinha muito como resistir a ela.

Camila encontrou Elijah à sua espera no sofá, com os braços cruzados. Era uma presença marcante e formidável. A camiseta verde clara e os jeans folgados não escondiam seu corpo musculoso. Ele transmitia uma sensação inexorável de solidez e determinação, era o tipo de sujeito a quem era possível confiar a própria vida. Nesse sentido, ele era bem parecido com Lauren, também extraordinariamente firme e confiável. Esse sentimento de estar sendo protegida era uma das coisas que mais dificultava seu intuito de resistir a Lauren. Ela a desejava, gostava dela e, acima de tudo, confiava nela. Quando estava a seu lado, sentia-se em paz, um estado de espírito que não experimentava desde seu traumático encontro com os vampiros na infância.

Lauren havia devolvido seu equilíbrio. Mas, em retribuição, Camila  precisaria abrir mão dele. Depois de tudo que ela havia feito, ela não poderia pôr tudo a perder por um ato de egoísmo.

- Olá, El. - Ela sorriu para o belo licano. - Como você está?

- Vivo. - A voz profunda de Elijah ressoou pelo recinto. - Em grande parte, graças a você.

- Que nada. Você estava detonando. Eu só tentei ser útil em vez de dar uma de humana indefesa.

- Indefesa... - Ele ironizou. - Você não tem nada de indefesa. É totalmente maluca, isso, sim.

Camila concordou com a cabeça, abrindo um sorriso.

- Na maior parte do tempo, sou mesmo.

Os olhos verdes do licano a percorreram dos pés à cabeça.

- Como está se sentindo? Seu braço não está doendo?

Ela foi até ele com a mão estendida. A mancha rosada já estava sumindo, e uma leve penugem já havia aparecido desde o banho que ela tomara de manhã.

Elijah deu uma olhada na cicatriz e assobiou.

- Pensei que você fosse perder esse braço.

- Foi feio mesmo, né?

Ele lançou um olhar cheio de ironia para ela.

-Pois é. Quase foi destruído por um tiro de escopeta.

Camila se lembrou da dor agoniante e agarrou o braço com a mão, massageando o local onde a havia sentido.

- Como foi que ela fez isso?

- Eu bem que queria saber.

Ele parecia fascinado.

- Pode tocar. - Ela falou.

- Sem chance.

Ela levantou uma sobrancelha.

- Eu não mordo.

- Eu é que não quero deixar Lauren irritada. A curiosidade matou o gato também.

- Estou falando sério. Você está exagerando nessa coisa de ciúme e possessividade. Além disso, como ela ia saber?

- Ela ia sentir o meu cheiro em você. - Ela levantou a outra sobrancelha. - É sério. - Ele repetiu. - Não querendo criar uma situação constrangedora nem nada, mas estou sentindo o cheiro dela em você agora mesmo.

Ela sentiu um nó no estômago.

- Você também sentiu o meu cheiro nela?

- Sim.

- Puta merda. - Ela passou as mãos pelos cabelos. - Se eu quisesse me mandar, teria que passar por cima de você? Ou você ia me deixar ir embora numa boa?

- Pode tentar passar por cima de mim. - Ele rosnou de leve. - Vamos ver até onde você chega.

- Você tem ordens para me impedir?

- Não. Mas não vou perder você de vista.

Como confiava nele, ela resolveu se abrir.

- Estou brincando com fogo e sei que vou me queimar. Eu até aceito as consequências, mas Lauren... isso é a última coisa que ela precisa. Ela ainda está se recuperando do baque da morte de Nathaniel.

- Ela já é crescidinha. Sabe muito bem se virar sozinha. - A expressão de Elijah se atenuou. - Preocupe-se apenas em cuidar de si mesma.

Ela olhou para a mesa, e se lembrou vividamente da sensação de ter Lauren dentro dela. O tom de sua voz havia sido tão íntimo quanto o ato físico em si, e as palavras desconhecidas que Lauren havia dito mexeram com ela de uma forma que parecia familiar. Ela não sabia o que queriam dizer, mas sentia que eram coisas que um amante dizia para sua amada. Eram poderosas como carícias de verdade, espalhando-se por sua pele como uma brisa morna. Caso fosse possível que apenas ela sofresse as consequências, Camila a aceitaria. Ficaria com ela. Mas isso era impossível. Ela iria sofrer...

Ela soltou o ar com força.

- Meu instinto de autopreservação anda meio defeituoso.

- Isso eu percebi no outro dia.

- Está com fome?

- Eu até comeria.

- Vamos nos empanturrar e depois andar de montanha-russa até vomitar. - Uma descarga de adrenalina era a única coisa que podia desviar sua atenção da vontade de fugir. Ela estava abalada demais. Se não conseguisse relaxar um pouco, acabaria explodindo.

Elijah suspirou.

- Foi para isso que você salvou a minha pele?

- É isso ou eu me mando daqui. Você que sabe.

- Tudo bem. - Ele estendeu o braço na direção da porta dupla de entrada da suíte. - Mas já vou avisando: você não vai querer vomitar em mim.

Ela se pôs a andar, ansiosa para sair daquele lugar, que despertava tantas lembranças perigosas.

- Por que não?

- Porque senão eu vomito também. - Ele falou, abrindo a porta. - E garanto que como muito mais que você.

- Eca. - Camila estava quase no corredor quando um homem negro apareceu na porta diante dela. Ela parou, hipnotizada por seu sorriso contagiante. Era uma figura inconfundível. E também seu patrão. - Olá, sr. Gadara.

- Boa tarde, srta. Cabello. É com você mesma que eu gostaria de falar.

***

Assim que entrou no Hard Rock Café, Lauren pediu para falar com Helena Bardon. A recepcionista abriu um sorriso radiante e tentou engatar uma conversa, mas ela respondeu com monossílabos, com os pensamentos totalmente voltados para Camila. A bonita morena continuou flertando com ela até chegarem à mesa de Helena, mas seu entusiasmo esfriou assim que viu a mulher que se levantou para cumprimentá-la. Ela entendeu o motivo do desânimo da moça: uma loira de beleza monumental, com cabelos até a cintura e um par de olhos azuis faiscantes.

- Lauren. - Helena a abraçou com carinho.

- Quando fiquei sabendo sobre Nathaniel, quase morri de preocupação com você.

- Estou me virando bem.

Ela respirou fundo, e suas narinas delicadas se expandiram enquanto ela a observava.

- A sua Karla voltou para consolar você. - Fez um gesto para que ela se sentasse. - Você sabe que não estou aqui para julgá-la. - Ela disse baixinho enquanto se reacomodava no assento.

- Eu sei. - Depois de tanto tempo, Helena permanecia pura de alma e coração. Sua piedade era incalculável ela parecia inatingível pelo mundo que a cercava. Ela invejava aquela serenidade.

- Ela realmente é capaz de proporcionar conforto para você?

- Conforto e tormento, prazer e sofrimento. Tudo em doses extremas. Tudo é sublime e tudo é diabólico, e eu preciso disso para existir. Preciso dela. - Não havia muitos Sentinelas com quem podia conversar tão livremente. A fé inabalável de Helena lhe garantia uma imparcialidade de que poucos eram capazes.

Um garçom apareceu e elas fizeram o pedido. Dariam um fim em parte da comida para disfarçar, e os restos levariam para os licanos. Quando voltaram a ficar a sós, Helena se recostou no assento e de repente pareceu bastante preocupada.

- Em que eu posso ajudar? - Lauren perguntou. Procurou não demonstrar que a inquietação dela a afetava, mas era pura fachada. Helena sempre havia sido um dos pilares imutáveis de sua vida. Assim como Nathaniel.

- Demonstrando solidariedade. - Ela apoiou a mão delicada sobre a mesa. - Eu já contei que Mark, um dos meus licanos, diz que está apaixonado por mim?

Lauren ficou paralisada.

- Não.

- Pois é. Bom, pelo menos é o que ele acha.

Recuperando-se do impacto, ela falou:

- Não chega a ser uma surpresa essa possibilidade. Você é uma mulher lindíssima, além de ter um coração de ouro.

- Você sabe que a verdadeira merecedora desses elogios não sou eu, mas obrigada. - Ela batucou de leve com a ponta dos dedos na mesa, distraída. - Tenho feito de tudo para respeitar seus sentimentos, por mais inconvenientes que sejam. Ele vem fazendo seu trabalho melhor do que nunca por causa disso. Mark pôs sua vida em risco em situações que outros licanos se recusariam a enfrentar.

- Ele se tornou um problema para você?

- Não. - Ela suspirou. - Pelo contrário.

Lauren estendeu o braço e segurou a mão dela, ainda inquieta.

- Sou toda ouvidos.

- Eu entendo que ele tenha... necessidades. Sei que os licanos se reproduzem entre si. Mas... eu preferi ignorar a maneira como ele lidava com isso, e ele por sua vez sempre fez de tudo para ocultar esse tipo de atividade. - Ela apertou a mão de Lauren. - Mas esses dias, quando soube da morte de Nathaniel, eu liguei para Mark depois de tê-lo dispensado pelo restante do dia. Quando ele voltou, senti... senti o cheiro de uma mulher no corpo dele.

- Helena. - Lauren sentiu um aperto no peito, um sentimento de compaixão.

- Eu fiquei furiosa, Lauren. Como nunca tinha ficado na minha vida. Descontei tudo nele. Disse coisas cruéis só para magoá-lo. Acusei-o de ser fraco e sem caráter. E mais... muito mais. Não conseguia parar. Aquelas coisas horríveis saindo da minha boca e eu não conseguia parar. Fiz com que ele sentisse ódio de si mesmo. Ele que já sofria tanto, e eu ainda descarreguei todo o fardo da minha dor em cima dele.

- Você ficou com ciúmes. - E enfim descobriu o que poucos Sentinelas sabiam, que eles podiam ser tão possessivos como os licanos e os vampiros. Ao que tudo indicava, era um traço dos serafins que havia sido herdado pelos Caídos. - Podia ter sido pior. Quer dizer, se você estivesse dormindo com ele.

- E é com esse dilema que eu recorro a você. - Ela ergueu o queixo. - Você, mais do que ninguém, sabe como me sinto. Durante esse tempo todo, sempre acreditei que estivéssemos acima das necessidades carnais. Que a batalha contra a luxúria era uma que jamais precisaríamos enfrentar.

- Nós somos feitos para ser testados... você sabe disso.

- Sim, mas quando tentei explicar a situação para Mark, me explicar pela mágoa que tinha causado e avisar que ele seria transferido, ele me disse algo que sempre me passou despercebido. Nós somos proibidos de ter relações com os mortais. Licanos, vampiros... e até os demônios... eles não são mortais.

Lauren soltou a mão dela e se recostou no assento, despindo-se do papel de amiga e incumbindo-se do de comandante.

- Você está procurando uma brecha.

- Não ouse me julgar! - Ela exclamou, irritada a ponto de deixar de lado as boas maneiras. - Como você tem coragem de fazer isso, principalmente depois de aparecer aqui com o cheiro de uma mortal impregnado no seu corpo?

- O que você quer que eu diga? Seja sincera, você realmente me procurou em busca de uma demonstração de solidariedade? Porque isso você já sabe que tem. Sua história é de partir o coração. Não, você veio até mim em busca de absolvição. E isso eu não posso conceder.

- Por que não?

- Se eu permitir a você que cometa os mesmos erros que pratiquei estarei me igualando a Syre. Não quero ser o responsável pela sua condenação, Helena. Minha responsabilidade é fazer tudo o que estiver ao meu alcance para impedir a sua queda.

- Faça o que eu digo. - ela comentou, amarga. - mas não faça o que eu faço.

O olhar fulminante de Helena a fuzilou. Em poucos instantes, ela se tornou sua inimiga. No entanto, por mais que a raiva dela a magoasse, não havia nada a fazer.

- A resposta para a sua pergunta não sou eu quem pode dar. Você sabe disso.

O lábio inferior de Helena começou a tremer.

- Eu perguntei, mas não ouvi nada em resposta. O que me leva a concluir - ela falou baixinho, - que esse silêncio por si só já é uma resposta. - Trêmula, ela respirou bem fundo. - Pensei que você fosse me ajudar.

- Vou tentar. Mas não da maneira como você deseja.

Uma lágrima se formou e caiu sobre o rosto impecável de Helena. O sofrimento que emanava dela ecoava dentro de Lauren. Ela se retirou da mesa.

- Preciso de um momento para me recompor.

Lauren acenou com a cabeça e a observou enquanto atravessava o salão e se dirigia ao banheiro. Ela sacou o celular e digitou um número.

- Jason. - Ela falou quando seu tenente atendeu. - Encontre os seguranças pessoais de Helena e os convoque imediatamente.

- Vou cuidar pessoalmente disso. O que está acontecendo?

- Mais tarde conversamos. Se não conseguir localizar os dois em uma hora, me avise.

- Certo.

A comida chegou, e Lauren mandou de volta para que fosse embalada para viagem. O garçom demorou um bom tempo para providenciar o pedido, e nesse meio-tempo Helena não apareceu mais. Lauren sabia que a chance de ela levar sua ideia em frente era de meio a meio. Ela entendia bem sua situação, e sabia muito bem o que faria caso alguém se interpusesse entre ela e Camila, fugiria com ela e aproveitaria ao máximo o pouco tempo de que disporiam até que fossem capturados.

Ela pôs o dinheiro da conta sobre a mesa, pegou a sacola com a comida com uma das mãos e esfregou a garganta com a outra. Helena poderia largar com uma hora de vantagem. Era uma vantagem desprezível, mas a única que ela conseguia conceder antes de dar início à caçada a ela e seu licano descontrolado.

Lauren esperava que ela houvesse tido o bom senso de manter Mark à espera em algum lugar ali por perto. A alternativa a isso, a ideia de que ela tenha de fato achado que ela apoiaria sua decisão, era dolorosa demais para ser contemplada.

Caso os Sentinelas a vissem como alguém decadente a esse ponto, as provações às quais ela seria exposta num futuro próximo chegariam às margens do insuportável.

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