Se Engasgando de Ódio

Rodolfo foi diagnosticado com traumatismo lombar pós-traumático. Ou seja, ele perdeu o movimento das pernas por questões psicológicas e emocionais que também foram causadas pelas várias lesões que já vinha sofrendo algumas semanas atrás... a possibilidade de ele voltar por conta desse trauma é quase nula.

— Pode ser que um dia ele recupere o movimento das pernas, mas por enquanto recomendamos que ele faça fisioterapia com acompanhamento psiquiátrico. A propósito, o que houve no cemitério para ele ficar desse jeito? — Perguntou o médico tentando entender o caso. Que aliás, foi também a dúvida do coveiro que chamou a emergência.

Milton e Lucio não sabiam o que dizer. Não iam falar que foram visitar o tumulo da Lilian para pedir perdão e uma tal de Perséfone quase os matou de susto. Só falaram que ele teve a ideia de se ajoelhar para fazer uma oração para a finada e depois não conseguiu se levantar.

E isso era apenas o começo... pois o assunto mais comentado aos quatro ventos da escola é ele estava sendo castigado pelo que fez com a menina que morreu e por esse motivo, ele foi no cemitério para implorar pelo perdão dela.

Já achavam que não era mais coincidência..., mas sim uma maldição.

— Se ele foi lá, é porque tem culpa no cartório. — Alguém comentou. O que era muito estranho, pois a visita no cemitério era um assunto deles três. Não comentaram com ninguém, nem mesmo para o Kelvin. Então como foi que todos ficaram sabendo?

— Você contou para alguém? — Lucio interrogou Milton.

— Claro que não! E você contou?

— Também não... será que o Rodolfo falou para mais alguém?

— Achou que não. Ele não queria que mais ninguém soubesse para evitar fofocas, o que não adiantou nada. Todo mundo já está sabendo. Tem gente até fazendo apostas para ver quem de nós três será o próximo.

— Alguém da sala deve ter escutado a nossa conversa e espalhou para todo mundo. Agora quem foi?

Eles olharam por todo o pátio só imaginando quem deveria ser o responsável pelo boato. Poderia ser qualquer um.

E não era somente alunos e funcionários que comentavam sobre o assunto. A polícia também já está começando a desconfiar do grupo, tanto que foi atrás de Rodolfo para pegar o seu depoimento sobre a morte de Lilian. Para a sorte deles, ele estava tão traumatizado que não falava coisa com coisa.

— O que a gente faz? O cerco tá fechando!

— A gente precisa falar com o Kelvin. Essa ideia maluca de ficar perseguindo a pobre da garota foi toda dele. E não justo a gente se ferrar por causa dele.

Milton olhou para Lucio de cima a baixo com aquele comentário sobre a Lilian.

— Desde quando você acha a Lilian "pobre"?

— Como assim? — Ele se fez desentendido.

— Não se faça de besta, seu mané. Você também a maltratava.

— Olha só quem fala... você também foi babaca com ela. Se deixar, era muito mais do que o Kelvin.

Os dois ficaram se encarando por alguns minutos e chegaram à conclusão de que ficar se se acusando para ver quem foi o mais babaca com a Lilian não ia os ajudar em nada. Tinham era que unir forças para não serem os próximos da lista.

— E então, vamos conversar com o Kelvin?

— "Vamos conversar" o que com o Kelvin?

Eles se assustaram ao vê-lo atrás deles.

— Então, o que as garotinhas querem conversar? Que vocês foram no cemitério visitar o tumulo da Lilian e nem me consultaram?

— Te consultar para que meu? Por acaso você é médico?

— Acharam mesmo que ela ia os perdoar, depois de tudo que fizeram?

— Pelo menos a gente tentou... na hora parecia ser uma boa ideia.

— E por que não me chamaram?

— Achamos que você não ia querer ir... e outra, você não perdeu nada.

— Como assim eu não perdi nada? E o que aconteceu com o Rodolfo? Ele não acabou em uma cadeira de rodas de graça. Desembuchem logo o que houve!

Eles contaram que durante a visita no cemitério, Lilian realmente se tornou Perséfone, trocou o dia pela noite e apareceu na frente deles. Kelvin deu risada e caçoou deles.

— Qual é a graça? — Lucio interrogou mordido de raiva.

— Estou só imaginando a cara de vocês quando a viram. Deve ter sido muito da hora. Eu queria estar lá só pra ver como a horrorosa ficou. Espero que a morte tenha melhorado aquela cara feia dela...

— Não foi nada da hora, não senhor! Foi horrível. A gente não sabe o que ela fez para deixar Rodolfo preso em uma cadeira de rodas.

— Problema dele. Ninguém mandou ele aprontar com a garota.

Lucio se enojou com as palavras de Kelvin. Realmente colegas de zoação não são amigos. A sua maior vontade era de socar aquela cara de pau dele, mas foi contido por Milton. Eles já estavam sendo alvos de fofocas e não precisam de mais um motivo para ficarem falando deles. Mas Milton aproveitou a momento para dizer umas boas verdades a ele:

— Qual era o seu problema com a Lilian hein? Era só uma menina. Por que vivia implicando com ela?

— E vocês estão se doendo agora por que? Na hora de zoar com ela, não lembraram desse detalhe. E não venham dizer que foi influência da minha parte porque não cola. Entraram na onda por conta própria.

Infelizmente Kelvin tinha razão. Eles não tinham nada contra a Lilian, só mexiam com ela porque ele mexia.

O sinal tocou avisando para todos entrarem em suas classes. Para não ficarem mais perto do falso do Kelvin, Milton e Lucio pediram para alguns alunos trocarem de lugar com eles. Por mais que não quisessem sentar perto do maior encrenqueiro da sala, entenderam o dilema deles. No lugar deles, fariam o mesmo... ainda mais depois do que ele espalhou para a escola inteira que eles foram ao cemitério visitar o tumulo de Lilian.

— Como é que é? — Lucio perguntou abismado com o que acabara de descobrir.

— Vocês não sabiam? Foi ele que contou para todo mundo que vocês três foram ao cemitério.

— Isso mesmo, ele até postou fotos de vocês na floricultura comprando rosas e entrando lá... a sepultura da Lilian está no mausoléu, né?

Eles não queriam acreditar que foi o companheiro (depois dessa, não era mais) os seguiu e tirou fotos, mesmo com as provas ali nos celulares dos outros. Só não foram tirar satisfação com ele porque o professor de geografia entrou bem na hora.

Mas prometeram a si mesmos que aquela traição não sairia barato...

***

Perséfone e Hades só assistiam de camarote o grupinho de delinquentes se acabando e brigando entre si. E ela já havia escolhido o próximo da sua lista negra...

— Já sei até quem é... é o Kelvin, não é?

— Hum, não.

— Não? — Hades perguntou um tanto confuso: — Mas então porque me pediu para contar a ele o que os amigos dele iam fazer?

Foi Hades como Enrique, que procurou Kelvin e denunciou os seus amigos, a pedido de Perséfone.

— Sim, mas dele eu cuido depois. Agora alguém vai se engasgar...

***

E o quarto foi o Lucio. Ele agarrou o pescoço de Lilian e a estrangulou com tanta força, que chegou a sentir um dos ossos se partir ao meio. Até se pergunta de onde tirou forças para tal feito.

Agora ele estava com muita vontade de estrangular o traíra do Kelvin. A sua vontade de acabar com a raça dele era tão grande que chegou a criar um nó cego na garganta... um nó praticamente difícil de desatar.

E à medida que a sua raiva crescia, ia se embolando até ele se engasgar com a própria saliva, o que o fez passar mal no meio da aula.

— Está tudo bem Lucio? — Perguntou o professor ao notar que ele não estava bem.

Ele tentou disfarçar, mas não conseguiu. O professor pediu para alguém acompanhá-lo até a enfermaria. Milton se ofereceu para levá-lo apenas para saber o que estava acontecendo com a amigo.

— Cara, você tá bem? — Milton perguntou assustado ao ver que ele estava com falta de ar. Bem que Lucio tentou falar, mas a voz não saía. Ele só sabia apontar desesperado para dentro da boca e agarrar o próprio pescoço... até o momento em que ficou todo paralisado e cair praticamente duro no chão.

— Socorro! Ajudem aqui, ele desmaiou!

De repente o corredor da escola ficou lotado de alunos e professores. E todos se horrorizaram ao ver Lucio caído no chão se fosse uma estátua e com uma expressão igual as das vítimas do filme O Chamado.

Finalmente a enfermeira apareceu e verificou o pulso dele... após alguns minutos, anunciou o que muito ali já desconfiavam, mas ninguém queria ouvir:

— Ele morreu estrangulado!

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