Lilian conhece Enrique

Naquele mesmo dia com a ajuda da servente, Lilian pôde sair mais cedo da escola. Não estava com ânimo para ver o restante das aulas... na verdade, não tinha mais ânimo para viver.

Também não voltou para casa. Não estava com vontade de mais uma vez ter de disfarçar a tristeza para sua mãe, que estava sempre lhe encarando de mau humor ou escutar a falsidade de seu pai, perguntando como foi o seu dia na escola. A verdade é que ele queria saber se ela realmente ia para estudar. Ele achava que ela vai para correr atras dos meninos...

Estava cansada de tudo aquilo, da escola, da família, da vida, de tudo e principalmente dela mesma. Chegou a pensar que talvez se ela não existisse, não precisava mais sofrer.

Decidiu mudar seu caminho. Aproveitou que saiu cedo da escola e foi até uma pracinha perdida no bairro. Aquela praça foi montada pela associação de moradores para evitar que o terreno, propriedade da prefeitura virasse um deposito de lixo. A ideia foi aprovada por todos, mas só uma meia dúzia de pessoas faziam questão de fazer a manutenção do local.

Sentou-se em um banco debaixo de um imponente arvore no meio da praça e ficou olhando para o nada. Deixou cair mais algumas lagrimas e disse ao vento tudo o que estava entalado na sua garganta e no seu coração:

— Eu venderia a minha alma ao Diabo para que a minha vida fosse diferente! E também queria ver aquele bando de filhos da puta sofrendo pelo menos um por cento da minha dor! Na verdade, quero mais é eles sofram bilhões de vezes a mais do que eu! Quero que eles morram! Eu os odeio! Eu os condeno! Eu os repudio!

De repente uma leve rajada de vento passou por ali, entre seus cabelos. Deixou que a rajada levasse toda aquela magoa. Mas logo depois sentiu um arrepio em sua espinha. Era como se alguma coisa ou alguém estivesse lhe espionando ou tivesse lhe escutado.

Ouviu passos vindo em sua direção. Era o só que faltava, um daqueles idiotas ter cabulado aula para segui-la... ou todos eles. Não pensou duas vezes, pegou sua mochila o mais rápido possível numa tentativa desesperadora de salvar a vida. Nem olhou para as fuças do meliante.

— Espere por favor!

Reconheceu aquela voz. A curiosidade implorou para que ela olhasse para trás para ver quem era, mas o medo não deixava.

— Por favor fique. Prometo que não vou fazer nada. Nos conhecemos ontem no mercadinho do bairro, não se lembra?

Lilian somente se virou de lado para ter certeza de quem era aquela voz. Quando finalmente o fez, custou e muito para acreditar. Sim era ele, o bonitão que a ajudou no mercadinho!

Os dois permaneceram ali parados se olhando. Realmente ele era muito bonito. Estava mais do que no dia anterior. Aquele garoto era um verdadeiro colírio para seus olhos.

— Oi!

— Oi tudo bem? — Ele perguntou.

Ao mesmo tempo em que ficou aliviada por não ser nenhum daqueles vândalos, Lilian ficou meio que sem graça diante daquele rapaz. E um tanto preocupada, pois o que um garoto daqueles iria querer com ela?

— Sim está tudo bem... a proposito obrigada por ontem!

— Não foi nada. Eu vi o que aquele cretino fez com você e não consegui ficar parado.

Ela vibrou por dentro com aquilo. Estava tão acostumada a servir de palhaça e não ter ninguém para ajudá-la, que nunca lhe passou pela cabeça que um dia alguém faria isso.

E para ela, aquela atitude foi tudo!

— Qual é o seu nome? — Ele perguntou. Por mais que ele fosse bonito... bonito era apelido, era lindo, mas Lilian não se sentiu muito à vontade para dizer o seu nome a um estranho. Não tinha ideia de quem ele era e que queria com ela. Mas decidiu arriscar:

— Lilian...

— Uau que nome lindo! É tão lindo quanto você.

Ao ouvir aquele espetáculo de rapaz elogiando seu nome e a sua aparência, Lilian se sentiu nas nuvens. Era a primeira vez na vida que alguém a elogiava. Mesmo assim se manteve em alerta, pois não sabia quais eram as suas verdadeiras intenções.

"Quando a esmola é demais até o santo desconfia!"

— Muito prazer Lilian! Eu sou Enrique... sem o H. — Disse lhe estendendo a mão para cumprimenta-la.

Lilian só ficou olhando para a mão dele. Ficou com medo dele fazer alguma coisa com ela. Não seria o primeiro caso... lembrou de quando uma vez ia sentar na sua cadeira e um garoto a convidou para sentar. Acreditando que era um gesto de cavalheirismo, aceitou. Mas quando ia se sentar o idiota puxou a cadeira para trás e ela foi com tudo para o chão.

E é claro que mais uma vez ela virou motivo de chacota para todos. Fora que ganhou uma lesão naquela região da coluna que dói até hoje. Ela sempre se pergunta como não acabou em uma cadeira de rodas.

Mas voltando ao assunto, ela não quis pegar na mão dele.

— Olha não me leve a mal..., mas eu prefiro não aceitar, pelo menos por enquanto o seu cumprimento. Não é pessoal...

Ele entendeu. Mas mesmo assim tentou lhe passar confiança.

— Tudo bem, eu entendo. Mas quero que saiba que não quero lhe fazer nenhum mal. Sei que é difícil de acreditar em alguém que conheceu em menos de 24 horas..., mas quero realmente ser seu amigo. Eu sou novo pela região e não conheço ninguém.

Lilian só observou Enrique. Até que seria legal ter um amigo, já que ela não tinha nenhum. Mas admitiu que era muito estranho aquele rapaz com porte de príncipe, querer ser amigo de uma ridícula como ela.

Mas talvez ele nem quisesse nada com ela. Afinal, quem iria querer?

Como achava que não tinha nada a perder ou ganhar com aquilo, Lilian decidiu aceitar a suposta amizade de Enrique. Conversaram um pouco mais para se conhecerem melhor até que deu a horário de saída da escola, mas prometeram se encontrar no dia seguinte.

Pela primeira vez na vida, Lilian voltou para casa se sentindo bem consigo mesma. E foi preciso um desconhecido para fazer isso.

Mas quem será este tal de Enrique?

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