Pergaminho XVIII - (Parte I)

Edelweiss


Era um tanto inverossímil uma história dessas. Tudo bem que Henrique já havia visto o tal soldado num enfrentamento épico contra uma cobra gigante, mas imaginar ele liquidando dezenas de homens pela metade e lutando contra um monstro de dois metros não deveria ser algo que Laila esperasse que ele fosse acreditar tão facilmente assim.

— E o que aconteceu depois? — Henrique decerto ficou curioso para encontrar os limites duma história mirabolante dessas. Também era uma distração, em meio ao silêncio perturbador das vielas escuras de Garra do Falcão.

 Laila não respondeu de imediato. A jovem olhou para cima, parecia buscar nas estrelas como diria. Desprendeu um sorriso bobo.

 — Acredita que uma das primeiras coisas que ele disse depois de vencer aquele monstro, foi pedir desculpas pela forma como me tratou naquele dia?

 — Não é pra menos, ele foi um idiota mesmo. — o cientista mal olhava para a jovem, este se atentava mais aos cantos penumbrados e a qualquer movimento, mesmo de gambás ou roedores pequenos. Só deste modo mesmo para uma pessoa moderna se dar conta da importância da descoberta da energia elétrica e da invenção da lâmpada.

O frio também parecia tê-los abraçado com força. Laila esfregava os braços a procura por algum calor no atrito. O som dos seus dentes rangendo também ficou audível como o ruído dum azulejo sendo riscado.  Henrique não pôde deixar de se incomodar, claro. Respirou fundo, tirou uma muda de suas vestes e lhe estendeu com a mão.

 — Tome.

 — Não é necessário...

 — Com certeza é — ele estendeu mais o braço —, não precisa agradecer. É algo que qualquer um faria.

Laila sorriu de volta.

Em poucos passos chegariam na casa. Seu telhado de madeira já podia ser visto, mesmo que pouco iluminado pelas luzes vermelhas das tochas vindas de dentro.

 Abrigava-se por ali, uma serenidade tão singular. Henrique estava longe de sua terra natal. O local onde encontrava-se era estranho, as pessoas que conhecera, a cultura, tudo por ali beirava o irreal. No entanto, dentre todas as singularidades de um mundo que parecia também tão injusto e apavorante, se pudesse... Henrique com certeza levaria aquela paz e tranquilidade junto com ele quando fosse embora. O som do mar, dos grilos, a brisa fresca e úmida de um lugar puro naturalmente. Sentia o mesmo até em relação às pessoas que conheceu, ainda que a pouco tempo... Dentre aquele antro intimidante de mistérios, Henrique encontrou alguma coisa... Um sentimento... Não sabia como chamá-lo ao certo... Mas foi naquele dia que percebeu. Foi em Garra do Falcão. Mas por um instante, fez lembrar-se de sua infância. Por um instante, sentiu o gosto na boca, de um passado bem guardado em seu coração.

 — Sabe, Laila. — Henrique hesitou a princípio, mas continuou: — Hoje mais cedo você me perguntou se eu já tive algum momento com meus pais. — ele permanecia olhando em direção a estrada escura.

 — Sim, mas não precisa dizer, eu...

 — Eu não posso dizer que tive. Com meu pai os momentos foram poucos. Com minha mãe... Bem — suas írises moveram-se ao chão. Henrique pôs a mão no peito e sentiu seu coração disparado. Precisaria falar? Iria mudar alguma coisa contar sobre seu passado para ela? Faria alguma diferença? Ele respirou fundo mais uma vez. Tirou a mão do peito e olhou para a palma, entre os riscos cobertos de suor mesmo naquela noite fria. — Acontece que, em toda a minha vida, até hoje, eu nunca escutei a voz de minha mãe. — Henrique seguiu com uma pausa, como se organizasse as próximas palavras — Não é que minha mãe fosse muda ou algo assim. Eu soube por meu pai. — abaixou a mão e voltou a olhar para frente — Quando eu era bem pequeno, tinha lá uns três anos, minha mãe havia ficado grávida. Seria o segundo filho dela e ela o estava esperando muito! Meus irmãos não são filhos dela, apenas eu. — o homem suspirou, soltando o ar que havia prendido desde que decidiu contar essa história — Enfim, ela acabou perdendo o bebê. Meu pai disse que foi a partir daí que minha mãe nunca mais disse nada. Ninguém escutou mais sua voz pela casa.

 A cada frase, parecia que a temperatura se abaixava. Talvez o frio quisesse torturá-los mesmo.

 — Sinto muito. — Laila atreveu-se a olhá-lo de canto, ao passo que tentava seguir seus passos ao seu lado.

 — Só que... — ele moveu o rosto em  direção as estrelas — Havia um momento em que eu conseguia escutar a voz dela. De vez em quando, depois que meu pai e irmãos iam dormir. Nós nos sentávamos no banco suspenso, na sacada da minha casa. Eu deitava sobre os ombros dela e balançávamos no banco juntos. — o canto de seus lábios ergueram-se delicadamente e os olhos, mesmo presos em direção á estrada, perdiam-se em devaneios — E ali, com um som nasal, minha mãe entoava uma música. Sempre a mesma música, eu não fazia ideia qual era, mas sua melodia trazia tanta tranquilidade. Alguns anos depois que saí de casa eu descobri que se tratava de uma composição antiga, se chamava Edelweiss.

Até o momento, antes de assistir The Sound of Music, Henrique poderia dizer que nunca se emocionou com um filme, tinha um coração de pedra. Mas, na altura em que escutou Christopher Plummer chegar no segundo verso da canção, seu rosto já estava encharcado. Até então ele questionava-se se sua mãe sabia da onde aquela música era. Não tinham aparelhos de TV na casa e seu pai dissera que em todos os momentos que esteve com ela, a mulher nunca assistiu um único filme. De qualquer modo, de toda a dor que parecia presa em seus olhos fundos, esse curto som, de alguma maneira, lhe dava consolo. Por isso era uma memória que Henrique guardava com carinho.

 — Talvez um momento como esse, sirva de resposta para o que você tinha perguntado, certo? — seus lábios tencionaram-se retos. Mas ele soltou mais um sorriso sorrateiro de canto no final das contas. Já Laila lhe retribuiu com um bem mais exagerado. Ela riu baixinho e enfim, chegaram na casa.

A jovem mulher abriu e entrou primeiro. Fez silêncio, pois sua mãe já dormia. Henrique admirou uma última vez as estrelas antes de dar mais um passo. Ficou ali por um minuto.

 Fez bem em contar aquilo? De qualquer maneira, não importava mais.

 Abaixou o rosto e, num último instante, antes de fechar a porta, escutou um leve ruído vindo de fora. Um sopro que lembrava alguma melodia. Os ventos estavam cada vez mais violentos naquela noite, talvez fosse isso. Mas, por um breve momento, singelo, chegou a pensar que tivesse escutado um trecho de Edelweiss.

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 Tudo parecia tão vago, como se uma vertigem consumisse-lhe os olhos. Talvez fosse o calor. Sentia o mormaço na pele. Deveria fazer uns trinta e poucos graus naquela noite. Henrique levantou-se da cama, quem conseguia dormir com um calor daqueles? Por mais que o ventilador de teto estivesse ligado, não deixava de ser insuportável. Foi até a janela de sua casa; ainda não alcançava as persianas. Lembrava que seu pai havia lhe dito que até que ele fizesse uns oito anos teria altura suficiente, mas cá estava o garotinho, já fizera dez e teve que pegar a vassoura para empurrar mais a janela para cima.

 Ao menos assim, mesmo com uma rajada de pernilongos entrando no quarto, pôde sentir uma brisa refrescante vinda do leste. Se pudesse, dormiria apoiado ali na janela. Mas cair do segundo andar certamente não seria a sensação mais agradável do mundo. O jovem virou o pescoço para dentro e viu no relógio antigo. Eram quase três da madrugada. Seus irmãos dormiam nas beliches todos desengonçados. Um deles, inclusive, derramando uma enxurrada nojenta de saliva no lençol. “Patético” – sussurrou Henrique, inaudível. Ele os encarava com os olhos estreitados. Tinha dez anos mas sentia-se o mais velho de todos ali. Ou, ao menos o com mais classe.

Como estavam todos acostumados a pernoitarem sobre a mais absoluta escuridão do campo, um único sinal de luz vindo de fora da janela chamou a atenção do garotinho. Ele voltou a debruçar-se sobre ela. Alguém estava lá em baixo. Uma música vinha de lá. Descalço, cruzou o quarto com a ponta dos dedos – longe dele querer irritar seus irmãos. Chegou ao corredor e desceu as escadas no mesmo silêncio. A luz do andar de baixo estava apagada, mas notou que do lado externo brilhava acesa. A cada passo, o som baixo que antes o agraciava, tornava-se mais alto.

 “Uma melodia?” — pensou o garoto.

 Em vez de ir até a porta, foi em direção a janela da sala de entrada. Dava para ver toda a fachada da casa por ali. Esgueirou-se e pôs um olho no canto inferior. A princípio, o garotinho viu o movimentar de algumas sombras, até por fim, duas pessoas com as mãos entrelaçadas balançando seus corpos ao som daquela melodia. A mulher dava dois passos a frente, girava o corpo em volta do homem e finalmente, encostavam seus rostos como dois cisnes. Pareciam fazer cada passo de maneira bem ordenada. Foi a primeira vez que assistiu a uma dança.

Sua mãe estava deslumbrante. Desde quando ela tinha roupas tão lindas como aquelas? E seu pai? Ele sabia como segurar algo sem ser numa enxada? Ali Henrique percebeu que conhecia tão pouco deles quanto pensava. Seria alguma data especial? Aniversário de casamento, talvez? De qualquer forma, era tão fascinante ver aquela mulher com um sorriso evidente daqueles. Ele já tinha a visto sorrindo antes, mas nada como aquilo, não, com certeza não.

A música que tocava acabou e outra passou a ser reproduzida automaticamente. Um violino dramático foi o inicio e, por fim, seguiu para notas mais graves. Não levou nem dois minutos para Henrique notar. Era aquela música. A música da tranquilidade que não conhecia seu nome.

 Ele não sabia, era Edelweiss.

O tom de violino se misturou a um vocal feminino. A pessoa na acapella não cantava a música, apenas fazia um som único de “u” e “o” ao ritmo da melodia. Henrique já tinha lido numa das revistas que seu irmão trouxera da faculdade sobre orquestras e óperas. Escutar um ritmo tão deleitável e comovente como aquele, sem dúvida o fez, pela primeira vez, sentir-se em uma.

 Mesmo antes de terminar a música, Henrique os deixou ali. Subiu as escadas e deitou-se. Não sentia mais calor. O sono já o hipnotizava. Com certeza o garotinho conseguiria dormir agora.

“Sim, com certeza.” — ele sorriu e fechou os olhos.

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Henrique tremia. Pôs a mão em seu ombro, estava gelado e o cobertor, caído sob o chão. Por um momento havia pensado que realmente tinha voltado para casa. Fazia tempo que  um sonho tão realista assim não lhe acontecia.

 Da casa pequena podia ver Laila e Helga dormindo ao fundo. A luz da lua vinda da janela batia bem em seu rosto, não conseguiria voltar a dormir assim. Sentia-se diferente desde que contou a Laila seu passado. Como se, tivesse aberto uma caixinha muito tempo guardada. Nem mesmo sua tão antiga amiga Laura conhecia esta história. Por que ele contou? Ainda era difícil de compreender ao certo. Henrique sentou-se na cama. O frio parecia mais intenso. Tanto que o som de seus dentes se esfregando era bem evidente. De cabeça, chutaria uns seis ou cinco graus celsius. Era fácil prender-se nos pensamentos, mas se continuasse assim, passaria aquela noite em claro, o que seria péssimo.

Henrique cogitou voltar a se deitar e pôr um travesseiro sobre o rosto. No entanto, antes que prosseguisse com isso, escutou um som. O mesmo som de outrora. Baixo e suave. Aquele sopro que precedeu em seus ouvidos ao entrar na casa. Seus olhos percorreram o ambiente em desconfiança. E quando suas írises bateram na mesinha ao lado da cama, algo chamou-lhe a atenção. Aquela pedra esquisita que o acompanhou em sua viagem, brilhava num roxo púrpura ofuscante. Será que aquilo tinha alguma coisa a ver com o barulho? Henrique dobrou a testa. Colocou a pedra próxima ao ouvido. Não, não vinha dali. De todo modo, só o fato daquele brilho incomum ter iniciado ao mesmo tempo que o som apareceu, certamente entregava algo singular. “Talvez esteja relacionado?” Não fez cerimônias e logo levantou-se, vestiu uma túnica grossa, pegou a pedra e por fim, saiu da casa.

Ouvindo bem, o ruído soava leve e pairava como uma flauta. Henrique poderia jurar que se tratava de uma daquelas flautas de bambu chinesas. Certamente não equiparava-se a algo simples como o vento. Era um som que alternava entre o grave e o agudo. Até que, de uma forma repentina, sim, estranhamente súbita, a melodia começou a ter o acompanhamento de uma harpa. Mas não, com toda a certeza, isso em si não foi o mais extraordinário.

 “Edelweiss?” Henrique sussurrou incrédulo, já a passos da casa. Como podia ser possível?

 O som aparentava vir há uma boa distância dali. Será que estava ouvindo coisas? Realmente alguém tocava Edelweiss nesse mundo? Ele não pensou muito a princípio, somente tomou caminho em direção a música.

 “Tenho que ver com meus próprios olhos”

O ritmo e a melodia não mudavam. Já o volume, este aparentava se elevar de modo gradual, a cada pegada sobre a grama. O cientista parecia não se importar o caminho que o som o guiava, nem notou que já havia cruzado a placa da cidade e só depois de uns 5 passos percebeu que tinha penetrado entre as árvores da floresta.

Que ânsia absurda era aquela? Por que sentia tanto que precisava descobrir a origem da música? Seu coração palpitava e o ar faltava no peito só com a ideia de encontrar com o destino. Um desejo... Um som que o seduzia como uma dançarina despida em cima de um palco, cegando com luxúria quem a observava. Se bem que... Não era um sentimento como a luxúria que sentia, não, não era nem como o desejo de um vício, mas sim uma vontade que amarrava sua alma mas que ainda assim, o deixava são. Uma coleira em seu pescoço em que ele mesmo segurava a alça. Talvez fosse hipnose e a pontada no tórax algum efeito psicossomático? Podia ser que algumas das especiarias que tenha usado na receita mais cedo, continham derivados de folhas com dimetiltriptamina ou psilocibina. O suor pingava nos olhos. Sentia calor? Henrique tirou a túnica e a deixou ali mesmo sobre o galho de uma das árvores. Tanto faz, depois voltaria para pegar, só precisava chegar logo! Mas... Não estava fazendo uns cinco graus? “Esquece.”

É claro que nesta caminhada não pôde evitar que alguns questionamentos o invadissem a mente num flagelo. Tipo: “Por que exatamente começou escutar essa música justamente nesta noite, logo depois de contar a Laila aquilo sobre sua história?” “Ah, não importa...”

 Ele só tinha que chegar logo, a música estava ficando mais alta!

 Seus passos seguiam largos como de um soldado marchando. Mais um pouco e poderia dizer que Henrique corria. Por um momento o homem curvou o pescoço para trás, o quão longe havia ido?

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A missão número 00469 chegava ao seu término. Desde a última captura por parte dos soldados do Reino a alguns membros da Equipe Platina, a necessidade de encontrar novos integrantes era alarmante. Por isso, Steel já imaginava que um fracasso como esse poderia significar o seu fim. Afinal, o Grande Líder não tinha a fama de ser misericordioso.

 “Estava tudo ocorrendo bem.” – Steel reclamava a si mesmo, em voz alta. “Encontrar aquelas crianças foi um golpe de sorte. Certamente o grande líder me reconheceria... Eu teria tanta glória!”

Ninguém ainda havia ousado falar com ele. Não era para menos, a primeira derrota que seus homens chegaram a presenciar. Certamente todos ali da primeira divisão sentiram essa confiança abalada. E pra ajudar, Jahed tinha enviado um frio de lascar naquela noite. O grupo estava em volta da fogueira. Poucos dormiam, muitos também perderam amigos na última batalha e nutriam não só a baixa autoestima, como também ódio.

 Quem conseguiria dormir numa condição dessas?

No final das contas, a missão para recuperar membros, tornou-se um embargo de perder integrantes. Em sua mente, restava apenas ódio e um desejo ardente de vingança. Um desejo que o queimava de dentro para fora como uma fornalha de ferreiro.

Sim, vingança. Era isso que buscaria, antes de arcar com a punição que certamente estaria a sua espera pela falha.

Contudo, subitamente algo surgiu entre eles. Furtou-lhes a atenção, roubou os pensamentos e o abatimento no rosto de cada um por ali, de modo que estes foram remanejados. Steel sentiu uma luz forte bater em seu rosto. Uma aurora de púrpura, da mais cintilante ametista. O que era aquilo?

O gigante levantou-se.

Mesmo com a penumbra, seus olhos estreitados puderam encontrar um homem alto, fixado e andando numa direção específica.

 “Ele está vindo de Garra do Falcão?”

Steel lembrou-se novamente daquele merda. Ele rangeu os dentes em seu ódio. Apertou o punho e deu um soco na árvore mais próxima, derrubando um de seus galhos, o que levou os poucos ainda distraídos, a acordarem.

 “Garra do Falcão, né?”

Seu olhar sobre aquele homem desconhecido não externaria um por cento de seu ódio.

 — Venham! — ele gritou ao seus companheiros.

 — A onde vamos, senhor?

 — Vamos atrás daquele homem — apontou. —, quero fazer umas perguntas a ele e, se confirmar, vamos deixar um presente nessa manhã para os habitantes daquela cidade medíocre.

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