Pergaminho XVII
Dívida
A velocidade da luz...
Então era isso?
Laila já ouvira falar. Das histórias que seu pai contava. Daquelas antes de dormir. O velho Thomas dizia que a casa Curie dominava o poder da luz. Um poder invejado por incontáveis povos. Que os cidadãos do Reino Luminoso o detinham por serem um ramo da linhagem de descendentes do primeiro viajante, o ser mais poderoso que pôs os pés neste continente. Quem diria que um dia seus olhos teriam a honra de admirar a conjuração de luzes dum Prestígio de Fótons?
Afinal de contas, quem de fato era aquele soldado? Seria alguém com sangue de uma das casas paternas igual ela? Seria ele da casa Curie? Bem, sua pele negra com certeza não escondia sua ascendência ao Reino Luminoso, isso era um fato. Assim como havia dito antes a Henrique numa certa ocasião, não haviam muitas pessoas de pele escura fora da Ilha do Sol. Mas seria ele também da casa Curie, a grande majestosa casa real de lá? Quem poderia usar um poder tão incrível quanto esse, senão um nobre? Sua espada partia aqueles homens ao meio tão fácil como seria cortar um ovo cozido. E tal espada mal parecia se mover, era como se, a luz forte que emitia, fosse sua lâmina. Isso, numa velocidade de uma piscada.
Ao chegar em frente ao líder, uns quatro passos de distância, a diferença de altura entre os dois ficava nítida. O soldado deveria ter lá seus um metro e setenta e poucos. Mas ele não se intimidou nem por um segundo em resultado disso. Com o capuz ainda levantado, eles se encararam por segundos. Parecia que a luta já havia começado em seus olhares. Uma batalha de amedrontar. Até que, numa rajada, começaram as investidas. Diferente de seus capangas inúteis, Steel não foi tão facilmente atingido pela luz da espada.
— No momento em que vi seu brilho, percebi – iniciou o monstro – Percebi que a luz é que necessitava de minha atenção, não a lâmina. Essa luz, poderia facilmente matar qualquer um.
“Não é também como se fosse fácil desviar da luz, afinal, é uma luz! Como que se desvia de uma luz?” — Laila tentava ponderar o que aquele diabo fazia pra não ser atingido. “Distância? Essa é a resposta para vencer? Manter distância?” — Pelo menos era isso que parecia que acontecia, a cada dois passos do soldado, o monstro dava um para trás e, vez ou outra tentava enfiar sua gigantesca mão numa abertura para acertá-lo. Acontecia que, naquela luta, todo mundo desviava e ninguém era atingido. Uma batalha contra o vento praticamente.
— Eu sei como funciona esse poder. — voltou a dizer Steel. — Mesmo que seja a primeira vez que eu veja, já ouvi falar sobre o Prestígio de Fótons. Se você quisesse, poderia estender a luz da sua espada em metros de distância. Seria como uma espada enorme. Neste caso seria impossível que eu escapasse. Mas, se sua espada ficar tão larga assim, poderia atingir a garota e as crianças, não é mesmo?
O soldado esticou os lábios num sorriso sutil. Steel continuou, ao ínterim que pulava para a esquerda desviando de mais uma investida de Franco.
— Nesse ritmo, nós dois vamos nos cansar e, nós dois vamos morrer.
Desta vez, o soldado ergueu mais o sorriso a ponto de mostrar os dentes. Um sorriso malévolo, insensível. Ele gritou:
— Por mim tudo bem!
— Não — o troglodita levantou as sobrancelhas – na verdade, é você que parece mais cansado. O Prestígio de Fótons também tem o seu limite, certo? Se... Se você se cansar primeiro ou, se seu chade se esgotar, aí terei tempo de te matar e matar a garota.
Franco parecia bem debilitado mesmo. Era como se o esforço para ficar de pé fosse quase o mesmo que para segurar a espada. Aquele monstro tinha sua razão. Laila se perguntava o que o soldado iria fazer. Ele não parecia determinado a desistir. Antes que dissesse qualquer coisa, o capitão Steel lhe propôs:
— Vou embora e abortar essa missão. Ninguém do seu lado morreu, diferente do que eu posso dizer do meu. Se me deixar ir, pode ser que continue assim.
Para quem o observasse de longe, parecia que haviam jogado uma praia inteira de água em cima do soldado. De seu corpo, tanto suor se exprimia que sutilmente dava pra ver a espada escorregando das mãos. De fato, somente por Jahed mesmo que ainda estava de pé. Ele não atacou mais Steel. “Sensato” – Laila pensou.
Por fim, Franco concordou de uma vez, ofegante:
— Está bem, vão embora logo.
O outro reuniu o restante de seus homens e, deu passos lentos em silêncio a caminho da floresta. Antes, porém, de sumir no horizonte, virou o rosto:
— Eu não tenho vergonha de admitir minha derrota. Mas terei grande prazer em matar você e essa moça, numa próxima ocasião.
Por fim, adentraram entre os caminhos das árvores.
————||————
O líder Steel ainda estava vivo? Como era possível ter sobrevivido a aquilo?!
O vice capitão da primeira divisão da Equipe Platina conhecia bem a força de seu líder. Mas era inegável que mais alguns minutos lutando contra aquele guerreiro do diabo; Steel teria seu corpo cortado pela metade também.
— O quê está olhando? – o encarou.
O líder desviou o rosto, passou a olhar para cima das árvores, quase ao céu; como se buscasse ali algo que lhe entregasse o que dizer.
— Vocês foram uns inúteis, eu sei. Mas eu entendo que não tinha como ganhar daquele cara. Mas eu garanto a vocês que quando voltarmos e, com certeza vamos voltar, vou pendurar a cabeça daquele maldito numa estaca na frente da sua vila em chamas... — ele dobrou sua testa como papel amassado — Aliás... Você aí... Você! — apontou para um de seus homens. — volte lá e siga eles, descubra onde aquele merda mora. Tenho quase certeza que é em Garra do Falcão, já que é a cidade mais próxima. Veja lá! Eles vão conhecer o que acontece quando ousam desafiar a Equipe Platina.
O vice capitão, ainda com um certo receio contendo seus ombros para baixo, decidiu o indagar:
— Pretende atacar a vila deles mesmo, senhor?
— É surdo por acaso? Eu não acabei de falar que vou?
————||————
Talvez, por um instante, quase imperceptível para outros, cada respingo de suor do soldado que se derramava sob o chão, fazia um eco. Ele andava cansado. Como alguém que correu uma maratona. Não estava ferido, pelo que Laila podia ver, o único sangue nele, era de seus inimigos. Com a espada já na bainha, foi em direção a jovem.
— Você está bem? — foi a primeira coisa que ele perguntou.
Laila ainda o encarava com curiosidade, agora que estava mais perto podia ver bem seu rosto. O homem realmente era mais bonito do que se lembrava. O cabelo ralo mal dava volume ao capuz negro levantado. O homem por conseguinte o abaixou. Os olhos que antes estavam dourados, voltaram ao carvão virgem que havia visto antes. Por que isso? Foi o Prestígio de Fótons?
Franco tinha um rosto jovem, lábios finos e um maxilar quadrado. No entanto, isso tudo em conjunto, as marcas, posição dos olhos e da boca, levavam a uma única expressão: um rosto sério. Não chegava a ser assustador... Tá certo, talvez naquele momento sim, por causa dos respingos de sangue. Mas, numa outra ocasião, ele possuía realmente a face de um guerreiro. Um soldado que arriscaria sua vida, para salvar a dos outros sem mesmo hesitar.
— Fico feliz que estejam bem — disse ele — Antes de irmos, tem uma coisa que queria falar.
O soldado ajoelhou-se repentinamente. Laila congelou com o gesto e ergueu as sobrancelhas.
“O que ele tá fazendo? Será que ele vai se declarar?” – tremeu por um momento. “Ai meu Deus, eu já tô praticamente semi-comprometida.”
— Por favor... — voltou a dizer Franco. Já Laila, esta levou os dedos a boca e começou a roer as unhas. “Senhor... Eu não quero quebrar o coração dele. Será que por eu ter ficado olhando demais para ele, o cara entendeu errado?” Franco, por sua vez, continuou: — Por favor, me perdoe pela forma como a tratei há alguns dias.
Laila corou por um minuto. Deu uma risada desafinada levemente constrangida. Sim, de fato, constrangedor... Ainda mais com as crianças olhando ao fundo. Ela balançou as mãos, num grau leve de desespero.
— Não, não esquenta com isso não. — A jovem tentou se acalmar e respirou bem fundo. Não sabia ao certo para onde direcionar suas írises, por isso as desviou ao céu, nos resquícios do crepúsculo, o alaranjado pequeno que restou. — Afinal de contas, eu só tô viva agora e as crianças também, por sua causa. Que tipo de pessoa eu seria se ainda ficasse com raiva?
O soldado levantou-se com uma certa dificuldade. Acabou quase tropeçando, o que fez Laila no reflexo se aproximar dele.
— Você está bem?
— Eu vou ficar. Mas, quanto ao seu braço? Não é melhor fazer alguma tipoia ou algo do tipo?
— Tá doendo, mas acho que vai ficar só uma luxação. Não esquenta. Aliás, eu esqueci de dizer, mas, obrigada por salvar nossas vidas!
O soldado já de pé, de repente, desviou os olhos ao chão, cabisbaixo, encarando o solo tão profundamente com tristeza como um cachorro depois de o pisarem no rabo. Sem dúvida tão súbito que Laila até ergueu as sobrancelhas. Por que estava triste?
— Sabe de uma coisa? — começou o soldado. — O seu pai, o velho Thomas, há um tempo atrás, também salvou a minha vida. Eu treinei a minha vida inteira como soldado, na ânsia de retribuir ele por isso e, quando soube que ele morreu, nunca senti tanto ódio em toda a minha vida. — ele levantou o rosto para Laila. Seus olhos permaneciam sérios mas... Era claro que suas lágrimas se prendiam nas irises, ele engolia as emoções como uma dor aguda. — Hoje me conforta o coração em saber que consegui retribuir, um pouco que seja, de tudo o que ele fez para mim.
Já Laila não teve a mesma força e derramou uma ligeira gota sob a bochecha.
Por fim.
Ela sorriu.
————||————
Esmagando os galhos e folhas caídos ao chão, Laila, o soldado Franco e as crianças tomavam seu rumo de volta a Garra do Falcão. As crianças na frente e os dois adultos bem atrás.
A jovem agradecia a Jahed por não possuir quaisquer problemas respiratórios; ter que andar ao lado daqueles braços tão musculosos certamente seria um gatilho em tanto. As roupas dele não faziam nem questão de esconder os bíceps enormes.
“Tá certo ele” pensou a jovem “Se eu tivesse peitos mais grandes também usaria roupas mais chamativas e não precisaria desses preenchimentos ridículos.”
Por um momento fechou o rosto, por outro, riu de si mesma. As vezes acabava sendo bem criançona.
“Acho que aqueles pirralhos tão me contaminando com infantilidade.”
Ela riu mais. Já o soldado, desabrochou um sorriso tímido em vê-la assim. Por fim, este a interrompeu tocando com delicadeza nos ombros da jovem.
— Aliás Laila, e quanto a Henrique? Eu também vim até aqui porque soube que ele estaria aqui. Eu tô de licença do meu trabalho por uns dias, mas queria conversar com ele.
— Eu também queria saber onde aquele paspalhão se enfiou! — seus olhos se estreitaram como de um passarinho bravo. Franco deu alguns passos para o lado ao vê-la assim. Por fim, de uma maneira tão afobada quanto aquela jovem, o sentimento passou. — Aliás, vocês parecem que se entenderam bem, né? Depois daquela aventura pelas cavernas. Ele me contou tudo o que aconteceu. Que bizarro!
— Pois é. É claro que eu ainda fico com um pé atrás já que ele é um soturnense. Mas ele não parece tão ruim quanto dá a impressão.
— Soturnense? Mas Franco, você também não é um estrangeiro?
Ele arregalou os olhos. Foi uma questão certeira. Sorriu constrangido.
— É, mas... Minha família é do Reino Luminoso. Longe de ser algo tão ruim como o Reino Soturno, como a Casa Rutherford.
Laila soltou o ar dos pulmões. Sim, ela sabia que era injusto pensarem isso de Henrique que nem mesmo era daquele reino que as pessoas tanto detestavam. E, ainda que fosse de lá, não justificaria este tratamento de leproso. Sentia que deveria dizer algo, mas ainda não conhecia o soldado o suficiente, não eram tão íntimos assim a ponto de dar sermões.
Isso até ele chamar sua atenção.
— Algum problema? — perguntou. — Você parece querer dizer alguma coisa.
No final das contas, que se dane, ela iria falar.
— Eu sei que as pessoas daqui não se dão bem com estrangeiros. E mesmo que um deles more aqui por muito tempo, duvido que os moradores mudariam a atitude deles. Então, mal consigo imaginar como eles te tratam, Franco.
O soldado abaixou o rosto. Parecia que sua mente se afundava em memórias não muito agradáveis.
— Desculpa te trazer essas lembranças. – voltou a dizer Laila. – Mas, você gostaria de ser respeitado na vila, Franco?
Ele cerrou os dentes e apertou os punhos. Disse de uma vez só:
— Claro, é tudo o que eu desejo. Desde que minha aldeia foi destruída nunca tive um lugar pra chamar de casa. Por mais que tenha crescido aqui, não sei se me sinto seguro e feliz. Afinal de contas nossa casa é onde há pessoas que nos amam, certo?
“O quê?!” Laila arqueou as sobrancelhas. De imediato lembrou-se de seu pai. Da grave voz dele dizendo essas palavras.
— Você percebeu, né? — continuou o soldado. — O Thomas dizia isso. — Os punhos de Franco se apertaram mais, deixando suas mãos vermelhas — Tudo o que eu queria era ser respeitado pelas pessoas daqui e fazer desse lugar, minha casa!
Laila já entendeu. Então era esse o objetivo de vida dele, aquele objetivo... O guia de cada ação, cada palavra e pensamento de uma pessoa. Algo que chegava a quase fazer parte da energia vital de alguém, de seu espírito, e que todas as pessoas tinham. E por esse ser seu objetivo, tornava ainda mais crucial a jovem ter que falar:
— Não acha que, para começar a ser respeitado, não deveria também respeitar os outros? Em especial, os estrangeiros assim como você?
O soldado parou, criou raízes sobre o chão. Virando o rosto era difícil imaginar o que poderia estar sentindo. Mas em seu olhar, Laila pôde notar que ele entendeu o que ela quis dizer e, talvez, até admitia que estava errado.
Talvez...
————||————
Henrique relaxava na poltrona da taberna. Levava algumas coxinhas a boca e jogava uma partida de poker com o taverneiro, o marido de Maria Bonita, o seu Epitácio. Um sujeito de uns cinquenta anos, barbudo e calvo. A típica cara de “tiozão”. Também jogavam o garoto Yuji e a própria dona da taverna.
Eles se encaravam com desconfiança. Henrique sentia um conto, daqueles de suspense policial, saindo dos olhos de cada um. O mínimo de movimento possível, a mais sutil piscada e esticada do canto da boca, não fugiam das irises negras do cientista. A aposta era alta e ninguém desistia. Henrique sabia que algo grande estava por vir... Ou talvez, seria um blefe?
Até que, chegou a hora de todos virarem.
O tiozão Epitácio pôs as cartas fechadas para o centro da mesa.
— Eu tenho — lentamente ele as virava e todos arregalavam os olhos. Até que... Quase que caíram de suas cadeiras com a decepção.
— Você apostou tudo isso por uma trinca? — Henrique o encarou com desdém.
O sujeito coçou a barba e riu sem graça. Por fim, Yuji virou as suas sem muita cerimônia.
— Eu tenho uma sequência.
Maria Bonita sorriu:
— Seus perdedores de merda! Acharam mesmo que ganhariam de mim num jogo que jogo a vida toda? — com força ela amassou as cartas na mesa. Um lindo e também chamativo full house.
“Patética” — Henrique sussurrou, o que fez a taverneira virar o rosto com os olhos arregalados de uma assassina.
— O quê você disse? — perguntou ela.
— Eu disse patética. — Henrique deu às costas para mesa e jogou suas cartas para trás.
— Vai desistir do jogo? — Maria Bonita indagou.
O cientista sorriu:
— Eu tô indo embora porque o jogo já acabou e eu ganhei. — os outros viraram o rosto para as cartas caídas e notaram, um Straight flush. — Não é um royal, infelizmente, mas isso já humilha vocês. — ele riu baixo.
Maria Bonita apertou o avental que segurava com toda a fúria! Seu marido se esgueirava para sair dali sutilmente para que ela não descontasse nele sua raiva, no final das contas ela sempre acabava descontando e Yuji apenas ria de toda a situação. Para Henrique, acabou sendo um dia tranquilo e divertido no final das contas. Já começava a escurecer, haviam poucos resquícios do poente. Estava na hora de voltar.
— Não querem ficar para o jantar? – questionou Maria Bonita enquanto ajeitava sua roupa como se nada tivesse acontecido.
— Acho melhor ir atrás de Laila agora e depois vamos voltar para a casa de Helga. E o garoto tem que ir para casa também. — O homem sorriu — Muito obrigado por tudo!
Henrique foi em direção a saída. Sentiu o frio daquela noite gelar seus pés pela fresta abaixo da porta. “Seria melhor pedir por mais roupas a dona Helga?” Ele não queria a incomodar com mais isso. “Deixa para lá.” O homem puxou a maçaneta de uma vez e deu um passo para fora de maneira automática. No entanto, acabou se chocando com alguém.
— Laila? — o cientista se espantou. Ainda tentava entender como ela sabia que ele estava lá.
Ao fundo, de trás dela, em meio a escuridão, escutou outra voz que o chamou pelo nome, uma familiar.
— Que bom que eu te encontrei Henrique.
Os dois entraram na taverna. Laila aparentava não querer falar muito, mal conseguia esconder sua raiva. Henrique sabia que, seja lá o que fosse, ela nunca fora boa em disfarçar seus sentimentos. Já o soldado, este parecia levemente ansioso. Seu visual meio dark ou gótico não combinava muito com suas expressões.
— O quê estava fazendo aqui esse tempo todo? — Laila questionou — Não tinha pedido para você ir atrás do garoto que faltava? — ela nem o olhava diretamente.
Henrique já entendeu. Ele balançou a mão em gesto de acalmá-la.
— Ou ou... Eu fui atrás dele, mas aí ele não queria voltar... E meio que eu também não queria e decidimos vir para cá. Já que não tinha nada para fazer mesmo.
A expressão de Laila mudou subitamente. Não que isso fosse novidade. Ela soltou o ar que prendia e relaxou as pálpebras:
— Falando do Yuji já deveria imaginar mesmo. Tudo bem, eu só não fico mais brava porque se voltassem sabe-se lá o que poderia acontecer com vocês dois. Na situação em que nós estávamos da até medo de pensar.
— O quê? — Henrique dobrou a testa.
— Aaah — Laila suspirou — depois eu conto tudo, só preciso comer agora. — a jovem se jogou na poltrona ao lado da parede. Não ligou muito para o que quer que fosse aquele bolinho amarelado que estava em cima da mesa e pôs na boca sem dó. A moça arregalou os olhos: — Gente, o que é isso? Que delícia!
— Nós que fizemos — Yuji a correspondeu — eu e o Henrique para ser mais exato. Mas a receita é do Henrique.
— Então foi isso que vocês ficaram fazendo a tarde inteira?
— Em parte sim. Depois ficamos jogando algumas partidas de poker.
E o soldado completou:
— A maravilha do terceiro viajante, né?
— Caramba, pelo menos vocês capricharam nisso. Qual o nome disso?
— Pode chamar de coxinha. — Yuji intrometeu-se.
Henrique lhe devolveu um olhar enfezado.
— O cozinheiro que deve apresentar seu prato.
— Cozinheiro? — O rapaz estreitou os olhos encarando o homem com desaforo. — cozinheiro não é quem cozinha? Você mal mexeu no fogo. Tava morrendo de medinho. Só pôde juntar os ingredientes eu que tive que mexer a panela.
O cientista o observou de queixo levantado, com um sutil e refinado ódio nas írises:
— O quê você tá falando? Você que tava se borrando da galinha morta. Achou o quê garoto? Que uma asinha de frango nasce em árvore? Talvez se a gente plantar uma coxa a gente consiga o chester todo. O que acha?
— Já chega vocês dois. — Laila bateu na mesa. — Me deixem logo comer em paz! Por Jahed!
Depois disso, o homem pôde ver o garoto seguir em direção ao tiozão, provavelmente ir encher a paciência dele também. Já o soldado, o único de pé por ali, chamou o cientista pelo nome. Henrique se levantou, ajeitou as vestes e não demorou em questioná-lo.
— Sabe que é uma surpresa em te ver por aqui, Franco. Achava que estava de licença do trabalho depois do que aconteceu.
— Eles me deram licença sim. Ainda estou na verdade. Mas eu só vim por que queria te dizer algo, Henrique.
— Ah sim. É eu também queria.
— Você?
— É. Eu queria saber tipo, qual o motivo de usar essas roupas tão... Tão sombrias? Você não é mais um soldado? Virou um ninja agora?
— Ah! Quanto a isso? — ele pegou em suas roupas. — Não, é que eu não posso usar armadura por enquanto. Minha perna ainda está se recuperando. Seria um peso a mais.
— Faz sentido. Você se machucou? Está com o rosto todo...
— Não, não é meu.
Henrique dobrou a testa e concordou, mesmo com desconfiança.
— Está bem então. O que queria me dizer?
— É só que. Você salvou a minha vida a um tempo atrás e eu queria te dar isso. — O soldado abriu a mão. Segurava algo que se parecia com um chifre de marfim de algum animal, preso a um cordão. — Se chama Abahat-Net na linguagem antiga, ou juramento sagrado na atual.
— É o nome do objeto?
— Eu quero que fique com isso. — O soldado pegou a única mão do cientista, a abriu e o pôs. — Na minha cultura, toda pessoa que recebe uma ajuda, um favor de alguém, caso deseje lhe retribuir algum dia, entrega seu Abahat-Net. A prova de que está em dívida com essa pessoa. No final, o favor que a pessoa deve em troca a outra precisa ser tão grande ao favor prestado...
— Não precisa...
— Você salvou a minha vida. Mesmo que diga que fez isso só por você mesmo, não deixou de me fazer esse favor. É por isso que agora eu te devo um favor tão grande quanto ao que você fez por mim. Só assim estarei em paz com meu espírito e manterei meu chade estável.
— Eu recuso. — Henrique lhe entregou de volta. — Não me leve a mal não estou desprezando sua cultura. Apenas acho que, não é para tanto. — Henrique encheu seu peito de ar e, soltou. — Também não me entenda errado, não estou fingindo humildade. Longe de mim isso, credo. Eu admito, realmente se não fosse por mim você estaria morto mesmo. Mas não acho que você também tenha uma dívida gigantesca comigo. Qualquer um no meu lugar faria o mesmo, só um psicopata que não. Na verdade, acho que até um psicopata seria sensato o suficiente para te ajudar.
A princípio para Henrique, talvez parecesse que o soldado ficaria zangado com uma resposta dessas... Mas não foi o caso, no final das contas, ele acabou sorrindo, mesmo que de maneira bem discreta, na qual só um olhar de um grande jogador de poker perceberia.
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Mapa do Continente:
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🐲~luks~🐲
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