Pergaminho IX
Sem opção.
Ao menos duas semanas se passaram.
Na casa de Helga, três batidas leves foram escutadas vindas da porta. A senhora prendeu seu cabelo e não tardou a abrir. Sorriu em ver a linda jovem.
— Margareth! Fique a vontade!
— Com licença senhora Helga.
A moça entrou junto a uma cesta de palha. Explorou a casa com os olhos.
— E Henrique? Onde está?
— Lá fora de novo. — virou o rosto para sua filha, que costurava alguma coisa. — Vai lá chamar Henrique.
E assim ela fez, deixou o tecido sob a mesa e foi até a porta. Dali, viu o homem sentado numa rocha, vislumbrando as violentas ondas do mar, como todas as manhãs fazia. Por fim, acenou para ele e, assim que a viu, este não enrolou para voltar a casa.
— Que novidade, Margareth. — bufou, exaurindo a sua falta de empolgação.
— Pois é, mas desta vez é a última.
Uma sobrancelha se levantou.
— Como é?
— Seu tempo de recuperação acaba hoje.
“Inferno!” — resmungou num sussurro
A jovem começou a analisá-lo.
— Para quem detestava nossas consultas, é uma surpresa essa preocupação.
Henrique não mexeu os lábios, ele se sentou ao lado da moça que começou a tirar sua atadura. Por fim, lentamente, foram a vez dos pontos amarrados a pele.
— E então? Você sabe o que significa agora não é?
Óbvio que sim, nem dava pra esquecer. Ele era um escravo do Conde e a partir de então, agora que o tempo de recuperação havia acabado, iria começar a trabalhar. Ele tinha medo desse dia, por isso nunca perguntou quanto tempo iria durar sua recuperação, para não ter que pensar nisso. Um tanto covarde.
“Menos de dois meses, só preciso aguentar por menos de dois meses.” Repetir isso era o único consolo que encontrava.
Laila, que até então só observava tudo, se aproximou da onde estavam.
— Bem, acho que ainda não te contei como vai funcionar seu trabalho, certo?
— Que eu me lembre não.
— Diferente da maioria dos outros escravos do Lorde, você não vai precisar trabalhar no castelo. Ainda bem, né?! Imagina ter de subir e descer a colina todo dia!
— Nossa — revirou os olhos — que sorte a minha. E o que eu vou fazer?
— Eu não tenho certeza, mas pelo que eu ouvi do Primeiro-Ministro da cidade, você vai trabalhar no centro de pesquisa. Como no seu julgamento você disse para o Conde que é um pesquisador, ele pediu para te colocarem lá para desenvolver novos produtos. Mas o legal é que esse lugar fica ao lado da colheita, que é onde eu trabalho. O que significa que vamos ir trabalhar juntos nas segundas quartas e sábados. Já é algo bom, né?
— Maravilhoso!
“Só são dois meses.”
Henrique não se importava em trabalhar, seja para ele mesmo ou para os outros; desde que algo de muito bom viesse em troca. Neste caso, ele não poderia ganhar algo melhor.
“Pelo menos assim terei tempo e em dois meses caio fora.”
Agora que ele iria trabalhar para o conde, também poderia esperar um pouco mais de segurança, não seria mais um completo desconhecido escondido numa casa; com isso, o tempo extra para planejar os próximos passos com êxito passou a se tornar crucial.
— Amanhã começamos — completou Laila.
O dia se foi tão lento quanto qualquer outro, até que horas depois, a lua se apresentou ao céu. A princípio o homem talvez tenha pensado que não dormia por causa daquele frio intenso, logo, ficou claro que sua mente ansiosa era a causa.
O cobertor ia até seu queixo. A cabeça, deitada olhando para a parede. Até uma luz roxa emergir do criado. Era aquele amuleto, ou melhor, pedra. A provável razão de ele ter ido parar ali. Mas o que aquilo significava?
O homem, ainda um pouco hesitante, a pegou. Sua superfície era morna e aquecia um pouco as redondezas. Seria algo radioativo? Não, não fazia sentido, ele já carregava a tanto tempo aquilo, pelo menos se fosse algo extremamente perigoso, não demoraria para sentir os efeitos. Mas ainda assim, faria exames só para garantir, assim que voltasse para a casa.
“Henrique R” Leu mais uma vez na pedra. Estranho a princípio, mas não importava. Na verdade, depois de tudo o que viu e passou, achar aquilo estranho seria dramático demais. Colocou o objeto debaixo dos braços aproveitando seu calor, e por fim, sua mente foi esvaziada e ele conseguiu dormir.
————||————
— Acorda grandão! — É claro que Henrique despertou bem depressa com o choque do travesseiro jogado em seu rosto.
O homem, com dificuldade, deixava a luz passar, abrindo as pálpebras. Em alguns segundos ele se sentou e, por fim se levantou. Não ficou bravo, não é como se fosse a primeira vez que ela fazia aquilo; só que diferente das outras, havia um motivo.
— Toma logo café que já vamos sair.
— O quê?! Ainda ta cedo, você não costuma sair esse horário.
— Tem umas coisas que quero te mostrar.
Ele revirou os olhos como de costume e foi a mesa. Ali estava servido pão, o café cinza — que já havia desistido de descobrir do que era feito — e, a tão corriqueira geleia de caqui. Depois de vários dias comendo aquilo, já havia acostumado com o gosto que lembrava um pouco jabuticaba passada.
O desjejum durou só alguns minutos, até Laila puxa-lo para fora e se despedirem de Helga, na porta da casa.
Em poucos passos, Henrique não demorou a questioná-la.
— O que é tão importante assim que precisou me tirar algumas horas de sono?
— Não exagera, foram só alguns minutos a menos. Você logo vai ver.
Aos poucos adentraram no centro da cidade. Henrique ainda não a conhecia muito bem, até porque, nessas últimas semanas não havia saído da casa e pouco se lembrava da única vez que caminhou por ali. Viu que as casas ficavam mais próximas umas as outras. Mulheres varriam a fachada e algumas crianças corriam pelos becos. Numa coisa não foi diferente da última vez, daquilo ele se lembrava bem; as pessoas ainda o encaravam. Olhares confusos, raivosos e, em alguns casos, assustados. A cada passo que dava ao centro, mais pessoas o viam e mais o homem se incomodava.
— Por que eu me sinto como um político passeando pela cidade depois de ter enganado a população?
— Imagino como deve ser difícil se acostumar com isso.
— Vem cá, como sabem que eu não sou daqui?
— Todo mundo aqui se conhece, se uma mosquinha vinda de fora vir pra cá, todo mundo vai perceber.
Os olhares eram frios. Quase o homem pensou que teria uma hipotermia só andando pela cidade.
Laila tinha um destino na cabeça, mas é claro que ela desviaria o caminho assim que lhe fosse conveniente. Primeiro, correu para uma casa ao lado; o cheiro era indiscutível. Uma carne grelhada com temperos a rodo.
— Bom dia tia Bonita! — Laila parou próxima a janela do estabelecimento.
— Minha fia! — a mulher deveria ter lá a idade de dona Helga. Era um tanto gorda. Ela sorriu ao vê-la e enxugou as mãos no avental. Seu rosto lembrava um pouco aquelas merendeiras de escola. — Como sua mãe tá?
— Está bem, tia! — tia? Era parente dela será? Ou mera intimidade? Tipo como os alunos tratam as senhoras que trabalham na escola. — Na verdade, eu vim aqui te apresentar ao meu primo de segundo grau, Henrique. — e a jovem o puxou para que ficasse bem a vista da mulher na janela.
Henrique a princípio encarou Laila confuso e sussurrou em seus ouvidos:
— Primo?
Ela respondeu em um tom inaudível, mas o homem conseguiu ler em seus lábios a palavra: "Leon". Ele deveria ter imaginado mesmo que tal ideia viria do loiro.
A mulher o encarou de cima a baixo analisando-o como uma médica. Por segundos, os olhos se fixaram na cicatriz desenhada no rosto, em outros, no braço que lhe faltava.
— Eu nunca o vi por aqui. — disse — E não se parece nem um pouco com você. — ambos ficaram imóveis e tentavam disfarçar o nervosismo. — Mas, se é seu parente; é muito bem-vindo! Qualquer dia desses venham aqui na taberna comer minha costelinha. A propósito, sou Maria Bonita.
Dali da janela dava para ver que a mulher estava bem ocupada, por isso, não demoraram em seguir caminho, voltando para a estrada de pedras na rua principal.
Por fim, se aproximaram do destino. Viam uma pequena casinha que seguia o padrão da cidade; bem ao lado de uma gigantesca construção. Pela arquitetura meio gótica, vitrais enfeitando a fachada além de uma gigantesca estrela que Henrique contou como tendo dez pontas; ficou nítido para o homem que se tratava de algum tipo de igreja. Sem dúvida, a maior construção dali.
Laila então o levou em direção a catedral.
— Eu vou trabalhar nessa igreja?
— Não. É que o Mestre Pesquisador da cidade começa sua reza a este horário, vamos entrar e esperar.
Fazia tempo que Henrique não entrava numa catedral, mas não ficou muito surpreso com o que viu. O cenário clichê de um local amplo, enfeitado dramaticamente e cheio de vitrais. Haviam bancos de madeira se estendendo aos dois lados e eco em cada passo que davam. Sentiu uma certa massa fria no ar, típica de lugares cavernosos.
Ao fundo, perto do altar, Henrique pôde notar três homens com idades provavelmente próximas, conversando entre si. Um velho com poucos cabelos brancos contornando sua cabeça desnuda, vestia-se numa túnica branca. Apoiado sob seus ombros descendo até o peitoral, seguia uma grossa faixa escarlate estampando uma estrela de dez pontas dourada em cada extremidade. Lembrava algum tipo de sacerdote, aqueles velhos de igreja. Talvez, se olhasse bem, se parecia com o Papa do Vaticano.
Dentre eles, não era o "Papa" que mais chamava a atenção, mas sim o homem ao meio. Estava um pouco a frente dos outros. Seus cabelos loiros bem escuros eram nítidos, parecia-se com aqueles palitos de dente Gina por seu porte magro e sua altura. As vestes eram negras, desde a túnica até as sandálias — meio gótico, ou emo — Entretanto, uma cor se destacava; o colar que portava também com a estrela de dez pontas dourada. Sua posição parecia imponente, algo que Laila não tardou a explicar nos ouvidos de Henrique.
"Ele é o Primeiro Ministro da cidade. Este cara é a terceira figura mais poderosa da cidade, só atrás do próprio Conde e do Cardeal."
O observou por mais alguns segundos, até desviar os olhos para o terceiro homem, a esquerda. O único que não seguia aquele visual sacerdotal tedioso e melancólico. Trajava roupas vermelhas chamativas e uma boina azul escura, com uma longa pena branca.
— Senhores. — cumprimentou moça enquanto se aproximava.
— Laila, minha querida! É bom vê-la de novo! — disse o homem de preto. Logo em seguida, os outros dois também a cumprimentaram, quase dizendo a mesma coisa.
— Senhor Morales, é bom vê-lo! Mas... Não posso deixar de perguntar. É impressão minha ou o senhor está trabalhando aqui na catedral? — questionou a moça.
— Sim, minha querida. Desde que o Cardeal Corcel desceu até a montanha sul, eu me propus a ajudar no que precisasse.
Ela assentiu com a cabeça. Henrique se aproximava ao mesmo instante.
— A propósito! Este é Henrique, acredito que já tenha falado dele pra os senhores.
— Sim, falou. — completou o homem de preto. — Seu primo, não é?
— Isso mesmo.
— Eu fico feliz pela visita, mas segundo algumas informações que recebi... Ele é do Reino Soturno, não?
— Sim, na verdade os parentes mais distantes de minha mãe vieram de lá.
— Bem, eu não conheço a família de sua mãe, por isso sabe que não posso deixar de ficar um pouco receoso com isso. Entende, né?
— Sim, eu entendo.
Morales deu alguns passos e se aproximou de Henrique. O homem até podia ouvir sua respiração, seus rostos quase se batiam. “Vai me beijar?” — Henrique ficou tentado a mandar o deboche. O ministro segurava um olhar sério, antes e depois de o questionar:
— E você? Eu soube o que aconteceu e sei por que está aqui. Antes de partir, Corcel me disse para ficar de olhos abertos com você, é o que eu farei. — o senhor virou sua cabeça levemente para trás, olhando Laila e disse: — Me perdoe por minhas palavras querida, mas os estrangeiros ultimamente só tem trazido problemas ao condado e a todo o Reino; — ele voltou a encarar Henrique: — espero de verdade, que você seja uma exceção.
Morales se retirou dali com postura ereta e passos largos.
E nisso, foi a vez do homem de boina chamar por Henrique, só que com uma voz mais mansa:
— Me acompanhe, por favor.
Eles saíram da Catedral e foram para aquela casinha ao lado. Não era um local muito grande; só um pouco maior que a casa de Helga. Prateleiras cobriam quase toda a parede dos quatro cantos; nelas, haviam potes com coisas bizarras dentro, pedras coloridas e tantas outras coisas que levariam uma manhã inteira para contar.
Aquilo sim admirou Henrique, muito mais que qualquer ouro ou estrutura que acabara de ver na igreja.
O homem meio obeso se posicionou a frente de uma mesa e estendeu a mão para Henrique.
— Prazer, sou Heitor; o mestre pesquisador de toda a cidade de Garra do Falcão.
O empresário o observou mais um pouco com desconfiança, antes de cumprimentá-lo. O olhar que este trazia era meio diferente de todos os outros que já havia cruzado o caminho naquele dia.
— Você não parece muito incomodado em me ver. — disse Henrique.
— Não, não estou. Pelo contrário, fiquei feliz quando soube que era pesquisador. Sabe, não temos tido muitos ultimamente, ninguém tem se interessado por isso. Meu último ajudante morreu há cinco anos. Mordida de cobra.
Ele não parecia de todo ruim no final das contas. Henrique sabia melhor do que ninguém o que era trabalhar sozinho; talvez não fosse de todo ruim a ideia de se tornar seu ajudante.
— Certo, compreendo. Espero te ajudar com o que eu puder. — E enfim respondeu seu cumprimento.
Laila, ao fundo, os interrompeu.
— Bem, sendo assim, estarei aqui na fazenda ao lado. Se precisar de alguma coisa, é só chamar! A moça se retirou dali. Heitor se sentou sobre a mesa, já questionando Henrique.
— Me diga então meu jovem. O que você andou pesquisando?
Ele sorriu timidamente. De longe ninguém perceberia que aquilo era uma das coisas que Henrique mais gostava de fazer; contar sobre suas pesquisas.
— Sabe o que eu acho mais interessante estudar no momento, senhor? Fungos.
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No ápice do inverno, o Monte Harpia se vestia em uma grossa túnica branca. Neve essa que já ceifou milhares de vidas pela hipotermia. Mas para a Tríade da Justiça, seu longínquo fogaréu que contornava o acampamento, impedia que isso fosse um problema.
A jovem mulher dos olhos puxados caminhava com grossos casacos e sua cabeça de lobo nas mãos. Seu destino era sua tenda e sem demora chegou.
— Themii! — foram os gritos alegres que a receberam.
A mulher abraçou os gêmeos por minutos, tentando compensar os três meses. Tempo que parecia ter levado anos! As crianças nem aparentavam mais ter oito.
De trás delas, um homem de cabelos castanhos saiu da penumbra. Ela esticou ainda mais seu sorriso ao ver.
— Não faz ideia de como eles ficaram ansiosos quando souberam que você tava voltando. — disse o homem.
— Vêneto! — balbuciou a moça. — Agradeço por ter cuidado dos meus irmãos!
— Ah, não foi nada. Chame de novo quando precisar.
— E eles deram muito trabalho?
Os dois se olharam e começaram a rir.
— Nem tanto. A Maria até que foi bem tranquila, mas não posso dizer o mesmo do Anglo. — ele riu.
— Sinto muito. — dizia a mulher, com os dentes cerrados.
— Ah, não tem problema, eu suportaria isso; ou quantos coices de cavalo forem necessários. O que eu não faria por você, não é mesmo? — por fim, acrescentou beijando-lhe a testa. — Bem, eu vou precisar ir agora, depois a gente conversa mais; vai ter que me deixar em dia com cada coisinha que aconteceu.
— Pode deixar! — sorriu. Nisto, ele se virou para os gêmeos, dizendo. — Certo seus pentelhos, quem vai me dar o primeiro abraço de despedida?
E assim fizeram, correram para o abraçar e ali ficaram conversando e rindo com algumas das coisas que ele falava. A mulher observava apenas, até ver de relance, fora da tenda, outro homem. Sua altura e seus músculos criaram uma silhueta evidente. Só podia ser uma pessoa.
Ela foi até ele.
— Como estão grandes! — disse o homem. — Parece ontem que eles não passavam dos meus joelhos.
A mulher mais uma vez sorriu e balançou a cabeça em afirmação.
Desta vez, o sorriso que o homem portava desapareceu, e seus lábios se tencionaram.
— Chegaram mais notícias dos batedores. Corcel chegou em Almesmo. São menos de dez quilômetros daqui.
A moça fechou o rosto e tensionou as mãos. De sua testa derramava junto ao suor, fúria. O homem não demorou a notar, o levando a dizer:
— Eu sei o que você tá pensando. Na verdade hesitei muito em te contar. Mas seria injusto se não fizesse isso. É uma chance imensa de trazer a justiça! Vamos aproveitá-la com certeza. — ela o encarou, sentia-se grata, até o ouvir dizer: — Só que sem a sua ajuda.
— O quê?!
— Eu sei, também é meio injusto isso. Mas tanto eu como até mesmo você, sabe que não vai conseguir se concentrar nessa missão. Principalmente com toda essa bagagem emocional envolvida. Você vai acabar morrendo.
— Eu não vou morrer, não por ele, não nas mãos dele.
— Eu sei, eu sei. Mas não posso arriscar. Você é valiosa de mais para nós Themis, o que seria dessa organização sem você? Eu posso ser descartável, mas você...
— Não pode me impedir Hermes, sabe disso. — ela o encarou, o estrangularia por lhe negar a participação! Deveria ser quase como um direito!
— Eu já imaginava mesmo que teria essa reação, se eu não soubesse, não te conheceria bem. Eu fui designado líder essa semana e, daqui há alguns dias, haverá mais uma expedição em cavernas. Dessa vez por umas quatro semanas.
— Esse é seu plano? Me enfiar dentro de uma caverna enquanto realiza a minha vingança?
— Eu não preciso te dizer qual é a luta de verdade aqui, preciso? Fiquei sabendo que Corcel também está procurando o coração. Se eles acharem primeiro, não vai ter vingança a ser feita, Themis. Você precisa comandar essa próxima expedição.
— A expedição pode esperar. Não é como se de repente, depois de tantos anos procurando, fôssemos encontrar esse maldito coração agora. No momento tenho assuntos mais urgentes. Corcel está vivo, comendo e bebendo tranquilamente, cagando pra tudo o que ele me tirou.
— Eu posso tentar trazer ele vivo, é o que está ao meu alcance. Mas não dá pra te deixar ir, nem ficar aqui. Eu sei que você tentaria nos seguir se ficasse aqui. — O homem se virou, e caminhou lentamente para fora, ao ínterim que dizia: — Sinto muito Themis, de verdade.
Após desaparecer entre as luzes do fogaréu, a mulher abaixou a cabeça, balbuciando a si mesma:
— Sim, eu sei.
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Anglo pegava um punhado de neve e a compactava com as mãos numa bolinha. Ele riu antes de tacar bem na cara de sua irmã que parecia um bebê dormindo.
A garotinha ficou assustada no instante, mas depois, sim depois ficou coberta por ódio! Sua aura negra tornou-se evidente ao irmão que saiu correndo.
— Maria, desculpa Maria. — ele dizia e ria ao mesmo tempo — Mas eu precisava acordar o bebezão. — Masoquismo talvez? Ou só um moleque meio tapado?
Themis esbarrou nos dois enquanto vestia sua armadura e os olhou com seriedade ao ver toda a balbúrdia. Os coitados ficaram em choque com aquilo.
— Parem de brigar — iniciou — Vocês são irmãos, poxa! Só temos uns aos outros, se não tiver confiança entre nós, vamos estar sozinhos nesse mundo! E Anglo, eu vi daqui o que você fez! Pede desculpas pra sua irmã.
O rapaz revirou os olhos, mas assim fez. Já a mocinha não hesitou em dar a ele um belo dum soco na barriga.
— Não vou dizer que não foi merecido. — acrescentou Themis — Mas não quero mais ver isso! Quando vocês crescerem, pode ser que passem por tempos sombrios. E é nesses tempos que devem ficar juntos. Só vamos sobreviver se estivermos juntos, nós três! Era isso que a mamãe dizia.
Anglo fechou o rosto.
— Do que adianta ela dizer coisas bonitas mas ter nos deixado?
Themis o encarou:
— Você sabe que não foi assim que aconteceu Anglo.
O rapaz virou o rosto e saiu correndo. Maria, por sua vez, ergueu os olhos para a irmã.
— Eu sei que o Anglo ainda sofre, mas eu entendo mana, o que aconteceu.
Themis sorriu.
— Você é forte Maria. Como é mais velha que ele, você sabe o dever que tem, não sabe? Cuide do seu irmão. O que eu faço é muito perigoso e, não sei a onde isso pode me levar.
— Você vai partir de novo mana?
— Vou, estou indo para o sul explorar mais cavernas. Falta pouco, eu sinto isso minha flor. Falta pouco e vamos poder voltar para casa. — Themis desviou as irises castanhas para baixo e cerrou os punhos — eu juro.
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