Pergaminho IV
Justiça
A lua cheia não permitia que a escuridão presente nas montanhas do sul, cegasse a comitiva de comerciantes. Dois sons eram característicos para quem estava próximo, um era a roda da carroça que esmagava o terreno pedregoso. O outro era o farfalhar das longas correntes.
O pulso de vários homens sangrava, já que a maioria das correntes eram pequenas demais e estavam enferrujadas.
Isso ficou evidente para um dos comerciantes que caminhava mais à frente na comitiva. Ele encarou um senhor ao seu lado e o questionou com firmeza:
— Eu já não te disse pra você comprar correntes novas?
O outro ergueu seus olhos para cima, seu desdém era nítido tanto por suas expressões quanto por seu tom:
— E eu por acaso vou gastar dinheiro com esse tipo de besteira? Eles precisam de conforto por acaso?
— Você não guarda seu dinheiro numa bolsa para protegê-lo? Do mesmo jeito, eles podem acabar pegando alguma doença e então, você perde seu dinheiro de qualquer jeito, né?
— Entendi o ponto, mas não é essa minha doutrina... — nesse momento, ambos os homens observavam duas crianças correndo a sua frente. Diferente das outras que estavam acorrentadas, essas possuíam casacos grossos e uma vestimenta elegante.
— Vem cá meu filho! — chamou o senhor que antes falava. O garoto de uns seis anos correu até o comerciante rico e, com seus passos curtos, se esforçou para o acompanhar no andar. Ele segurou nos ombros de seu filho e sorriu:
— Qual é a regra número três do nosso negócio?
A testa do garotinho se dobrou, coçou a sobrancelha e desviou as írises para cima. Não queria decepcionar o senhor seu pai com uma resposta errada, mas não poderia ignorar sua questão. Em um tom de pergunta, ele resolveu arriscar:
— Mercadoria não tem nome nem cheiro, só objetivo?
O homem gesticulou negativamente.
— Não, essa é a regra dois, eu pergunto a número três.
— A palavra compaixão e mercadoria não se encaixam na mesma frase?
— Isso! — entregou ao seu filho um sorriso de aprovação e bagunçou seu cabelo — Pode ir — concluiu.
O garoto saiu de lá mostrando todos os dentes num largo sorriso e voltou a brincar com seu amigo.
O homem por sua vez, continuou seu argumento para o outro ao seu lado:
— Está vendo? Esse trabalho exige força, não fraqueza. Que eu saiba, os comerciantes de peixe não fazem carinho nem colocam sua mercadoria pra dormir. Por que eu deveria me importar com o conforto deles? Eu compro correntes maiores e melhores pra eles e, depois, eles vão querer mais o quê? Um manto, cavalo e joias? Os outros já vivem dizendo que pego leve demais com meus escravos, o que vão dizer se for fraco desse jeito?
De forma a coincidir com seu argumento, uma situação obrigou todos a pararem. Um escravo, cujo a pele brilhava, inundada pelo suor, desabou ao chão, quase desacordado.
Dois feitores que o acompanhavam começaram a chicoteá-lo com força, tingindo roxo em suas costas. O homem gritava e se engasgava com o próprio sangue. A mulher ao seu lado, acorrentada ao filho, se jogou sobre o homem, a frente dos chicotes, implorando:
— Por favor, por favor! Eu vou ajudar ele a se levantar, parem por favor! — Diferente dele, ela se engasgava com as lágrimas.
Os feitores pararam, no entanto, a mulher não conseguiu fazer com que o homem se levantasse; os olhos dele estavam vazios e já não respirava mais.
— Ele está morto. — disse um dos feitores.
O homem a frente, líder da comitiva, rangeu os dentes.
— Idiota! Vou ter que acionar o seguro de novo.
Por fim, chamou mais uma vez seu filho, que voltou correndo.
— E aí meu garoto. Você sabe que o seguro não vai cobrir as despesas se descobrirem que o matamos. O que faremos agora?
Desta vez o jovenzinho sabia exatamente o que dizer e, com um sorriso, respondeu:
— Jogamos o corpo do penhasco.
— Ouviram ele! Joguem ele do penhasco.
A escrava ainda lamentava agarrada a seu homem, os feitores o pegaram e, o arrastaram entre o pedregulho para jogá-lo dali. Ela finalmente largou o corpo, mas permaneceu ajoelhada, chorando.
O líder da comitiva então cutucou o seu garoto que observava tudo, indagando-o:
— E então filhão? Alguma sugestão para resolvermos este problema?
O menino, com um olhar sério se virou para a mulher. O olhar do senhor seu pai. Ele bradou de modo rude:
— Levante logo sua vadia! Ou quer que seu filho seja jogado daqui também?
O líder deu dois tapinhas nas costas do garoto; ele esboçava o sorriso de um pai orgulhoso do filho finalmente aprendendo seu ofício.
A jovem moça que tremia de tal modo que mal conseguia se levantar, assim fez e eles puderam seguir viagem.
Chegaram ao final do penhasco, para o alívio dos acorrentados.
Não se passaram muitos minutos até que tivessem que parar novamente. Um dos guardas do líder da comitiva pensou ter escutado algum barulho vindo dos bosques bem a frente. Foram um ou dois minutos de todos fazendo silêncio absoluto para escutar qualquer coisa.
— Não deve ser nada. O outro comerciante me disse que não há muitos bandidos ou mercenários pela região — frisou o amigo do mercador.
No terceiro minuto, decidiram continuar, estavam quase chegando na hospedagem que pretendiam ficar. Talvez suas pernas e seus olhos cansados tenham falado mais que a sensatez, tanto que quase não perceberam uma flecha acertando precisamente a garganta de um dos feitores.
Um alvoroço se instalou entre eles, uma chuva de flechas começou a vir de todas as direções. Após ela, gritos de guerreiros foram escutados se aproximando e, quando menos perceberam, uma multidão de homens e mulheres segurando machados, corriam na direção da comitiva.
O líder da comitiva pôde ver um machado ser arremessado no peito de seu amigo, que caiu no chão como um tronco. O homem instintivamente se virou e correu no caminho oposto, de volta para o penhasco.
Ele vez ou outra olhava para trás e via dois daqueles guerreiros o perseguindo. O suor entrava em sua boca, aquele gosto salgado de desespero. Seu andar desengonçado e aflito o fez tropeçar, rolando penhasco abaixo e por fim, cair de lá fatalmente.
Quando os gritos cessaram e o cheiro de ferro e sangue se tornou evidente, as correntes foram destruídas e os punhos dos homens, mulheres e crianças, aliviados.
— Trabalho concluído! — gritou uma voz feminina, uma cabeça de lobo escondia sua face. Ela tirou o objeto. Os libertos enfim conseguiram ver a face de sua salvadora. Os olhos puxados indicavam que era estrangeira; mas quem se importava? Ela os libertou e devolveu as suas vidas!
— Vocês agora são pessoas livres, podem ir e fazer o que bem quiserem!
Aquela mulher, que antes chorava por seu homem, se aproximou da guerreira, perguntando-a:
— Por favor, nos diga seu nome senhora! Eu estarei disposta a segui-la de agora em diante, se me permitir.
Os outros libertos também se ajoelharam e abaixaram a cabeça. Alguns choravam e outros gritavam emocionados; mas, de modo unânime, todos exclamaram:
— Por favor, nos deixe segui-la!
A jovem guerreira abaixou as pálpebras levemente. Ela não precisou perguntar, também não precisava ser hipócrita. Ela sabia bem que, ao serem libertos, aqueles homens não teriam mesmo para onde ir; provavelmente morreriam de fome, se tornariam bandidos ou até mesmo poderiam se oferecer para serem escravos novamente. Ao menos com ela, lutariam por uma causa. Isso sim que fazia parte da vitória, não o fato de ela ter os libertado.
A jovem respirou fundo. De maneira repentina ela apertou os dentes e fincou seu machado sobre o solo. Por fim, levantou o rosto e vociferou:
— Eu sou Themis da casa Dalton e aceito seu pedido!
Não era a primeira vez que pronunciava estas palavras. Sua vida ultimamente se resumiu a dizer isso.
Minutos depois, alguns dos soldados da mulher se dirigiram a ela, segurando pelo braço, o filho do outrora líder dos escravos.
— Não o encontraram mesmo? Bem pelo menos trouxeram o garoto.
Desta vez, a guerreira gritou a todos os libertos que ali observavam.
— Agora que pretendem nos ajudar em nossa jornada, precisam saber como as coisas funcionam para nós. Infelizmente não encontramos o desordeiro que os escravizava, alguns dos meus homens o viram cair do penhasco e provavelmente ele está morto. Por isso, não podemos trazer justiça pelo sofrimento e pelas mortes que ele causou, através do sangue dele. — Themis acenou para que trouxessem o garoto a ela.
A guerreira segurou em seu bracinho. Ele tremia e olhava para baixo sem ousar fazer o contrário.
— Hoje, no mundo, é comum quando os pais morrem, suas dívidas sejam deixadas a seus filhos. Eu pessoalmente, considero uma decisão tremendamente injusta. — Ela começou a bagunçar gentilmente os cabelos do jovem, assim como seu pai.
E então, continuou:
— Mas, mais injusto que isso, são as vidas que homens como aquele desordeiro, tiraram. Ele deixou mulheres viúvas e filhos órfãos para simplesmente encher sua bolsa com mais moedas. E quem? Quem vai pagar essa dívida que ele deixou aos inocentes? Uma dívida de sangue! — rapidamente a mulher sacou da bainha uma faca e cortou a garganta do garoto, tingindo aquele casaco do vermelho que jorrava. Depois, ela o deixou que caísse no chão, não o olhando com compaixão ou misericórdia, mas com firmeza.
Por fim:
— O mundo não é um conto de fadas. Às vezes, injustiças precisam ser cometidas para que uma justiça maior seja feita.
Ela deu as costas e, sem demora, todos os que estavam ali a seguiram, ignorando o jovem corpo caído, como um pedaço de pedra qualquer.
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