Pergaminho I - (Parte I)

O iogurte estava amargo, decerto Henrique se esquecera de colocar as duas colheres de açúcar.

Estranho, já que não era algo que costumava se esquecer.

Ele se levantou da mesa e foi em direção ao pote de açúcar no balcão, que se encontrava ao lado do celular. Foi quando notou o ícone de uma notificação na tela de espera. Aquilo só podia significar uma coisa. Jogou o iogurte na lixeira e foi se trocar.

 No closet, vestiu um terno cinza-escuro de um alfaiate italiano conhecido e calçou sapatos amarronzados que reluziam. Mastigou uma pastilha para o hálito e pegou um chapéu social um pouco grande para sua cabeça. Ele o posicionou na diagonal, fazendo questão de tapar o quanto podia o lado esquerdo do rosto. — quem dera não pudesse aparecer nada — Pôs os óculos escuros e foi a garagem. Já havia decidido na noite anterior o carro que escolheria. As chaves em sua mão estampavam com soberba o touro amarelo da Lamborghini. As portas se abriram para cima como as asas de um morcego, ou melhor, de uma murcielago.

Em velocidade, rasgava as ruas de São Paulo com o ronco de eriçar o braço. Ali, em meio aos prédios envidraçados da Avenida Paulista, Henrique estacionou. Desceu do carro ajeitando a gravata cinza e o chapéu para que continuasse inclinado. Ele permaneceu olhando para frente e jogou as chaves na mão do segurança, ou quem quer que fosse o sujeito bem-vestido ali, na porta do arranha-céu. Na recepção retirou os óculos e caminhou em direção ao elevador principal. O homem chegou a sentir o iphone vibrar no bolso, o pegou e começou a digitar, chegando a desprender o rosto da tela só uma ou duas vezes, para não acabar tropeçando. Isso até uma voz feminina, daquelas irritantemente infantis importunar sua atenção:

— Senhor, senhor!

 Henrique revirou os olhos, foi quando viu a recepcionista. A expressão arraigada de nojo era a mesma quando notava uma manchinha em seu terno. Soltou o ar que nem sabia que segurava e se dirigiu até ela.

 — Senhor, posso lhe ajudar?

 — Não, não pode — sorriu sem humor e voltou a deslizar o dedo no celular despreocupado.

 — É um funcionário? Veio para uma reunião?

 — Nem um e nem outro.

 — Então sinto muito senhor, neste caso não posso deixá-lo entrar.

 Ele bufou, mais fez questão que ela escutasse todo o ar saindo.

— Eu entendo. Que bom que eu te contratei, já vejo que é uma boa funcionária.

 As sobrancelhas da jovem se dobraram.

 — Me desculpe. Como?

 Desta vez, o homem endireitou o chapéu com uma mão e ergueu a cabeça com autoridade.

— Eu disse que fico feliz em ter te contratado — a encarou profundamente.

Os olhos orientais da jovem se arregalaram e balbuciou perplexa em voz baixa.

 — Senhor Becker!

 — Está surpresa? É claro que está, por que não estaria? Não vou culpá-la por se assustar em ver esta aberração — apontou para si.

 — Não, não é isso senhor! Na verdade, fico feliz que esteja bem.

 — Se chama isso aqui no meu rosto de bem, então não consigo nem imaginar o que seja a definição de “ruim” para você. O que é bem estranho para alguém que trabalha numa indústria farmacêutica.

 — Sinto muito senhor, perdão se eu o ofendi. O que eu queria dizer, na verdade, é que é uma surpresa, uma surpresa agradável, a propósito, vê-lo depois de tanto tempo...

 — Tá, tá bem, não precisa fazer uma dissertação — seus olhos fecharam-se, quem o conhecese de verdade perceberia sua leve irritação. Mas ele sorriu, mantendo um dos cantos da boca abaixado, num desdém sutil —, não lembro de ter te pedido uma tese de mestrado. — com dois dedos, numa pinça, voltou a deslocar o chapéu impacientemente — E, sinceramente, não sei se seus colegas partilham do mesmo pensamento. Aliás, qual a sua idade mesmo Jéssica? Parece que faz o quê? Anos que não a vejo.

 — Na verdade é Jasmine, e eu não envelheci senhor, desde a última vez que nos encontramos, eu ainda tenho vinte, senhor.

 — Certo Jaqueline, continue fazendo o seu trabalho que está ótimo. E eu estou indo lá fazer o meu.

 Ela lhe retribuiu um sorriso constrangedor e ele seguiu para o elevador, voltando a digitar. Apertou o botão do andar vinte e escutou a campainha com as portas se fechando.

 Henrique caminhou num corredor próximo às janelas de vidro. Tudo era muito branco, a vista da Avenida Paulista que enfeitava a monocromia. Ali, apoiando as costas em um armário, encontrou um sujeito baixinho, de óculos, bebericando um cafézinho. Ele balançou a xícara e derramou um pouco no chão depois de ter cruzado os olhos em quem chegava.

 — Está bonita a paisagem? — Henrique ergueu uma sobrancelha.

O sujeito largou a xícara no balcão apressadamente.

— Perdão senhor.

— Por favor — revirou os olhos — não diga essa palavra desprezível, basta dizer “desculpa”, caso contrário parece que está implorando. Mas e então? Ela já está no escritório?

 —Está, mas... Se me permitir perguntar senhor; por que me pediu para avisar quando ela chegasse?

 — Não é como se eu te devesse satisfação Wellington...

— Mas nós não somos amigos?

 Henrique seguiu caminho em silêncio. Virou para outro corredor a esquerda, até se deparar com duas portas brancas, de madeira. Ele as abriu sem muita cerimônia e respirou aliviado por encontrar quem procurava estando sozinha. A mulher ruiva assinava alguns papéis sobre a mesa de carvalho escuro. Levantou o rosto assim que escutou a porta. Imediatamente arqueou as sobrancelhas e passou a ajeitar seu cabelo chanel ao vê-lo.

— Henrique! Pensei que tinha dito que viria amanhã?

 — É eu também pensei. Mas, se não se importa...

— Claro que não — A mulher pegou o telefone na mesa. — Sheila, pode preparar aqueles papéis que te pedi? O Henrique veio visitar a empresa hoje — desligou.

  O homem deu às costas e andou pela sala, deslizando os dedos pelas esculturas modernas por ali.

 — Falando nisso — iniciou o homem —, eu não acho que eu quero vir só visitar.

 — Como assim?

 — Eu vou voltar a trabalhar. Ah! E também tenho outra ótima notícia para você!

— Que história é essa? Do que você ta falando?

— Eu ainda vou te contar melhor isso tudo, no jantar que reservei para nós dois hoje às oito.

 — Jantar? Claro, será um prazer. Mas, não seria mais fácil ter me mandado uma mensagem, ou me contar aqui mesmo esse mistério todo?

 — Não, até porque não quero atrapalhar seu último dia de trabalho. Imagino a correria que deva estar.

 — Acertou.

 — E, antes de te contar o que tenho para contar, preciso conversar com alguns sócios. Inclusive, eles até devem estar me esperando agora.

 — Neste caso, acho melhor não demorar então... E tire o chapéu também —  A encarou, enfezado —, sério, tá parecendo um gangster. Não acho que vai ser muito legal pra essa reunião não. Capaz deles se incomodarem, do jeito que são chatos.

 — E eu deveria me preocupar? O sobrenome de quem está estampado na fachada? O deles? — Ele deu às costas. — Vou usar o chapéu.

————//————

A lua estava linda! Cheia no céu.

 Os dedos do pianista dançavam sobre as teclas. Nocturne, o clássico de Chopin, aguçava com sua melodia, a beleza do salão. O espaço era largo, iluminado por muitas velas e lâmpadas incandescentes vintages. Só havia uma mesa por ali, era redonda e forrada com um tecido parisiense vermelho e chique. Henrique se mantinha aconchegado na poltrona e o garçom lhe servia um vinho com mestria na etiqueta. As irises verdes da ruiva se arregalaram ao vê-lo.

 — Espera? É um château latour. Por que mandou servirem esse vinho caro?

 — É uma ocasião especial mon chéri. Nosso último jantar. Sabe-se lá quando vou voltar a vê-la. Não é? — Ergueu uma sobrancelha com um olhar de cachorrinho pedinte.

A moça segurou a risada. Ela agradeceu o garçom e levou a taça a boca, olhando o homem de um jeito sedutor. Ela quase cuspiu o vinho com a risada que os dois deram em seguida.

 — Ainda bem que só estamos nós dois aqui — acrescentou Henrique — Sua falta de etiqueta me traria vergonha.

 — Não seja tão cruel — movimentou seus olhos pelo salão, esperando o clímax da música se encerrar. Por fim, voltou a dizer: — Por que fizeram aquela reunião? Por que hoje? Depois de tanto tempo...

 — Calma, uma pergunta de cada vez. — o empresáro volteava o vinho em sua taça com três dedos. — Eu sei que é estranho, eu de repente aparecer assim.

 — Você se esqueceu da última vez que nos falamos? Porque eu me lembro muito bem! — com a face de quem viu um fantasma arraigada ao rosto, ela continuou: — Não me assuste mais daquele jeito! Achei de verdade que você nunca mais você sairia daquela casa.

 — Eu estava irritado naquele dia — Henrique fechou os olhos e soltou o ar que segurava — Eu não podia continuar em casa para sempre. Você vai embora... Eu preciso voltar a tomar conta da minha empresa.

 — Eu sei e, fico feliz por isso, de verdade. Mas estou com medo Henrique. Foi tão de repente. Tem certeza de que está bem?

Ele sorriu apenas de lábios e se manteve em silêncio, saboreando o vinho por um instante. Por fim, acrescentou:

 — Quanto a reunião, posso lhe assegurar que foi promissora e meus objetivos foram atingidos — Ele estendeu a mão direita aberta para o lado e um homem lhe entregou um envelope — fique à vontade — por fim, o pôs sobre as mãos da jovem ruiva.

 Esta tirou os papéis confusa e começou a lê-los deixando sua testa ainda mais franzida como jornal amassado. Ao final, virou o papel para o amigo com uma pontinha de indignação esculpida na face.

 — O que significa isso? “Requerimento de proposta para a vice-presidência do Grupo Becker aprovado”?

 — É exatamente o que você leu — desta vez, Henrique levava a boca o pão com a fatia do queijo. Ele continuou após engolir — Já tem a assinatura minha e dos sócios. Só falta você assinar, reconhecer firma e mais algumas burocracias tediosas. Mas de qualquer modo, estou jantando com a futura vice-presidente do grupo Becker.

 A mulher respirou fundo. Não disse nada a princípio. Aquele silêncio de uns quinze segundos, pereceu levar quinze minutos. Sem acanhamento, juntou os papéis e o guardou com delicadeza, de volta ao envelope. Por fim, fixou seus olhos em Henrique.

 — Eu agradeço, de verdade Henrique, mas olha...

 Henrique a interrompeu estalando a lingua no céu da boca. Fez mais do que questão em deixar seu incômodo evidente.

 — Sabe que eu detesto quando você vem com essa história de “olha.” — revirou os olhos.

 — Por que está fazendo isso? Você sabe que eu tenho um voo marcado para amanhã! Você parecia concordar até agora pouco.

 — Eu queria te fazer uma surpresa com essa proposta. Não queria que desconfiasse. Imaginei que fosse uma surpresa agradável e que você ficaria animada, o que pelo jeito não foi o caso.

 — E você simplesmente achou que eu planejaria essa viagem durante anos para simplesmente desistir depois? O que te fez pensar isso?

 — A promoção incrível que te dei?! — sorriu de canto, com um leve desdém.

 As pálpebras da mulher se abaixaram, parecia abalada.

 — Todos esses anos... Desde que éramos pequenos. Quando eu disse que viajaria pelo mundo para escrever um livro fantástico. Você achou o quê? Que eu falava isso só por falar? Você quer que eu adie essa viagem pela quarta vez? Esperou até a véspera pra poder me impedir.

 — Que surpresa, pelo jeito mais um que vai me abandonar.

 — Isso não é justo Henrique — seus olhos se encharcaram. —, você sabe que não estou te abandonando.

 — Ah sério? Porque eu poderia jurar que é o que está parecendo.

 — Você concordou quando eu disse que iria pra essa viajem. Você me garantiu que estava bem.

 Ele bateu na mesa, mas sem muita força:

 — Droga Laura. — seu volume era baixo e mantinha a elegância, com um sorriso paralisado e os dentes unidos — É óbvio que eu não tô bem. — Henrique embriagou-se num tom ríspido, sem sal. Contudo, as cuspiu meticulosamente bem pensada. Ele era um homem que sabia bem que gritaria e insultos não daria voz a uma pessoa num diálogo. É por isso que conhecia o momento excelente para se utilizar disto. — Como alguém pode ficar bem com essa merda de cicatriz no rosto? Como acha que os outros vão olhar para um líder fantasiado de demônio? E pra ajudar, a única pessoa que eu confiava no meio daqueles porcos puxa-saco vai embora. Como cogitou a ideia de que eu poderia estar bem?

 — Então o problema principal ainda é o seu rosto? Admito que imaginei que estivesse traumatizado com a tragédia ou com a dor que sentiu, mas não; o que te incomoda é seu rosto.

Piscou cinco vezes seguidas. Algo em seu rosto lembrava uma pessoa perdida em incredulidade.

 — Eu não disse que esse era o único problema.

 — Você geriu sua empresa sozinho antes de eu entrar e você parecia muito bem, então sim, me parece que seu rosto é o verdadeiro único problema. Algo que poderia ser resolvido por uma droga de cirurgião.

 — Não, não seja cínica. Você sabe que não.

 — Você nem sequer tentou.

 — Eu não arriscaria. Pra ficar com o rosto pior, não arriscaria de jeito nenhum.

 Ela o olhou bem e analisou de baixo para cima.

 — Um cirurgião incompetente não torna todos assim. Só porque um idiota errou uma vez, não significa que isso vai sempre acontecer.

 — Não vou pagar para ver.

 Ele virou os olhos em direção ao pianista e evitou desviá-los dali. Encontrou seu porto seguro em meio aquela situação embaraçosa. Pelo menos até sentir um cartão ser empurrado para debaixo de sua mão esquerda apoiada na mesa. Seus olhos percorram sem muito interesse pelo pequeno bloco branco. Laura não tardou em explicar.

 — Este é o número do meu tio Marco. Lembra? Aquele que construiu a casa na árvore quando a gente era criança. Naquela época, ele ainda era um estudante de medicina. Agora ele tem o próprio consultório de cirurgia plástica em Fernando de Noronha. Só que ele é diferente dos outros cirurgiões. Ele usa produtos naturais e pouco explorados para ajudar no tratamento.

— Você acha mesmo que eu vou aceitar os serviços dele?

 — E por que não aceitaria? Você sabe que meu tio sempre foi um homem confiável e de palavra. Liga para ele e pergunta se ele pode te ajudar. Se ele disser que sim, não tem porque achar o contrário.

 — Não sei Laura... — pôs a mão no rosto. Ele conhecia sua benevolência. Sabia bem que só estava tentando ajudar. Ela sempre foi assim, sempre tentou ser uma irmã mais velha pra ele. Mas é claro, os ramos de suas aflições desta vez não estavam visíveis aos olhos de Laura. Não era como se ela pudesse o ajudar, não com aquilo.

 — Olha, não esquece, sou eu que estou te dando esse conselho. E quem é que vive dizendo por aí que eu sou a única pessoa em que confia?

 De fato, ele toda hora bajulava sua amiga com essa história. É claro, isso ajudava a inflar seu próprio ego, dando a entender que seus critérios de confiança eram bem elevados. Henrique também costumava dizer aos outros que sua confiança era depositada em apenas três figuras: nele mesmo, na ciência e em Laura.

Bem, Laura tinha um ponto! Talvez fosse uma desculpa para aceitar sua ajuda. Por que não? Permaneceu pensativo por mais alguns minutos. Por fim, se serviram do jantar.

————||————

  O Inverno de São Paulo às vezes pode ser bem torturante. Por dez meses no ano a cidade se vê imersa num sol escaldante e chuvas odiosas, por isso, pouquíssimas casas e prédios estão preparados para as temperaturas baixíssimas que aparecem ao final de junho e pelo mês de julho. A dança cruel que o tempo faz entre um e dez graus celsius arrepia o corpo até do mais resistente dos paulistanos. O cientista odiava isso, sempre odiou o frio. Porém, naquele ano, nem tanto. O frio se tornou um aliado, um esconderijo. Poderia usar toucas, cachecóis, blusas grandes, enfim, qualquer coisa que ajudasse a disfarçar, nem que fosse um pouco, o maior de seus flagelos.

 “Quem dera o frio não durasse o ano inteiro?”

 Que coisa! Quem iria imaginar que um dia pensaria assim? Ele ria sozinho deitado em sua imensa cama e com o cobertor chegando até seus olhos. Do seu quarto, via-se a cidade pela janela que ocupava toda a parede. Ele gostava de dormir com aquele brilho, o brilho dos carros e dos comércios funcionando. Mas naquele dia, tapou os vidros.

 Enfim, fechou os olhos.

Até surgir uma voz incômoda.

“Então o problema principal ainda é o seu rosto?”

 Droga! Por que Laura estava na sua cabeça?! Agora nem um sono decente ela o deixaria ter?! Por que diabos seria errado se preocupar com seu rosto? Pela forma como ela disse, parecia querer o condenar por isso!

 O homem apertou os dentes a ponto arrancar sangue de sua língua. No final das contas, não foi tão ruim; foi uma dor suficiente para fazê-lo esquecer de qualquer desgraça que tenha acontecido antes, naquele dia ou que ainda viria a acontecer. Por fim, conseguiu dormir.

————||————

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top