Pergaminho de Corcel
Quão Grande Tu És
Era uma noite sem lua, as nuvens teimavam em escondê-la. A escuridão, vista mesmo de fora da carruagem, parecia densa, daquelas que se assemelhavam a fumaça. Provavelmente estavam sob o meio da madrugada, não, na verdade era certo isso. Ao menos se distanciaram da floresta e, se apertassem bem os olhos, podia-se ver as luzes dum vilarejo bem distante. Corcel suspirou em alívio, afinal de contas estava exausto. Do lado de fora, repentinamente certa ventania trouxe uma massa fria de ar sobre a carruagem, balançando violentamente as janelas de madeira entreabertas. Os dois ali rangeram os dentes. Para Corcel, no entanto, mesmo após o frio esvaecer minutos depois, os pelos de seus braços continuavam arrepiados.
— Vossa eminência, o senhor está bem? Parece pálido. Sua boca está branca. Ainda está com frio?
O quê? Não, não estava com frio. Pelo contrário, na verdade, naquele instante sentia seu corpo imerso em fogo de dentro para fora, como se estivesse de baixo de um sol do meio dia no deserto. Contudo, as suas mãos... Ao levantar suas mãos, elas tremiam. Por que tremiam? Com toda a certeza algo estava errado.
— Quer que paremos um pouco? Vou falar com os guardas.
Corcel tentou dizer alguma coisa, mas nada saía. Com a mão, segurou o pescoço tentando exprimir uma palavra que fosse. Era como se sua língua se enrolasse num nó e impedisse-o de entoar uma miserável consoante. O que estava havendo? Ele desviou as irises para as mãos. Tremia mais. Angustiosamente mais. Foi envenenado? Algum espírito estava possuindo seu corpo?
E logo, seus olhos entregaram-se a escuridão. Nada podia ser visto. Nem o soldado, nem a carruagem, somente um breu aterrador. E seguiu assim por alguns segundos, até finalmente encontrar uma face emergida na penumbra, impossível de contorná-la. Dela, ascenderam-se duas orbes roxas, olhos do mais brilhante púrpura. Írises que irradiavam rancor, crueldade, superioridade e grandiosidade, sim, os olhos de alguém que sentia-se um Deus. Estes o encaravam diretamente, até de lá escutar uma voz...
— Já está no tempo da Ausschluss. — o tom era grave e temperado com algum sotaque.
Rápido como um estalo, Corcel voltou a enxergar a carruagem. Mas... O que foi aquilo?
“Meu Deus” — gemeu transtornado. O soldado, também estarrecido, direcionava o dedo a ele.
— Senhor, a sua testa.
O cardeal passou a luva por ela. Olhando-a, pôde ver... Sangue.
— O que foi isso? — questionou o soldado.
O sacerdote desviou o rosto para baixo. Tremia só de pensar no que viu. Naquela voz, naqueles olhos ametistas. Engoliu a saliva que ainda restava na boca. Finalmente, com os lábios estremecidos, sussurou pavorosamente a si mesmo.
— O quão grande você é... — suspirou — Rutherford?
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