TOMO 2 - (1937 - 1954)
I - São Luís do Maranhão - 21 de Agosto de 1937.
Os gritos de Conceição são audíveis por toda a vizinhança. Agarrada no corpo ensanguentado de Piedade, ela pragueja contra Deus e o mundo. O rádio esquecido chia. A voz do locutor de 'A hora do Brasil' se mistura ao caos sonoro daquele instante em que vida e morte se tocam. 'Descoberto o plano Cohen', 'um golpe comunista estava sendo arquitetado', 'massacres, estupros, sequestros de crianças foram impedidos', 'viva o Presidente Vargas'.
Apolônia, conhecida como Loló, desliga o aparelho barulhento. O fardo dos acontecimentos cotidianos é pesado demais para que ainda se preocupe com quem ocupa ou não a cadeira da presidência. A escandalosa recém-nascida está em seus braços. O cordão umbilical foi cortado e amarrado. Sangue, líquido amniótico e resto de parto coroam a cabeça pelada.
Mãe Toinha limpa suas ferramentas. Não segura as lágrimas, sabia que isso aconteceria, mas o simples conhecimento, não torna o fato menos doloroso. Toma a criança no colo, verificando novamente sua saúde. Seu olhar inevitavelmente recai sobre os dedos dos pés, que apresentam a mesma característica que os da avó materna.
─ Ceiça, ela se foi... ─ Loló sussurra, separando a mulher mais velha do corpo da filha.
Doze anos atrás, quando Conceição chegou em São Luís, encontrou um ambiente pouco acolhedor. Não foi recebida como a filha pródiga, mas como o que de fato era: Viúva, sem formação, com uma criança, sem bens ou posses. Buscou Esmeralda, mas soube que a colega tinha terminado o Liceu e se mudado com a família para as bandas do Amazonas.
Conceição alugou um quarto de madeira em uma vila. Começou a trabalhar como doméstica. O salário mal dava para pagar o cômodo e suprir suas necessidades básicas, mas consolava-a o fato de que sempre poderia ser pior. Piedade lhe acompanhava no trabalho, mas em função dos ataques e choros constantes, os patrões ordenaram que a criança fosse deixada em casa. Não podendo levá-la, passou a deixa-la sob a responsabilidade de uma vizinha que cuidava dos oito netos.
Certa tarde, quando Conceição chegava do serviço, ouviu de longe a gritaria e reconheceu a voz aguda e desesperada de sua cria. Correu o mais rápido que pôde e encontrou um círculo de crianças que berravam e riam maldosamente. No centro da roda, ajoelhada no solo, Piedade se mordia com força. O sangue recobria o braço cheio de cicatrizes. Transformada em fera, Conceição distribuiu tapas raivosos na pequena multidão, que se divertia às custas do sofrimento de sua filha. Abraçou-a no chão, contendo o esperneio, até que a menina dormisse de exaustão.
Conceição deixou o emprego e depois de muita luta interna, procurou por Irmã Tereza. Encontrou apenas seu túmulo. A dor da culpa e o remorso apenas cimentaram seu coração árido. Comprou agulha e linha, colocou uma placa de "Costura-se" e passou a se virar com o pouco que entrava. Fazia pequenos reparos, recebia ovos, galinhas e macaxeira como pagamento. Mais ou menos nesse período, enquanto fazia compras na feira reencontrou Apolônia, de quem não se recordava.
─ Tia Ceiça! Quanto tempo?! ─ Conceição foi envolvida em um abraço caloroso com cheiro de cravo e canela. ─ Sou eu: Loló. Fia de dona Chica, neta de Alrice.
Os fios da memória foram puxados. Levou um tempo para que Conceição fizesse a ligação entre a menina mirrada que conhecera e a mulher grande e larga, de tez escura e cabelos crespos alisados que a cumprimentou com tanto entusiasmo.
─ Menina do céu, quanto tempo! Como tu tá? É para quando a criança? ─ Referia-se a evidente gravidez de Apolônia.
─ Abril ou maio, mas já não estou mais aguentando. Esse vai dar trabalho, não para de chutar minha costela.
─ É menino?
─ Creio que sim, a barriga é pontuda e não paro de ter gastura. Só fiquei assim na gravidez de José Filho. Filho-homem maltrata demais a mãe. E como a senhora está?
A conversa se prolongou por horas.
Loló lhe contou que os pais a mandaram para morar em São Luís, com Ana, uma conhecida da família. O combinado era que ela estudaria, e no horário oposto cuidaria da casa e do filho recém-nascido de sua 'madrinha'. No início o trato deu certo, mas com o passar do tempo, o excesso de obrigações, o cansaço e a insistência de Ana, fizeram com que Apolônia abandonasse os estudos.
─ Também desisti da escola, mas foi por conta de macho ─ Conceição sorriu rancorosa. ─ Quando a gente é nova e sem mãe faz tanta besteira.
─ Ah Ceiça, pelo menos ele era Bonito. Pior fui eu, que amarrei meu burro num homem chucro, feio e pobre.
Apolônia gargalhou amargurada. Contou que em um dia de feira, como aquele, pouco antes de completar quatorze anos, conheceu Zezito Pepita. Um garimpeiro de mais de quarenta anos, com dentes de ouro, hálito podre e sorriso zombeteiro. O homem se gabava de conseguir, apenas com o olhar, reconhecer se havia ou não ouro em algum lugar. Segundo ele, batia a vista nos montes de terra e montes de Vênus e declarava se havia ou não tesouro escondido. Soube reconhecê-lo em Loló, inexperiente e inocente, que atraída por sua lábia e sorriso dourado, deixou o julgo de Ana para se submeter ao dele.
─ Ele me deu um anel de ouro e um vestido bonito. E eu, besta, acreditei que poderia ser senhora, como Dona Ana era.
Ao contrário das riquezas e facilidades prometidas, Apolônia se viu responsável e cativa, em um casebre alugado. Após três meses de uma relação rude, engravidou pela primeira vez. Zezito partiu logo depois, retornando quando a criança completava um ano. Ficou algumas semanas e partiu, deixando-a novamente grávida. A cada visita Loló engravidava e acumulava alguns hematomas, que sumiam com o tempo.
─ Agora tô aqui, com quatro meninos em casa e mais esse no bucho. Não sei quando ele vai aparecer. Quando vem traz uma merreca de dinheiro, que não dá pra três meses e ainda me proibiu de trabalhar. Acredita? ─ Bufa ─ Disse que mulher que trabalha na rua é quenga. Mas ele se taca para o garimpo e não quer nem saber como nós fica aqui. Eu trabalho mesmo, não vou deixar meus meninos passar fome. Lavo, cozinho, faço diária.
Conceição ouviu sem se alterar. O que não faltavam eram histórias similares aquela. Também desabafou sobre suas dificuldades e os dilemas com Piedade.
─ Ceiça, vocês podiam vir morar com nós. A gente divide o aluguel. Tu olha os meninos enquanto eu trabalho e eu te ajudo com Piedade. Assim posso até arrumar um emprego fixo e sair dessa dificulidade eterna, de nunca saber se amanhã vai ter comida ou não. ─ Seus olhos castanhos e redondos eram esperançosos ─ Vai dar certinho! Zezito vem uma vez na vida, outra na morte. Não vai ter aporrinhação não.
O trato entre as mulheres deu certo. As crianças se vincularam imediatamente, aceitando Piedade como irmã.
Exceto pelas inesperadas e ocasionais chegadas de Zezito, por doze anos, viveram como uma família feliz. Até que a tragédia mais uma vez bateu na porta de Conceição, lembrando-a que por mais que fugisse, ainda tinha contas para acertar.
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