IX - Codó - Maranhão


Codó, Maranhão - 08 de Dezembro de 1920

A manhã quente e iluminada recende a poeira e carne putrefata. Piedade está amarrada ao colo de Conceição, dorme acalentada pelo passo vagaroso e som ritmado do coração materno. A aniversariante caminha penosamente ao lado de Firmino, seu corpo ainda dói pelo parto difícil, mas está anestesiada para a realidade. As vozes masculinas e femininas recitam o rosário em voz alta.

Enquanto as Ave-marias e Pai-Nosso são desfiados, a mente de Conceição é transportada para a época em que as orações faziam parte de sua rotina no orfanato. Seus dias eram divididos pelo ofício das horas, o Ângelus, as preces e agradecimentos.

Antes de Firmino acreditava que sua vocação era seguir na vida religiosa, talvez ajudar na alfabetização dos indígenas, ou enveredar-se em uma missão pelo Alto Solimões ou mesmo unir-se à Irmandade da Misericórdia e atuar na Santa Casa ou orfanato. Nunca sentiu especial inclinação nesse sentido, mas esse caminho lhe parecia tão viável e bom quanto qualquer outro.

Na manhã após o primeiro encontro com Firmino, acordou em uma rede na casa de Esmeralda. Estava empapada de sangue menstrual e tonta de fome, sede e enxaqueca. A amiga, que passou a noite ao seu lado, lhe abraçou forte.

— O que aconteceu? — Conceição indagou, sentindo a cabeça latejar.

— Por que você foi baiar? Eu te disse para ficar sentada! — A jovem ralhou com ela. — Tu não tava pronta e tua energia cruzou com a que a gente tava trabalhando.

Conceição fitou a amiga sem compreender do que ela falava.

— Teu primo que me chamou — Justificou-se esfregando os olhos que pulsavam em função da luz intensa que entrava pela janela da casa de madeira — Que dor infernal!

— É bem feito pra ti! Te falei para não se meter com ele — Esmeralda cuspiu no chão de terra batida — Ceiça, Firmino não presta!

Conceição projetou as pernas para fora da rede, sentindo o corpo balançar, como se estivesse mareado.

— Te aquieta aí, vou pegar um caldo pra ti — Esmeralda deixou o cômodo quadrado, puxando a cortina laranja que separa o quarto do resto da casa.

Instantes depois ela retornou com uma sopa rala, com sabor de cebola, coentro e tutano de boi.

— Se tá procurando por Firmino, a mamãe botou ele pra correr daqui! — Esmeralda responde a pergunta que Conceição não formulou.

— Mas por quê?

— Hum — A moça de cabelos crespos faz um bico de desprezo, enquanto enrola a rede no alto, para deixar o espaço livre — Ele sabe bem...

— Aí, não estou entendendo nada... — Conceição resmunga.

— Ceiça, tambor é mistério. Tudo tem fundamento! Bonito sabe disso! Fazer o que ele fez não é coisa que um homem direito faça...

— Mas o que ele fez? — À medida que sorvia o caldo picante e morno, sentia as forças voltarem.

— Tu não vai entender...

— Oxi, sou burra por acaso? — Exaspera-se — Tenta me explicar!

— Firmino não é de Mina, ele é da Mata. Mas como ele é parente a mãe deixou ele dançar na festa de Xangô. Mas ele interrompeu o trabalho e ainda te chamou para a roda... Isso é perigoso e irresponsável. Tu não tem culpa, mas ele tem!

Conceição escutou a outra de cenho franzido, realmente não compreendia os nuances do que ela queria dizer. Porém, a ousadia e desobediência de Firmino serviram para aumentar seu interesse pelo moço.

Conforme o esperado, quando voltou para o orfanato recebeu um castigo e sermão das irmãs. Passou o sábado e domingo esfregando o chão ajoelhada. Mas nem o ardor do sabão com lixívia, nem a aspereza do piso e muito menos a dor de cabeça irritante, foram suficientes para distraí-la da lembrança das mãos masculinas em sua pele.

No dia seguinte, durante a aula, o professor falava empolgado sobre a revolução russa e a deposição do Czar. Para Conceição essa notícia tinha a mesma importância que as matérias jornalísticas que falavam sobre às movimentações nas fábricas do país, que dali algumas semanas acabariam culminando na primeira greve geral do Brasil: Nenhuma! Pouco lhe importava que uma república tivesse sido instaurada sabe-se lá onde, tampouco se preocupava com os rumos da Grande Guerra que há mais de três anos acontecia em solo europeu. A única coisa que de fato lhe interessava era quando e como poderia rever o moço bonito novamente. A grande semelhança entre ela e seu Professor era que ambos estavam completamente apaixonados: Ele por Lênin, que nunca viu, e ela por Firmino, que só viu uma vez.

Ao retornar para o orfanato irritou-se consigo mesma, por sobressaltar-se com qualquer sombra que via na rua. Buscava sinais de Firmino entre os becos, atrás de um poste, na sacada de uma casa. Sentia-se uma boba, por acreditar naquelas várias histórias de amor que lera. Em todas elas o mocinho, após o primeiro encontro, arrebatador para ambos, não mediria esforços para encontrá-la. Mas ali estava ela, voltando para casa solitária. Após três dias não havia nenhum sinal de seu amado.

Preparou-se para a missa das 18hs. Fazia parte do coro. Juntou-se as colegas cantoras. Iniciada a celebração entregou-se à música com ardor, as palavras em latim saíam com força, mas o significado das mesmas era próprio. Em sua mente cantava o coração partido e os sonhos desfeitos.

Quando abriu os olhos sufocou um grito de alegria.

Entre os bancos encontrava-se Firmino, que sorriu maroto quando o olhar dos dois se encontrou. Conceição ficou gélida, e ao mesmo tempo em brasas. Errou as letras e tons dos hinos, o que fez com que levasse uma cotovelada de leve da corista que estava ao seu lado, por fim decidiu ficar apenas mexendo a boca fingindo que cantava.

Findo o ritual, perdeu Firmino de vista no meio das pessoas que saiam. Após terminar suas obrigações na Igreja juntou-se as irmãs que voltavam para o orfanato. De soslaio observou que ele a acompanhava de longe. Durante à noite revirou-se nos lençóis, banhada de suor e paixão buscou alívio solitário e silencioso. Insatisfeita, resvalou para um sono estremecido, onde em sonho poderia entregar-se para o novo dono de seus pensamentos.

A voz de Padre João, que conduzia o rito, trouxe-a de volta ao presente.

— Pela misericórdia de Deus, esta nossa assembleia, que por agora se despede com tristeza, há de reunir-se de novo um dia na alegria do reino de Deus. Consolemo-nos uns aos outros na fé de Cristo.

— Amém...

Conceição olha para as fileiras de túmulos, algumas cruzes de madeira estão carcomidas pelo tempo, outras são recentes. O sol reflete sobre o mármore das poucas lápides mais imponentes. Ainda entorpecida pela perda, busca em seu coração algum resquício de fé, mas encontra somente o vazio de uma crença que se quebrou definitivamente. Deus não existe, se existisse não teria permitido que isso acontecesse.

Cada um dos presentes pega um punhado de terra seca e barrenta e solta sobre o caixão de madeira simples. Conceição lança flores brancas na cova aberta, onde o corpo de seu amado esposo repousará.   

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