I - Fábrica de Tecidos de Codó
04 de dezembro de 1920, Codó - Maranhão.
Maria da Conceição desata o lenço de chita vermelha que prende seus cabelos lisos, passa o tecido sobre a testa estreita suada. Ô calor da moléstia, resmunga, enquanto faz um coque alto, prendendo novamente os fios negros para que não se misturem aos do algodão recém-cardado que está limpando. O dia quente e úmido é o costumeiro da pequena cidade maranhense, contudo, a mulher de quase vinte anos sente-se sufocar pelo ar abafado da fábrica de tecidos de Codó.
A blusa áspera, tingida de azul, está úmida pelo colostro que escorre dos seios inchados e doloridos. A roupa gruda em sua pele clara, nas partes em que o inclemente sol não toca e que Firmino apalpa e cobre de beijos. A cacofonia incessante dos teares, misturado a conversa das fiandeiras faz sua cabeça latejar. Esfrega os olhos oblíquos cansados, mesmo na rede, tem sido cada vez mais difícil encontrar uma posição confortável para dormir e na última madrugada a criança em seu ventre esteve estranhamente inquieta.
Ugh, Conceição geme de dor ao receber um chutinho nas costelas, acomoda, Piedade, ralha com a criança que disputa espaço com seus órgãos. Um vento gelado, em oposição ao hálito morno daquele sábado, entra pelas janelas de madeira do prédio em estilo neoclássico inaugurado em 1892. Conceição arrepia-se com o odor de morte e podridão que recende pelo ambiente. Em um gesto de autoproteção envolve a barriga com o braço esquerdo, com a mão direita busca a cruz de madeira em forma de T, que pende em seu pescoço; junto do Tao Capuchinho, única lembrança da mãe que não conheceu, está a aliança de latão que trocou com Firmino e que não cabe mais nos dedos roliços pela gravidez.
A luminosidade natural vinda do lado de fora diminui, mergulhando a fábrica em uma luz difusa e parcial. Conceição, ainda sentada, espanta-se quando começa a ter leves espasmos que começam no umbigo e irradiam por seu ventre; experimentou a mesma sensação dezenas de vezes na semana anterior, mas pela primeira vez o tremor veio acompanhado por uma dor fina e persistente.
─ Ceiça, você tá bem? ─ Aurice, a fiandeira do tear ao lado aproxima-se preocupada, ao ver o rosto pálido da jovem. Ao contrário das outras, que ainda culpam Conceição pelo que houve com Luzia, a mulher mais velha sempre simpatizou com a moça que Firmino trouxe de São Luís ─ Naaaaza, acode aqui ─ Grita para ser ouvida apesar das máquinas.
Maria de Nazaré, uma filha de santo e auxiliar da parteira, junta-se a elas. Seu rosto é liso e de idade indefinida, os cabelos crespos estão presos por uma faixa de algodão, a pele escura reluz no ambiente mal iluminado, o rosto geralmente sorridente fecha-se ao ver as garras sinistras que tocam a barriga da grávida. Avança rápido, constatando que, na realidade, o que viu foi a sombra dos galhos secos da ingazeira que se projetava pela janela aberta. De todo modo, muda a gestante de lugar, pois a imagem não lhe pareceu bom augúrio.
Nazaré apalpa a barriga que já está baixa; calcula as luas desde a última menstruação de Conceição e conclui preocupada que, mesmo sem estar pronta, a criança decidiu nascer.
─ Ceiça, é a virada da lua, tua fia tá nascendo ─ Ninguém duvida que seja uma menina, pois foi o indicado em todas as simpatias.
─ M-mas ainda não está na hora...─ A grávida tenta protestar, porém, é tomada por uma nova contração mais longa e dolorosa.
Percebendo que algo está acontecendo, as demais fiandeiras deixam temporariamente seus postos e cercam a parturiente; apesar de tudo, suas colegas não lhe desejam mal, embora a irmã de Luzia nunca tenha escondido seu rancor.
─ Ontem foi a primeira noite da Lua cheia! Cidinha pariu ainda de madrugada, não deu nem tempo de Mãe Meroca chegar ─ Lourdes comenta.
─ E Ceiça tem o útero fraco, não é à toa que nunca segurou a criança ─ Antônia refere-se ao fato de que ao longo de mais de três anos a Jovem nunca engravidou.
─ Chega dessa conversa, estão assustando a pobre ─ Aurice se irrita ─ Vou pedir a carroça de Chico Ramos e levamos Conceição para casa da Mãe Meroca!
Um trovão reverbera pelas paredes de tijolos, fazendo todas estremecerem; o som da tempestade inesperada tiquetaqueia sobre as telhas de barro.
─ Chuva? Mas ainda agorinha tava um calor dos infernos! ─ Lourdes comenta intrigada.
As fiandeiras correm para fechar as janelas altas e retangulares, impedindo que o prédio de piso ladrilhado alague. Um novo trovejar sacode as dobradiças, abafando o grito de Conceição que sente outra contração. Suas entranhas parecem querer se rasgar, seu impulso é para agachar e permitir que a criança saia; mas está estática em seu lugar, com a vista embaçada e a cabeça latejando de dor. De tempos em tempos olha por sobre o ombro, pois sente um bafejo oco e gélido no pescoço suado.
Nazaré desata o lenço de Conceição soltando os cabelos lisos, que descem como uma cascata negra por suas costas preguentas de suor; não consegue ignorar a sombra sinistra que não muito distante observa a grávida. A filha de santo recorda do parto de Luzia, que aconteceu há pouco mais de dois anos, durante uma noite sem lua. A jovem se recusava abrir as pernas ou fazer força; o menino sem nome quase abriu seu próprio caminho para o mundo, sendo recebido entre lágrimas de tristeza e gritos de ressentimento. Seus avós maternos lhe nomearam Felisberto, o que com o passar do tempo mostrou-se uma ironia, pois era raro que a criança sorrisse; anos depois, já crescido, o rapaz seria incapaz de recordar de um único instante de felicidade em sua curta vida, e acabaria assumindo a alcunha de 'Coisa Ruim', que é como a mãe lhe chamava enquanto era viva.
Conceição solta um urro animalesco, líquido amniótico raiado de vermelho escorre por suas pernas inchadas, acumulando-se nas alpercatas gastas e entre os dedos dos pés atrofiados, que são ligados por uma fina membrana de pele. As contrações estão mais frequentes e longas. Nazaré sente uma presença sinistra rodeando a grávida; Conceição, alheia a isso, olha suplicante para a colega pedindo socorro, o medo da perda é evidente em seus olhos castanhos puxados, herança da mãe que pertencia ao povo Canela.
─ Ceiça, tu tem que caminhar ─ A parteira incentiva, temendo perder mãe e filha naquele parto ─ Não tem como impedir a menina de nascer!
Conceição está em pânico, a pressão no baixo ventre está cada vez maior, pontadas longas de dor espalham-se por todo seu corpo, preparando-o para o nascimento.
─ Ceiça, vem comigo; vamos andar, a natureza não ajuda mulher preguiçosa ─ Aurice instiga, tomando-a pela mão e fazendo com que se equilibre sobre as pernas cansadas, com veias esverdeadas que parecem prestes a estourar.
Após dois passos, Conceição sente a cabeça rodar e luzes coloridas dançam à sua frente.
─ Acho que vou desm... ─ Tomba para o lado, sendo amparada por Nazaré e Aurice, que não deixam que caia no chão.
A mulher é levada para um dos quartinhos, sob protestos de Chico Ramos, o supervisor da Fábrica. Porém, vendo que, em plena chuva, seria impossível lançar a grávida na rua, concordou a contragosto que transformassem o depósito em uma sala de parto, rezando para que os patrões não fizessem caso disso. Antes de fechar a porta atrás de si, Nazaré chamou Aurice pedindo que buscasse Tonico, irmão de Firmino, que trabalha na oficina mecânica ao lado para que levasse um recado: A morte está caminhando ao lado de Conceição.
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Eita lelê, o que está acontecendo? Rsrsrs
Sei que é uma obra diferente, mas deixem seus comentários 🫰🏾🌼
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