Capítulo 4: Reencontro
A música suave de Garota de Ipanema preenchia o amplo elevador envidraçado do hotel, tão luxuoso que parecia mais um lounge suspenso do que um meio de transporte.
Harry não conseguiu evitar a comparação com o velho elevador do seu antigo apartamento em Londres — um cubículo sufocante, onde os vizinhos ficavam espremidos como sardinhas e os solavancos a cada andar davam a sensação de que, a qualquer momento, o troço ia parar entre dois andares para nunca mais se mover. Nada daquilo parecia possível ali, naquele espaço que cheirava a perfume caro e limpeza impecável.
— Você não vai levar nem uma bolsa? — Draco quebrou o silêncio, erguendo uma sobrancelha ao notar que Harry estava de mãos abanando.
— Nenhuma das roupas que estão naquele quarto são minhas. — Harry deu de ombros. — Os organizadores forneceram. E meu uniforme da corrida... bem, digamos que a primeira e a segunda fase foram pouco gentis com ele. Está basicamente em pedaços.
Naquele momento, Harry vestia uma camisa de mangas compridas em tons de vermelho-escuro e dourado, jeans escuro e tênis All Star preto de cano alto. Tecnicamente, roupas oferecidas pela comissão da corrida. E, para sua irritação, caíam nele muito bem. Ao contrário de suas roupas de verdade — compradas em brechós ou lojas de segunda mão, sempre largas demais, sempre escolhidas mais pela necessidade do que pelo gosto.
— Certo. Isso precisa mudar. — Draco comentou com naturalidade, como se estivesse apenas observando o clima. Mas havia um brilho sutil de excitação em seus olhos cinzentos que entregava o subtexto: ele estava planejando levar Harry para uma jornada de compras.
Harry estreitou os olhos e fez uma careta.
— Mudar o quê? Eu posso buscar minhas roupas no meu antigo apartamento... — disse, ainda que soubesse muito bem das condições precárias de seu guarda-roupa.
Draco balançou a cabeça.
— Se você é meu ômega... — começou, e logo parou, o rubor subindo às suas maçãs do rosto aristocráticas. Harry precisou se controlar para não rir ao ver Draco Malfoy gaguejando como um adolescente. — Q-quero dizer, eu revendiquei você. Então, tecnicamente, é meu dever cuidar de você. E comprar roupas é o mínimo.
— Cuidar de mim? — Harry ergueu as sobrancelhas, sarcasmo na voz. — Eu sei me cuidar, Malfoy.
— Eu sei disso! — Draco respondeu rápido demais.
— Então? — Harry cruzou os braços.
— Só... deixa eu comprar roupas para você, ok? — Draco replicou, os olhos faiscando de impaciência. — Sem você reclamar tanto, será que dá, Potter?
Harry piscou lentamente, o tom carregado de ironia.
— Isso é tipo... um fetiche de vocês, alfas?
— Não! — Draco retrucou, o rubor em suas bochechas intensificando. — Só... eu gostaria de fazer isso. — resmungou, soando mais como uma criança teimosa do que como o imponente alfa que fingia ser.
Harry rolou os olhos. E, ainda assim, precisou esconder o sorriso que ameaçava escapar.
Apesar do clima ameno entre eles, uma incerteza (dentre tantas) se destacava dentro de Harry, latejando como uma pergunta inconveniente.
— Então... se agora eu sou "seu ômega" — Harry fez questão de usar aspas com as mãos, recebendo um revirar de olhos imediato de Draco — isso significa que eu devo... morar com você? Quero dizer, eu tenho um apartamento. E um trabalho. Mesmo que a gente esteja nesse... interlúdio bizarro entre a corrida e o Duelo... bem...
A frase morreu no ar.
A verdade é que Harry não tinha parado para refletir a fundo sobre o que aceitar a reivindicação de Draco significava. Em tese, sim, deveria viver ao lado do seu suposto alfa. Mas será que era isso que queria?
A porta do elevador se abriu antes que Draco pudesse responder.
Do outro lado, uma garota de cabelos castanhos encaracolados, que caíam como cascata pelos ombros, já os aguardava.
— Ah! Finalmente! — exclamou, o tom carregado de alívio. — Eu já estava ficando preocupada. Pensei até em pedir para o Viktor subir para ver se tinha acontecido alguma coisa, mas não — os guardas da organização foram categóricos em dizer que só alfas autorizados podiam subir. Nem o Viktor, imagina! Só porque o senhor Malfoy aqui resolveu reivindicar o senhor Potter, de repente ele tem "passe verde" e o Viktor não. Mas enfim, a demora! Já imaginei o pior... — Ela tagarelava enquanto gesticulava com as mãos. — O importante é que chegaram, e eu já comecei a levantar os documentos necessários...
Harry franziu o cenho, confuso. Quem diabos era aquela?
— Hermione. — A voz grave e seca veio de Viktor Krum, que se aproximava. O alfa tinha o porte de uma muralha atlética, a cabeça raspada, a expressão tão severa que parecia esculpida em pedra. Ele apontou para a garota e olhou para Harry, como se isso fosse o suficiente para apresentá-la.
— Sinceramente... — ela suspirou, assoprando uma mecha rebelde da testa. — Eu sei me apresentar sozinha. E, só para constar, aquilo nem chega a ser uma apresentação decente. Sou Hermione Granger, secretária do Viktor e consultora para casos legais envolvendo alfas e suas idiotices. Sem ofensa.
Ela disse isso alternando o olhar entre Draco e Viktor. Draco pigarreou, constrangido, enquanto Viktor apenas deu de ombros, como quem confirmava a fala.
— Acho melhor continuarmos a conversa no lobby, Hermione. — Draco interveio. — O Potter não vai aguentar seu tagarelar se ficarmos presos nesse elevador.
— Oh! Sim, claro. — Hermione corou levemente. — Mil desculpas. Só queria adiantar as coisas...
— Que coisas? — Harry precisou perguntar, porque já estava perdido na velocidade dos acontecimentos.
— Ora, os documentos legais que podem te liberar do Draco. — explicou, como se fosse óbvio. — Você sabe, aquela história da reivindicação pública. Pois bem, o próprio Draco me pediu para buscar uma alternativa. Assim você não precisa ficar de fato vinculado a ele.
Ela abriu a pasta de couro que trazia debaixo do braço. Papéis escorregaram de imediato e caíram pelo chão.
— Isso não será necessário. — disse Harry rapidamente, agachando-se para ajudar a recolher os documentos.
Dentro de si, uma voz racional dizia que aquilo podia ser a solução. Que poderia encerrar a farsa e desfazer o que nunca deveria ter acontecido. Mas havia outra voz — mais boba, mais irritante — que lembrava que Draco tinha procurado uma alternativa não por si mesmo, mas por Harry. E isso... isso tinha um quê de romântico que Harry se recusava a admitir.
Então, ignorou a terceira voz, a mais inconveniente de todas, que ousava chamar aquilo de oportunidade.
— Como assim? — perguntou Viktor, lançando um olhar que consistia apenas no arqueamento mínimo de uma sobrancelha. E Harry presumiu que aquele era o mais próximo de "confusão" que Krum conseguia demonstrar.
— Harry e eu decidimos continuar com essa reivindicação. — Draco anunciou, com a postura rígida, mas a voz tropeçando levemente. — Se queremos participar do Duelo, precisamos ser... de fato um casal, não é? Quer dizer... não de fato de fato... só fingindo. Fingindo que somos um casal. Não um casal de verdade. Só... amigos. Isso. Apenas amigos.
Harry sentiu o rosto esquentar. Não pela fala em si, mas pelo olhar descrente que Hermione lançou imediatamente, como se dissesse "vocês acham mesmo que enganam alguém?". Viktor, por sua vez, parecia... rindo. Ou algo próximo disso — o canto dos lábios do alfa tremeu quase imperceptivelmente, e Harry teve certeza de que era uma versão controlada de uma gargalhada.
— Espera. Duelo? — Hermione arqueou as sobrancelhas, crítica. — Draco, não era você quem deveria convencer o senhor Potter a não participar disso?
Harry piscou, surpreso. No bom sentido. Era raro ver uma beta levantar a voz assim diante de alfas — e dois, de uma vez só. Talvez fosse consequência de trabalhar lado a lado com Viktor Krum, famoso atleta e alfa dominante, um daqueles que exalavam poder apenas respirando.
— Eu até tentei... — Draco resmungou, corando sob o olhar severo de Hermione.
— Então vocês vão participar. — Viktor disse. Não era uma pergunta. Era um decreto.
Harry e Draco assentiram quase em sincronia.
Hermione soltou um suspiro frustrado.
— Ótimo. Passei a noite em claro, junto com Lupin, levantando documentos para nada, aparentemente.
— Desculpa. — Harry ofereceu um meio sorriso culpado.
Ela fez um gesto com a mão, como quem dizia "deixa para lá".
— Eu já suspeitava. Assisti sua atuação na corrida, Potter. Você não parecia exatamente o tipo que desiste. — fez uma pausa, os olhos indo para Draco. — E obviamente Malfoy não deixaria você se meter nisso sozinho.
— Obviamente. — repetiu Viktor, e desta vez Harry não teve dúvidas: ele estava rindo.
— Bem, e o que fazemos agora? — Draco perguntou, lançando um olhar irritado ao outro alfa, que parecia desfrutar estranhamente daquela resolução.
— O que fazemos? — Hermione fechou a pasta de couro com um estalo e começou a caminhar pelo corredor. O trio a seguiu. — Acredito que devemos consultar o senhor Black e o senhor Lupin. Eles devem ter um plano de ação mais elaborado para seguirmos...
— Espera. — Harry interrompeu. — E Neville?
Era impossível não pensar no amigo. Neville tinha manifestado a intenção de competir na terceira fase. Mas agora, com a mudança para o Duelo... onde ele ficava nessa história? Ainda estaria no hotel?
— E quanto à Luna? A Fleur? — acrescentou rápido, porque não podia simplesmente ignorar suas outras companheiras da corrida.
Hermione assentiu, profissional.
— A senhorita Lovegood e a senhorita Delacour já foram escoltadas para fora do hotel. Ambas aceitaram o prêmio por concluírem a segunda fase. Receberam suas recompensas, mas sem alarde midiático. — Seus olhos castanhos se estreitaram. — Imagino que você já tenha percebido, Potter — afinal, lhe deram um quarto com TV — que os organizadores e o próprio Conselho Alfa estão focando toda a atenção no Duelo, e não no encerramento da Corrida. É um espetáculo de distração, porque, sejamos francos, a Corrida não ajudou em nada na imagem pública dos alfas.
Harry respirou fundo, sentindo um certo alívio. Ao menos Luna e Fleur estavam seguras... ou esperava que estivessem. Precisava encontrar um jeito de falar com elas.
Mas a pergunta continuava queimando.
— E Neville? — insistiu, desviando o olhar para Viktor.
O alfa, que até então parecia relaxado demais, ficou tenso de repente. Não precisou dizer nada: o silêncio pesado já era resposta suficiente.
— O senhor Longbottom... — Hermione começou, a voz cuidadosa, como quem escolhia cada palavra para não inflamar ainda mais a tensão no ar. — Não temos muitas informações. Sabemos apenas que ele ainda está no hotel. Parece que foi transferido para outro quarto, assim como você... mas as circunstâncias dele são diferentes das suas. Digo... como Draco te reivindicou, ele tem acesso a você. Mas, no caso do Neville...
Um rosnado baixo cortou a fala.
Harry estremeceu — quase. O som veio de Viktor, profundo, reverberando como trovão engasgado. O alfa estava irritado. Ou melhor: furioso.
— Eu tentei falar com ele. — disse Viktor, a voz grave soando como uma sentença. — Não deixaram.
— "Tentei falar" não descreve bem. — Hermione suspirou, cruzando os braços. — Ele quis dizer que quase atacou guardas betas e quebrou alguns objetos do hotel. Eu ainda estou tentando reverter o possível processo que o gerente quer abrir contra ele! Foi um milagre conseguirmos autorização para você entrar hoje, Viktor.
Krum soltou outro som gutural, um grunhido contido que fez Harry pensar em lobos prestes a arrebentar correntes.
— Nós vamos encontrar o Neville. — disse Draco de repente, firme. Ele olhou para Harry, depois para Viktor, como se prometesse aos dois ao mesmo tempo.
Harry queria acreditar. Mas não tinha a menor ideia de como Draco planejava cumprir aquilo.
O grupo seguiu até uma imensa porta automática, que se abriu com um sussurro metálico, revelando o lobby luxuoso do hotel. O espaço era amplo, iluminado por lustres de cristal que espalhavam reflexos dourados pelo mármore impecável. A opulência, porém, foi rapidamente engolida por uma voz aguda, quase estridente, que enchia o ar.
— Veja, Neville! Vários candidatos perfeitos. Você conseguiu, meu neto! Era isso que queríamos, não é? — A mulher falava em tom esganiçado de excitação, segurando um maço de cartas como se fossem bilhetes premiados.
Harry a observou. Vestia um traje que parecia ter saído de outra década: um vestido antiquado, preservado com zelo mas cheio de remendos discretos; um casaco de pele tão gasto que parecia sobreviver apenas por teimosia; e um penteado intricado sustentava cabelos grisalhos endurecidos por laquê. Seus olhos faiscavam de ambição enquanto examinava as cartas com atenção quase obcecada.
— Vovó, eu... eu não... — Neville tentava falar.
Era o mesmo Neville de sempre: alto, cabelos castanho-claros, olhos da mesma cor, rosto arredondado, jeito desajeitado. Mas havia algo de diferente nele, um peso nos ombros que não estava lá antes.
— Só assim a família Longbottom vai se erguer de verdade. — continuava a avó, sem lhe dar espaço. — Precisamos garantir o futuro.
— Vovó, eu não... — tentou de novo, a voz hesitante.
— Neville! — exclamou Harry, animado ao reconhecer o amigo.
O rosto do ômega se iluminou ao vê-lo, um brilho genuíno em seus olhos. Mas logo corou quando notou Viktor. Deu alguns passos para a frente, instintivo, só para ser puxado de volta pela mão de ferro de sua avó.
— Não, Neville Longbottom. — a senhora disse com frieza glacial. — Eu te proíbo de interagir com eles. A Corrida terminou, e sua missão também.
Ela lançou um olhar fulminante em direção a Harry, o tipo de olhar capaz de cortar a pele como faca.
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