PART V

— Por que está com essa cara de Romeu apaixonado pela Julieta impossível? — Eric perguntou a Gilbert assim que entrou em casa.

Já era tarde da noite, e um pouco antes do fim da festa, quando eles regressaram em uma carruagem que Josephine disponibilizou. Bash logo foi colocar a filha na cama enquanto Gilbert e Eric foram para cozinha esquentarem um copo de leite quente.

— Não estou.

— Vou ser mais objetivo então...pensando em quem? 

— Como sabe que estou pensando em alguém?

Eric riu enquanto servia a bebida, agora quente, em um copo para o amigo.

— Gilbert confesse logo, você está com essa cara desde que estava dançando com a Lorena no baile.

— Eu não...eu não gosto dela desse jeito. — comentou olhando para a neve, que agora caia mais densamente.

A realidade era que o garoto não entendia seu coração. Quando namorou com Anne, tudo era simples, preto no branco e quaisquer sentimentos explícitos que os livros de romance tanto descreviam.

Mas com Lorena, tudo era um desafio para si. Ela mexia com sua cabeça, tirava sua racionalidade e transformava seu coração em gelatina com qualquer sorriso que dava, até mesmo na forma que andava pelos corredores da faculdade determinada a conquistar o mundo, usando calças ou saias, e aí de quem falasse o contrário.

— Tudo bem. — Eric disse vendo que o amigo estava em combate com a própria mente — Pode se enganar o quanto quiser, mas cuidado para não se arrepender depois.

Gilbert observou a neve por mais um tempo antes de se deitar, embora estivesse ali, seus pensamentos estavam presos no salão de baile com a garota.

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A floresta estava toda branca por conta do inverno rigoroso, a neve havia parado algumas horas, depois que o primeiro dia do ano foi recepcionado por uma intensa nevasca, e Gilbert aproveitou para caminhar deixando o ar gelado de Avonlea preencher seus pulmões.

Era bom recarregar os ânimos antes de voltar para Toronto.

— Gilbert?

Os cabelos ruivos contrastando na neve eram inconfundíveis, assim como a sua dona, Anne Shirley Cuthbert.

— Olá.

— Oh… como vai? — ela perguntou se aproximando.

— Bem, e você?

— Bem. Está frio hoje não?

— Muito.

Os dois continuaram a caminhar lado a lado, em silêncio, apenas apreciando a companhia amiga que eram um para o outro. O relacionamento, se é que haviam de fato chegarem nesse patamar, havia sido bom para ambos notarem que tudo era somente uma amizade.

Anne não era apegada às coisas quando podia conquistar o mundo, e Gilbert nunca iria aprisionar a mente criativa dela.

— Então, você já contou a ela? — Anne perguntou curiosa quebrando o silêncio.

— Contar o que?

— Que gosta da Lorena, o que mais seria?

— Por que vocês estão insistindo tanto nesse assunto? 

— Porque é a verdade Gilbert, você ama a Lorena e só um tolo não vê.

— Eu não... amo ela. — disse hesitante.

— Será que terei que lhe bater novamente com uma lousa, mais forte dessa vez, para você se dar conta da realidade? — perguntou a ruiva cruzando os braços lembrando de quando partiu a pequena lousa na cabeça do garoto quando ainda eram crianças — Vai logo contar para ela antes que seja tarde demais e ela já tenha partido para longe.

— Tarde demais? Ir para longe? Anne, do que você está falando?

A ruiva revirou os olhos começando a se irritar com a lerdeza do garoto. Por que todos os rapazes não podiam ver as coisas rapidamente como nos livros?

— Eu não devia estar falando isso, prometi até para a própria Lorena que não abriria minha boca… mas acho que é necessário. — disse a Cuthbert — Lorena decidiu ir para Sorbonne ontem à noite e o navio dela partiria hoje, não sei o horário, então acho melhor correr para a casa da tia Josephine.

— O que?

— Você me ouviu muito bem, o que está fazendo aqui parado me olhando e não indo atrás dela?

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O coração de Gilbert batia de forma tão rápida que ele não sabia se era pela adrenalina, medo ou a velocidade que havia chegado na casa de Josephine.

E toda adrenalina esfriou somente com uma frase vinda de Cole:

— Ela já partiu.

— Como assim já partiu? 

— Partindo Blythe, o que você entende com essa frase? — Marjorie perguntou irônica segurando um livro da biblioteca da casa contra o peito. 

— Mas…eu ia falar o que sinto para ela.

— Falar o que? Deixa eu adivinhar… você está confuso, não sabe direito o que sente. E, com isso, iria deixar ela ainda mais confusa sobre ir ou não para Sorbonne? — o tom de voz de Marjorie era como adagas cortando o rapaz, verdades nuas e cruas dolorosas que ele se dava conta agora — Ela merece o mundo, e não migalhas de alguém indeciso sobre o que sente por ela. Ela seguiu o caminho correto desde que recebeu a proposta.

— Pega leve Marjorie. — Cole interviu vendo que a garota estava nervosa. Marjorie apenas olhou Blythe de cima a baixo antes de sair do cômodo — Não liga para ela, as duas tiveram uma conversa bem intensa sobre o futuro.

— Entendo. Então, acho melhor eu ir.

— Ela lhe deixou isso. — Cole estendeu uma carta para Gilbert tentando dar um sorriso confortante — Pediu para que lhe entregasse na primeira oportunidade que te visse.

— Acha que… se eu tivesse chegado a tempo… ela ainda sim teria ido?

— Honestamente? Sim. Lorena estava bem determinada entrando naquele navio, afinal, é o sonho dela… e não se cortam sonhos.

Cole deixou o Blythe sozinho, imaginando que ele iria querer um momento sozinho para ler a carta.

Assim que o loiro deu as costas, Gilbert abriu o envelope vendo a folha com a letra de Lorena.

Gilbert,

Provavelmente quando isso chegar em suas mãos, espero que chegue um dia pelas mãos de Cole e não de Marjorie pois é bem capaz dela rasgar esse papel e atear ao fogo, estarei longe da América e saberá qual foi a minha decisão.

Nós dois sabemos o quanto uma oportunidade em Sorbonne é incrível, então imagine-se no meu lugar: uma jovem mulher, numa sociedade onde lhe apontam o dedo constantemente se não for um perfeito bibelô, que deseja mudar o mundo e inspirar outras mulheres a conquistar seu lugar no mundo. Parece sonho ou loucura, correto? Contudo não é, e eu tenho essa oportunidade nas minhas mãos.

Eu preciso usá-la Blythe, preciso agarrar com toda a minha força.

Não serei a revolucionária, mas espero fazer minha parte o suficiente para ser a inspiração de alguém futuramente.

Esse é um dos meus milhões de sonhos.

Espero com todo meu coração que entenda algum dia, mas na festa de ano novo e após ela, percebi que não podia sacrificar minha felicidade ou meu futuro por uma incerteza… e seus sentimentos ao meu respeito, são incertezas, você negando ou não porque lhe conheço e vi em seus olhos.

Eu lhe amei Gilbert Blythe, e provavelmente lhe amo ainda enquanto escrevo essa carta com um nó na garganta, mas não posso me contentar com algo que não terei. Preciso ser fiel a mim mesma primeiramente. Em Sorbonne, meu futuro está garantido, e pode me achar uma grande egoísta agora, mas não perderei uma oportunidade de ouro por tua causa.

Pode odiar-me, sentir raiva ou qualquer coisa, pode até mesmo descontar seus sentimentos aqui nesse papel, mas se você merece seu lugar no mundo…eu também mereço.

Espero que um dia, quando formos maduros, nos encontrarmos novamente como bons amigos para tomar uma xícara de chá.

Com carinho,

Lorena D.

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Dois anos e meio depois…

— Doutora? — a assistente de Lorena bateu na porta de sua sala abrindo uma brecha vendo a médica escrever algo de cabeça baixa — Tem um paciente aqui que se queixa de ter algumas dores no coração, posso dizer para ele entrar?

— Oui, por favor.

A moça saiu e em poucos instantes, um rapaz alto apareceu tirando a boina. Lorena levantou a cabeça tomando um susto com quem estava ali.

— Blythe? — perguntou surpresa. 

Ela sabia que era Gilbert, o rosto ainda era o mesmo embora os traços agora fossem um pouco mais maduros, mas ainda o deixava irresistivelmente lindo.

— Olá doutora Lorena. — disse com um sorriso no rosto.

Céus! Ele ainda sorria como um galã como era conhecido em Toronto.

— O que faz aqui? Em Paris?

— Vim me matricular na Sorbonne, consegui uma bolsa de estudos nos últimos anos do curso.

— Triès bien Blythe! — ela sorriu animada o abraçando com força no impulso e quando recobrou a razão, o soltou imediatamente  — Oh desculpe, quer dizer muito bom saber disso Blythe. Já se mudou então?

— Ah sim, me organizei ontem no dormitório da faculdade.

— Legal.

Lorena fechou os lábios em uma linha fina e olhou para baixo, ainda sentia-se um pouco estranha ao lado do rapaz e não conseguia distinguir se aquilo era bom ou ruim.

Ela já tinha tido alguns encontros aqui ou ali, passeios em frente à Torre Eiffel com jovens cavalheiros, mas nada que abalasse seu coração. E ver Gilbert ali, depois de todos esses anos e de uma carta como forma de despedida, ainda lhe fazia sentir borboletas no estômago. 

— Você poderia me mostrar Paris? Não conheci tudo aqui ainda e como você é da região.

— Oui! — respondeu de imediato — Quer dizer, sim eu posso. Vamos agora ou você tem algum compromisso?

— Sempre estarei disponível para você Lorena Delyon.

A garota pediu para que sua assistente reorganizasse sua agenda, pois agora não estaria disponível, e de braços dados com Blythe, os dois foram explorar Paris.

Lorena explicava cada canto turístico da cidade, comprou até mesmo o primeiro croissant para Gilbert enquanto ambos contavam o que aconteceu. Marjorie havia largado a faculdade de medicina, abrirá sua própria marca de roupas femininas que estava sendo um sucesso com as primeiras calças, Eric estava em Toronto e estava conhecendo uma moça que fazia administração, Cole começava a ganhar destaque das galerias de arte com suas esculturas tornando-se um talento bastante requisitado por nomes famosos. Anne havia lançado seu segundo livro, um romance em meio a aventuras que sua protagonista vivia, e já vendia bons números de exemplares.

Depois de explorar boa parte dos locais, foram para o ponto favorito da garota: Notre Dame.

A praça em frente a igreja estava movimentada, algumas barracas aqui e ali com vendedores, a garota puxou os dois para dentro da igreja e pelos corredores do canto, caminhavam de braços dados agora em silêncio.

— Como está o seu francês? — Lorena perguntou em tom baixo para não atrapalhar quem rezava.

— Acho que bem, esperava que você me ajudasse com isso.

— Bom, se será meu aluno então espero que saiba que sou uma professora muito exigente.

— Não esperava menos de Lorena Delyon.

Os dois riram baixo e voltaram a caminhar em silêncio, até o fundo da igreja, sentando-se em um banco.

— Lorena, eu preciso lhe dizer algo. — iniciou o Blythe atraindo a atenção da garota — Eu recebi sua carta há mais de dois anos, e… na época eu não entendia o que sentia, você estava certa em aceitar essa oportunidade de ouro para Sorbonne e não se prender por minha causa… céus eu não saberia se prendesse você, nem quero, mas… estando longe, dei-me conta dos meus reais sentimentos por você somente quando lhe perdi.

Pegando a mão da garota, e segurando como se tivesse o mundo ali ao seu alcance e… céus, Gilbert Blythe tinha mesmo porque Lorena Delyon valia isso e muito mais, o rapaz tomou o resquício de coragem que havia em si.

— Eu te amo. Fui tolo, confundi amor com amizade mas você não é somente minha amiga, é a mulher que eu quero ao meu lado para mudarmos o mundo juntos e… eu quero ser alguém que estará junto a ti, nas horas boas e ruins, quando for realizar seus milhões de sonhos. Por isso lhe peço, casa comigo? Vamos conquistar o mundo juntos?

Lorena não sabia o que dizer, ou se conseguia dizer algo já que as palavras escaparam de sua boca. Parecia um sonho, Gilbert ali lhe pedindo em casamento? Sendo recíproco com seus sentimentos?

Só havia uma resposta para isso…

— Sim. Eu aceito.

Os dois sorriram em meio às lágrimas e se beijaram ali, sem se preocupar com quem iria ver, deixando os corações que tanto se auto reprimiam se expressarem sem medo.

Lorena Delyon tinha milhões de sonhos, e Gilbert Blythe estaria ali para ajudá-la e apoiá-la em todos eles.

– FIM –

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