PART I
O som da manhã de Toronto entrava pelas janelas do dormitório feminino, abrangendo todos os quartos dizendo que já estava na hora de acordarem e levantarem. Grande parte das alunas já estavam se arrumando mais animadas do que o de costume, já que aquele seria o último dia de aula e voltariam somente no ano seguinte após as festas.
Bom, todas exceto uma.
— Lorena Delyon! — uma garota de cabelos negros como a noite e olhos um pouco castanhos esverdeados batia com força contra a porta escura, fazendo com que algumas garotas que passassem pelo corredor lhe lançassem olhares tortos pelo barulho. — Lorena!
Bufando, Marjorie tentou girar a maçaneta que felizmente abriu a porta do quarto, entrando assim de supetão no cômodo vendo o corpo da amiga adormecido na cama.
— Por que ainda está dormindo? Vai se atrasar. — puxando as cortinas para que a luz entrasse, ela abriu a janela deixando o ar frio da manhã entrar antes de puxar a coberta de comida da amiga, fazendo-a resmungar como resposta.
— Que horas são? — Lorena, zonza de sono, perguntou enquanto sentava na cama.
— Estamos quase atrasadas, temos aula ainda se lembra? E a prova na primeira aula!
— Céus Marjorie, eu esqueci totalmente — a menina, com os cabelos castanhos bagunçados, levantou-se da cama indo lavar o rosto e se trocar atrás do biombo — Onde estão minhas calças pretas?
— Não sei. — Marjorie arrumava a cama da garota imaginando que ela não sairia do cômodo sem que a mesma estivesse arrumada — Mas sugiro que se apresse.
— Eu estou pronta.
Lorena apareceu vestindo calças pretas não tão justas, uma blusa simples e o que costumava chamar de "botas da sorte" que nada mais era do que botas de montaria em que colocava a calça dentro, além de alguns livros debaixo dos braços para as aulas seguintes.
— Já era hora.
As duas saíram praticamente correndo da casa, que servia de dormitório feminino, andando rapidamente pelas ruas até a Universidade de Toronto atraindo alguns olhares de muitas senhoras que passavam por ali, afinal ainda não era tão comum naquela sociedade mulheres estarem vestindo calças.
— O que é isso em suas mãos? — Lorena perguntou ao ver um monte de papel nas mãos de Marjorie, pelos envelopes e a mistura de perfume que emanava eram cartas.
— Fui parada por, no mínimo, sete meninas pedindo para entregar ao Blythe e ao White. Tudo isso porque elas não têm coragem de falar com eles.
— Viramos pombos correios? — uma careta se formou no rosto de Lorena.
— Parece que é o preço por sermos amigas dos galãs da universidade. — Marjorie revirou os olhos.
Um grupo de rapazes passaram por elas olhando-as de cima a baixo, alguns cochichando e rindo de forma debochada das vestimentas das duas enquanto outros, não poupavam olhares maliciosos para as coxas e nádegas das meninas. Lorena quase parou para dar uma resposta ao ato dos homens, se não fosse Marjorie lhe puxando pelos braços.
— Aula primeiro, confusões depois.
A sala de aula estava começando a encher, todos com a mesma fisionomia de preocupação com a prova final daquele ano letivo. Lorena viu um rapaz moreno bastante conhecido acenando ao lado do outro moreno, como já conhecia ambos muito bem, se dirigiu até onde estavam.
— Bonjour galãs. — Lorena falou se sentando numa carteira vazia, apoiando os livros no colo pela falta de espaço, acompanhada de Marjorie — Manhã gloriosa para a última prova antes de embarcarmos na maravilhosa época que é o Natal.
— Felizmente logo estaremos de férias, isso sim é glorioso. — argumentou Marjorie relaxando o corpo sobre a cadeira, não era nem meio dia e já se sentia cansa.
— Bom dia senhoritas Delyon e Hillow. — Eric sorriu simpático enquanto Gilbert estava com uma expressão séria, cumprimentando apenas com a cabeça.
— Isso é para vocês. — Marjorie entregou a pilha de cartas para Eric praticamente jogando-as no colo do rapaz.
— Ah! Cartas de possíveis pretendentes, que ótimo jeito de começar o dia. Tem alguma de vocês no meio?
— Sem chances, eu não preciso ficar mandando bilhetinho de amor para falar que gosto de alguém. Não faz o meu estilo. — Marjorie falou revirando os olhos e fazendo careta.
O que custa se, você gostasse de alguém, simplesmente chegasse na pessoa e falasse? A dor da rejeição instantânea é melhor do que a tortura da resposta escrita.
— O que houve Blythe? Está tão sério. Algo lhe aflige? — observou Lorena vendo que o rapaz, quase sempre espirituoso todas as manhãs, não estava esboçando nenhum sorriso ou falando algo.
Muito pelo contrário, estava quieto e um tanto deprimido.
— Não é nada.
— Anne mandou uma carta terminando com ele. — Eric disse pelo amigo e só então, Lorena notou o envelope com uma caligrafia perfeita em meio aos livros no colo do rapaz.
— A ruiva de Green Gables? — Marjorie perguntou espantada com a notícia — Mas pensei que vocês iriam se casar, já estão nesse relacionamento há quatro anos?
— Três. — corrigiu Lorena — Lembra-se de que, quando o conhecemos no primeiro ano, ele tinha feições de um novo apaixonado.
— Ah eu lembro, bons tempos. — Eric disse em tom de sonhador — Foi quando nos conhecemos, e pensar que eu imaginava senhorias precisavam de ajuda para baterem naqueles homens.
— Meu gancho de direita é bem eficiente White. — Marjorie sorriu antes de se virar para Gilbert — Mas o que houve?
— Apenas não era para ser, não quero falar sobre. — Gilbert respondeu antes do professor entrar com sua típica carranca.
Toda a sala ficou em silêncio, o olhar do homem varreu pelos alunos até chegar em Marjorie e Lorena vendo que as alunas, as poucas mulheres da turma, estavam de calças.
Ele pensou em falar algo, mas era tempo perdido discutir com ambas porque sabia que não levaria a nada seu discurso de que mulheres devem usar saias e somente saias.
– Vou aplicar o teste, quem ousar copiar de algum lugar ou de alguém, será reprovado.
— Depois conversamos sobre isso. — Lorena sorriu para Gilbert que retribuiu de forma mínima.
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O ar gelado de Toronto era algo que Lorena ainda se surpreendia, mesmo após três anos que chegou no Canadá, sentia que ali era muito mais frio que sua adorada Nice.
— Então, para onde irão nesse natal? — perguntou Marjorie aos três enquanto caminhavam até uma casa de chá.
— Blythe me convidou para conhecer a casa dele, acho que será interessante sair um pouco do movimento da cidade. — disse Eric.
— Faz tempo que fui para lá, mandei uma carta para Bash e ele está ansioso para conhecer meus amigos doutores. — Gilbert comentou com humor na voz, arrancando sorrisos dos outros. Ali estava ele, o velho Blythe que eles conheciam.
— Pena que não será desta vez. — Lorena disse cabisbaixa.
— Vão voltar à França neste ano? — perguntou Eric abrindo a porta do estabelecimento para as meninas, que passaram primeiro. Os quatro escolheram a mesma mesa onde sempre sentavam e por frequentarem sempre o local, os funcionários já sabiam exatamente o que queriam.
— Vou visitar uma tia minha que mora no interior, Marjorie irá me acompanhar. — Lorena disse antes de bebericar seu chá que acabará de ser servido.
— Nunca experimentei os ares do campo, acho que será animador e inspirador. Imagine quantas roupas poderei criar para a minha coleção?
— Imagino que o visual de vocês irá dar no que falar por boas semanas, principalmente nas cidades do interior. — Gilbert comentou bem humorado.
— Se não é para provocar rebuliços, não há menor graça Blythe. — Lorena sorriu provocativa.
Os quatro tomaram o chá, mesmo que Marjorie tenha feito um quase bate e boca com Eric sobre mulheres também podem pagar a conta, os dois rapazes se responsabilizaram pelos gastos.
— Gilbert? Oh! Que bom que encontrei você. — uma garota loira o cumprimentou com entusiasmo e bochechas levemente rosadas.
— Olá senhorita Jackson, muito bom ver-te também.
— Pode me chamar de Sophie. — corou violentamente enquanto estendia um embrulho ao rapaz — Comprei para você, como presente de natal.
— Oh, obrigado. É muita gentileza sua. — o Blythe sorriu pegando o presente — Tenho a certeza de que irei gostar. Apenas peço desculpas por não poder retribuir.
— Assim espero. — falou colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha — Quem sabe depois das festas podemos sair e tomar um chá?
— Veremos. — Gilbert sorriu gentilmente. A garota logo se afastou e os três olhavam para o Blythe — O que foi?
— Galã sendo galã. — Lorena balançou a cabeça e saiu andando com Eric rindo ao seu lado. Marjorie olhou para Gilbert e bufou, o mesmo não chegou a entender a reação da amiga que saiu praticamente marchando e o deixando para trás.
— Vamos trocar presentes após o Natal? Acho que será legal comprar algo de acordo com a região que iremos. — propôs Eric.
— Acho uma ótima ideia. — Marjorie concordou — Partimos amanhã, e vocês?
— Depois de amanhã e… céus! Marjorie pode me acompanhar até uma loja de casacos, lembrei que preciso de um novo para enfrentar os ares do interior. — chamou Eric.
— Vamos logo.
Os dois saíram deixando Gilbert e Lorena olhando-os com uma expressão confusa. A Fay olhou para o rapaz, mesmo com todas as brincadeiras havia algo triste em seus olhos.
— Quer conversar? Acho que irão demorar um pouco. — propôs a garota.
Embora fossem unidos e bastante amigos, a relação com Lorena e Gilbert era um pouco mais intensa, talvez porque ele foi uma das primeiras pessoas que fizeram ela se sentir à vontade em um curso frequentado por homens.
— É que é tudo tão estranho, eu já aceitei e estou conformado, mas mesmo assim...pensei que ela gostasse de mim.
Lorena não conhecia Anne, não pessoalmente ao menos, mas de tanto ouvir sobre a garota que foi a pioneira por fazer Gilbert se apaixonar, era quase como se a conhecesse somente como a forma de que ele falava da inteligência da garota ou dos cabelos ruivos dela.
— Dê tempo ao tempo, vocês podem se resolver ainda. São jovens Gilbert.
— Fala como se fosse mais velha que eu. — o rapaz comentou brincalhão.
— Bom, creio que os dois anos que vivi a mais que você possa ter me tornado mais experiente. — se gabou de brincadeira erguendo o queixo.
— E quantos romances nessa vida você experimentou?
— Que ultraje Blythe! Isso não se pergunta a uma dama! — exclamou em tom de brincadeira.
— Perdão, senhorita, não era minha intenção.
— Mas o que eu disse é sério, quem sabe depois do Natal vocês não se resolvem? Um novo ano pode ajudar.
— Talvez. — comentou cabisbaixo.
Lorena não gostava de ver seus amigos tristes, aquilo lhe partia o coração. Ainda mais se fosse Gilbert.
— Vou sentir sua falta nesse tempo, então estude bastante, você tem que me superar se quiser ser o melhor da turma.
— Claro. — ele revirou os olhos sorrindo — Vou te derrotar Delyon, apenas aguarde.
— Espero ansiosamente.
A garota o abraçou rapidamente e os dois trocaram sorrisos.
— Agora sim é o Gilbert Blythe sorridente e de bom humor que eu conheço.
— Acha que eles já terminaram na loja? Está congelando e quero ir para algum lugar quente.
— Melhor irmos atrás, se depender de Marjorie Hillow ela fará Eric comprar a loja inteira.
— É verdade, vamos? — perguntou oferecendo o braço a Lorena que aceitou, começando assim, a caminharem pela rua.
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— Como será que é a casa dela? — Marjorie perguntou vendo a amiga dobrando a roupa e colocando na mala. Ao contrário de Lorena, a Hillow tinha uma espécie de casa própria da família, um pequeno apartamento que ficava próximo da faculdade que pertenceu a sua tia-avó já falecida. De vez ou outra, a garota passava uma noite no quarto da Delyon escondida, porque não podiam ter mais de uma pessoa no cômodo exceto o residente. — Sabe se é fazenda ou algo assim?
— Sei que é uma casa simples, nada mais do que isso.
— Será que ela vai nos buscar na estação?
— Imagino que sim.
— Devo levar mais de dez calças? Quero causar um grande impacto.
— Acho que devem bastar, leve alguns vestidos também apenas para não causar muita má impressão. — aconselhou Lorena vendo a amiga criar um bico nos lábios.
— Que pena, queria deixar todos chocados com minha ousadia, mas irei me conter. Eu coloquei três por precaução.
— Bom, minha tia é ousada em muitas coisas pelo que sei, então acho que não terá tanto problema. — Lorena deu de ombros.
Ao mexer no baú encontrou um vestido um tanto velho, pelo tecido amarelo soube que era o que sua mãe havia lhe dado.
— Que lindo. — Marjorie disse ao se aproximar da amiga — É deslumbrante, por que nunca usou?
— Está velho e um pouco rasgado, além de não ter nenhum lugar para vesti-lo.
— Como não? Me deixe consertá-lo e verá. Aposto que se um certo alguém lhe observasse nesse vestido, iria te achar a pessoa mais encantadora do mundo. — o tom de provocação na voz da Hillow fez Lorena revirar os olhos porque só tinha um motivo para a garota provocá-la desse jeito.
Ou melhor, alguém.
— Não começa, ele não olha para mim desse jeito que alega. É invenção da sua cabeça.
— É porque não vê de fora da situação, se visse do mesmo modo que eu, garanto que confirmaria.
— Marjorie, ele acabou de terminar com a namorada que conhece há bastante tempo, então se prender a alguém é a última coisa que ele quer fazer agora, principalmente eu que caí de paraquedas na vida dele. Gilbert é apenas meu amigo.
— Ele pode não se prender a qualquer alguém e sim em você, Lorena você tem todos os atributos para, não somente o Blythe mas, qualquer homem gostar de você.
— Não, definitivamente não. Pela descrição dele, Anne é uma deusa de cabelos ruivos enquanto eu sou tão comum com meus cabelos castanhos. Não tenho chance com ele e sei que nunca terei, me conformo apenas com sua amizade. Se ele está feliz, eu também.
— Tudo bem se você diz. — falou levantando as mãos em rendição e indo para a cama da amiga — Vamos dormir, o trem parte cedo amanhã.
Lorena apagou a vela deixando o quarto escuro.
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— Todos a bordo! — gritava o maquinista pela última vez.
— Até ano que vem. — Marjorie se despediu de Eric e Gilbert, ambos foram ajudar elas com as malas.
— Não se meta em confusões Delyon, e não seja tão ousada Hillow. — Eric falou para as duas.
— Não prometemos nada. — Lorena disse sorrindo.
Os quatro riram e se despedem pela última vez. Lorena e Marjorie já estavam acomodadas em seus lugares quando o trem começou a andar, elas acenaram para os dois do lado de fora até os perderem de vista.
— Perdeu a chance. — comentou Marjorie interrompendo o silêncio quando a estação já estava alguns bons quilômetros para trás.
— De que?
— Beijar o Blythe como presente de natal adiantado.
— Calada Marjorie, ou vou esquecer nossa amizade e puxar seu cabelo até deixar falhas.
— Não está mais aqui quem falou. — levantou as mãos em rendição.
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Notas da autora: Hey pessoal, como estão?
Antes de mais nada, quero dizer que isso se passa depois do fim da terceira temporada – três anos para ser mais exata – então espero que gostem dessa turma da faculdade de Toronto.
Me digam o que estão achando, quero saber tudo.
Até o próximo!
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