XX.

As primeiras horas da noite passaram muito rápido, logo chegou a hora da Sra. Parsons chamar todos para dormir. Tim subiu as escadas um pouco atrás de todos, surpreso com a forma como seus pés não conseguiam mais segurar seu corpo, poderia ter desabado ali mesmo.

   No entanto, assim que colocou a cabeça no travesseiro, não conseguiu manter os olhos fechados.

   Embora tivessem acabado de ir para a cama e ninguém estivesse roncando ainda, o quarto não estava totalmente silencioso. A janela do outro lado de sua cama estava um pouco aberta, o suficiente para fazer o vento passar por ela e seu assobio ecoar pelas paredes. Tim observou enquanto o sopro da noite fazia ondas através das cortinas azul-claras, com preguiça de se levantar e fechar a janela ele mesmo. Ademais, não parecia que ninguém estivesse se importando com isso exceto ele.

   Deitou-se de costas e olhou para o teto ao ouvir o início do ronco vindo de Norman ao seu lado, e não demorou muito para que outros o seguissem. Tim fechou os olhos em resposta, tentando ignorar a sinfonia desagradável de rugidos que invadiam seus ouvidos, determinado a dormir apesar de tudo isso.

   “Tim, está acordado?”

   O garoto se sentou na cama assim que ouviu aquela voz feminina falando com ele. Ela estava parada perto da janela aberta, as cortinas acariciando sua pele clara iluminada pela lua.

   “Eliza? E-eu estou,” ele respondeu, quase sem conseguir conter seu alívio por vê-la depois de todos esses dias. “O que está fazendo aqui?”

   “Você está bravo comigo?” Ela parecia tensa enquanto falava. Tim franziu as sobrancelhas diante de sua estranha pergunta.

   “Não, por que eu estaria bravo com você?” ele sussurrou enquanto saía da cama, tentando diminuir a distância entre eles. “Na verdade, eu estava te procurando, você desapareceu sem dizer nada.”

   “Eu pensei que você pudesse estar… por causa do jeito que eu me comportei…” ela murmurou, seus olhos olhando para o chão, desviando os dele. “Porque eu te soquei.”

   “O quê…?”

   “Eu não deveria estar aqui, eu sei, mas eu só queria me redimir com você antes de…”

   “Eliza, você não me socou!” ele olhou em volta assim que percebeu que tinha falado alto demais. “foi só um pequeno empurrão…”

   “Não foi, você até caiu no chão, não se lembra?” ela disse, sua mão direita fechada em punho. Tim olhou em volta mais uma vez. Todos ainda estavam dormindo, mas logo não estariam se ele continuasse falando ali.

   “Espere, vamos continuar isso em outro lugar.”

   Ele abriu a porta cuidadosamente e chegou ao corredor, Eliza seguindo-o logo atrás, ainda sem saber para onde poderiam ir para terminar a conversa; mas quando chegou na porta do banheiro, não havia outro lugar que pensasse ser mais adequado.

   “Eu não sei do que você está falando,” Tim disse no momento em que fechou a porta. “Isso nunca aconteceu.”

   “Estou feliz que não esteja bravo comigo, mas não precisa mentir, Tim.” Ela disse, seus pés lentamente andando para trás.

   “Mas não aconteceu mesmo! Eu te disse, você só me empurrou para o lado, eu nem caí!”

   Eliza parou de andar.

   “Você não caiu? Mas eu…”

   “Não, como você pode não saber sobre isso? Você estava lá!” ele começou a ficar preocupado. Isso não podia ser normal, ninguém perderia a memória assim; ou pior, acreditaria fortemente em coisas que nunca aconteceram.

   “Oh, não.” Ela colocou a mão no pescoço. “já está começando…”

   “Não, está tudo bem,” Tim tentou retirar o que disse, não queria assustá-la novamente. “Vamos apenas… esquecer isso por enquanto, acho que você pode estar apenas confusa.”

   “Sinto muito por ter colocado você nisso, não era minha intenção, eu só…” Seus olhos estavam lacrimejando, era sempre horrível vê-la chorar. “Eu não entendo, não sei por que ainda estou aqui, não mereço estar no céu?”

   “Tenho certeza de que não é isso…”

   “Então o que é?” perguntou, como se ele fosse saber a resposta. “Eu deveria ter continuado adormecida, agora não sei o que vai acontecer comigo.”

   “Eliza, escute.” Tim se aproximou dela, estando a um braço de distância de seu rosto. Desta vez, ele a olhou bem nos olhos. “Não sei por que você está aqui, queria conseguir te responder isso, mas não posso. Tudo o que sei é que, se realmente existe um céu, é para lá que você irá. Definitivamente.”

   Ela enxugou uma lágrima antes que caísse, dando a ele um sorriso contido.

   “Estou feliz por ter conhecido você,” ela colocou um pouco da frente de seu cabelo castanho de lado, fazendo-o quase queimar com seu breve toque. “e eu agradeço por isso, de verdade. Nunca tive um amigo como você antes.”

   Tim não sabia o que dizer, nem como se sentir, tudo o que sabia era esse sentimento que tinha no peito, dela dizendo aquelas palavras. Não achava que elas significariam tanto para ele, mas significavam.

   Não seria o mesmo se outra pessoa tivesse dito a ele exatamente a mesma coisa.

   “E-eu também estou feliz por ter conhecido você,” foi tudo o que conseguiu dizer.

   “Espero nunca esquecer isso. Quero lembrar das nossas conversas no jardim, dos dias em que você leu aquele livro para mim, do dia em que brincamos de esconde-esconde e você quase desistiu de me encontrar,” ela riu. “Irei tentar.” Eliza se afastou dele novamente, a mão direita ainda fechada com força. Na verdade — ele pensou nisso agora: sua mão esteve fechada desde o início da conversa. “Só gostaria que houvesse mais tempo.”

   “O que quer dizer com isso?”

   “Por favor, viva sua vida ao máximo, viva tudo o que eu não pude viver.” Seus dedos moviam algo em sua mão, ela nem estava tentando esconder agora. “Te desejo toda a felicidade do mundo.”

   Não, ele já tinha ouvido um discurso assim antes, não podia ser…

   “O que é isso na sua mão?” perguntou, com medo do que ela diria como resposta.

   Eliza se aproximou dele, inclinando a cabeça em direção à sua. Ele congelou, sem saber o que ela faria, se ela iria abraçá-lo ou não, mas sua cabeça apenas ficou perto de sua bochecha, seu nariz perto de seu pescoço, então ela rapidamente se afastou de novo.

   “Eu sabia,” ela sorriu. “Você ainda tem cheirinho de chuva.”

   Agora que ela estava um pouco mais perto, ele podia ver claramente o que era que ela estava segurando todo esse tempo; e para sua aflição, fazia todo o sentido.

   A sua mão.

   Ela segurava uma caixa de fósforos.

   “Era você, não era?” ele sussurrou em descrença, seu coração batendo desesperadamente. “Na cozinha mais cedo hoje? Aquela sensação que eu tive…”

   “Sinto muito.”

   “Não, por favor” ele balançou a cabeça repetidamente, ela dizer isso fora como um soco em seu estômago. “Por favor, não faça isso, não faça isso, Eliza…”

   Tim correu para pegá-la, para abraçá-la para que ela não fosse a lugar nenhum, mas seu corpo transparente escorregou por entre seus dedos; e em questão de segundos, ele estava sozinho.

   Mas não havia acabado, ainda não.

   Ele não permitiria.

   Tim saiu de lá rapidamente, suas meias quase o fazendo cair da escada, mas ele se segurou no corrimão no último segundo. Quando chegou ao andar de baixo, quase completamente escuro se não fosse pela falta de cortinas em uma das janelas, Tim não sabia o que fazer primeiro. Deveria verificar se Anne estava por perto? Onde encontraria algo que pudesse carregar tanta água?

   Não, não havia tempo para isso. Ele precisava fazer algo, e rápido.

   Tim passou pela porta do jardim, olhando brevemente para a floresta à frente antes de ir para o lado da casa, ainda não havia nenhum sinal de fumaça. Sabia que havia uma torneira em algum lugar, ele a viu alguns dias antes quando brincou de esconde-esconde com Eliza, só precisava se lembrar de que lado da casa isso havia sido.

   “Onde está?” ele disse em voz alta, seus olhos semicerrados para enxergar no escuro.

   Seus pés encontraram uma mangueira escondida no meio da grama e Tim a seguiu até o levar à torneira. Ele a forçou para abrir e, para seu alívio, viu água saindo do outro lado. Mas nenhuma mangueira seria grande o suficiente para alcançar aquela floresta.

   Um balde, ele precisava de um balde; ou algo, qualquer coisa, que pudesse carregar aquela água.

   Correndo por todos os lados do orfanato, a única coisa que conseguiu encontrar foi um regador que felizmente acabou ficando do lado de fora da casa de jardinagem. Não era o ideal, mas parecia ser grande o suficiente; e além disso, ele não tinha tempo de procurar algo melhor.

  Quando estava completamente cheio, os pés de Tim saíram de lá como uma bala, sua mão cobrindo os buracos do regador o máximo que podia, embora pudesse sentir um pouco do líquido vazando por entre seus dedos. As árvores impediam a luz da lua, ele quase não conseguia mais ver nada sob seus pés, mas embora houvesse muitas raízes e galhos no caminho, ele não caiu, e isso porque seu caminho não ficou no escuro por tanto tempo.

   Uma luz. Havia fogo à frente.

   “Eliza!” ele gritou, aumentando sua velocidade.

   A luz o guiou até uma árvore, as chamas vinham todas de um buraco que havia sido cavado bem perto de suas raízes. Tim jogou toda a água que restava no recipiente, mas apenas uma pequena parte delas foi apagada. Ele sabia que não daria certo, grande parte da água foi desperdiçada ao longo do caminho. Mas não podia desistir agora, não quando ainda havia uma chance.

   Ele não se perdoaria.

   Tim correu de volta para o orfanato, o coração mal cabendo no peito, enquanto suas mãos trêmulas enchiam o regador mais uma vez. Parecia que havia corrido mais rápido do que da última vez, quase nenhuma água de dentro fora desperdiçada.

   Ele virou o regador de cabeça para baixo, deixando o líquido atingir o chão mais rápido enquanto era absorvido pelo solo. As chamas diminuíram de tamanho, o calor se transformou em vapor que se dissipou no ar frio da noite.

   Acabou.

   Seus joelhos foram ao chão como se tivesse acabado de levar um tiro na cabeça. Ele largou o regador e levou as mãos ao peito, tentando conter seus batimentos cardíacos enquanto tentava em vão segurar o choro entalado na garganta. Sabia que o que veria naquele buraco o decepcionaria, e agora que o fogo estava apagado, ele podia vê-lo mais claramente do que nunca.

   O cadáver de Eliza. Tão preto quanto carvão.

   “Não, não…” ele fechou os olhos novamente, não sendo capaz de olhar para aquilo.

   Tim se agachou no chão, suas mãos cobrindo os olhos enquanto as lágrimas ainda insistiam em cair. Como ele deixou isso acontecer? Se ele tivesse tirado aquela caixa de fósforos das mãos dela quando teve a chance, ou talvez se ele não tivesse feito aquela pergunta idiota que a fez perder o controle…

   Isso poderia ter sido evitado. Não era para ter terminado desse jeito.

   “Não funcionou.”

   Ele levantou a cabeça em direção à voz, seus olhos embaçados quase incapazes de ver seu vestido azul dançando ao vento. Ele não conseguia acreditar, não era possível, mas ainda assim ele a estava vendo. Poderia ser um sonho? Uma miragem?

   Não, ele não estava ficando louco. Ela estava realmente lá, ela estava...

   “Eliza!” ele correu e, sem pensar muito, envolveu-a em seus braços. De repente, foi como se o peso do mundo inteiro tivesse acabado de sair de seus ombros. “Deus, pensei que você estivesse...”

   “Por que não funcionou?” ele a soltou para olhar para seu rosto. “Eu pensei que você tinha dito… Pensei que se eu queimasse meu corpo eu desapareceria para sempre.”

   “Era o que estava escrito no caderno, mas agora estou feliz em saber que estava errado", ele disse, perdendo o sorriso. “Por favor, nunca mais faça isso, você quase me matou de susto. O que estava pensando?”

   “Eu já estou mudando, Tim.” Ela caminhou até onde seu corpo estava, ajoelhando-se no chão. “Eu posso sentir isso, e não vai melhorar, você sabe que não vai. Eu não quero machucar vocês... nenhum de vocês.”

   “Você não vai me machucar.”

   “Eu pensei que por estar morta eu teria todo o tempo do mundo, mas não tenho, era tudo mentira.” Ela se levantou novamente, indo em sua direção. “Eu queria ficar aqui. Deus, se eu tivesse a chance de fazer isso durar para sempre... mas eu não tenho escolha.”

   Tim balançou a cabeça.

   “Não, você está errada,” ele deu um passo à frente. “Você pode não ter todo o tempo do mundo, mas você ainda tem tempo. Você ainda tem tempo, Eliza. Nós vamos encontrar um jeito, você não precisa se sacrificar dessa forma.”

   Ela abriu um sorriso.

   “Engraçado, isso não era algo que você diria se fosse um mês atrás.”

   Ela estava certa. Há um mês, quando chegou ao orfanato, tudo o que Tim pensava era em ir embora, ele sentia que não havia nada lá para ele, desejava poder viajar no tempo, não havia nada que o fizesse querer ficar ali.

   Mas agora, ele não conseguia pensar o mesmo, ele tinha uma razão para não fazê-lo.

   “Bem, as coisas mudaram”, ele disse. “Precisamos de tempo para descobrir isso.”

   “Você tem alguma ideia de por que queimar meu corpo não funcionou?”

   “Não, nenhuma ideia", respondeu Tim. Mas mesmo se tivesse, ele provavelmente não contaria a ela depois de tudo que aconteceu. “Não sei como vamos parar Damien agora.”

   Eliza mordeu o lábio inferior, sentada na grama perto de um arbusto de flores, suas mãos segurando os joelhos enquanto olhava para elas, seus pensamentos distantes.

   “Eu hesitei”, ela disse depois de um tempo. “Quando queimei meu corpo, eu hesitei, estava com medo de fazer isso, mas fiz mesmo assim. Decidi que estava bem em ir embora, assim como foi quando eu morri.”

   Tim se aproximou dela, ele copiou sua pose quando se sentou no chão ao seu lado, sem dizer uma palavra. Só queria que ela soubesse que ele estava lá por ela.

   “Você realmente acha que eu tenho uma chance?” ela se virou para ele. “Que eu posso viver de novo?”

   “Sim. Sim, eu acho.” Ele não tinha certeza, nunca teria certeza até o dia em que isso acontecesse de verdade; mas ele tinha um pressentimento. Talvez pela primeira vez em muito tempo, ele realmente tinha um bom pressentimento sobre algo. “E nós vamos descobrir como. Você confia em mim?”

   Ela olhou para ele por alguns segundos, então assentiu com a cabeça, seus olhos pareciam brilhar um pouco quando ela sorriu.

   “Eu confio em você.”

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