XIX.
Tim não viu Eliza pelo resto do dia, nem mesmo no dia seguinte.
Ela não estava respondendo aos seus chamados. Ele a procurou pelo jardim, no labirinto, foi por entre as árvores na área proibida, mas a menina não estava em lugar nenhum, não sabia mais por onde procurar.
Tim esperava que não tivesse nada a ver com o que aconteceu em seu último encontro, mas ao mesmo tempo sabia que essa seria a causa mais provável. Estaria ela envergonhada pelo que aconteceu? Teria ele a pressionado demais? Não sabia quando ela voltaria, mas a espera já estava matando-o por dentro.
Era domingo de novo, eles tinham acabado de cantar na sala de música e agora ele se encontrava sentado no tapete da sala de jogos cuidando de Peter. O bebê adorava brincar com os blocos de construção, então Tim se sentou para brincar com ele e mantê-lo ocupado até Stephen voltar, assim como o mais velho havia pedido.
“Não tire os olhos dele,” avisou a Tim. “Se não houver mais ninguém com ele, ele pode tentar se teletransportar de volta para mim ou para a Sra. Parsons, mas ele não tem controle sobre isso, você nunca sabe exatamente onde ele vai pousar.”
Apesar disso, brincar com Peter acabou sendo melhor do que ele esperava. Peter não tentou desaparecer em nenhum momento até ali, a ideia era mantê-lo ocupado o suficiente para que ele não sentisse falta de estar com mais ninguém, e Tim parecia estar fazendo um bom trabalho; mas era cansativo, ele sempre se certificava de que Peter tivesse pelo menos um bloco na mão para brincar e que ele nunca se sentisse chateado.
Como a Sra. Parsons e Stephen conseguiam fazer isso todos os dias?
De repente, Tim ouviu passos chegando ao quarto em um ritmo rápido, até que um Norman suado apareceu na porta, apressado.
“Tim! Timothy!” Gritou enquanto parava abruptamente para não atingir a batente da porta. “Você não vai acreditar nisso!”
“No quê?”
Só então Norman percebeu que Tim não estava sozinho. “Ah, esquece então, você não pode sair daí.”
“Do que você está falando, Norman?” Stephen apareceu na porta bem na hora. Seja lá o que Norman queira lhe contar, agora estaria livre para isso.
“Stephen, o-olha o que eu fiz!” Peter disse alegremente, mostrando a ele as pilhas de blocos desajeitadamente montados.
“Oh, muito legal!”
“Que bom que chegou, Stephen. Agora vamos, Tim, você tem que me ajudar!” Norman o chamou novamente.
“Norman, o que você fez desta vez?” Stephen lhe lançou um olhar preocupado.
“Nada. Bem… eu quase fiz, mas não fiz,” respondeu, deixando-o confuso. “Vamos lá fora, Tim!”
Tim se apressou junto a ele, um tanto intrigado pelo que poderia ser. Eles passaram pelo corredor e foram até a porta atrás das escadas que levavam ao quintal, onde, logo sob a sombra da árvore, estavam Charlie e a Sra. Parsons.
Pelo balanço descompensado de sua cauda, Tim acreditava que ele estivesse nervoso, principalmente quando olhou para o lado e percebeu que era Norman quem estava se aproximando.
“Você já está contando a ela, não é?” Norman gritou, acelerando o passo para chegar até ele.
“Claro que estou! Você tentou me incendiar!”
“Isso é verdade, Norman?” A Sra. Parsons olhou para ele por cima de seus óculos pequenos.
“Sim, mas só porque ele estava me provocando!”
“Eu não estava!” Charlie protestou.
“Ele disse que eu não conseguiria”, Norman continuou dizendo. “Eu disse a ele que já tinha feito isso sozinho, sem espirrar ou tossir, mas ele não acreditou em mim. Não estou mentindo, Tim me viu fazer isso, não viu?”
“Sim, eu vi…” Tim respondeu depois de ser colocado de repente na conversa.
“E quando foi isso?” Charlie quis saber.
“Não importa para você!” Norman pensou rápido, era melhor que eles não soubessem mais detalhes.
“Tanto faz, isso ainda não é desculpa para o que você fez…”
“Eu estava nervoso… e com raiva.” Norman dirigiu seu discurso para a Sra. Parsons. “Eu pensei em acender o fogo porque eu… eu queria mostrar algo a ele…”
“Então não foi um acidente?” ela perguntou.
“Ele não fez isso enquanto tossia ou espirrava como normalmente, então…”
“Eu não queria que fosse tanto assim!” Norman gritou.
“Você teria queimado meu rosto se eu não tivesse desviado a tempo!” Charlie gritou de volta.
“Então pare de tirar sarro de mim!”
“O que você quer dizer? Foi só uma piadinha, desde quando você se importa tanto?”
“Chega, eu já ouvi o suficiente de vocês dois!” A Sra. Parsons os interrompeu. Ela olhou para Norman primeiro. “Você, você precisa controlar sua raiva, mocinho, isso poderia tê-lo machucado seriamente!” Ela então olhou para Charlie. “E você, rapaz, você precisa saber quando parar com as piadas, eu já te disse isso, não disse? Quantas vezes?”
“Eu sei”, ele disse olhando para baixo. “Sinto muito, Sra. Parsons.”
“Não é comigo que você deve se desculpar.” Ela apontou para Norman, que olhou para ele com os braços cruzados.
“Eu... sinto muito, Norman.” ele não conseguia olhar para ele. “Acho que eu deveria parar de implicar tanto com você...”
“E o que dizemos, Norman?”
Norman revirou os olhos.
“...Eu também sinto muito”, ele desembaraçou os braços, “por, você sabe, quase te incendiar e tudo mais... mas você estava rindo naquela hora, então eu...”
“Você riu de mim também.”
“Eu ri porque você riu primeiro!”
“Ei, chega de brigas!” A Sra. Parsons chamou a atenção deles. “Você entendeu agora, Charlie? Norman não gosta desse tipo de provocação, e eu sei que você também não gosta de ser provocado. Então, vocês podem prometer que de agora em diante vocês não farão mais isso um com o outro?”
“S-sim.” Ambos disseram quase ao mesmo tempo.
“Ótimo.” ela bateu palmas. “Vocês fizeram um grande progresso hoje.”
“Isso significa que não seremos punidos?” perguntou Charlie. A Sra. Parsons sorriu.
“Ah, quem os dera. Começando depois do jantar hoje, vocês lavarão todos os pratos de todas as refeições e farão isso pelo resto da semana,” ela disse enquanto se dirigia para a porta do orfanato.
“Não, mas… é domingo, a semana acabou de começar!” Norman protestou enquanto a seguia, Charlie foi logo atrás dele.
“Sim, eu sei.”
“Não, por favor, qualquer coisa menos isso!” gritou Charlie aos pés dela, seu rabo se mexendo loucamente, mas ela continuou andando.
Eles imploraram e protestaram, mas não havia como fazê-la mudar de ideia. Norman e Charlie odiavam lavar louça, Tim descobriu que não era a primeira vez que algo assim acontecia, mas normalmente não era durante a semana inteira, apenas três dias no máximo.
Depois de muita discussão, foi decidido que eles se revezariam, e como Norman perdeu em Cara ou Coroa, ele acabou sendo o responsável pela louça do jantar daquele dia, enquanto Charlie teria que lidar com o café da manhã do dia seguinte.
Depois que todos terminaram de comer, todos os pratos foram colocados na pia para Norman lavá-los. Não pareceu muito no começo, mas vê-los todos em uma pilha deu a impressão de que os pratos estavam acumulados durante a semana inteira. No entanto, em poucos minutos, Norman já estava na metade do caminho.
“Só espero que ele cumpra a parte dele do acordo”, disse ele enquanto secava um dos pratos com um pedaço de pano.
“Ah, ele vai ter que cumprir”, respondeu Tim. “Não acho que a Sra. Parsons vai deixá-lo se livrar dessa.”
“É, não, não acho que ela vai”, ele riu.
Tim estava sentado em um banquinho ao lado da pia enquanto observava Norman ir e voltar colocando os pratos de volta no armário. Ele teria se oferecido para ajudar, mas a Sra. Parsons não deixou, ela queria que eles fizessem tudo sozinhos. Além disso, Tim nunca tinha lavado pratos na vida, então ele não era realmente a melhor ajuda que Norman poderia ter.
“Ei”, Norman chamou sua atenção. “E sua amiga fantasma? Você ainda não a viu?”
“Não”, ele suspirou. “Eu não acho que ela queira me ver agora.”
“Por quê? Vocês dois brigaram?”
“Não, não foi uma briga, foi uma discussão. Acho que ela deve ter se assustado com algo que eu disse.” Tim tentou ser o mais vago possível para não prolongar a conversa.
“Bem, seja o que for, ela vai voltar, você é a única pessoa com quem ela pode conversar, ela não vai ficar longe de você para sempre,” ele disse enquanto limpava o último copo que ainda estava na pia.
“Sim, espero que sim.”
Não demorou muito para que tudo estivesse pronto. Norman continuou limpando os últimos talheres em silêncio até colocar o último prato seco de volta no armário.
“Foi tão estranho hoje, não foi?”, ele disse enquanto encostava as costas na pia, agora limpa. “Eu não achava que conseguiria fazer isso com minha habilidade, mas já aconteceu duas vezes.”
“Sim, foi estranho,” Tim concordou. “Você sabe o que fez de diferente?”
Ele colocou o dedo no queixo.
“Fisicamente eu não fiz nada, mas fiquei nervoso nas duas situações, você acha que isso tem algo a ver?”
“Quando me salvou do fantasma e mais cedo hoje, você estava pensando em soltar o fogo?”
“Sim. Quando eu te salvei no riacho, foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça, e hoje eu estava pensando em mostrar a Charlie o que eu podia fazer porque ele achava que não era verdade.”
Tim sorriu.
“Então é isso!” ele exclamou.
“Isso o quê?”
“Aposto que para você controlar sua habilidade você tem que estar em uma situação estressante e ao mesmo tempo você tem que querer usar seus poderes.” Tim se levantou, orgulhoso da conclusão que chegou. “Isso faz sentido?”
“Talvez…” Norman parou para pensar. “Eu não me lembro de ter ficado bravo em nenhum momento que tentei usar minhas habilidades nos treinamentos, então pode ser por isso que nunca aconteceu antes.”
Logo após dizer isso, ele abriu a segunda gaveta ao lado da pia e começou a mover os talheres que haviam dentro, só parando depois de encontrar uma caixa de fósforos.
“O que você vai fazer com isso?” Tim perguntou.
“Eu quero testar,” ele respondeu, abrindo a caixa e colocando um fósforo bem em frente aos olhos. “Se é verdade que eu posso controlar isso, então eu posso forçar uma situação agora mesmo, a única coisa que preciso fazer é pensar em algo que me deixe bravo.”
Norman continuou olhando para o fósforo, seus olhos apertados, quase fechados, enquanto ele tentava pensar em algo, ou pelo menos era o que Tim achava que ele estivesse fazendo. Ele ficou assim por uns segundos, até que Tim decidiu quebrar o silêncio.
“No que você está pensando?” ele perguntou.
“Eu não sei,” Norman suspirou. “não estou me sentindo tão bravo agora.”
“Você pode pensar na sua briga com Charlie hoje.” Tim deu uma sugestão, ele estava agora na frente de Norman, também olhando para o fósforo. “Pense em como você se sentiria se ele não lavasse nenhum dos pratos no café da manhã de amanhã.”
“Ah, isso me enfureceria.”
“Então pense nisso”, ele continuou dizendo. “Tente imaginar a cena na sua cabeça, com todos os detalhes, mas não pare de pensar no fogo também, e como você quer que ele saia da sua boca.”
Tim saiu dali quando Norman fechou os olhos novamente, evitando que o fogo viesse até ele caso acontecesse. Norman apertou mais os olhos, suas sobrancelhas franziram e sua boca parcialmente aberta. Mas ainda assim, nada estava acontecendo.
“Continue”, encorajou Tim.
“Não está funcionando, está?” Norman disse com os olhos ainda fechados “Eu posso sentir quando está funcionando, e não está.”
“Isso é porque você precisa usar mais sua imaginação.” Tim explicou. “Pense nisso: você está na sala de estar quando ouve a Sra. Parsons gritando na cozinha, você corre para lá e vê um monte de pratos no chão, completamente quebrados. Foi Charlie quem usou a cozinha pela última vez, mas ela está acusando você.”
Norman parecia concentrado no que dizia, as mãos cerradas enquanto mantinha os lábios entreabertos, respirando pesadamente e mais rápido a cada minuto. Tim continuou:
“Charlie aparece na porta, ele diz que já estava assim quando ele veio lavar a louça, mas é mentira, você sabe que é mentira, e você conta isso a ela, mas ela acha que você é quem está mentindo. Você pede ajuda aos outros, para confirmar que você estava na sala todo esse tempo, mas mesmo sabendo que é verdade, eles dizem que não te viram a manhã toda.”
“Mas por que eles também estão mentindo?” ele perguntou, o ar que saía de sua boca agora estava mais quente do que o habitual.
“Você não sabe, talvez todos eles tenham algo contra você, mas você não sabe o quê. Ninguém está do seu lado agora, a Sra. Parsons está furiosa com você, ela exige que você fique trancado na casinha lá fora com todo o equipamento de jardinagem. Sozinho, até a noite chegar.
E então, a Sra. Parsons aparece novamente, você acha que ela foi lá para te deixar sair, mas foi só para te trazer comida. Você então descobre que vai ficar lá indefinidamente, ela diz que seria melhor para as outras crianças, porque elas estariam mais seguras de você…”
“Não, ela nunca diria isso!”
“Você não consegue entrar na cabeça dela, talvez seja isso que ela pensa de você lá no fundo, talvez seja isso que todos pensam de você.”
“Isso não é verdade!”
O rosto de Norman estava agora tão vermelho quanto seu cabelo, gotas de suor escorriam de sua testa para a bochecha. Ele abriu mais a boca, seu sopro agora tinha uma cor laranja, pequenas faíscas saíram de sua boca e uma delas encontrou o fósforo, o que fez uma pequena chama aparecer em cima dele.
“Você conseguiu!” Tim exclamou.
Norman abriu os olhos, enxugando o suor do rosto. A chama estava lá, tão brilhante como nunca. Ele deu um sorriso tímido, seus lábios entreabertos.
“Funcionou…” ele disse sem tirar os olhos da chama, estático. Sua reação foi, sem dúvida, menos alegre do que o esperado.
“Você sabe que eu disse tudo isso para te deixar bravo de propósito, certo? Eu não quis dizer nada disso…”
“Eu sei.” Ele sorriu mais dessa vez. “Eu só… não consigo acreditar, realmente funcionou! E foi totalmente eu dessa vez, mesmo sendo apenas uma pequena chama. Você pensou em toda essa história agora?”
“Sim, eu nem sei como”, ele confessou. “Eu só… inventei conforme fui falando, eu acho.”
“Bem, funcionou, eu não acho que teria feito isso sem ela,” ele disse antes de apagar o fósforo. Norman colocou a caixa de volta na gaveta. “Eu só espero que você não tenha que fazer isso toda vez que eu quiser usar minha habilidade.”
Enquanto Norman falava, Tim sentiu uma sensação estranha ao redor deles. Uma brisa fresca passou pelas suas costas, embora não devesse haver nenhuma corrente de vento na cozinha já que a única janela do cômodo estava fechada. Por um breve segundo, ele pensou ter visto algo, uma silhueta, passar rapidamente pela porta aberta e desaparecer.
Era como se alguém estivesse bem ali segundos atrás, observando-os.
“O que foi?” Norman notou seu silêncio.
“Nada”, ele balançou a cabeça, espantando a sensação. “Vem, vamos sair daqui.”
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