X.

Depois de tomarem um banho para tirar a terra e o suor, não havia um menino do orfanato Green Fields que não estivesse morrendo de fome.

   Charlie e Norman foram os primeiros a terminar de se limpar, o som de seus sapatos ecoavam pela madeira das escadas enquanto apostavam corrida até a mesa de jantar, seguidos de Edmond que corria para tentar alcançá-los.

   Tim sentia que havia comido há uma eternidade ao sentir o cheiro do jantar na mesa, e se seu olfato não falhava, eles teriam frango com batatas naquele dia. Ele desceu as escadas sem muita pressa logo atrás de Edmond, seguindo o cheiro que o levou até a mesa de jantar.

   As meninas ajudavam a Sra. Parsons a colocar a mesa. Anne tentava juntar vários talheres em suas mãos pequenas enquanto Beatrice ia e voltava da despensa segurando um copo de cada vez; já Sally tentava equilibrar quatro pratos poucos centímetros no ar, colocando suas mãos embaixo para caso eles caíssem.

   “Cheguei primeiro!” gritou Norman.

   “Não valeu, você saiu antes!” rebateu Charlie.

   “É verdade!” concordou Edmond.

   Nesse instante, os três meninos olharam para o lado para ouvir um grito estridente vindo de Sally, que segurava rapidamente os pratos que haviam parado de flutuar.

   “Dá para pararem de gritar?” disse ela, olhando com receio para os pratos em sua mão “Eu quase que os deixo cair!”

   “O que vocês estão fazendo?” Norman apoiou as mãos no encosto da cadeira.

   “Colocando a mesa que a Sra. Parsons pediu.” Falou Anne, colocando os talheres juntos na mesa. Depois disso, ela foi separando um garfo e uma faca para cada assento.

   “Foi a gente que fez o jantar!” falou Beatrice que chegava logo atrás dela.

   “Correção: nós ajudamos a fazer o jantar” Sally voltou a falar. “, a gente ainda não pode mexer no fogão.”

   “Ah, ainda bem, então. Imagina que gosto horrível seria.” Provocou Charlie com um sorriso, e foi logo respondido com uma mostra de língua de Sally. Seu rabo estava se mexendo, agora que havia percebido que ele sempre se mexia quando Charlie fazia uma piada. Tim ainda não havia se acostumado com isso.

   “Para de ser chato e senta logo, se não vai ficar ser comida!” disse Anne fazendo uma careta. A fala de Anne fez Tim se sentar também, como se só agora se lembrasse de que precisava se sentar primeiro para poder comer.

   Quando todos já estavam sentados em seus lugares de sempre, Tim sentia o cheiro aumentar conforme se ouviam passos no cômodo ao lado, até a Sra. Parsons chegar com a panela, que era grande que quase não se via sua cabeça. E ele estava certo, era mesmo frango com batatas.

   “Imagino que estejam com fome” disse ela ao colocar a panela no meio da mesa.

   “Sim, eu não estava aguentando mais esperar…” Norman abriu a tampa e já avançava com o garfo na panela quando foi impedido por ela.

   “Ah, ah, se lembra do que a gente tem que fazer antes de comer?”

   “Mas eu já lavei a mão, Sra. Parsons!” choramingou.

   “Não estou falando disso, Norman.”

   “A gente precisa rezar antes!” exclamou Beatrice.

   “Ah, é mesmo” ele bufou. “Então vamos rezar logo, eu tô morrendo de fome!”

   Enquanto estavam todos de olhos fechados, Tim observava Norman, que somente resmungava palavras indecifráveis rapidamente. Fechou os olhos também, mas não disse nada, embora soubesse de cor pois lembrava de ouvir sua mãe rezando às vezes.

   “Agora sim podem comer, crianças,” disse a Sra. Parsons após terminarem, e Tim voltou a abrir os olhos.

   Norman foi o primeiro a avançar na panela, e todas as crianças o seguiram fazendo o mesmo. Pratos flutuavam de mão em mão, copos eram enchidos de suco ou de água, os talheres batiam contra a louça enquanto as crianças comiam com fervor, mas Tim era o único que não se movia.

   Ninguém ali havia percebido.

   Ninguém estava olhando.

   Ninguém a não ser ele havia visto a garota que os observava, parada logo em sua frente.

   “Tim, você não vai pegar nada?” Sally o tocou no ombro e ele desviou o olhar rapidamente, percebendo que seu prato ainda estava vazio.

   Ela não está ali. Recomponha-se.

   “Sim, sim, eu vou.”

   Sally o emprestou a concha e ele colocou algumas batatas com molho no canto do prato, arriscando a olhar para frente novamente. Ela já não estava mais lá.

   Por que só ele conseguia vê-la? As outras crianças não espressaram nenhuma reação enquanto ela estava ali, nem as que estavam do mesmo lado da mesa que ele, era impossível que eles não tivessem visto se ela realmente fosse visível para eles. Mas por quê? Por que ele a via enquanto todos nem faziam ideia do que acontecia?

   Estaria ele amaldiçoado, mais do que já sentia que era?

   Permaneceu com o rosto focado no prato, se recusando a olhar para frente ou para os lados, para qualquer lugar em que ela poderia aparecer.

   “Comam tudo, que depois terá sobremesa” anunciou a Sra. Parsons, as crianças soltaram gritos de alegria.

   “Sério mesmo?” disse Charlie, sem acreditar.

   “E não vai ser fruta?” quis saber Edmond.

   “Não, não vai ser só fruta” respondeu. As crianças gritaram novamente.

   Tim queria se animar pela sobremesa, se não fosse pelo que havia visto há pouco, estaria tão animado quanto os outros, afinal, fazia muito tempo que não colocava algo como uma sobremesa na boca.

   Ele não queria, mas seu coração ainda acelerava forte em seu peito, ansiando para que chegasse logo a hora de dormir. E talvez nesse momento, ele finalmente parasse de ficar vendo coisas.

   “Eu sabia que uma hora você iria descobrir que havia algo de errado comigo.”

   Tim virou para o lado, assustado com a voz repentina. Eliza agora estava parada de pé atrás da cadeira onde Norman se sentava, suas mãos se apoiavam no acento, mas Norman sequer notava sua presença.

   “Por favor, para, para…” ele apertou os olhos, sussurrando para que ninguém na mesa pudesse ouvir.

   Saia da minha cabeça.

   “Isso é real, Tim, o que você está vendo é real” ela assegurou. Sua voz era a mesma voz meiga de que se lembrava, mas agora ela estava mais séria, sua postura mais rígida. “Eu devia ter te falado antes, mas…”

   “Não, eu não preciso ouvir!”

   “O que você disse?” Norman se virou confuso para ele. Talvez tivesse falado um pouco alto demais.

   “Não, nada, eu só…” ele pensou em uma desculpa. “também estou animado com a sobremesa.”

   “Eu também, acho que vai ser um manjar!” Norman disse animado, Tim deu um sorriso para se mostrar animado também.

   Eliza havia dito que isso era real, que ela era real. Será que devia acreditar nela? Talvez ele quisesse pensar que ela não fosse, queria que ela fosse uma ilusão dele. Talvez, só talvez, ele pudesse lidar melhor com o fato de que estava louco do que se estivesse mesmo vendo algo sobrenatural.

   Fantasmas não são normais, crianças com poderes não são normais. Por que, pelo menos por um segundo, sua vida não pudesse ser normal?

   Ele só queria ser normal.

   “Eu sei que você não acredita em mim,” continuou ela. “Mas se quiser saber a história inteira, me encontre hoje mais tarde lá no bosque, depois da hora de dormir. Eu vou te contar tudo.”

   E então, Eliza desapareceu novamente, no segundo em que ele desviou o olhar.

...


Tim não devia estar ali.

   Sabia que não devia, mas ainda assim, ele saiu da cama aquela noite. Não conseguia dormir, por mais que se mexesse na cama, não achava uma posição confortável, não conseguia ficar com os olhos fechados. Não importa o quanto tentava manipular seus próprios pensamentos, todos eles uma hora chegavam àquele bosque.

   Ela queria que ele fosse para lá.

   Passar pela sala à noite não havia sido tão fácil como ele pensava, havia se esquecido completamente de que ele não seria o único acordado naquele horário. Anne estava na sala, ela folheava um livro grande de figuras enquanto estava sentada no canto do sofá. Próxima a ela, estava uma pequena mesinha com um abajur, cuja luz amarela era a única fonte de claridade do lugar.

   Ele não conseguia vê-la totalmente do lugar onde estava, somente o topo de sua cabeça balançando de um lado para o outro era visível atrás do sofá. A porta estava na parede ao lado, um pouco atrás de onde a menina estava. Não era impossível passar sem que ela visse, mas teria que fazer o mínimo de barulho.

   Andando na ponta dos pés, ele passou devagar por ela, destrancando lentamente a porta. O som havia sido mínimo, e ele agradeceu por nenhuma das habilidades da menina ser a de super audição.

   Agora, enquanto andava de por entre os arbustos do bosque, tomando cuidado para não sujar seu pijama de terra, Tim não sabia pelo quê procurar. Por que Eliza não havia aparecido ainda? Já era para ela estar ali, ao menos que tenha acontecido alguma coisa.

   O bosque era diferente à noite, tudo era bem mais escuro do que quando normalmente ia para lá ao pôr-do-sol. Os galhos retorcidos se mexiam com o vento, era difícil não imaginá-los como braços gigantes quando se olhava para eles com tão pouca luz. Grilos cantavam ao redor enquanto seus pés faziam barulho entre as folhas, pareciam estar tão próximos que achou que a qualquer momento poderia pisar em algum.

   Tim conseguia ouvir o barulho de tudo ao mesmo tempo. O assobio do vento, o barulho de seus passos, os grilos, cachorros uivando em alguma casa bem ao longe. Já esteve ali muitas outras vezes, mas esta era a primeira vez em que a única coisa que sentia, era o medo.

   Onde ela estava? Até onde ele teria que andar?

   Havia uma árvore ligeiramente diferente das outras. Seu tronco era mais grosso, seus galhos não eram tão distorcidos e conseguiam chegar mais alto que as outras árvores ao redor. Havia algo meio… estranho sobre ela, não conseguia explicar o porquê.

   Ao contornar a árvore, Tim estreitou os olhos para tentar enchergar o que havia no chão, em algum lugar perto das raízes mal afundadas na terra que quase o fizeram tropeçar.

   Era um buquê.

   Um buquê de margaridas, colocado bem a frente de uma cruz.

   “Não achei que fosse vir mesmo.”

   Estava tão tenso que sentia seu coração pulando acima do peito, um grito ficou abafado em sua garganta. Eliza estava atrás dele, seu longo vestido azul manchado de terra, os pés descalços… assim como sempre esteve. Ela nunca mudava de roupa.

   Era um idiota por nunca tê-la questionado sobre isso antes.

   “É para você, não é?” quis saber ele. “este buquê.”

   Ela balançou a cabeça afirmamente. “minha mãe o colocou aí. Ela sempre coloca um buquê todo ano… desde o dia em que eu…”

   “Desde o dia em que morreu,” ele a ajudou a completar. Ela concordou com a cabeça, sem coragem para olhar em seus olhos.

   “Eu queria ter te dito antes, eu planejava dizer no último dia que nós falamos, mas não consegui. E depois… bom… você estava agindo tão diferente que eu simplesmente soube que era por isso. Como você soube?”

   “Vi uma foto sua com a Sra. Parsons na sala dela, de 1894” ele respondeu. “Mas era para eu ter desconfiado bem antes, acho que… não sei, eu só estava feliz de finalmente ter achado alguém que era como eu.”

   “Me perdoe, Tim, eu não quis…”

   “Então me diz agora” ele demandou. “Não aguento mais saber de nada. O que aconteceu com você? Por que você só aparece para mim?”

   Eliza suspirou.

   “Eu vou te contar tudo, prometo,” ela o assegurou. “Vou contar desde o começo.”

...


A pouca luz vinda da janela iluminava uma faixa do assoalho do quarto onde a cortina não conseguia alcançar. Vários farelhinhos de poeira flutuavam no ar como pequenos insetos, cambaleando e rodopiando iluminados pelo feixe de luz.

   Eliza estava deitada na cama, assim como estivera mais cedo naquele dia, e no dia anterior, e no dia antes deste.

   O sol só iluminava seu quarto à tarde, era assim que ela sabia o quanto tempo já havia passado, e quanto tempo perdia estando ali.

   Seu quarto estava perfeitamente arrumado, indício de que sua mãe ou uma das empregadas havia passado por ali enquanto dormia. Seu livro de conto de fada já não estava mais na cabeceira, assim como o copo de suco que havia pedido horas antes. Só havia o abajur e a caixa de lenços de papel, estes nunca saíam de lá.

   Suas bonecas permaneciam sentadas uma ao lado da outra na cômoda em frente à janela, como se tivessem admirando a vista. Na poltrona ao lado direito de sua cama, descansava Ruby, sua boneca preferida, os cabelos dourados e as bochechas grandes iguais aos dela.

   Imaginou o quão triste elas seriam se tivessem alguma consciência, saberiam que estavam imóveis durante todo esse tempo e que ficariam por ainda mais dias, nunca podendo sair de sua posição pois sua mãe não podia brincar com elas.

   Mas não se preocupem, eu vou brincar com vocês de novo.

   Quando eu puder sair desta cama.

   “Eliza” A porta deu batidinhas fracas, e em seguida sua mãe apareceu. Ela segurava uma bandeja nas mãos. “Hora de comer!”

   Antes de colocar a bandeja em sua cabeceira, Eliza conseguia ver o que continha. Sanduíches de atum, suco de uva e maçãzinhas cortadas, e no canto da bandeja, o seu vidrinho de remédio.

   “Tome-o com o suco” aconselhou Margaret ao ver que ela encarava o remédio com desgosto. “vai disfarçar o gosto.”

   Ela pegou o remédio e colocou na boca, logo a pílula começou a dissolver e o gosto impegnava em sua língua. Ela bebeu um gole grande de suco para tirar aquela sensação horrível.

   “Até quando eu vou ter que tomar isso, mãe?”

   “O Dr. Griffin vai chegar amanhã para te avaliar, eu não sei dizer.”

   Seu corpo se contraiu de novo, sabia que iria tossir a qualquer momento. Rapidamente, Eliza pediu para a mãe pegar o lenço de papel e ela o colocou sobre a sua boca.

   Sua tosse saiu como um rasgo em sua garganta, sentiu uma pontada forte no peito. Por um segundo, ela achou que seu pulmão sairia do corpo. 

   E quando retirou o papel…

   Sangue.

   “Não veja!” Margaret tomou o papel de sua mão. Ela fechou os olhos, respirando fundo. “Esqueça disso, tudo bem? O doutor vai vir amanhã e você ficará ótima.”

   “Sim, mamãe.”

   “Você me parece bem melhor do que antes. Sua febre passou?” Margaret afastou seus braços e pegou o termômetro que Eliza nem se lembrava que estava lá. Após sacudir um pouco, ela suspirou. “trinta e sete graus e meio, já é um bom começo.”

   Ela colocou o termômetro dentro da bandeja e a pegou de volta quando Eliza terminou de comer. Não conseguiu comer o lanche todo, nem a maçã, e um pouco menos da metade do suco foi deixado, mas sua mãe sorria mesmo assim.

   “Você vai ficar bem, viu? Eu prometo” ela lhe deu um beijo na testa. “Agora descanse.”

   Margaret fechou a porta e Eliza virou para o lado, fechando os olhos. Não importava o quanto descansasse, nunca parecia o suficiente, não sentia força para se levantar da cama. Seu corpo, mesmo magro, parecia ter o peso de cem elefantes, e ela sentia que havia emagrecido.

   Essa não era a primeira vez que ficava de cama, não conseguia nem contar nos dedos quantas vezes isso aconteceu só nos últimos anos. Sempre quando o clima mudava, na passagem do outono para o inverno, por exemplo, ou quando ficava um tempo pegando chuva, logo ela já começava a espirrar, tossir e seu nariz se obstruía.

   Ela era frágil como as flores, era o que sua mãe gostava de dizer às vezes. Se pudesse escolher ter algo em comum com as flores, ela escolheria seu perfume, gostaria de estar sempre com aquele cheiro magenta e doce que as petúnias tinham, ou o cheiro quente e agudo da lavanda, principalmente pela manhã com o frescor do orvalho. 

   Pensaria em sua beleza, a graça com como elas balançavam com o vento. Mas nunca iria querer ter sua fragilidade. Ao mesmo tempo em que possuiam muita beleza, esta não durava muito, logo suas pétalas caiam e elas murchavam.

   Só não imaginava que ela iria murchar em tão pouco tempo.

   Rapidamente tirou esses pensamentos de sua mente. Ela iria ficar bem, era isso o que sua mãe sempre dizia, que Deus iria salvá-la e que ele era mais poderoso que qualquer médico, e ela sempre esteve certa no final.

   Pelo que ela sabia, esta era uma febre mais severa, que demorava mais tempo para passar, mas ela iria ficar bem, sua mãe nunca mentia. Se ela disse que iria melhorar, então ela iria melhorar, sem dúvida alguma.

   Ficou uns minutos de olhos fechados, os pensamentos saíram de sua cabeça e estava quase dormindo novamente, mas então…

   Não, de novo não.

   Ela sentiu seus pulmões se fecharem, se espremerem, tentou desesperadamente buscar por mais ar, mas por mais que tentasse, o máximo que conseguia eram pequenas frações do que realmente precisava. 

   Sentia  como se estivesse se afogando em si mesma, sem uma maneira de encontrar a superfície. A dor em seu peito a fazia querer gritar tão alto até perder a voz, mas não conseguia produzir nenhum som.

   Mãe, por favor, eu preciso de você.

   Por favor, venha logo…

   Por favor…

   Quando estava quase perdendo a consciência, ela viu o vulto de sua mãe entrando pela porta e vindo correndo ao seu socorro. Gritos abafados e choro vieram em seguida, e então, ela não viu mais nada.

Seus olhos se abriram lentamente, tentando se acostumar com a luz que invadia suas pupilas. Por um segundo, achou que a cor branca do teto eram nuvens e que poderia estar no céu, mas logo percebeu que ainda estava em casa.

   Conseguia sentir cada parte de seu corpo, principalmente as que doíam. Mexeu os dedos das mãos só para saber se conseguia e sentiu alívio ao ver que sim, assim como os dedos dos pés.

   Ela havia sobrevivido, então sua mãe tinha conseguido socorrê-la, não havia sido somente um delírio seu.

   “Eliza, querida, graças a Deus!” Margaret se inclinou sobre a cama, pegando em sua mão. A pessoa que se levantava da cadeira do outro lado de sua cama era o Dr. Griffin, com um sorriso no rosto embaixo de seu bigode.

   “Está se sentindo bem?” Ele perguntou a ela, que só balançou a cabeça em acordo. O doutor colocou o estetoscópio que estava pendurado em seu pescoço nos ouvidos e pediu para que ela respirasse fundo enquanto pressionava o instrumento em seu peito.

   Sentia algumas falhas em sua respiração, como se tivesse algo, um catarro entre seus pulmões que obstruía o caminho.

   Isso com certeza não era algo bom.

   “O que eu tenho?” ela quis saber. Já fazia uma semana que estava tendo consultas com o médico, mas mesmo assim, ninguém havia dito o que ela tinha. Será que nunca tinham visto algo assim antes? O que iria acontecer a ela se não descobrissem?

   Dr. Griffin olhou para Margaret de relance, como se tentasse comunicar palavras com o olhar. Eliza tentava acompanhar seus rostos, entender o que estavam pensando.

   Sua mãe respirou fundo, mordendo os lábios lentamente. Seu rosto parecia mais pálido, cançaco se refletia na região dos seus olhos, que pareciam não ter uma boa noite de sono há dias.

   O quê isso significa, mãe?

   Por favor, olhe para mim, me conte…

   “Eu vou continuar monitorando você, tudo bem?” disse o doutor por fim. “Eu e sua mãe estaremos aqui há todo momento para o que precisar…”

   “Eu estou morrendo, não estou?” Sua fala fez todos no quarto ficarem em silêncio por uns segundos. Não havia tido coragem de falar isso em voz alta antes, e muito menos admitir a si mesma, mas era verdade, ela conseguia ver isso nos rostos deles assim que proferiu essas palavras.

   Todos eles já sabiam, era isso que não queriam contar.

   “Eliza, não diga isso…” sua mãe tentou protestar.

   “Eu não sou burra, mãe, eu sei…”

   “Nós vamos rezar, vamos rezar bastante e isso não vai acontecer, ouviu?” exclamou ela. “Não vai.” Ela falou a última parte em um tom mais baixo, mais para confortar a si mesma que a filha.

   Os dias passavam bem mais lentamente enquanto estava de cama. Depois de dois dias, a febre havia voltado, trinta e nove, às vezes quarenta graus de febre que a obrigavam a tomar banho gelado mesmo em um dia frio do começo da primavera.

   Às vezes, enquanto fingia dormir, ela ouvia os cochichos de sua mãe ao seu lado, rezando sem parar para que ela ficasse bem.  Ela também pedia, todas as noites, pedia para que as dores no peito parassem, rezava para que a próxima vez que tossisse não houvesse sangue.

   E rezava para que sua mãe parasse de chorar.

   Era de madrugada quando aconteceu, Eliza estava dormindo quando seus pulmões se fecharam. Não sentira nada na hora, só recuperou a consciência do que acontecia quando já era tarde demais.

   Ela sentiu naquela hora que morreria, então somente fechou os olhos e relaxou, esperando a hora em que seu coração pararia de bater. E então, ela estaria livre.

   Fora somente minutos depois que ela percebeu o que havia acontecido. Não estava no céu, e muito menos no inferno.

   Ela estava parada ao pé da cama

  Olhando para o seu próprio corpo morto.

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